Yungblud incendeia Interlagos e consagra sua relação de amor com o Brasil

Dias após destruir (no bom sentido) o Cine Joia em um sideshow caótico, o britânico Yungblud provou no Lollapalooza, em Interlagos, que sua energia não se dilui em palcos grandes. Vestindo uma camisa do Brasil (que virou quase uniforme), ele correu, gritou e cuspiu marra punk durante uma hora ininterrupta. O setlist foi um ataque frontal: The Funeral, Parents e Tissues foram tocadas em velocidade máxima. A conexão com o público foi visceral, ele desceu para a grade, regeu os mosh pits e exigiu participação total. O encerramento com Loner foi o ápice de uma performance que misturou a teatralidade do glam rock com a sujeira do punk. Yungblud saiu de cena como o nome mais vibrante da nova geração do rock no festival. Edit this setlist | More YUNGBLUD setlists
Twenty One Pilots espanta o fantasma do blink-182 com show acrobático e homenagem aos veteranos

A missão era ingrata: substituir o blink-182, a banda mais esperada da década, aos 45 do segundo tempo. Mas o Twenty One Pilots não apenas segurou a bronca, mas fez o público esquecer a ausência. O show do Twenty One Pilots foi uma aula de entretenimento. Desde a escalada suicida de Tyler Joseph na estrutura do palco até a bateria montada sobre a plateia, o duo entregou tudo. Musicalmente, foram respeitosos: tocaram um trecho de All The Small Things, ganhando o respeito dos fãs órfãos do blink. Na parte do trompetista, que costuma prestar pequenas homenagens locais, Garota de Ipanema, Más que nada e Baile de Favela foram lembradas. Hits como Stressed Out, Heathens e Ride foram executados com a precisão de sempre, mas foi a energia de “temos que vencer esse jogo” que tornou a noite especial. Saíram ovacionados, não como substitutos, mas como titulares absolutos.
Wallows dribla o estigma de ‘banda de ator’ e faz estreia solar (mesmo com o tempo fechando) no Lollapalooza

Quando o Wallows foi anunciado para o Lollapalooza 2023, o ceticismo era inevitável. Afinal, bandas lideradas por atores de Hollywood costumam ser apostas arriscadas. Mas na tarde de sábado (25), Dylan Minnette (voz/guitarra), Braeden Lemasters (voz/guitarra) e Cole Preston (bateria/guitarra) subiram ao Palco Budweiser dispostos a enterrar qualquer preconceito. O horário (16h45) foi estratégico, pegando a transição da tarde. Curiosamente, o clima de Interlagos decidiu participar do show: o sol escaldante que castigava o público deu lugar a ventos frios e nuvens pesadas exatamente durante o set, criando uma atmosfera “london-indie” que casou perfeitamente com a sonoridade da banda. Início bem brasileiro do Wallows no Lollapalooza A banda ganhou o jogo antes mesmo de tocar a primeira nota. A entrada ao som de Sonho Meu, clássico de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho ecoando nas caixas, foi um aceno de respeito que pegou a plateia desprevenida e abriu sorrisos imediatos. Quando engataram I Don’t Want to Talk, ficou claro que o som ao vivo tinha mais “punch” do que nas gravações. A “cozinha” da banda funcionou como um relógio, sustentando a euforia dos fãs que se espremiam na grade. Momento meme O show não foi apenas uma reprodução do Spotify. O trio mostrou versatilidade com a troca de instrumentos, ver Dylan assumir o baixo ou Cole sair da bateria para a guitarra deu uma dinâmica visual interessante, provando que são músicos reais, não apenas rostos bonitos. O setlist navegou bem entre o indie dançante de Talk Like That e Quarterback (cantada por Cole). Mas o momento de catarse coletiva, e um tanto cômica para os brasileiros, foi o cover de What Makes You Beautiful, do One Direction. Para o público local, impossível não associar a melodia ao meme “Nissim Ourfali”, o que transformou a pista em um karaokê caótico e divertido. Clímax Diferente da postura tímida (e até meio ranzinza) que Dylan apresentou em algumas entrevistas pré-festival, no palco ele foi um frontman completo. Desceu para a grade, cantou com os fãs e prometeu voltar “o mais rápido possível”, promessa que a banda pareceu fazer com sinceridade. A reta final foi uma surra de hits indies. Remember When e Pleaser prepararam o terreno para o encerramento obrigatório com Are You Bored Yet?. Sem a participação de Clairo (apenas a voz gravada), o público assumiu os vocais femininos, criando o momento mais bonito da apresentação. O Wallows saiu de Interlagos maior do que entrou. Em suma, eles provaram que sua base de fãs é real e barulhenta, e que seu som, uma mistura inteligente de post-punk revival com pop moderno, funciona muito bem em grandes festivais. Para quem duvidava, ficou a lição: o Wallows é uma banda de verdade, e das boas.
Entre o deboche e a genialidade, The 1975 entrega o show mais estiloso do festival

