MARCELO ARIEL
Já disse e é sempre bom repetir que a matriz do Brasil ( e de Santos e região) é o escravagismo, que a ditadura por conta do fracasso planejado do sistema cultural educacional durou aqui mais dez anos e seu fantasma está no Poder. Minha pergunta é como as bandas de rock e os músicos em geral se manifestam em tempos sombrios como este que estamos vivendo outra vez?
Existe a armadilha de cairmos na visão binária de esquerda e direita e ficarmos presos no volver a los anos 70 por boa parte desta década do século 21, o século que só começou na tecnologia da comunicação e ainda não deu as caras na política, economia, cultura e educação. O fato é que estamos em uma dobra do tempo, vivendo novamente paradigmas sem a mínima verossimilhança. No rock and roll não é diferente, as bandas soam como as dos anos 60 e 70 lá fora e aqui soam como clones das bandas dos anos 80 e 90.
Realmente no século passado, tivemos alguns acidentes maravilhosos como CABEÇA DINOSSAURO dos Titãs e ROOTS do Sepultura e neste a questão não é a da inexistência de bons discos e boas bandas, mas a inexistência de novos pensamentos e não apenas de novas sonoridades.
Para não ficarmos no muro de lamentações com suas câmeras de insegurança, decidi a partir desta coluna e nas subsequentes, apresentar sempre uma banda nova do Brasil, que na medida do impossível está fazendo coisas surpreendentes.
Vou começar com a banda mineira MADAME ROSE SELÁVY, banda que trafega por uma sonoridade que eles mesmos assinalam como Eletro-frevo-bossa-punk , mas para além destas misturas interessantíssimas, existe uma gama de ideias em seus discos que podemos apontar como ideias de ruptura com o que comumentemente se chamou de cena do rock brasileiro ou da música brasileira em geral.
O MADAME que começou sua trajetória em 2009 com a demo Duchamp C’est La Vie , se tornou uma espécie de almágama sonoro-poética que dialoga com a singing poetry de Vachel Lindsay, as canções de Itamar Asumpção e o Gang Of Four ao mesmo tempo. É uma banda que incorporou em suas apresentações muito da linguagem performática, realizando uma espécie de síntese de variadas tendências poético-musicais dos anos 70 , 90 e se abrindo para conexões com o rap em uma outra chave.
Assim a banda se apresenta em sua página no Facebook: Madame Rrose Sélavy surgiu (2009) a partir de vários estudos com o punk, a música eletrônica e experimental. Todas as gravações foram feitas em casa. Uma mesa de quatro canais e o “Faça Você Mesmo!” como espírito do grupo.
Com experiência em outras áreas da arte, nomeamos a banda com o grande ícone da arte contemporânea: Marcel Duchamp, artista que usou a ironia e o deboche como características em suas obras.
Os compositores cantores e cineastas Dellani Lima e Ana Moravi são os responsáveis pelo início e permanência da banda.