An Evening With Emerson, Lake & Palmer: uma noite de reverência e emoção

Quando soube que An Evening With Emerson, Lake & Palmer chegaria ao Brasil, sob a batuta do lendário Carl Palmer, confesso que a expectativa e a curiosidade foram grandes, pelas características do espetáculo, diferente de tudo que já vi ao vivo. Ao fim da noite de sábado (30), no Teatro Bradesco, em São Paulo, tudo isso foi superado com louvor. O que vi não foi apenas um show de rock progressivo tradicional, nem apenas uma sessão de nostalgia para antigos fãs. Foi uma experiência que exaltou a presença musical do ELP com uma sensibilidade rara, respeitando o passado, tudo na medida certa. Antes mesmo do show começar, o telão já mostrava imagens raras e referências ao supergrupo britânico em séries e filmes, incluindo cenas hilárias protagonizadas por Homer Simpson na série Os Simpsons, cantando trechos da clássica Lucky Man. Já durante o espetáculo, imagens restauradas de Keith Emerson e Greg Lake (ambos falecidos em 2016) em apresentação no histórico Royal Albert Hall, em 1992, eram projetadas em perfeita sincronia com a performance dos músicos ao vivo, criando uma sensação de diálogo entre passado e presente. Ao lado de Carl Palmer, sua ELP Legacy Band, formada pelo talentoso guitarrista Paul Bielatowicz e pelo virtuoso Simon Fitzpatrick no baixo e chapman stick. Ambos tiveram seus momentos de protagonismo, com solos impressionantes. É notável como Bielatowicz consegue reproduzir na guitarra a linha de teclados de Emerson. Quanto ao repertório, só pedradas. Começando com Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2, que de cara já causou grande impacto e uma conexão imediata com o público. Na sequência, Hoedown, Knife-Edge, Pictures at an Exhibition e Benny the Bouncer, essa última com Carl Palmer cantando. Em seguida, o telão exibiu um vídeo de Keith Emerson executando Creole Dance, outro momento marcante do show. Um detalhe: antes de quase todas as músicas, Palmer se levantava da bateria e conversava com o público, contando “causos” e bastidores da faixa que seria executada, com muito bom humor, criando uma atmosfera de cumplicidade entre ele e a plateia. O público também não deixou por menos e por várias vezes se levantou das poltronas para aplaudir de pé o grupo. Voltando ao repertório, vieram a seguir as épicas Tarkus e Trilogy, a linda From the Beginning e Still… You Turn Me On. Depois, a instrumental “O Fortuna”, de Carl Orff, um dos momentos mais aguardados da noite, pois é no meio da execução desse clássico que ocorre o solo de bateria. E que solo! No auge de seus 76 anos, Palmer mostrou que segue em plena forma, com uma técnica e um virtuosismo impressionantes, além de momentos de irreverência, como um “solo de baquetas”. Uma verdadeira aula. A parte final do show teve Tiger in a Spotlight, Paper Blood, Lucky Man (pausa para secar as lágrimas), Fanfare for the Common Man, encerrando a noite com Peter Gunn. Destaque para Fanfare…, momento em que o telão exibe a performance insana de Keith Emerson, que praticamente destrói seu órgão Hammond C3, chegando a ficar em pé sobre ele. Espetacular! Ao fim do show, concluí que o que diferencia “An Evening With Emerson, Lake & Palmer” de alguns outros tributos e revisitações é a presença de propósito. Não havia exagero de produção, nem a tentativa de repetir literalmente aquilo que já foi. O que houve foi uma reconstrução afetiva e respeitosa, guiada por músicos que entendem o valor de cada acorde e cada silêncio. Eram nítidos o carinho, a emoção e o respeito de todos pelo legado do ELP, e de Palmer pelos seus saudosos amigos. Percebi que não havia presenciado apenas um espetáculo musical, havia participado de um encontro inesquecível entre história, lembranças e presente. De certa forma, me senti reconfortado por não ter tido a oportunidade de assistir ao vivo o ELP com sua formação clássica. Deixei o Teatro Bradesco com os olhos marejados e com a sensação de que a obra de Emerson, Lake & Palmer permanece viva e pulsante, exatamente como deve ser.
