Espelho do Zé lança “Último Suspiro”, um blues moderno e cheio de personalidade

O Espelho do Zé abre uma nova fase criativa com “Último Suspiro”, faixa que sucede “Para Aquilo que Sonhei”, “Sapatilha” e “Contradiz” e se firma como uma das interpretações mais intensas da banda. O grupo formado por Mariana Cintra, Gabi Schubsky, Leandro Rodrigo e André Guaxupé mergulha em um blues contemporâneo, urbano e carregado de tensão emocional, distante das amarras tradicionais do gênero. A canção nasce de um processo totalmente coletivo, impulsionado pelo desejo de Mariana de explorar uma atmosfera mais feminina e visceral. Dessa centelha inicial, letra, composição e harmonia fluíram no mesmo espaço criativo, em um terreno onde prazer e dor se encontram na mesma chama. A narrativa acompanha uma mulher sozinha em um quarto de hotel, às voltas com uma despedida que se impõe. Entre um abajur queimado, uma voz embargada e a queda que vira renascimento, o Espelho do Zé constrói um retrato de combustão emocional que transforma perda em liberdade. A faixa integra o EP Reflexo do Amanhã, projeto que consolida a maturidade coletiva da banda e filtra influências de Mutantes, Novos Baianos e Secos & Molhados em uma estética própria. Produzida por Thiago Barromeo e masterizada por Martin Furia, “Último Suspiro” surge pesada, imagética e crua, reafirmando o grupo em seu momento mais contundente e evocativo.

Entrevista | Digo Amazonas e a Multidão – “Fazemos rock com música brasileira”

O primeiro álbum de Digo Amazonas e a Multidão “Qual Brasil?” chega como um manifesto contemporâneo sobre o Brasil, atravessando camadas de história, política, identidade e pertencimento. O artista mistura rock, ritmos brasileiros e influências que vão do punk à Chico Science a Nação Zumbi, criando uma estética que abraça o passado para reinterpretar o presente. O disco nasce como uma viagem pelas contradições brasileiras, um mosaico que revisita 100 anos de cultura, dos ecos modernistas ao caos polarizado dos dias de hoje. No centro do trabalho, aparecem reflexões sobre patriotismo, meio ambiente, tecnologia e o impacto das redes sociais na vida cotidiana. A narrativa costura crítica social, memória histórica e um olhar atento para os movimentos ambientais, políticos e culturais que moldam o país. A intenção de Digo não é oferecer respostas prontas, mas provocar perguntas sobre o que significa ser brasileiro em 2025. E já que é para falar sobre o Brasil, a banda escolheu o Dia da Bandeira (19/11) para lançar o primeiro videoclipe “Qual Brasil”. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Digo Amazonas detalha suas influências, o processo de pesquisa, a presença da inteligência artificial no álbum, o impacto de sua convivência com povos indígenas e como a história continua sendo um fio condutor essencial em sua criação artística. Como você se apresenta para o público que está te descobrindo agora? Onde você se encaixa e quais são suas influências? Cara, eu acho que essa pergunta é boa do jeito que você colocou, porque é sempre difícil ter que se encaixar numa caixinha tão fechada. Eu acho que eu fazemos rock, não tem dúvidas. Nós fazemos rock com música brasileira, rock com ritmos brasileiros, e influências tenho muitas. Sou bem eclético, a rapaziada da banda também, mas a gente fez uma opção nesse álbum de fazer uma fusão de música brasileira, ritmos brasileiros, com punk rock. A gente tem influências muito evidentes, como Nação Zumbi, mas eu diria que fazemos isso de uma forma caindo mais para o punk. Foi o jeito que a gente tentou estruturar o conceito do álbum. Quando ouvi o álbum, senti uma mistura entre Dead Fish e Chico Science. Pô, que honra! No álbum você lida com patriotismo, símbolos nacionais e também faz uma viagem histórica que abrange duas décadas de experiência pessoal. Como você moldou essa visão de Brasil para retratar no disco? Eu tentei fazer uma viagem do Brasil de agora até o Brasil de 100 ou até 500 anos atrás. A inspiração veio no meio do processo, que foi o Manifesto Pau Brasil, que tem exatamente 100 anos. Sempre gostei muito do modernismo e da obra do Oswald de Andrade. Fui percebendo que a polarização daquela época para disputar uma ideia de identidade brasileira tinha muita similaridade com a polarização atual. Claro que não é igual, mas achei esses paralelos muito interessantes. No manifesto, quando ele lançou, surgiu na sequência o verde-amarelismo, que se contrapôs a ele e depois virou um movimento que desembocou num fascismo tupiniquim. Isso me ajudou a entender como fazer essas relações. No álbum, eu vejo que falo muito do Brasil contemporâneo, mas para falar dele, a gente precisa falar da história. Então tem muita pesquisa histórica e também uma parte de sonho. É o Brasil de hoje, de ontem e de amanhã. E o álbum lança essa pergunta: qual é o Brasil que a gente quer? Quando falamos de protesto, muitos pensam só em política. Mas você vai além e traz temas como natureza, meio ambiente e tecnologia. Como esses assuntos entraram no álbum? Falando primeiro de natureza e meio ambiente, isso sempre foi uma coisa que me moveu desde muito jovem. Sempre fui engajado e me envolvi com movimentos ambientais e socioambientais. Acabei de voltar da COP30, em Belém, onde acompanhei ativistas e participei de protestos. Hoje, falar de meio ambiente não é só falar de natureza. Acho que tudo está misturado. Então isso entrou de forma natural e virou quase um tema central do álbum. Os outros temas vieram dessa vivência de todo mundo hoje: a gente é muito grudado nas redes sociais. A questão da inteligência artificial entrou no final das composições, quase durante a gravação, porque é um assunto que está em tudo. Eu trago críticas ao uso excessivo da tecnologia, mas não é uma crítica utópica, como se isso tivesse que acabar. Tanto que fiz uma música com participação de uma inteligência artificial. O desafio foi misturar tudo isso. Teve um momento em que pensei em dividir o álbum em dois EPs, um sobre meio ambiente e outro sobre tecnologia, mas quando fomos fechar o repertório, percebi que cabia tudo na mesma história. Você cita personagens como Brás Cubas, Chico Mendes e autores na construção das letras. Como foi trazer esses elementos históricos, e como enxerga o papel da música nesse sentido hoje? Para mim veio naturalmente porque sou muito apaixonado por história. Eu até queria ter feito faculdade de história. Pesquisa histórica me ajuda a entender o presente. Sempre gostei de citações nas músicas, de trazer camadas que não estão no óbvio. O rap faz isso muito bem. Gosto dessa dinâmica. O próprio Chico Science fazia isso de forma incrível. Ele citava Josué de Castro e falava de fome. Se você vai pesquisar, descobre que ele denunciou a fome no Brasil. A obra tem profundidade. E isso provoca a pessoa a querer saber mais. Na música sobre Chico Mendes, conto literalmente o que aconteceu. A primeira parte é uma entrevista que ele deu antes de morrer, porque sabia que estava sendo perseguido. Eu falo exatamente o que ele fala ali e com o consentimento da família. Depois coloco o áudio de rádio anunciando a morte dele. Gosto de contar essa história. Sobre Brás Cubas, foi uma cereja do bolo no final. O álbum estava pronto e um amigo meu compartilhou a primeira frase do livro. Li de novo e vi que tinha tudo a ver com a música, porque é um eu lírico defunto. Busquei o

