Blessthefall e Memphis May Fire transformam Carioca Club em uma grande roda de mosh

O Carioca Club viveu uma daquelas noites em que a divisão entre palco e pista praticamente desaparece. Blessthefall e Memphis May Fire se apresentaram neste sábado (29), em São Paulo, em dois shows marcados por intensidade, mosh pits praticamente constantes e uma resposta do público que acompanhou o peso das duas bandas. E, apesar de toda a brutalidade envolvida, houve outro ponto em comum: a qualidade sonora. Com os instrumentos ligados em linha e o uso de VSs, ambos entregaram um som extremamente definido, equilibrando peso, clareza e impacto mesmo nos momentos mais caóticos. Organizado pela Liberation, o evento levou um grande público ao Carioca Club, que ficou próximo da lotação máxima, e teve a banda brasileira Reckoning Hour responsável pela abertura da noite. A apresentação em São Paulo integrou a passagem das bandas pelo Brasil, iniciada na sexta-feira (28), em Belo Horizonte, e com encerramento neste domingo (30), em Curitiba. Blessthefall Coube ao Blessthefall entrar primeiro e estabelecer rapidamente o clima da noite. A banda apostou na combinação que ajudou a transformá-la em um dos nomes importantes do metalcore e post-hardcore norte-americano, alternando breakdowns, melodias e refrões que encontraram uma plateia disposta a participar desde os primeiros minutos. O público abriu rodas e respondeu aos pedidos da banda, enquanto o grupo evitava qualquer sensação de estar simplesmente preparando terreno para a atração seguinte. A performance também mostrou como o Blessthefall entende a dimensão física de seus shows. Mais do que executar as músicas, a banda estimulou constantemente a interação com a pista. O ápice veio justamente no encerramento, quando o vocalista se lançou sobre o público. Depois de mergulhar na multidão, fez o caminho de volta ao palco em crowdsurfing, fechando a apresentação com uma imagem que sintetizou bem o que havia acontecido até ali: público e banda funcionando como partes do mesmo espetáculo. Memphis May Fire Se o Blessthefall havia elevado a temperatura, o Memphis May Fire encontrou o Carioca Club pronto para continuar. “The Sinner” abriu o repertório recuperando uma das faixas mais emblemáticas de The Hollow (2011), antes de “Vices” manter a conexão com essa fase da carreira. A sequência, porém, deixou claro que o show não viveria apenas de nostalgia. “Paralyzed” e “Shapeshifter” colocaram o material mais recente lado a lado com músicas que ajudaram a construir a trajetória do grupo. Essa mistura de períodos funcionou como um retrato amplo da evolução do Memphis May Fire. “Bleed Me Dry”, “Somebody” e “Misery” mantiveram o equilíbrio entre agressividade e refrões melódicos, enquanto “Left for Dead”, “The Other Side”, “Infection” e “Overdose” reforçaram a abordagem mais moderna e direta da banda. Matty Mullins, que esteve recentemente no Brasil liderando o Amberlin no Emo Vive, esteve seguro durante toda a apresentação, transitando entre vocais limpos e rasgados sem deixar que a intensidade comprometesse a execução. Na pista, entretanto, precisão era a última preocupação. Dois pontos diferentes de mosh pit se formaram ao longo da apresentação, criando núcleos de movimentação que cresceram conforme o show avançava. O Carioca Club respondeu especialmente bem aos breakdowns, com aquela dinâmica característica do gênero em que alguns segundos de expectativa são suficientes para abrir espaço antes da explosão seguinte. “Make Believe”, “Versus” e “Love Is War” conduziram o bloco final antes do encore. A volta trouxe primeiro “Miles Away”, oferecendo um raro respiro emocional em uma noite dominada pelo impacto físico. Era apenas a preparação para a reta final. “Blood & Water”, uma das músicas mais fortes da fase recente do grupo, recolocou imediatamente a pista em movimento. Foi em “Chaotic” que a noite encontrou sua imagem definitiva. Os dois mosh pits que até então ocupavam partes diferentes da pista se transformaram em uma grande roda, tomando uma parcela considerável do Carioca Club. Em vez de simplesmente terminar o show com mais uma música pesada, o Memphis May Fire conseguiu fazer o público produzir o clímax visual da apresentação. Blessthefall e Memphis May Fire entregaram propostas suficientemente próximas para dividir a mesma noite, mas com identidades bem definidas. O primeiro fez da proximidade física com os fãs uma das principais armas de sua apresentação; o segundo construiu um set que percorreu diferentes momentos da carreira até desembocar no caos coletivo de “Chaotic”. Com execução impecável no palco e uma pista em movimento quase permanente, a passagem das duas bandas por São Paulo mostrou que, quando o metalcore encontra o público certo, o espetáculo acontece dos dois lados da grade.