Mr. Bungle faz show caótico e insano no Cine Joia em São Paulo

A banda Mr. Bungle, liderada por Mike Patton, icônico vocalista do Faith No More, fez uma apresentação solo nesta segunda-feira (26), no Cine Joia, em São Paulo, antes de participar da abertura dos shows do Avenged Sevenfold em Curitiba (28/01) e novamente na capital paulista, no Allianz Parque (31/01), juntamente com A Day To Remember. Por ser uma casa de shows relativamente pequena, foi uma oportunidade única de ver de perto o que podemos chamar de supergrupo. Além de Patton, que por si só já é um espetáculo à parte, somam-se à banda os lendários Scott Ian, guitarrista do Anthrax, e Dave Lombardo, ex-baterista do Slayer. Completam o time dois membros originais do Mr. Bungle – Trey Spruance, guitarrista também com passagem pelo FNM, e o baixista Trevor Dunn, parceiro do vocalista em outros projetos. E falar de Mr. Bungle é falar de caos. Metal, ska, disco, funk, jazz e outros gêneros, tudo junto e misturado de forma imprevisível e experimental. Um retrato da personalidade genial e controversa de Mike Patton. O show atual, porém, é bastante focado nas músicas do pesado álbum The Raging Wrath of the Easter Bunny, de 2020, executado quase na íntegra, com alguns momentos de calmaria. O disco é a regravação da demo de estreia, de 1986, e reflete as raízes thrash metal dos atuais e antigos integrantes da banda. A apresentação começa tranquila, com todos sentados em banquinhos para um cover de Tuyo, de Rodrigo Amarante, tema da série Narcos, seguida pela instrumental Grizzly Adams. Na sequência, começa a pancadaria e as rodas de mosh – sim, mesmo o local sendo pequeno, teve roda durante quase todo o show –, com Anarchy Up Your Anus e Bungle Grind. Depois, um momento singelo (ao estilo Patton), com a execução da balada I’m Not in Love, do 10cc. Eracist, Spreading the Thighs of Death, a clássica Retrovertigo (tocada parcialmente) e State Oppression, cover do Raw Power, vêm em seguida, antecedendo um dos momentos mais marcantes do show, Hypocrites / Habla Español o Muere. Patton adaptou a letra para Speak Portuguese or Die, e finalizou cantando “Fala português ou morre”. A porradaria segue com Glutton for Punishment, USA, cover do Exploited, e Raping Your Mind, até o respiro romântico de Hopelessly Devoted to You, música de John Farrar que ficou conhecida na voz de Olivia Newton-John no filme Grease. My Ass Is on Fire, icônica faixa do álbum homônimo de estreia da banda, inicia a parte final do show, que encerra com Sudden Death, Refuse/Resist, do Sepultura – outro ponto alto da noite, e um cover pra lá de inusitado de All by Myself, de Eric Carmen. O refrão foi adaptado para “Tomar no Cu”, cantado em coro pelo público, todos com o dedo do meio em riste. Que momento! Um fechamento perfeito para um show não muito extenso, de 1h20, mas com todo o caos e insanidade que os fãs esperavam. Vida longa ao Mr. Bungle! Avenged Sevenfold na área e banda de abertura para o Mr. Bungle no Cine Joia Antes de encerrar esta resenha, dois pontos de destaque. Os cinco integrantes do Avenged Sevenfold estavam no Cine Joia assistindo ao show. Em dado momento, Patton brincou dizendo que o público estava no show errado, e que o A7X estava tocando “logo ali”, o que gerou algumas vaias. Rapidamente, o vocalista disse “não façam isso, são nossos amigos”, e pediu palmas, sendo prontamente atendido. Também vale citar a banda que abriu a noite, o duo brasileiro TEST, que faz um death metal experimental. Eles ficaram conhecidos por tocarem do lado de fora de shows e festivais, usando uma Kombi como apoio, fazendo tanto sucesso que acabaram indo parar nos palcos. Destaque para o baterista Barata, que já foi citado por Igor Cavalera como “o melhor baterista do mundo”. Não sei se é o melhor do planeta, mas posso garantir que o cara é absurdamente brutal. Velocidade, técnica, peso… Faz muito tempo que não fico impressionado com um baterista como fiquei com ele! Vale muito conhecer!