Tiny Desk Brasil terá show de Arnaldo Antunes nesta terça-feira

O Tiny Desk Brasil recebe nesta terça-feira Arnaldo Antunes, um dos nomes mais inventivos da música e da poesia nacional, em mais um episódio apresentado pela Heineken. A edição vai ao ar às 11 horas no canal exclusivo do projeto no YouTube e reforça a força do formato no país ao trazer um dos artistas que moldaram o rock brasileiro desde os anos 1980. Antunes chega à mesinha brasileira com repertório que mistura o novo álbum “Novo Mundo” a clássicos como Já Sei Namorar, do trio Tribalistas, e Comida, da sua fase com o Titãs. A performance, registrada no escritório do Google em São Paulo, mantém a essência do Tiny Desk original ao privilegiar a voz sem amplificação e a relação íntima entre músicos e público. No palco compacto, Arnaldo é acompanhado por Vitor Araújo, Curumin, Kiko Dinucci, Betão Aguiar e Chico Salem. O artista conta que ficou inseguro ao cantar sem efeitos, mas celebra o resultado e diz que a experiência permitiu “tocar baixinho e criar um som incrível”. O episódio integra o ciclo apresentado pela Heineken, que movimenta a cena musical com versões exclusivas e redescobertas da música brasileira. Com curadoria da Anonymous Content Brazil e de Amabis, sob o crivo da NPR, o Tiny Desk Brasil segue a tradição de anunciar seus artistas apenas às 9 horas do dia da estreia, sempre com foto e texto da jornalista Lorena Calábria. Os episódios são publicados semanalmente às terças-feiras. Após cada apresentação, os músicos participam do Tiny Talks, bate-papo conduzido por Sarah Oliveira. A edição brasileira marca apenas o terceiro país do mundo a ter uma versão oficial do Tiny Desk, reforçando o impacto global do formato.