Matty Healy subiu ao palco com uma garrafa de vinho, um cigarro e a postura de quem não liga para nada, exatamente o que os fãs esperavam. O show do The 1975 foi uma viagem estética e sonora. Com um setlist que privilegiou o álbum Being Funny in a Foreign Language, a banda soou impecável. A trinca inicial com If You’re Too Shy (Let Me Know) e TooTimeTooTimeTooTime colocou todo mundo para dançar. Mas os pontos altos foram os hits da era “Tumblr”, como Robbers e Sex, que causaram histeria na grade. Healy, equilibrando-se entre o personagem arrogante e o frontman carismático, provocou, bebeu e entregou um dos shows mais visualmente coesos do evento. O encerramento com Give Yourself a Try deixou aquele gosto de rock de arena moderno e inteligente. Edit this setlist | More The 1975 setlists
Gilsons transforma Lollapalooza em fim de tarde na Bahia com hits de ‘Pra Gente Acordar’

Entre tantas guitarras distorcidas e batidas eletrônicas, o show dos Gilsons funcionou como um oásis. O trio (filhos e netos de Gilberto Gil) trouxe a brisa da MPB contemporânea para o palco principal, provando que o som orgânico tem, sim, espaço em megafestivais. O hit Várias Queixas foi cantado em uníssono, transformando o gramado em uma roda de samba gigante. Mas a força do show residiu nas faixas do álbum Pra Gente Acordar, como Proposta e a faixa-título, que misturam a sofisticação harmônica da família Gil com o pop radiofônico. Foi uma apresentação leve, solar e dançante, que serviu para “limpar o paladar” do público antes da maratona de rock que viria a seguir.
Pitty comanda coro de milhares e prova que o rock brasileiro tem dono (e é uma mulher)

Se havia alguma dúvida sobre a longevidade do rock nacional, Pitty tratou de dissipá-la. Com um dos maiores públicos do dia no Palco Adidas (que ficou visivelmente pequeno para ela), a baiana entregou um setlist “sem firulas”, focado na memória afetiva. A abertura com Ninguém é de Ninguém já mostrou a banda afiada, mas foi quando os acordes de Admirável Chip Novo e Máscara soaram que Interlagos tremeu. Pitty, regendo a massa com elegância, atualizou a letra de Na Sua Estante (trocando “cê acha que eu sou louca” por “não diga que eu sou louca”), um detalhe sutil mas poderoso. O encerramento com Me Adora não foi apenas um show; foi um grito de desabafo coletivo de uma geração que cresceu ouvindo essas músicas.
Medulla abre os trabalhos com “bicicletada” sonora e rock visceral em Interlagos
Abrir o palco principal (Chevrolet) é uma tarefa para poucos, e o Medulla fez isso com a urgência de quem tem algo a provar. Os gêmeos Keops e Raony trouxeram seu rock experimental e cheio de groove para um público que ainda chegava, mas que foi capturado pela energia de faixas como Faça Você Mesmo e Paralelo ao Chão. A banda apostou na intensidade física, compensando o sol forte com performance. O destaque ficou para Eterno Retorno e Um Leão Por Dia, músicas que ganharam peso extra na acústica aberta do autódromo. Entre discursos sobre liberdade e a estética urbana (com referências às bicicletas que são marca da banda), o Medulla fez um show curto, grosso e suado, honrando o rock independente nacional no mainstream.
Carol Biazin espanta o sol do meio-dia com R&B sensual e cover poderoso de Cássia Eller

Quem encarou o sol a pino das 13h no Palco Adidas não encontrou uma artista iniciante, mas uma popstar pronta. Carol Biazin trouxe para Interlagos a complexidade de seu álbum Reversa, dividindo o show em atos que narram as fases de um relacionamento. Apesar do horário ingrato, a cantora paranaense entregou visuais e coreografia de gente grande. A sequência Garota Infernal e Tentação mostrou que seu R&B pop tem “pegada” ao vivo. Mas o momento que furou a bolha dos fãs foi o cover de Malandragem (Cássia Eller). Com arranjo moderno e vocais rasgados, Carol provou que tem envergadura para dialogar com o rock nacional clássico, preparando o terreno para o hit Mala Memo. Foi uma apresentação curta, mas que deixou claro: o palco secundário já ficou pequeno para ela.