U2 transforma o Morumbi em nave espacial e entrega noite de comunhão e tecnologia

Não existe nada comparável à estrutura da 360° Tour. Quando as luzes se apagaram e a fumaça começou a sair da “garra”, ao som de Space Oddity (David Bowie), o Morumbi parecia estar prestes a ser abduzido. O U2 entrou em cena com Even Better Than the Real Thing, e imediatamente o telão cilíndrico se expandiu, criando uma experiência visual que fazia a arquibancada se sentir dentro do palco. Diferente da chuva torrencial da primeira noite (sábado), o domingo ofereceu um clima mais ameno, o que permitiu à banda e ao público uma conexão mais limpa e eufórica. Clássicos e raridades O setlist foi um equilíbrio fino entre o gigantismo do pop e a nostalgia. O bloco inicial com I Will Follow e Get On Your Boots manteve a energia alta, mas foi em Magnificent e Mysterious Ways que a banda mostrou seu “groove” de estádio. Para os fãs mais dedicados, a noite reservou pérolas. A execução de Zooropa, uma faixa que passou anos fora dos repertórios, foi um momento de transe psicodélico, casando perfeitamente com a estética futurista do palco. Coração político e emocional Como de costume, Bono transformou o show em missa. Sunday Bloody Sunday foi cantada com a urgência de sempre, mas o momento de maior impacto visual veio em City of Blinding Lights e Vertigo, onde a “garra” parecia pulsar luz. A homenagem aos direitos humanos e a conexão com o Brasil apareceram em Miss Sarajevo, com Bono assumindo a parte lírica de Pavarotti de forma surpreendentemente competente. O estádio, iluminado por milhares de celulares (e isqueiros), virou uma galáxia particular durante Pride (In the Name of Love). Apoteose O bis foi uma sequência de golpes baixos emocionais. One, com seu discurso de unidade, fez 90 mil pessoas se abraçarem. Em seguida, a introdução de sintetizador de Where the Streets Have No Name causou a explosão habitual: as luzes se acenderam e o Morumbi pulou como se fosse gol em final de campeonato. O encerramento solene com Moment of Surrender trouxe a nave de volta à terra. O U2 provou, mais uma vez, que entende a arquitetura da emoção como ninguém. A 360° Tour não foi apenas um show de rock; foi um evento de engenharia, marketing e fé, executado pela maior banda do planeta em seu auge técnico. Edit this setlist | More U2 setlists

Muse ignora a ‘garra’ do U2 e faz show de headliner com peso e virtuosismo

Colocar o Muse para abrir um show é um risco para qualquer banda principal, até mesmo para o U2. Na noite deste domingo (10), o trio britânico subiu ao palco montado no centro do gramado não para aquecer o público, mas para competir. Com a luz do dia ainda presente, Matt Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard entregaram um som maciço que fez a estrutura da “garra” tremer. A banda vivia o auge da turnê The Resistance, e a confiança era visível. A abertura com Plug In Baby foi um ataque sônico: o riff agudo e distorcido cortou o ar do Morumbi, acordando até quem estava nas arquibancadas mais distantes apenas esperando por Bono. Prog-rock de estádio O que impressionou foi como o som do Muse preencheu o estádio. Em Uprising e Supermassive Black Hole, o baixo distorcido de Wolstenholme funcionou como um terremoto controlado. A banda não se intimidou com o palco 360º; eles o usaram a seu favor, correndo pelas passarelas e interagindo com os fãs que cercavam a estrutura. Momentos mais teatrais, como United States of Eurasia (com sua pegada Queen), mostraram a versatilidade vocal de Bellamy. Mas foi nos hits radiofônicos, como Time Is Running Out e Starlight, que o público, majoritariamente fã de U2, se rendeu e cantou junto, batendo palmas no ritmo. Final épico O encerramento já se tornou folclore em shows de estádio. A introdução de gaita de Man with a Harmonica (Ennio Morricone) preparou o terreno para a cavalgada espacial de Knights of Cydonia. Com um final frenético e pesado, o Muse saiu de cena deixando a sensação de que aquele palco também pertencia a eles. Foi uma abertura curta, grossa e tecnicamente impecável, elevando o sarrafo lá no alto para os donos da festa. Edit this setlist | More Muse setlists