Entrevista | Lagum – “Foi a nossa maior estreia da história”

O Lagum voltou a Santos nesta sexta (21) para o lançamento do último álbum As cores, as curvas e as dores do mundo em grande estilo no Arena Club. Soldout de ingressos e muitos fãs ansiosos para conferir de perto a mistura de reggae e pop rock promovida pela banda. Com o “jogo ganho”, eles subiram ao palco e recebeu uma plateia jovem e animada que cantou todas as músicas, do início ao fim. Eles abriram a noite com “Eterno Agora” e dividiram o show em quatro blocos. Entre eles, o vocalista Pedro Calais fez declarações de amor à Santos, elogiando o por do sol, falando sobre a praia e até mesmo pedindo indicações de onde alugar uma prancha às 7 de manhã no dia seguinte. Em entrevista ao Blog N’ Roll antes do show, o Lagum falou como foi voltar a tocar em estádio e a repercussão do álbum “As cores, as curvas e as dores do mundo”, feito sem gravadora e totalmente independente. Seis meses após o lançamento do álbum novo, que foi uma produção independente, já dá para ver os resultados? Vocês atingiram os objetivos desejados? Pedro Calais – Com certeza. Acho que foi até um pouco acima da expectativa. A gente vinha trabalhando com gravadora há muitos anos e não sabia o que esperar fazendo algo independente. Para nossa surpresa, foi a nossa maior estreia da história. Conseguimos fazer um trabalho muito legal de divulgação que fugia do óbvio. Por exemplo, espalhamos dez fitas das dez músicas inéditas por dez cidades diferentes. Fizemos visuais muito legais e do jeito que a gente gosta, botando a mão na massa, quebrando a cabeça de maneira criativa. Tivemos os melhores resultados de estreia da nossa história e isso foi muito surpreendente. Algumas músicas viralizaram no TikTok, algo que a gente não esperava. Até aqui, tem sido uma experiência muito legal. Esses seis meses também culminaram com a abertura do show internacional do Imagine Dragons. Como foi para vocês tocar no Morumbis? Pedro Calais – Para mim foi uma experiência muito diferente tocar em um estádio. A gente já tinha tocado em 2019 abrindo para o Shawn Mendes, mas dessa vez foi muito louco, porque eu já tinha esquecido qual era a sensação. Quando você toca em estádio, você não tem side, não tem resposta imediata do público. O público está a muitos metros de distância. Hoje vocês vão ver nosso show com o público coladinho, gritando, com aquela sonzeira em cima do palco. Entregar um show de estádio é muito diferente. Me vi conectando com as músicas de outra maneira, ouvindo mais as letras que eu estava cantando, tentando entrosar com a banda mais pelo olhar e pelo som técnico. Foi uma entrega muito diferente, mas ao mesmo tempo muito emocionante visualmente. Chegar na frente de 60 mil pessoas, como no primeiro dia em São Paulo, e pedir para a galera acender a luz, e todo mundo acender, faz você se sentir poderoso e ao mesmo tempo dá um impulso no sonho. Você pensa: eu posso chegar aqui, bandas chegam aqui. E como o Jorge diz, lugar de banda é no estádio. Isso alimenta a nossa vontade.

Entrevista | Black Pantera – “O Circo Voador tem uma aura diferente”

