Mac DeMarco reafirma o trono do indie em noite de catarse e irreverência na Audio

Mac DeMarco reafirma o trono do indie em noite de catarse e irreverência na Audio

Após um hiato de oito anos, Mac DeMarco retornou a São Paulo no último sábado (4) para o segundo show de sua extensa turnê de nove datas pelo Brasil. Divulgando seu mais recente álbum, Guitar (2025), o canadense provou que a aposta da produtora Balaclava em uma série tão longa de apresentações foi certeira: com ingressos esgotados, a fila que dominava a calçada da Audio já denunciava a ansiedade de um público que chegou cedo para garantir um lugar rente ao palco.

“Jizzy Jazzy” em solo brasileiro

Qualquer sinal de impaciência pelo leve atraso de 15 minutos evaporou assim que Mac pisou no palco, visivelmente confortável e feliz. Sua marca registrada, o som frequentemente rotulado como “jizzy jazzy”, uma mistura de indie lo-fi com grooves relaxados e guitarras limpas, traduziu-se naturalmente em sua performance corporal.

O repertório foi um equilíbrio preciso entre o novo e o clássico. Abrindo com Shining, do disco novo, Mac desfilou hinos de seus 14 anos de carreira, como For The First Time, Salad Days e Ode to Victory, intercalando-as com as recentes Sweeter, Phantom e Rock And Roll. O que se viu na plateia foi uma renovação notável: uma forte presença de um público jovem que canta cada verso, provando que a base de fãs de DeMarco segue em expansão.

Conexão com Pedro Martins

Um dos grandes trunfos da noite foi a escolha de Pedro Martins para a abertura. Se o brasiliense ainda busca o reconhecimento do grande público nacional, seu currículo já fala por si no exterior, com colaborações com gigantes como Eric Clapton, Thundercat e Tyler, The Creator.

A sonoridade de Pedro, uma fusão sofisticada de jazz com a MPB oitentista de Guilherme Arantes e Beto Guedes, preparou o terreno com perfeição. Sua habilidade na guitarra foi um dos pontos altos da noite, não apenas em seu set solo, mas também quando retornou para integrar a banda de apoio de DeMarco, adicionando profundidade e solos pontuais que elevaram as composições do canadense.

Dinâmica de palco e virtuosismo

Ao vivo, as canções de Mac DeMarco ganham camadas que os discos, por vezes propositalmente secos e “desgastados”, não revelam. A banda que o acompanha nesta turnê é de um calibre absurdo: o baixista Daryl Johns esbanjou groove e carisma, enquanto o baterista Phil Melanson trouxe explosões rítmicas que deram um tom mais rock ‘n’ roll ao show.

Mac, sempre bem-humorado, manteve o público na mão. Brincou, fez piadas, plantou bananeira e aceitou presentes dos fãs com a leveza de quem domina o que faz, mas se recusa a levar o “estrelato” a sério. Essa irreverência, somada à competência musical, é o que torna a experiência tão envolvente.

Ao longo de 1h40 de apresentação, o vínculo entre Mac DeMarco e o público paulista foi não apenas reafirmado, mas fortalecido. Entre momentos de improviso, jams e um mar de luzes de celulares, ficou claro que a música indie encontrou em DeMarco um de seus guardiões mais autênticos. Ao se despedir com a promessa de voltar em breve, ele deixou a certeza de que o indie segue pulsando forte e encontrando novos ecos a cada passagem por aqui.