Cartas, “Doce de Leite” e show rápido no Sesc: a saga do Rhythm Collision em Santos em 1997

Rhythm Collision em São Paulo, 1997

Se o show do NOFX em 1997 foi o “Big Bang” do hardcore internacional em Santos, a turnê do Rhythm Collision no mesmo ano foi a prova de que a cena poderia andar com as próprias pernas. Foi a materialização do espírito do it yourself (faça você mesmo), orquestrada via correio, sem e-mail, sem GPS e movida a pura paixão pela música. A banda californiana, que vivia um momento especial lançando álbuns pela lendária gravadora Dr. Strange Records, desembarcou no Brasil para uma série de shows que entrariam para a mitologia local. Em Santos, a passagem foi dupla e intensa: uma apresentação “relâmpago” no Sesc Santos e uma data extra no extinto London London. Conexão via carta e o “empurrão” do Fat Mike Tudo começou muito antes da banda pisar no aeroporto. Em uma era pré-internet, a amizade entre João Veloso Jr. (baixista do White Frogs) e Harlan Margolis (vocalista e guitarrista do Rhythm Collision) foi construída à base de selos e paciência. “Eu e o Harlan trocávamos cartas. Você via o endereço das bandas nos encartes, mandava carta pedindo material… O primordial para rolar essa tour foi o conselho do Fat Mike (dado no show do NOFX) que ficou na minha cabeça: ‘Vamos fazer então, vamos ver como é que é isso’”, relembra João. Para viabilizar a vinda, João contou com a parceria da Anorak Produções, que organizava o festival Expo Alternative no Rio de Janeiro. Com as passagens pagas pelo evento carioca, o caminho estava aberto para descer a serra. Sesc Santos: o show do Rhythm Collision contra o relógio A primeira parada santista foi no Sesc. O local estava lotado, cheio de adolescentes e bandas locais como White Frogs, Sonic Sex Panic, além da paulistana Dance of Days no suporte. Mas havia um inimigo invisível: o horário. Harlan Margolis relembra a adrenalina de ter que tocar contra o tempo devido ao rígido toque de recolher do local. “Lembro que, por causa de algum tipo de toque de recolher, tivemos que cortar nosso set. Quando subimos no palco, só tínhamos uns 30 minutos antes do show ter que acabar. Então, queimamos nossas músicas mais rápido que o normal e reduzimos a conversa ao mínimo para encaixar o maior número possível de canções. Lamentamos não ter tocado o set completo, mas nos divertimos muito e o público também”.  Harlan Margolis Revanche no London London Como o show do Sesc deixou um gosto de “quero mais”, uma segunda data foi improvisada no lendário London London, na esquina da Av. Presidente Wilson com a Rua Cásper Líbero, no José Menino. Ali, sem as amarras do horário institucional, a banda pôde mostrar a que veio. João destaca momentos icônicos dessas apresentações, como o cover de She Drives Me Crazy (Fine Young Cannibals). “Todo show eles chamavam meninas para cantar no palco. Naquela época, começando a ter mais meninas em show, não era comum como hoje. Em Santos, uma das meninas que subiu foi a Luiza Sellera”, conta João. Luiza, aliás, guarda com carinho a lembrança do show do Rhythm Collision no bar do Sesc Santos. “Essa parte é a minha lembrança mais vívida daquele show, porque eu estava MORRENDO de vergonha. Até hoje não sei o que me deu pra aceitar o convite de cantar no palco, porque sempre fui muito tímida. Quando a banda explicou que a gente só precisava fazer “uuuh uuuh” de backing vocals, não disse que música era nem nada, e eu só percebi que era Fine Young Cannibals quando veio o primeiro refrão. Apesar da vergonha, foi tudo muito divertido – e, com certeza, um dos shows mais legais que tivemos o privilégio de ver no Sesc na época. Rhythm Collision não era das bandas mais conhecidas da cena, mas encheu a casa mesmo assim. Porque se tinha uma coisa que não faltava em Santos nos anos 90, era público”. O setlist foi todo focado nos álbuns Collision Course (1997) e Clobberer! (1995). Entre os destaques do repertório faixas como Hippie Now, Red Champagne e Bombs For You. O público santista surpreendeu a banda. “Fiquei amarradão em ver pessoas que já conheciam nossas músicas, o que foi uma surpresa. Aparentemente, vários conheciam porque as faixas estavam em trilhas sonoras de filmes de surf”, completa Harlan. Hospedagem do Rhythm Collision na casa dos pais de Jr. e “doce de leite” Sem verba para hotéis, a turnê foi raiz. A banda ficou hospedada na casa dos pais de Jr., em Santos. “Meus pais foram viajar e voltaram mais cedo… encontraram uma banda hospedada lá”, ri o baixista do White Frogs.  A convivência gerou histórias curiosas. O baterista da turnê, Jon Warner (vocalista e guitarrista do Ferd Mert), ficou viciado em uma sobremesa bem brasileira. “Ele ficou tão viciado em doce de leite que depois gravou uma música chamada Doce de Leite quando voltou para os EUA”. Outra curiosidade técnica: o baixista da turnê, Brian Ready (da banda Everready), tocou com o instrumento emprestado de Jr. “Eles eram pessoas muito simples. Não tinha essa de ficar no camarim, eles ficavam no meio da galera vendo os shows de abertura”, ressalta o santista. Caos em SP e a camiseta do Sex Pistols A turnê seguiu para São Paulo, no Alternative Bar. Harlan descreve a viagem de Santos para a Capital como uma odisseia, onde até os locais se perderam, chegando horas atrasados. Mas, quando o show começou, foi catártico. “O clube estava completamente lotado, estilo sardinha, suado, barulhento… Foi uma explosão. Definitivamente um dos shows mais memoráveis da história do Rhythm Collision”, diz Harlan. No fim da noite, uma troca de camisetas selou o espírito da turnê. Harlan usava uma camiseta personalizada escrita “Fuck Your Opinion”. Um fã implorou por ela.“Ele trocou a camiseta das costas dele (Sex Pistols) pela minha. Ambas estavam pingando de suor. Foi o final perfeito para o nosso tempo no Brasil”, finaliza o vocalista. ***Todas as fotos, com exceção do cartaz, são do show em São Paulo, da mesma turnê.

