Sob chuva e muito groove, Jamiroquai transforma Nubank Parque em imensa pista de dança

Após nove anos de um longo hiato longe do público brasileiro, o Jamiroquai desembarcou em São Paulo com a energia renovada. Trazendo na bagagem o embalo de uma apresentação marcante no Palco Sunset do Rock in Rio, realizada na última sexta-feira, o grupo inglês liderado pelo carismático Jay Kay provou na noite de domingo (13) que o seu acid jazz continua à prova do tempo, e das tempestades. Debaixo de uma chuva insistente que castigou a capital paulista, a banda entregou uma apresentação de altíssimo nível, com duas horas de duração, no Nubank Parque, aquecendo uma arena lotada com doses cavalares de funk e disco. Acústica impecável para o show do Jamiroquai Como alguém que já esteve no estádio do Palmeiras centenas de vezes, a expectativa técnica era clara: o funk orgânico e cheio de linhas de baixo do Jamiroquai tinha tudo para casar perfeitamente com a acústica do local. E o prognóstico se confirmou. A engenharia de som do estádio, que favorece os graves, fez com que cada nota e cada slap no baixo soassem com perfeição e definição absolutas. Visualmente, a pista oferecia uma cena no mínimo curiosa. Com o retorno da banda, os icônicos chapéus de pescador felpudos, marca registrada do vocalista, multiplicaram-se entre os fãs. No entanto, diante do temporal, era impossível não sentir uma ponta de pena de quem tentava manter o estilo e o gingado carregando um adereço completamente encharcado na cabeça. Carisma de Jay Kay Desde o momento em que surgiu no palco (naturalmente, usando seu próprio chapéu felpudo combinando), Jay Kay injetou vida na noite de domingo. Para os desavisados de plantão, sempre vale o lembrete: Jamiroquai é o nome do projeto, não do vocalista. E a banda que o acompanha é um espetáculo à parte. O grupo de apoio é extremamente técnico, criando a cama sonora perfeita para que o frontman desfile um alcance vocal praticamente intacto em comparação aos anos 1990. Em seu elemento, Jay Kay brincou com a plateia, trocou de figurino diversas vezes e dançou como se não houvesse amanhã. O carisma também transbordou para fora do palco, com o vocalista descendo para interagir com o público e distribuir autógrafos em discos de vinil colados à grade. 30 anos de Travelling Without Moving O repertório foi uma ode à alegria, transitando sem esforço entre as novidades e os clássicos exigidos pelos fãs. Hits infalíveis como Cosmic Girl e Alright desceram perfeitamente bem, espantando o frio de São Paulo. O setlist, aliás, teve um dono claro: o antológico álbum Travelling Without Moving. Celebrando 30 anos de seu lançamento agora em 2026, o disco representou praticamente metade de tudo o que foi tocado na noite. O repertório ainda incluiu um provável single do primeiro álbum da banda em quase uma década, Disco Stays the Same, que deve ser lançado em 2027. No comparativo com o show do Rock in Rio, foram mais duas faixas inseridas, além da inédita: Seven Days in Sunny June e High Times, que não era tocada ao vivo desde 2018.  Mas os verdadeiros trunfos do show foram as longas instrumentações. Space Cowboy, que já é uma composição brilhante por si só, foi elevada a um patamar superior. A banda estendeu a faixa para uma jam de nove minutos de duração. Decisão muito bem acertada. O clímax do show guardou não apenas o maior hit comercial da banda, mas também um momento de reflexão contundente. Antes de executar Virtual Insanity, Jay Kay assumiu o microfone para um belo e necessário discurso pedindo paz mundial, condenando de forma incisiva os chefes de Estado que estimulam e financiam conflitos. “A razão pela qual eles são criminosos de guerra é que eles estão matando mulheres e crianças todos os dias. 5, 10, mil, 10 mil. ​Eles não são as pessoas que queremos que nos liderem. Nós não queremos ouvi-los. Eu não quero ouvir o que eles têm a dizer, porque não há desculpas para o que eles fazem. ​E, nesse sentido, porque o mundo continua o mesmo de antes… Espero que um dia essa música não signifique nada, mas, no momento, ela faz mais sentido do que quando foi escrita”. Com essa introdução, Virtual Insanity ecoou não apenas como um convite irrecusável à dança, mas como um alerta ainda tragicamente atual. O Jamiroquai deixou São Paulo com a certeza de que música boa, quando executada com alma, supera o tempo, a chuva e o frio. Setlist