O Black Pantera fez sua estreia em Santos e só este fato já seria histórico. Porém, quis o destino que a data coincidisse com o feriado do Dia da Consciência Negra (20) e eles fechariam a noite do Santos Festival Geek, no palco principal, logo após um bate papo com o Zack Taylor, eterno Power Ranger Preto. A banda teve problemas no aeroporto, vindo do Rio de Janeiro depois da histórica gravação do show no Circo Voador. Mesmo chegando em Santos com atraso, o power trio subiu ao palco, sem roadies, e passou o som. Ao vê-los, o público puxou o coro de Fogo nos Racistas, dando um spoiler do que seria a noite. “Nem começamos ainda”, Chaene (baixista) falou incrédulo. O show foi explosivo com as interações que a banda promove nos últimos anos, como a “roda das minas” e um momento em que o público todo se agacha e pula para puxar o refrão Fogo nos Racistas. Além das canções da banda, um cover de Carne Negra, de Elza Soares, emocionou o público. Coube ainda um improvisado trecho de Negro Drama dos Racionais MC’s. O Blog N’ Roll conversou com a banda após o show para saber sobre a sensação do show histórico e da gravação do show no Circo Voador na noite anterior. Hoje foi um dia histórico, com passagem de som e a galera toda gritando “fogo nos racistas”. Como é pra vocês tocar na Consciência Negra, ver esse movimento e perceber que a mensagem da banda está fazendo sentido para o público? Chane – Cara, foi doido porque a gente estava passando som e a galera já tava pilhada ali. Hoje teve uns atrasos por conta de aeroporto, por causa de voo que teve que descer em outro lugar. Mas a gente tinha noção de que seria legal. Você pode ver que tinha uma molecada nova aqui. Isso é foda, porque é transformador. Você vê que a banda tá atingindo um público de renovação. Então, é uma honra pra gente. A gente fica realmente impactado e muito feliz, com certeza. Para quem não estava no Rio de Janeiro, no Circo Voador, como foi a gravação do trabalho audiovisual? Pancho – Cara, foi simplesmente surreal, de verdade. Em 11 anos de Black Pantera, aquele público do Rio de Janeiro estava extremamente conectado com a banda. Cantando todas as músicas da primeira à última. Teve mosh, apareceu até o Pikachu lá no meio do rolê. Foi a realização de um sonho. Desde moleque, a gente vê várias gravações icônicas no Circo Voador. É uma casa histórica, não só pro Rio de Janeiro, mas pro Brasil. Por isso que a gente escolheu lá. Tem uma aura diferente. Foi o nosso quarto show lá, mas o primeiro que a gente não teve que abrir o show de alguém. É o primeiro show do Black Pantera. Foi a realização de um sonho. Estamos de almas lavadas, de verdade. Já sabem qual é o prazo para o lançamento? Chane – A gente ainda não tem ao certo. Acho que daqui uma semana a gente deve divulgar mais ou menos. Vamos fazer uma reunião com o pessoal da gravadora. Será que sai este ano? Pancho – Acho que é ano que vem. Chane – Eu queria que fosse especial de fim de ano, réveillon, mas deve ser ano que vem. Mas vai valer a pena. Foram 18 câmeras, uma equipe gigantesca gravando. Vai ficar lindo. Imagina a edição disso. Foi uma hora e vinte de catarse, foi histórico. Vocês vão ver quando sair. Esses foram os melhores shows da nossa vida, de verdade.

Entrevista | T.S.O.L. – “Eu praticamente garanto que será o último show no Brasil”

