Chet Faker retorna às origens em A Love for Strangers e entrega seu disco mais íntimo em anos

Chet Faker está oficialmente de volta ao personagem que o mundo aprendeu a amar. Em A Love for Strangers, o produtor e cantor australiano retoma o alter ego que o projetou há mais de uma década, mas faz isso sem recorrer à nostalgia fácil. O novo álbum não tenta recriar Built on Glass. Ele prefere revisitar emoções antigas com maturidade, cicatrizes abertas e menos filtros. Ao longo das faixas, Chet Faker trabalha a vulnerabilidade como eixo central. O disco gira em torno de relações frágeis, conexões que não se completam e a sensação constante de deslocamento emocional. O título A Love for Strangers funciona quase como manifesto. É sobre amar quem ainda não se conhece totalmente. É também sobre se encarar depois de anos de exposição pública e reinvenções. Em entrevista que fiz com o artista no passado, ele já sinalizava essa mudança de rota. Segundo Chet Faker, a principal transformação desde Hotel Surrender foi se afastar da produção mais complexa, baseada em loops e camadas digitais, para focar na escrita tradicional. Muitas músicas foram gravadas com apenas um instrumento do começo ao fim. Quase todas podem ser tocadas no piano ou no violão, sem depender de samples ou elementos eletrônicos difíceis de reproduzir ao vivo. Ele definiu o processo como uma volta ao básico, à composição pura, deixando a estrutura da canção guiar tudo. Isso ajuda a entender por que o álbum soa mais contido e orgânico. Há beats e texturas eletrônicas, mas eles não dominam a narrativa. O foco está na atmosfera e na interpretação. Em vários momentos, a produção parece propositalmente enxuta, abrindo espaço para a voz respirar. Quando reduz os elementos e assume o minimalismo, o impacto emocional cresce. O single This Time for Real sintetiza bem essa fase. Chet Faker contou que quase deixou a faixa de fora do disco por considera-la diferente do restante. Escrita ainda na época de Hotel Surrender, a música carrega esse espírito de transição. A letra fala sobre esperança e autenticidade, mas também sobre lidar com o alcance inesperado de algumas canções na indústria. Existe ironia no discurso e no videoclipe, que o mostra cercado por símbolos exagerados de sucesso. No fundo, ele resume como aprender a andar de bicicleta pela primeira vez no meio de um furacão. A metáfora explica muito sobre o tom do álbum. Outro ponto interessante é a referência às memórias de infância. Chet Faker revelou que tentou recriar a sensação de quando ouvia música nos anos 1990 e 2000. Ele cita as trilhas de jogos japoneses de Playstation 1, cheias de batidas jungle e rave, convivendo com o pop que tocava no carro da mãe, como David Gray, além de grunge e guitarras mais cruas. Essa mistura aparece diluída no disco. Não como colagem explícita de gêneros, mas como atmosfera. É um trabalho que parece abraçar influências distintas sem precisar provar nada para ninguém. Nem todas as faixas mantêm o mesmo nível de impacto. Algumas funcionam mais como paisagens sonoras do que como canções memoráveis. Ainda assim, o conjunto é coeso. Existe uma linha clara de retorno à essência, mas com consciência artística ampliada. A Love for Strangers não é um álbum de explosões imediatas. É um disco que cresce com o tempo e recompensa quem escuta com atenção. Talvez não tenha o impacto imediato do trabalho que o consagrou, mas reafirma Chet Faker como um artista interessado em evolução, não em repetição. E isso, hoje, já diz muito.

Entrevista | Katatonia – “Minhas expectativas para o público do Brasil são muito altas, porque a turnê tem sido uma loucura”

