Entrevista | The Bombers – “Consigo me ver fazendo isso aos 56 anos. Por que não?”

Trinta anos depois de surgir na efervescente cena punk e hardcore de Santos, o The Bombers vive um dos momentos mais marcantes da carreira. Embalada pelo lançamento do álbum ao vivo Noite Alucinante: 30 Anos Ao Vivo, a banda inicia sua primeira turnê internacional, com apresentações no Sul do Brasil, Uruguai e Argentina, consolidando uma trajetória construída de forma independente e sem abrir mão da experimentação musical. Em entrevista ao Blog n’ Roll, o vocalista e guitarrista Matheus Krempel falou sobre as três décadas da banda, a transformação da cena punk santista, a importância da autenticidade nas composições e o desejo de fortalecer o intercâmbio entre grupos sul-americanos. Para ele, o segredo da longevidade está em continuar olhando para frente. “Nem nos meus sonhos mais loucos eu poderia imaginar estar tocando com o Bombers depois de 30 anos. Se eu pudesse voltar no tempo e dar esse spoiler, o Matheus de 16 anos ia achar que eu estava de sacanagem com a cara dele”, brinca. Apesar da longa trajetória, Krempel afirma que a motivação continua sendo a mesma de quando a banda, que na formação atual tem Gustavo Trivela (guitarra e vocais de apoio), Fernando Hago (baixo e vocais de apoio) e Junior Drummer (bateria), começou. “O que nós temos em comum hoje é a paixão por criar músicas novas, experimentar os limites musicais, passar nossa mensagem e subir no palco para entregar um show que faça as pessoas dançarem e se divertirem. Quando sentimos essa conexão, entendemos o que realmente nos motiva a seguir fazendo isso”. Um álbum que olha para frente Embora o novo trabalho revisite toda a discografia do grupo, Krempel diz que a proposta nunca foi apenas celebrar o passado. “Nesse disco, a ideia era mostrar que o Bombers está sempre olhando para frente. Somos uma banda que não consegue se acomodar e repetir fórmulas e discursos”. Mesmo sendo um álbum ao vivo, o quarteto decidiu reinventar parte do repertório com novos arranjos e participações especiais de músicos convidados, incluindo metais, rap e influências do surf rock. “Nunca foi sobre simplesmente fazer o mesmo de sempre. Sempre foi e sempre será sobre trazer novidades para quem escutar o disco”. Da efervescência dos anos 1990 à mudança da cena santista Formado em 1995, o The Bombers nasceu em um período de intensa movimentação cultural em Santos. Segundo o vocalista, a cidade respirava punk e hardcore. “Nos anos 90 tínhamos muitas bandas por metro quadrado. Existiam fanzines, fotógrafos, poetas, artistas e pessoas engajadas em construir um cenário. Santos era rota obrigatória de praticamente todo show de punk hardcore que vinha para o Brasil”. Na avaliação dele, esse cenário perdeu força ao longo dos anos. “A cidade expulsou os jovens da orla e os empurrou para outras regiões. Os shows que aconteciam durante a tarde, perto da praia, passaram a acontecer tarde da noite no Centro. Antes as pessoas iam a pé, de bicicleta ou de ônibus. Hoje isso ficou muito mais difícil”. Por isso, bandas como o The Bombers e o Bayside Kings passaram a concentrar boa parte da agenda em São Paulo e em outras cidades. Aliás, a trajetória contabiliza mais de mil shows e encontros de palco com CJ Ramone, MxPx, Satanic Surfers, The Casualties, Toy Dolls, U.S. Bombs, Boom Boom Kid, CPM 22, Dead Fish, Garage Fuzz, Carbona, Blind Pigs, Gritando HC, Hateen e Mukeka di Rato. Questionado sobre o que faz uma música atravessar décadas sem perder relevância, Krempel acredita que a resposta está na autenticidade. “Talvez o segredo seja ser sincero, buscar ser autêntico e se conectar com as pessoas, sem querer simplesmente copiar tudo o que outra banda já fez”. Ele cita até uma fala do filme Pulp Fiction para resumir sua filosofia. “‘Um cão tem personalidade. A personalidade leva a um longo caminho.’ Acho que é exatamente por aí”. Punk como ferramenta de reflexão Mesmo em um cenário de forte polarização política, o vocalista acredita que o punk continua tendo um papel importante na sociedade. “Racismo, homofobia, xenofobia, intolerância religiosa e tantas outras atrocidades precisam ser combatidas”. No campo político, ele defende que a música deve provocar reflexão, e não ampliar divisões. “O segredo não é se manter calado e também não é reforçar a polarização. A ideia principal é fazer as pessoas pensarem. Uma população dividida é mais fácil de ser controlada. Independentemente de direita ou esquerda, os governantes precisam ser cobrados e forçados a trabalhar para a população que os elegeu”. Do projeto independente do The Bombers à televisão O lançamento de Noite Alucinante: 30 Anos Ao Vivo ganhou uma dimensão inesperada quando a produção foi adquirida pela Music Box Brazil. Segundo Krempel, a surpresa veio quando o diretor Nacho Martin avisou que o canal havia comprado os direitos de exibição. O show também está disponível no Youtube. “Pensamos: ‘Acho que fizemos um bom trabalho. Se um canal de televisão vai passar nossa produção para o Brasil inteiro assistir, é porque o negócio ficou bom mesmo’”. O músico define a gravação de show como a apresentação mais marcante da carreira. Segundo Krempel, a reação foi a mesma entre todos os integrantes da banda. Ele, Fernando Hago, Gustavo Trivela e Junior Drummer ficaram impressionados com a atmosfera criada naquela noite e demoraram a acreditar no que viam diante do palco do RedStar, em São Paulo. Mesmo sob forte chuva, a apresentação reuniu 200 pessoas e atingiu a capacidade máxima do espaço. “Aquele show foi surreal. Quando entrei no palco, eu não acreditava na quantidade de gente que a gente conseguiu reunir. Fiquei meio em choque. E não só eu. A gente não acreditava no que estava acontecendo ali. Foi um show muito especial”. Misturas que abriram portas para o Bombers Ao longo de três décadas, o The Bombers incorporou influências de hardcore, ska, rap, baião, rock alternativo, surf rock e até viola caipira. Para Krempel, essa liberdade artística nunca afastou o público. Já teve disco com baião e até balada acústica com viola caipira. Aliás, a abertura da turnê