São Paulo recebe no dia 29 de novembro a força de duas lendas do punk californiano. T.S.O.L. e Adolescents dividem o palco do Cine Joia na primeira edição paulista do Rockside, festival que nasce com a proposta de celebrar o rock em suas vertentes mais pesadas. A noite marca o retorno de dois nomes essenciais da cena mundial, ambos influentes há mais de quatro décadas. Porém, para tristeza de muitos, será o último show do T.S.O.L. no Brasil. Formado no início dos anos 1980, em Long Beach, a banda, cujo nome são as iniciais de True Sounds of Liberty, se tornou uma referência singular por unir punk, death rock e hardcore. Liderada pelo vocalista Jack Grisham, a banda atravessou diferentes fases, mudanças de formação e crises internas, mas manteve sua relevância artística. Em 2024, o grupo lançou o álbum A-Side Graffiti, reafirmando sua vitalidade e a capacidade de transitar entre novas composições e releituras de clássicos. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista do T.S.O.L., Jack Grisham, relembrou a última passagem pelo Brasil, falou sobre a energia do público brasileiro, comentou o processo criativo do álbum A-Side Graffiti, abordou o legado da banda e revelou que a turnê atual pode ser a última visita ao país. Você está feliz em voltar ao Brasil? A última vez que você esteve aqui foi em 2013… Certo. Durante as revoltas perto da Copa. Você lembra? Eles levavam o dinheiro no ônibus, haviam protestos em todo o país porque todos os senadores recebiam pagamentos, mas as pessoas tinham que arcar com isso. Ninguém estava feliz com aquilo. Sim, foi ano da Copa das Conferações. Depois a Dilma foi reeleita e, logo depois, aconteceu o impeachment. Mas, vamos falar de coisas boas, que lembranças dessa passagem você guarda? Acho que não foi tanto o show, mas sim as pessoas. Havia um sentimento diferente. Acho que a América (do Norte) é muito tensa. As pessoas são muito tensas com as emoções. São reservadas, exceto pela raiva. No Brasil, tudo era mais leve, mais emocional. Eu gosto de emoções. Minhas melhores lembranças foram a gentileza, o amor e a emoção das pessoas. Havia um coração genuíno, algo que você não vê tanto na América. É, a nossa América do Sul tem algo especial mesmo… Sim. E é real. As emoções estão expostas e não escondidas. Se gostam de você, dizem. É caloroso, gentil. Eu realmente gostei da última vez. O Brasil sempre teve uma cena punk ativa. Algum momento específico ou encontro te marcou? Eu conheço muitos brasileiros porque surfo há muito tempo. Sou fã de surfe. O Yago Dora, que ganhou o campeonato, estava parado perto de onde eu estava hospedado. Eu o vi, gritei da janela do carro. Foi divertido. E, claro, às vezes você sai do show e tem um ônibus queimando na rua (risos). Mas nada que tenha sido ruim. Na verdade, quando não lembro de nada negativo, significa que foi bom. Que praia você conheceu aqui? Florianópolis. Eu amei. Moro perto do oceano aqui na Califórnia, então estar lá foi ótimo. Em São Paulo a praia é longe, mas há várias famosas no litoral. Foi aqui que foi revelado o Medina, por exemplo. Sim, eu sabia que não estava perto, infelizmente. Já fazem 12 anos desde sua última vinda. Quais mudanças no setlist o público brasileiro pode esperar? Fizemos outros discos desde então. O Trigger Complex e o A-Side Graffiti. Tocamos músicas desses trabalhos. Nosso set cobre toda nossa trajetória. Às vezes as pessoas ficam chateadas porque não tocamos músicas da época em que o Joe Wood cantava, mas naquela fase não havia nenhum membro original na banda. Você viu o filme Ignore Heroes? Havia dois T.S.O.L. ao mesmo tempo: o nosso, com os membros originais, e outro sem nenhum integrante original. No álbum A-Side Graffiti há músicas novas, interpretações e covers. Como surgiu essa ideia? Para mim, um álbum deve ser ouvido do começo ao fim, como um livro. Trigger Complex foi assim. Mas A-Side Graffiti é diferente, é como um mural de grafite. Uma coleção de ideias. Fizemos covers do Rocky Horror Picture Show, de Bowie, experimentamos coisas. Estávamos apenas vendo até onde poderíamos ir. Foi interessante. Como foi a experiência da colaboração com o Keith Morris no álbum? Bem, o Keith me pagou (risos). Eu o conheço desde o Black Flag original, quando ele cantava. É o meu favorito. Depois ele foi para o Circle Jerks. Somos amigos há muito tempo. Já participei de vídeos da banda dele, o Off!. Quando fizemos Sweet Transvestite, pensei que ele seria perfeito. Liguei para ele e disse que precisava dele. Ele veio na hora. Foi ótimo. Como você equilibra respeitar as versões antigas e tocar com a identidade atual? Nós soamos praticamente como antes. Já vi bandas mudarem suas músicas a ponto de você nem reconhecê-las. Eu não acredito nisso. Quero preservar o sentimento original. Não posso ouvir a bateria sem pensar no nosso baterista que morreu. Quando tocamos, penso muito nisso. Estou fazendo isso há 46 anos. Já toquei para gerações diferentes. Hoje há jovens que me viram na rua e não sabiam que eu era o mesmo Jack do palco. É engraçado. Você falou em gerações, como você vê a importância do seu legado? Seria muito orgulhoso dizer que sou importante ou influente. Se deixei alguma influência, espero que tenha sido pela amizade e bondade, por ser acessível às bandas jovens, por ajudar. Essa seria a influência que eu gostaria de ter. Você vê seu legado mais forte no punk rock, death rock ou hardcore? Acho que no fato de termos feito tudo. Nunca escolhemos um som só. Sempre mudamos, experimentamos. Nosso primeiro disco é considerado o primeiro registro de death rock dos EUA, antes dos Misfits. Sempre tentamos coisas novas, e esse seria um bom legado. Sua banda sempre teve engajamento político e social. Você costuma estudar o cenário político dos países que visita? Eu estudava mais. Hoje é difícil saber de onde vem a informação. É

Entrevista | Mute – “Espero ir em algum samba quando tocarmos no Rio”