O Katatonia retorna ao Brasil com a turnê de Nightmares as Extensions of the Waking State e se apresenta no dia 21 de março de 2026, no Cine Joia, em São Paulo. No palco, a banda sueca promete um repertório que equilibra o novo álbum com clássicos da carreira, em um show que deve alternar peso, melancolia e intensidade emocional. A abertura fica por conta da guitarrista Jessica Falchi, reforçando o clima de atmosfera e técnica que marca a noite. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Nico Elgstrand fala sobre o impacto de assumir as guitarras no lugar de uma lenda, os desafios enfrentados com o visto negado nos EUA e a nova dinâmica criativa dentro do Katatonia após as mudanças na formação. Com passagem marcante pelo Entombed, um dos nomes fundamentais do death metal sueco, Nico construiu sua reputação no underground europeu antes de integrar o Katatonia. Sua entrada, ao lado de Sebastian Svalland, marca uma nova etapa no grupo liderado por Jonas Renkse, conectando a tradição pesada de sua trajetória anterior com a fase mais atmosférica e progressiva da banda. Você já estava tocando com o Katatonia como guitarrista de apoio antes de se tornar um membro oficial. Quando começou a sentir que isso poderia se tornar algo permanente? Na verdade, foi bem rápido. Fiz o primeiro show logo após a Covid, e foi uma viagem muito, muito longa. Fomos para a Austrália, para a Tasmânia. Foram três dias no aeroporto para chegar lá e depois três dias para voltar. Então passamos muito tempo juntos, convivendo bastante. Você percebe quando existe uma conexão pessoal. E quando fiz outro show, um ano depois, porque o Anders não pôde tocar, senti, e acho que eles também sentiram, que realmente nos conectamos socialmente. Isso é o mais importante quando você está em uma banda. Eu não fiquei muito surpreso quando soube que poderia me tornar membro permanente. Ouvi que havia algumas questões com o Anders, mas não quis me envolver. Porém senti que, se eles mudassem a formação, provavelmente eu seria chamado. Então foi muito legal ser convidado. Basicamente, quando fiz a turnê, senti que, se surgisse uma oportunidade, eu teria uma chance. E também foi muito bom perceber que eu queria isso. Às vezes você ama alguém mais do que ela ama você, ou o contrário, e aí temos um problema. Aqui foi diferente. Se eles queriam, eu também queria. Foi muito legal. E aqui estamos. Substituir um membro histórico e fundador da banda como Anders Nyström naturalmente traz comparações e comentários entre os fãs. Como você lidou com isso em nível pessoal? Eu decidi não pensar muito sobre isso. Quando você faz isso há tanto tempo, percebe que pensar demais não muda nada. Eu toco do jeito que eu toco, sou do jeito que eu sou. Claro, quando toco uma música escrita pelo Anders, eu escuto como ele toca. Não estou ali para mudar nada. A música já está escrita, as pessoas amam do jeito que é, então tento respeitar isso ao máximo. Mas eu sou um indivíduo, então inevitavelmente toco do meu jeito, mesmo tentando ser fiel ao álbum. Acho que é como começar um relacionamento novo sabendo que houve alguém antes. Não importa. É o passado. Se eu começar a pensar demais nisso, vai atrapalhar meu próprio desempenho. Então preferi não focar nisso. Se os fãs não gostassem, não haveria muito que eu pudesse fazer além de trabalhar mais. Felizmente, não foi o caso. As pessoas foram muito receptivas. Acho que o desejo de ouvir a música é maior do que a necessidade de ver indivíduos específicos. A música é mais importante do que quem a toca. E eu acho que deve ser assim. Estou realmente ansioso, especialmente para voltar à América, porque o carinho que você recebe lá é enorme. E falando em América, você perdeu parte da turnê na América do Norte por causa de problemas com o visto. O que aconteceu? Não sei exatamente. É o novo governo do Trump. Não sei por que fui rejeitado. Se você quiser recorrer, é muito caro. Você pode tentar uma segunda vez, digamos assim, mas envolve muitos advogados. Eles disseram que esse novo governo tem ideias bem estranhas sobre isso. Houve outro cara na turnê que também teve o visto rejeitado. Fiquei realmente devastado, porque o Fredrik, do Opeth, é meu melhor amigo há 30 anos, e estávamos muito animados para fazer essa turnê juntos. Mas o que você pode fazer? É o que é. Estou tentando não ficar triste com isso. Em vez disso, estou ansioso para ir ao Brasil e à América do Sul. Mas por um tempo, e ainda agora, fico pensando que eu deveria estar lá. Não estou impressionado com esse governo. Nem vou dizer o nome dele de novo. Está ficando tudo muito louco por lá. É muito triste, mas, de novo, o que você pode fazer? Vamos falar de coisas boas então. Falando sobre o Brasil, o show em São Paulo marca um novo capítulo da banda aqui. O que os fãs podem esperar do setlist? O set não é fixo. Temos várias variações. Eu e Daniel até queríamos ter umas 50 músicas e trocar tudo todas as noites, mas isso é muito desafiador para o Jonas por causa dos vocais. Então haverá variações, mas mesmo que eu soubesse exatamente o set, não diria aqui (risos). Acho que uma das coisas ruins da internet é que você pode descobrir tudo antes. Às vezes é legal ser surpreendido. Mas, pelo menos sua expectativa você pode contar, né? Minhas expectativas para o público são muito altas, porque tem sido uma loucura. Lembro que pensei que, como a música do Katatonia é mais suave do que outras bandas com as quais toquei, talvez a reação fosse mais contida. Mas foi absolutamente insano. Não houve diferença. Foi intenso do mesmo jeito. Da última vez com o Entombed foi tão alto que eu quase não conseguia ouvir meus in-ears. Então as expectativas são altas. Com