Após 13 anos de estrada, banda santista Surra anuncia hiato por tempo indeterminado

A cena do rock independente brasileiro amanheceu com uma notícia inesperada nesta quarta-feira (18). A banda santista Surra, um dos nomes mais ativos e respeitados do thrashpunk e crossover nacional na última década, anunciou uma pausa em suas atividades. Em comunicado oficial divulgado nas redes sociais, o trio formado por Leeo Mesquita (bateria), Guilherme Elias (guitarra/vocal) e Victor Miranda (baixo/vocal) informou que o Surra entrará em “hiato por tempo indeterminado”. A nota, assinada pelos três integrantes, celebra a trajetória de 13 anos ininterruptos. Segundo a banda, foram exatos 4.840 dias entre o primeiro e o último show, período em que o grupo construiu uma reputação sólida baseada na ética do “faça você mesmo” (DIY), com turnês que percorreram o Brasil e a Europa. “Entregamos tudo o que tínhamos desde o primeiro ensaio da banda: nosso tempo, nossa energia e, principalmente, nossa verdade. Mas chega um momento em que a vida pede silêncio… Pede que a gente reorganize as prioridades”, diz um trecho do comunicado. Conhecidos por apresentações enérgicas, que variavam de grandes palcos de festivais a shows improvisados no chão, e por letras politizadas e diretas, o Surra deixa um legado de discos, EPs e DVDs produzidos de forma colaborativa. No texto de despedida, os músicos enfatizaram que o projeto sempre foi “coletivo e cooperativo”, agradecendo aos fãs e às novas bandas que se espelharam no trabalho do trio. O grupo encerra este ciclo com a hashtag #ripsurra e informou que os últimos materiais de merchandising e discografia continuam disponíveis na loja online oficial da banda com preços promocionais, para os fãs que desejam guardar uma lembrança física desta história. Embora o hiato seja por tempo indeterminado, o Surra finalizou a nota expressando orgulho pelo caminho percorrido: “O que fica são as músicas que marcaram a nossa vida e a de alguns de vocês”. Ver essa foto no Instagram Um post compartilhado por 𝕾𝖀𝕽𝕽𝕬 (@surrathrashpunk)

