Entrevista | Culture Wars – “Don’t Speak pode ser aplicada a relacionamentos e ao mundo ao nosso redor”

Lançado em abril, o álbum de estreia do Culture Wars, Don’t Speak, apresenta uma combinação eficiente de diferentes gerações do rock alternativo. Ao longo das faixas, a banda texana constrói uma sonoridade que transita com naturalidade entre as décadas de 80, 90 e 2000. Em alguns momentos, as guitarras precisas e o apelo melódico remetem ao The Police, enquanto a dinâmica entre peso e atmosfera evoca influências alternativa dos Pixies. Já a estética indie contemporânea aparece em passagens que lembram nomes como Arctic Monkeys, Kings of Leon e The Strokes, resultando em um trabalho que dialoga com várias épocas sem soar datado ou excessivamente nostálgico. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Alex Dugan falou sobre a longa espera até o lançamento do primeiro álbum da banda, explicou a mudança do título original para Don’t Speak, comentou o crescimento do Culture Wars em mercados internacionais como México e Reino Unido e revelou como as experiências em shows cada vez maiores ajudaram a consolidar a identidade musical do grupo. O vocalista também detalhou suas principais influências, além de comentar o desejo de realizar apresentações próprias no Brasil no futuro. Formada em Austin, no Texas, o Culture Wars passou boa parte da última década construindo sua trajetória por meio de EPs e singles antes de finalmente apresentar um álbum completo. A decisão de adiar o lançamento de um full length permitiu que o grupo desenvolvesse seu público gradualmente e encontrasse uma assinatura própria. A banda conquistou espaço especialmente graças ao alcance internacional de suas músicas nas plataformas digitais, como Instagram e TikTok, e à crescente popularidade de suas apresentações ao vivo abrindo shows de Keane, Maroon 5 e LANY. Musicalmente, Don’t Speak se destaca pela capacidade de equilibrar refrões grandiosos, produção moderna e influências clássicas do rock. O disco apresenta canções que funcionam tanto em grandes arenas quanto em audições mais intimistas, reforçando a versatilidade da banda. Em vez de apostar apenas em tendências contemporâneas, o Culture Wars constrói uma ponte entre diferentes épocas do gênero, resultando em um trabalho acessível, coeso e repleto de personalidade. Vocês iniciaram a banda na última década. Por que decidiram lançar o primeiro álbum completo apenas agora? Eu não queria lançar um álbum antes de existir um público que realmente quisesse ouvir um álbum nosso. Também passamos muito tempo tentando encontrar nosso som e consolidar a identidade da banda. Jogar um disco no mundo sem ter pessoas esperando por ele pode ser um desperdício, porque toda música tem um ciclo de descoberta. Quando esse momento passa, ela rapidamente se torna algo antigo para o público. Por isso, preferimos construir uma relação gradual com os ouvintes e lançar as músicas no nosso próprio ritmo. E em que momento você percebeu que a banda estava realmente crescendo? Houve alguns momentos importantes. Um deles foi quando tocamos no México com o Wallows, há cerca de dois anos. Estávamos abrindo o show e não esperávamos nada além disso. Mas as pessoas cantavam a letra de “Typical Ways”. Não era um show nosso e sequer tivemos muito tempo para divulgar nossa participação. Ver aquele reconhecimento espontâneo foi impressionante. Outro momento aconteceu em Londres, quando fizemos nosso primeiro show solo na cidade e esgotamos os ingressos. Eram cerca de 250 pessoas cantando todas as músicas. Foi quando pensei: “isso realmente está funcionando”. E qual foi o motivo para a mudança do título do álbum de If Not Now, When? para Don’t Speak? Realmente, o título original era If Not Now, When?, e ele fazia sentido durante as gravações. Mas, quando finalizamos o disco, percebemos que já não representava o material. Reescrevemos boa parte da segunda metade do álbum e até descartamos a capa original. Então passamos a olhar para uma foto usada no videoclipe de “Don’t Speak” e todos concordaram que ela deveria ser a capa do álbum. Aos poucos, percebemos que o título também fazia mais sentido. A ideia de “Don’t Speak” pode ser aplicada a relacionamentos, ao mundo ao nosso redor e até à própria banda, refletindo sobre o momento certo de se manifestar e ocupar espaço. Pouco mais de um mês, como tem sido a reação ao álbum neste início de ciclo promocional? Tem sido incrível. Eu tento não me basear muito no que acontece na internet, porque ela funciona como uma espécie de vácuo. O que realmente torna tudo real é ver as pessoas nos shows. Estamos fazendo a turnê mundial e praticamente todas as apresentações estão esgotadas. Recentemente tocamos em Dallas para cerca de 700 pessoas. Há menos de dois anos, estávamos tentando convencer amigos e familiares a comparecer aos nossos shows em bares. Ver essa evolução é algo surreal. E você comentou que reescreveram boa parte do material. Qual foi a música mais difícil de finalizar no álbum? Sem dúvida foi “Typical Ways”. Foi uma das primeiras músicas escritas para o disco, mas eu reescrevi os versos diversas vezes ao longo de quatro anos. As letras nunca pareciam certas. Acho que precisei amadurecer como pessoa para encontrar as palavras corretas. Os outros integrantes ficaram cansados das mudanças, mas eu insistia que precisava ficar perfeito. Hoje tenho certeza de que valeu a pena. E sua forma de compor mudou depois que a banda começou a tocar para públicos maiores? De certa forma, sim. Mais do que pensar em refrões para grandes plateias, os shows nos ajudaram a entender quem realmente somos. Houve momentos específicos em determinadas músicas em que percebíamos que estávamos completamente confortáveis e conectados com o público. Isso acabou confirmando nossa identidade artística. Quando voltamos a compor, tudo ficou mais simples porque sabíamos exatamente o que queríamos fazer. Eu consigo ouvir influências que vão além dos anos 2000. Percebi elementos de bandas como The Police e Pixies. O que você ouvia quando era criança e adolescente? Quando eu era criança, meu pai só permitia dois CDs no carro: 1, coletânea dos Beatles, e Are You Experienced?, de Jimi Hendrix. Durante anos, praticamente só ouvi isso. Mais tarde, comecei a explorar outros artistas. Passei por Rolling
Após 15 anos, Superchunk desafia a lógica dos sets engessados e faz show memorável no Cine Joia

Foram necessários 15 anos para o retorno do Superchunk ao Brasil. Mas a longa espera foi recompensada no domingo (31), no Cine Joia, em São Paulo, com um dos shows mais intensos até aqui em 2026. Em quase 90 minutos de apresentação, a banda norte-americana enfileirou seus principais hinos, além de promover uma série de mudanças no setlist na comparação com o show do Rio de Janeiro, que rolou na noite anterior. Aliás, a disposição para alterar o repertório é algo louvável em tempos de turnês com sets engessados. Poucas são as bandas que ousam mudar mais de cinco músicas quando viajam pela América do Sul. No caso do Superchunk, foram 21 faixas executadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, mas com nove novidades no show paulista, além da total reordenação das canções mantidas. Logo de cara, duas surpresas abriram a noite: This Summer, atendendo ao pedido de um fã e que rendeu uma piada do vocalista Mac McCaughan, dizendo que a escolha era no mínimo inusitada, já que estamos próximos do inverno, emendada propositalmente ou não por Endless Summer. E foi nesse ritmo, entre hinos e improvisações, que o Superchunk fez a festa de um público composto em sua maioria por pessoas entre 40 e 50 anos, dentre eles Evan Dando, vocalista do The Lemonheads, outro grande expoente do rock alternativo dos anos 1990. O clima de improviso, inclusive, fez com que a novata Laura King (ex-Bat Fangs), baterista de turnê que substitui Jon Wurster, desligado do grupo em 2023, errasse algumas entradas. Muito tímida ao microfone, ela se desculpou por três vezes, mas nada que comprometesse o ritmo do show. Pelo contrário: Laura desceu o braço na bateria. No palco, a baixista Betsy Wright, substituta de Laura Ballance nas turnês (embora a fundadora siga gravando em estúdio e à frente da Merge Records), e o guitarrista Jim Wilbur são mais discretos, cada um em seu canto. Enquanto isso, Mac McCaughan distribuía pulos e corridinhas pelo palco. Dentro do cenário alternativo noventista, o Superchunk se manteve como uma referência ética exatamente por ter se negado a virar mais uma banda presa às grandes gravadoras. Eles chegaram a se reunir com a Atlantic Records na época, mas decidiram não assinar nenhum contrato para preservar a autonomia artística. O grupo havia sido um dos primeiros a assinar com o cultuado selo independente Matador. Porém, quando a Matador formou uma parceria justamente com a major Atlantic Records, a banda decidiu agir. Mac McCaughan e Laura Ballance preferiram sair e construir sua própria gravadora do zero: a Merge Records. Durante a década de 1990, eles transformaram a Merge de um pequeno projeto movido por paixão em uma verdadeira potência do indie rock, sendo os responsáveis pelo lançamento de álbuns históricos como In the Aeroplane Over the Sea (Neutral Milk Hotel) e 69 Love Songs (The Magnetic Fields), além de trabalharem anos mais tarde com nomes como Spoon, Arcade Fire e Caribou. No Cine Joia, os momentos de maior catarse coletiva ficaram por conta de Everybody Dies, Driveway to Driveway, Crossed Wires e Slack Motherfucker. O impacto no público foi imediato: além de abrir alguns mosh pits, o som fez coroas emocionados subirem ao palco para pular nos braços dos fãs. Vale destacar que Mac não pareceu muito feliz com os invasores que demoravam a deixar o palco, chegando a dar um leve empurrão em um deles. O fim da apresentação ainda trouxe Learned to Surf e Hyper Enough, coroando o set mais redondo possível. O público saiu emocionado, feliz, suado e estacionou na frente do Cine Joia na esperança de garantir uma foto com a banda. Edit this setlist | More Superchunk setlists