A maior edição da história da We Are One Tour desembarca no Brasil em março de 2026 com Pennywise, Millencolin e a canadense Mute. O festival passa por Porto Alegre, Florianópolis, Curitiba, São Paulo e Rio de Janeiro, celebrando o punk rock e o hardcore melódico com alguns dos nomes mais relevantes do gênero. Formada em Québec em 1998, a Mute consolidou uma identidade única ao mesclar velocidade, técnica instrumental e refrões melódicos. Reconhecida no skate punk e no hardcore melódico, a banda mantém uma base fiel de seguidores no Brasil, país que visita desde 2011. Ao longo dos anos, fortaleceu laços com o público e com a Solid Music Entertainment, tornando o país uma de suas paradas mais energéticas e constantes. Mesmo após um período de pausa em 2024 por questões de saúde, o grupo retorna com força total para a We Are One Tour 2026. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o baterista do Mute, Étienne Dionne, relembra as primeiras passagens pelo país, comenta a forte conexão com o público brasileiro e sobre o momento atual da banda. O que você mais lembra da sua última visita ao Brasil? Nossa última visita ao Brasil foi logo após a Covid, dois anos atrás. Foi nossa primeira turnê na frente de pessoas reais depois de um tempo, então estávamos muito empolgados para voltar à estrada. Lembro que toda a banda estava animada por estar de volta ao palco e o público estava muito animado por ver uma banda ao vivo novamente. Mas ainda estávamos com medo naquele momento, então usávamos máscaras antes e depois dos shows. Tocávamos e íamos embora o mais cedo possível porque não queríamos pegar Covid e ficar presos em outro país. Estávamos em turnê pelo Brasil, Chile, Peru, México e Colômbia. Agora as coisas serão diferentes. Você conhece muito bem o público brasileiro. Por que acha que eles se identificaram tanto com o Mute? Este ano celebramos nosso 15º aniversário de turnês pelo Brasil e América do Sul. Começamos em 2011. A América do Sul, em geral, gosta de hardcore melódico, como vocês chamam, ou punk rock. O Brasil sempre foi um ótimo público para nós e as pessoas são muito energéticas nos shows. Fizemos amigos, bons contatos e construímos uma relação forte com a Solid Music Entertainment desde o início. Não é só ética de trabalho, é amizade. Nós aparecemos, estamos no horário e amamos o que fazemos, e acho que os produtores veem isso. Você tem algum momento favorito no Brasil? Acho que esse momento ainda vai acontecer. Já fizemos ótimos shows e conhecemos pessoas incríveis. Não é apenas sobre os shows, é sobre as amizades e voltar para ver essas pessoas. Será divertido rever velhos amigos, será divertido estar no Brasil e tenho certeza de que os shows serão épicos. Quem comprou ingresso vai ter o momento da vida. Não percam tempo porque alguns shows já estão esgotando. É a primeira, e talvez, a última vez para ver Mute, Pennywise e Millencolin juntos. O que mais empolga vocês em sair em turnê com Millencolin e Pennywise? Gostamos muito das duas bandas. Já tocamos com elas antes, mas nunca fizemos turnê juntos. Será empolgante ter um lineup tão forte. A primeira vez que fizemos a We Are One Tour foi com o Lagwagon anos atrás, com Belvedere e Adrenalized, e foi ótimo. Desta vez, com dois grandes headliners, os shows serão maiores. Será divertido vê-los ao vivo e voltar ao Brasil, Argentina e Chile. Você lembra de algo sobre Santos, minha cidade? Claro. Na nossa primeira turnê, em 2011, tocamos em Santos. Era nossa primeira vez no Brasil, então não sabíamos o que esperar. O show foi insano e tenho ótimas lembranças. As pessoas estavam enlouquecidas e lembro de um cara de cartola com uma garrafa enorme. Ficamos bêbados depois do show. Boas memórias. Santos não é longe de São Paulo, então talvez vejamos pessoas de Santos no show da Capital. Com certeza teremos caravana para o show. Infelizmente agora aqui fomos de Califórnia brasileira para domínio de pagode e sertanejo. É, eu gosto bastante de samba. Espero ir em algum samba quando tocarmos no Rio de Janeiro. Vocês têm hábitos ou momentos de lazer favoritos durante turnês no Brasil? Lembrei de uma história, da nossa primeira vez no Brasil. Chegamos todos de shorts e camiseta achando que sempre seria quente. Era inverno e não estávamos preparados. Isso foi engraçado. Fizemos muitas turnês no país e muitas coisas engraçadas aconteceram. Também passei um tempo no Rio antes de uma turnê, cheguei dez dias antes e tirei férias lá. O Brasil é enorme e há muito o que ver. Nunca fui ao norte, mas deveria ir. O mais ao norte que fui foi Goiânia. O Mute está ativo desde os anos 90. Qual foi o maior ponto de virada da banda? Depois de dez anos como banda, ganhamos um concurso no Canadá. O prêmio era uma viagem à Europa para tocar em um festival na França. Pensamos que, já que iríamos para lá, deveríamos marcar uma turnê completa, então agendamos 27 shows em 25 dias em 11 países. Esse foi um ponto de virada. Tocávamos localmente havia anos, mas ir para outro continente reacendeu a chama. Depois disso decidimos gravar outro álbum, que foi o Thunderblast. E logo o Thunderblast, um clássico. Ele é o álbum que mais define o Mute? Isso é como perguntar se você tem um filho favorito. Não são os primeiros álbuns, com certeza. Eu diria os últimos três. Trabalhamos muito neles e nosso som estava mais preciso. Na demo e no primeiro álbum ainda estávamos nos encontrando musical e liricamente. Nos últimos três sabíamos o que queríamos. Sempre levamos cerca de quatro anos entre os álbuns e só gravamos o que realmente gostamos. Você é conhecido como baterista tanto pela velocidade, quanto pela precisão técnica. Como desenvolveram essa combinação? Ouvindo outras bandas e encontrando o meu caminho. A velocidade foi o que eu amei quando era adolescente e estava

Entrevista | Undo – “Queremos uma música que comunique e que traga de volta a força para canção e letra.”