Thirteen Brotherhood: influenciado por Social Distortion e com dois ótimos álbuns

Se muitas bandas buscam reinventar a roda, a Thirteen Brotherhood prefere acelerar sobre ela. Formada com a proposta de fazer um punk rock direto, pesado e sem frescuras, a banda santista construiu sua reputação baseada na química entre seus integrantes, uma verdadeira irmandade musical. A liderança fica a cargo de Fabiano Rodriguez (vocal e guitarra, ex-Riot 99), figura carimbada do underground local, acompanhado pela bateria precisa de Lucas Buruaem, a guitarra de Amauri Meireles e o baixo de Denys Martins, ambos ex-integrantes do The Bombers. A sonoridade bebe na fonte de clássicos como Social Distortion e Rolling Stones e o rock estradeiro norte-americano, criando uma trilha sonora perfeita para pegar a estrada. A estreia do Thirteen Brotherhood com “End of the Highway” (2016) O primeiro grande marco da banda foi o álbum de estreia, End of the Highway, lançado em 2016. O trabalho foi o cartão de visitas que mostrou a que vieram: riffs gordos, vocais rasgados e uma produção que capturou a energia crua dos ensaios. Faixas como a própria faixa-título e Bad Luck Gambler se tornaram obrigatórias no repertório, consolidando o nome do grupo em casas de show como o Boteco Valongo e festivais da região. Evolução com “Walk the Walk” (2020) Quatro anos depois, a banda provou que não era fogo de palha. O segundo álbum, Walk the Walk (2020), mostrou uma evolução natural. O som ganhou mais corpo e as composições ficaram mais maduras, sem perder a pegada agressiva. O lançamento reafirmou a Thirteen Brotherhood como uma das poucas bandas da região a manter a chama do punk rock tradicional acesa com material autoral consistente. O trabalho mais recente da banda é o EP Worldwide Unknown, de 2023, que conta com quatro faixas autorais e inéditas. Projetos paralelos A inquietude de Fabiano Rodriguez não se resume à banda. Em 2017, quando o baterista Lucas foi morar um ano na Califórnia, Fabiano aproveitou o hiato para lançar seu projeto solo, Riot Rodriguez, focado em uma sonoridade folk punk/country inspirada em Social Distortion e Johnny Cash. Hoje, com dois discos na bagagem e uma estrada sólida, a Thirteen Brotherhood segue como uma referência para quem gosta de rock alto, cerveja gelada e lealdade aos amigos.

Pulp anuncia turnê sul-americana e deixa Brasil de fora

O Pulp, liderado pelo carismático Jarvis Cocker, anunciou mais uma turnê na América Latina em junho de 2026. A má notícia? O Brasil, até o momento, foi ignorado. Sob o slogan “Tú mereces más Pulp!” (“Você merece mais Pulp”), a banda divulgou datas no México, Colômbia, Chile e Argentina. Para os fãs brasileiros, que não veem a banda ao vivo desde a passagem histórica em 2012 (no extinto Via Funchal, em São Paulo), resta a esperança de um anúncio tardio ou a necessidade de planejar uma viagem aos países vizinhos. Rota “ignorada” na turnê do Pulp A banda postou em suas redes sociais: “Vocês pediram, então aqui vamos nós…”. O itinerário confirmado para junho de 2026 é: Há esperança? Analisando a agenda, existe um espaço entre o show de Santiago (dia 8) e Buenos Aires (dia 12), mas a logística seria apertada. A maior esperança reside em uma data após o dia 12 de junho, estendendo a perna da turnê para São Paulo ou Rio de Janeiro antes do retorno à Europa. Vale lembrar que a última vez que o Pulp veio para a América do Sul, em 2023, o Brasil também foi deixado de fora da tour. Recentemente, Travis e The Cardigans anunciaram shows no continente, mas também não incluíram o Brasil na rota. Venda de ingressos Se você não quer contar com a sorte e pretende ver Jarvis cantar Common People e Disco 2000 em terras hermanas, fique atento:

A passagem tempestuosa (e seminal) do Rollins Band por Santos em 1994

Rollins Band

Muito antes da internet facilitar o intercâmbio musical e das turnês internacionais se tornarem rotina no Brasil, a praia do Boqueirão, em Santos, foi palco de um encontro improvável e histórico. Em 5 de fevereiro de 1994, o festival M2000 Summer Concerts reuniu na areia de Santos o hard rock do Mr. Big, o indie rock do The Lemonheads, o fenômeno nacional Raimundos, o pop inocente de Deborah Blando, o peso do Dr Sin e a fúria visceral da Rollins Band. Tudo isso com o testemunho de 180 mil fãs. Para a história da “Califórnia Brasileira”, foi um marco que ajudou a pavimentar a cena local. Mas para Henry Rollins, ex-frontman do Black Flag e ícone do hardcore, a noite foi um misto de dor física, alucinação e um choque de realidade brutal. Anos depois, em um show de stand-up comedy em 2013, Rollins revelou os detalhes sórdidos daquela noite. O que parecia apenas um show com “público frio” revelou-se uma comédia de erros que envolveu ódio gratuito a Evan Dando, um crânio exposto e uma teoria darwiniana que falhou miseravelmente. Rollins Band e a “missão de matar Evan Dando” em Santos A Rollins Band chegava ao Brasil em seu auge técnico. Após a entrada no Lollapalooza de 1991 e o sucesso do álbum The End of Silence (1992), a banda estava prestes a estourar na MTV com o disco Weight. Mas a cabeça de Henry Rollins não estava na música, e sim no ódio ao vocalista do The Lemonheads. Rollins confessou que chegou a Santos com uma missão: “Destruí-lo. Nem vou falar com o Evan quando o vir. Nunca o conheci, mas ele toca aquele tipo de música de garota (…) e as mulheres simplesmente correm atrás dele”. A inveja da atenção feminina que Dando recebia consumia o vocalista da Rollins Band. “Eu olho para esse cara e penso: ‘Você morre hoje à noite. O punho esmagador e inacreditável da Rollins Band vai te transformar em picadinho, seu filho da puta’”, relembrou no stand-up. A ironia? Ao encontrar o “inimigo” nos bastidores da praia santista, a raiva desmoronou. “O Evan é uma das pessoas mais legais que eu já conheci. Um amor de pessoa. Então eu penso: desculpa por ter sido um idiota.” Nocaute: “Eu sinto meu crânio” Sem o inimigo externo, Rollins voltou sua fúria para si mesmo. A banda entrou no palco com a missão de mostrar “suor, músculos e poder do rock”. Mas durou pouco. Logo na primeira música, Low Self Opinion, a intensidade cobrou seu preço. “A banda entra com tudo. Eu ainda não disse uma palavra. Minha cabeça abaixa. Meu joelho subiu. Pá! Me nocauteou na frente de todos eles. Apaguei”, conta Rollins. O relato do vocalista sobre os segundos seguintes é aterrorizante e cômico na mesma medida. Ele apagou em pé por cerca de 20 segundos. Ao acordar, desorientado, ouviu a própria banda tocando como se fosse um som distante e colocou a mão na testa. “Estendo