Story Of The Year encara a própria fúria em A.R.S.O.N. e transforma raiva em combustível

O novo álbum do Story Of The Year, lançado hoje (13/02), não tenta reinventar a roda. E talvez esse seja justamente o seu maior acerto. A.R.S.O.N. nasce com um conceito claro, “All Rage Still Only Numb”, e carrega essa sensação de raiva acumulada e anestesia emocional do começo ao fim. É um disco que olha para dentro, revisita feridas e prefere a honestidade ao risco. A banda voltou ao centro das atenções após passar pelo Brasil no ano passado, incluindo dois shows explosivos em São Paulo em menos de 24 horas, tocando de noite do dia 28.08 no Tokio Marine Hall e na tarde seguinte no Allianz Parque no Festival I Wanna Be Tour. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Dan Marsala, vocalista do Story of The Year, conta sobre a importância do produtor Colin Brittain. O baterista do Linkin Park é apontado como o responsável por capturar a mesma energia de 20 anos atrás no álbum Tear Me To Pieces (2023) e produzir A.R.S.O.N. foi uma escolha natural. As faixas de A.R.S.O.N. A abertura com o single Gasoline (All Rage Still Only Numb) já coloca tudo na mesa. É intensa, direta, com guitarras afiadas e aquela urgência vocal que sempre foi marca registrada da banda. Lançada ano passado, ela funciona como um manifesto. A energia é crua, quase desesperada, e deixa claro que o álbum não vai ser contemplativo demais. Disconnected aprofunda o tom emocional. A letra fala sobre afastamento e desconexão em tempos de excesso de informação e pouca profundidade. Musicalmente, mantém o peso, mas abre espaço para mais melodia. É uma das faixas que melhor equilibra agressividade e vulnerabilidade. Quando chega em See Through, o clima muda um pouco. A música flerta com uma abordagem mais acessível, quase radiofônica. É pegajosa, tem refrão forte, mas soa um pouco deslocada dentro do contexto mais sombrio do disco. Não é ruim e acho ótimo uma variação interna, porém parece vir de outro álbum do Story of The Year. Fall Away, com participação de Jacoby Shaddix, vocalista do Papa Roach, chamou minha atenção logo de cara, pelo encontro de vozes. A ideia é boa e o resultado é competente, mas não dá aquela sensação de que podia ser ainda melhor. Faltou aquele momento de arrepiar que o encontro prometia. Ainda assim, acrescenta peso e uma agressividade extra ao repertório. Um dos momentos mais interessantes aparece em 3AM. A faixa carrega um senso de nostalgia que conversa com o passado da banda sem parecer cover de si mesmos. É emocional, direta e tem aquele tipo de refrão que cresce a cada audição. Fácil imaginar funcionando muito bem ao vivo. Na parte mais densa do álbum, músicas como Into The Dark, My Religion e Better Than High exploram conflitos internos, fé, culpa e frustração. A entrega é sincera o suficiente para sustentar o drama. O encerramento com I Don’t Wanna Feel Like This Anymore reforça a sensação geral do trabalho. É um grito cansado, mais humano do que heroico. Não há redenção grandiosa, apenas o desejo honesto de mudar. A.R.S.O.N. é um álbum que aceita suas limitações e transforma isso em identidade. O disco pode não ser o mais variado da carreira ou revolucionário, mas é coeso na proposta e deve agradar fãs antigos e os mais novos. É um álbum verdadeiro e, no fim, talvez seja exatamente isso que o Story Of The Year precisava entregar agora.