Liderada por Andre Frateschi, atual vocalista de turnê da Legião Urbana, o Undo chega ao álbum de estreia movida por uma mistura de inquietação e maturidade artística. Formado por músicos profundamente ligados ao rock nacional, o quinteto abraça uma estética que recupera a força do post-punk e da new wave dos anos 80 sem abrir mão de um olhar contemporâneo. O resultado é um trabalho que assume identidade própria ao unir atmosferas sombrias, melodias marcantes e letras que exploram os conflitos e as reconstruções possíveis do dia a dia. Fazem parte da banda também Rafael Mimi e Johnny Monster nas guitarras, Rafael Garga na bateria e Dudinha Lima no baixo e na produção. Para quem ainda não conhece o Undo, a banda vai agradar em cheio fãs de bandas como Joy Division e The Cure, bem como uma nova geração que busca por sons radiofônicos de rock alternativo. O disco, autointitulado, apresenta um conjunto de faixas que reforça a versatilidade da banda, indo do lirismo elétrico de “Músculo Novo do Medo” às frenéticas camadas de “Kill Billy”, parceria com Dado Villa-Lobos. Entre singles já conhecidos e composições inéditas, o álbum revela uma banda segura de suas referências e, ao mesmo tempo, determinada a propor novos caminhos dentro do rock brasileiro. Agora, no lançamento desse trabalho que consolida a formação e o conceito do Undo, a banda conversou com o Blog N’Roll sobre criação, influências e o processo de dar forma a esse universo sonoro. A sonoridade de vocês tem ligação com os anos 80, mas com um olhar atual, principalmente do cenário indie americano e inglês. Que referências vocês buscaram para equilibrar essa essência dos anos 80 com elementos mais novos? André – Acho que nada foi buscado de forma deliberada. As referências estão ali porque fazem parte da nossa origem, mas, ao mesmo tempo, somos muito inquietos e estamos sempre olhando para o que está sendo produzido hoje no mundo. Não sentamos nas referências antigas achando que já basta. Se fosse assim, não estaríamos fazendo uma banda agora. A vontade é experimentar coisas diferentes e chamar atenção para o que achamos importante: a canção e as letras, que parecem estar um pouco diluídas. Muita gente produz coisas interessantes, mas no mainstream as letras e melodias perderam importância, e pra gente isso é essencial. A banda nasce dessa vontade de fazer música relevante, que comunique com mais pessoas, não apenas com uma bolha indie. Se vamos conseguir, não sei, mas é sincero. Queremos uma música que comunique e que traga de volta a força para canção e letra. Sobre o nome da banda: no primeiro momento a gente lembra de algo ligado a recomeçar, desfazer, até mesmo o atalho Ctrl+Z do teclado. Como o nome surgiu e como vocês bateram o martelo? André – Isso aconteceu no primeiro dia em que nos juntamos. Eu convidei o Oscar e o Johnny, estávamos na casa do Flávio, nosso produtor. O Mimi também estava. Falamos sobre montar a banda e começar a pensar em nomes. Três minutos depois me veio “Undo”. E pensei: Undo também é como um mundo faltando um pedaço, o M já caiu, já está lá embaixo na ribanceira, sobrou só o M. O nome bateu em todo mundo de primeira, o que é raro. Todo mundo falou “é isso”. Hoje gostamos de falar abrasileirado, para facilitar o entendimento e para reforçar essa imagem do mundo despedaçado. E assim viramos Undo. Mimi – A outra opção era Arquitetos da Indonésia. Brincadeira (risos), não tinha nome nenhum. No álbum já era esperada uma participação do Dado, que é seu parceiro, André, nos últimos anos. Também tem o Leoni. Como foram os bastidores das gravações com eles? Eles trouxeram ideias, chegaram com algo pronto? Johnny – Foi bem natural. O Dado já tinha relação com o André. Ele não esteve no estúdio com a gente, gravou no próprio estúdio e mandou. O riff que ele apresentou era muito bom, é o da música “Kill Billy”. Mantivemos o riff, mas repaginamos a música para a nossa cara. Ele adorou o resultado e já tocou com a gente algumas vezes. O Leoni foi mais íntimo, porque temos um projeto chamado Hospitais, com apresentações em hospitais. Ele conheceu a banda, adorou e fez uma letra com o André, além da música do Mimi. Lembro de um dos dias mais bonitos da banda, na casa dele, quando mostrou o que preparou para “Aprender a Perder”. Ficamos emocionados. Ele é um gigante da composição pop brasileira, então são participações de muito peso. O Leoni brinca que “se convidou”, que ninguém chamou. Quando fazíamos o trabalho nos hospitais, falávamos da banda e ele dizia “me manda, quero fazer algo com vocês”. Achei que ele estava falando só por falar, mas ele sempre foi presente e importante. Foi o primeiro a dar um selo dizendo “o trabalho de vocês é bom, sigam nisso”. Para nós, ele é muito querido. A banda é formada por músicos experientes, cada um com sua bagagem. Como foi o processo criativo? Foi natural ou teve disputa de direcionamento? Mimi – Foi super tranquilo, sem briga nenhuma. Começamos com um núcleo menor e as coisas fluíam naturalmente, sem foco rígido de “vamos pra cá”. Tinha ideias minhas, do Johnny, o André trouxe várias letras, e formamos aquele primeiro núcleo. Depois chegou o Dudinha para produzir, com ouvidos frescos, e deu um novo ar ao material. Depois veio o Garga também com ideias. Tudo muito respeitoso. Fazer música é confiar no outro e deixar que ele coloque suas referências. A música nacional sempre teve grandes movimentos, temos o rock de Brasília, a mistura dos anos 90, depois o emo nos anos 2000. Hoje há uma cena indie forte que tem sonoridade semelhante à de vocês, que remete a um post punk e anos 80. Como enxergam essa galera nova trazendo esse som e como vocês se encaixam num futuro próximo de shows? Johnny – Não sei se nos encaixamos exatamente nessa cena, até pela nossa