a mão até minha cabeça. Tem um buraco que vai de cima da minha sobrancelha até o fundo da minha sobrancelha (…) Eu enfio a mão e sinto meu crânio. O que eu acho bem legal.” O vocalista do The Lemonheads, Evan Dando, assistiu a tudo da lateral do palco horrorizado. “Sim, me lembro quando Henry (Rollins) bateu no rosto com o próprio joelho e ele estava todo ensanguentado. Íamos jogar uma toalha para ele, mas ele disse ‘não, não, não’. Porque ele era aquela coisa de Alice Cooper. Não sei, ele disse: ‘não, não, não, não quero a toalha, obrigado’. Mas é disso que me lembro principalmente.” Teoria Darwiniana do Rollins Band falha em Santos Com o rosto coberto de sangue e o chão do palco virando um matadouro, Rollins decidiu continuar o show. Não por profissionalismo, mas por uma lógica distorcida de atração sexual. “Na minha mente darwiniana infantil e distorcida, eu acho que as lindas mulheres brasileiras vão ver um cara banhado em luz branca (…) Elas veem sangue. E percebem que esse é o cara (…) Preciso pegar o sêmen de alguém. E imagino ondas de lindas brasileiras, se atropelando umas às outras para chegar até mim”, devaneou o cantor. A realidade da plateia santista, porém, foi o oposto. O público, que já estava frustrado pela ausência de covers do Black Flag e desconhecia as músicas novas e pesadas como Liar e Disconnect, reagiu com repulsa. “A multidão estava se afastando de mim. Não encontrei uma única brasileira em três dias”, lamentou Rollins. “Tudo o que eu fiz foi: ‘Oi, meu nome é Evan, você vai lá para baixo no corredor e entra na fila’. Então não precisei de nenhuma.” Sangue vs. pijamas O show terminou com a Rollins Band tocando músicas inéditas para um público atônito e um vocalista mutilado. A imagem final que Rollins guarda daquela noite no Boqueirão resume perfeitamente o choque de culturas do festival M2000. De um lado, ele: “Me sinto um deus do rock furioso. O sangue escorre pelo meu rosto. Eu só penso: ‘É isso aí’”. Do outro, o “rival” Evan Dando: “A melhor coisa foi ver o Evan sair depois. De pijama. Ele toca de pijama. ‘Oi, eu sou um cara legal’. E eu estou imerso no meu próprio sangue.” Frustração dos fãs com a Rollins Band em Santos Enquanto Rollins sangrava, parte do público sangrava por dentro, mas de decepção. Havia uma expectativa latente de que a banda tocasse clássicos do Black Flag. Marco Casado Lima, fã presente no show, resume o sentimento da “velha guarda” punk que foi à praia naquela noite. “No meu caso era o Rollins Band. As pessoas da cena hardcore até conheciam, mas meu conhecimento se restringia ao álbum End of Silence. Estava lá com a ilusão de ouvir eles tocando músicas do Black Flag.” O setlist, contudo, olhava para o futuro. O repertório ignorou solenemente a antiga banda de Rollins e focou no peso do vindouro álbum Weight. Faixas inéditas para o público, como Civilized, Disconnect

My Chemical Romance transforma Allianz Parque em manicômio gótico para celebrar The Black Parade

My Chemical Romance - São Paulo - 05/02/2026

Esqueça o conceito tradicional de show de estádio. O que se viu na noite desta quinta-feira (5) no Allianz Parque, em São Paulo, foi uma peça de teatro macabra musicada por uma das bandas mais importantes do século 21. Para celebrar os 20 anos de The Black Parade, o My Chemical Romance não se limitou a tocar o disco, eles construíram um universo. Ao entrarem no palco, transformado em uma espécie de sanatório/prisão distópico sob a vigilância de um olho digital gigante, Gerard Way e companhia deixaram claro que a noite seria dividida entre a ficção do “Mundo de Draag” e a realidade crua dos hits. Teatro de The Black Parade Quando o MCR assumiu o palco, o clima pesou. A execução na íntegra do álbum de 2006 foi marcada pela teatralidade. Cada integrante parecia um paciente tomando sua medicação ao entrar em cena. Musicalmente, a sequência é imbatível. De Dead! a Mama, o público cantou cada verso como se fosse uma oração. Mas o destaque foi a narrativa visual. A presença dos personagens “O Cavalheiro” (o boneco de Gerard) e “O Atendente” criou uma tensão constante. >> SAIBA COMO FOI O SHOW DO THE HIVES O clímax desse primeiro ato foi chocante e inverteu a lógica da turnê de 2025. Durante a reprise de The End, numa versão melancólica de piano e violino, Gerard Way não foi a vítima. Em uma reviravolta sangrenta, o vocalista atacou “O Atendente” em uma cama hospitalar. Enquanto Blood tocava, Way encenou a remoção das entranhas do personagem, com sangue jorrando cenograficamente, um Grand Guignol que deixou a plateia boquiaberta. O público vibrou muito com o plot twist.  Hits e a libertação Passada a carnificina teatral, a banda voltou para o “mundo real” no segundo set. Sem o palco B (usado em outras turnês), eles concentraram a energia na estrutura principal para desfilar o legado. A trinca I’m Not Okay (I Promise), Na Na Na e Helena (no encerramento) serviu para lembrar porque eles lotam duas vezes o Allianz Parque em São Paulo. Foi o momento da catarse coletiva, onde a atuação deu lugar à pura energia do rock. A voz de Gerard, exigida ao extremo por mais de duas horas, funcionou bem demais. The World Is Ugly e Cemetery Drive foram as surpresas da segunda parte do show, ambas estrearam na turnê no primeiro show em São Paulo.  O My Chemical Romance em 2026 é uma entidade complexa. Eles conseguem satisfazer a nostalgia dos fãs de Three Cheers for Sweet Revenge enquanto entregam uma performance artística digna de grandes produções da Broadway. O show no Allianz foi visualmente denso, musicalmente impecável e, acima de tudo, corajoso. Em uma era de apresentações pasteurizadas, ver uma banda “estripar” um personagem no palco principal de um estádio é a prova de que o rock ainda pode (e deve) ser perigoso. Edit this setlist | More My Chemical Romance setlists

Para mais um público novo no Brasil, The Hives diverte fãs de My Chemical Romance com show enérgico

Antes do show emocional do My Chemical Romance no Allianz Parque, na noite desta quinta-feira (5), houve a festa. A escolha do The Hives para a abertura foi um acerto perigoso. Durante 50 minutos, os suecos entregaram uma aula de garage rock. O vocalista, Pelle Almqvist, vestido a caráter (como sempre), não parou um segundo. Hits como Hate to Say I Told You So e a explosiva Tick Tick Boom fizeram o estádio pular, algo raro para bandas de abertura. O Hives não sabe se portar como entrada, é sempre o prato principal, deixando a função de sobremesa para o headliner da noite. Vale destacar ainda a presença do novo álbum, The Hives Forever Forever The Hives, que ocupou cinco das 11 faixas do repertório, trazendo muito frescor para quem curtiu o último show no Tokio Marine Hall, em São Paulo, em 2024. Enough is Enough abriu o show, Born a Rebel e Paint a Picture surgiram no início da apresentação, enquanto Legalize Living e a faixa-título vieram na reta final. >> LEIA ENTREVISTA SOBRE AS INFLUÊNCIAS DO THE HIVES Sempre carismático, Pelle Almqvist gastou o português durante a apresentação. Ao ser chamado de “gostoso” pelo público, sorriu e afirmou: “eu gostoso”, em português, arrancando muitos risos e aplausos dos público. O Hives aqueceu o público, mas também elevou a barra de energia lá para o alto. Com Pelle indo ao público algumas vezes e comandando palminhas, o Hives mostrou que consegue se adaptar a qualquer ambiente e público. É impressionante como conseguem conquistar fãs novos com tanta facilidade. Foi a quinta vez que assisti ao Hives e somente em uma delas eles foram a atração única da noite.