Flowers celebra o hype do metal moderno do The Devil Wears Prada

Flowers, o nono álbum do The Devil Wears Prada, chega como uma obra dividida entre ambição e hesitação. A banda de Dayton tenta expandir seus limites e evitar a repetição, num momento que o próprio vocalista Mike Hranica define como determinante. Em conversa com o Blog N’ Roll, ele descreveu essa fase com clareza: “Eu digo que é um momento crucial. As músicas que tocávamos da última vez eram diferentes do que estamos fazendo agora com a fase Color Decay. Estou bem animado que as pessoas vão ver nossa evolução em relação às músicas antigas.” A abertura com “That Same Place” e “Where the Flowers Never Grow” aposta em arranjos mais sofisticados, misturando orquestrações discretas com o peso tradicional do grupo. “The Silence” aponta para um território mais pop, e essa guinada funciona pela naturalidade. Há um senso de maturidade na produção de Zakk Cervini, que alterna brilho e imperfeições de forma consciente. São os momentos em que a banda realmente arrisca que o disco encontra seu melhor terreno. Nem sempre, porém, essa ambição se mantém firme. Em vários trechos, letras e melodias parecem menos inspiradas do que deveriam, como se a banda tentasse agradar em vez de surpreender. A própria dinâmica de composição, hoje mais fragmentada, ajuda a explicar parte disso. Hranica comentou que o processo mudou radicalmente: “Hoje nas músicas a gente trabalha com vários produtores e compositores diferentes. Nós pegamos um voo para Los Angeles e vemos um monte de amplificadores e baterias numa sala. Você vai, improvisa, refina. Agora tudo é produzido dentro de um estúdio.” Ele destacou ainda como a tecnologia redefiniu completamente a criação musical. “Falando sobre tecnologia, dá para ter experiências de estar em um estúdio sem estar em um estúdio, usando um macbook. Isso permite que a gente se conecte remotamente para criar os nossos álbuns.” Entre as faixas centrais, “For You” se destaca pelo teor emocional direto. Hranica explicou que a música nasce de um lugar amargo: “Certamente não é uma música de amor feliz, mas conta sobre a história de uma relação que não deu certo, onde um lado não fez sua parte tão bem para tudo funcionar.” Esse tipo de vulnerabilidade é uma das forças de Flowers, que oscila entre romantismo disfuncional, frustração e a busca por reconstrução. Flowers é um álbum de transição. Carrega lampejos de energia, boas ideias e momentos em que a banda parece pronta para uma nova fase. Também traz escolhas conservadoras que impedem o disco de atingir o impacto que poderia. Para quem acompanha a faceta mais melódica e acessível do The Devil Wears Prada, o resultado deve agradar. Para quem mira o peso do início, pode soar melódico demais. No fim, é um capítulo importante na trajetória da banda e que celebra esta nova fase. Ouça Flowers, do The Devil Wears Prada