Dead Fish: por que o álbum “Afasia” é um viajante do tempo?

Afasia é, sem dúvidas, um marco não apenas na carreira do Dead Fish, mas considero (humildemente) um marco na música brasileira, por ter uma sonoridade singular e temas que me pego pensando até hoje. Mas, antes de falar sobre os sons que irei mencionar, queria destrinchar um pouco dessa fase da banda, da qual tive meu primeiro contato com a banda. Na falecida MTV Brasil havia um programa que passava nas tardes de domingo, antes do Top 20 Brasil. Esse programa era o Toca Aí, no qual algumas pessoas pediam clipes específicos para se passar nessa faixa. Em um desses programas eram feitos especiais com músicos que bancavam os VJs por alguns minutos, e em uma dessas, o convidado foi o saudoso Marginal Alado, Alexandre Magno Abrão, mais conhecido como o Chorão do Charlie Brown Jr. Não achei o programa que Chorão participava, mas, na oportunidade, o cara escolheu Too Much Pressure do Selecter, War Inside My Head do Suicidal Tendencies, Big Pimpin’ de Jay-Z e uma tal banda capixaba chamada Dead Fish, com Proprietários do Terceiro Mundo. O clipe fazia um paralelo de como o capitalismo coloca o trabalhador em uma situação totalmente utilitarista e animais como tendo o significado de sua vida apenas para servir como alimento. E óbvio, eu, aos meus 10 anos de idade, nunca fiz essa reflexão. Mas o que me chamou a atenção foi um tipo de som que eu nunca tinha escutado, com uma voz vinda de uma garganta rasgada cheia de areia gritando palavras de liberdade, das quais eu não conseguia compreender muito bem do que se tratava. Meses depois, eu de bobeira no meu sofá mais uma vez, sintonizado no também saudoso Musikaos de Gastão Moreira, dei de cara com Rodrigo e sua trupe mais uma vez, dessa vez tocando Afasia, Noite e Sonho Médio. O que me gerou estranheza e uma pulga atrás da orelha sobre qual tipo de som o Dead Fish tocava, já que, na minha arrogância e pretensão de pré-adolescente, o tal do hardcore era Bad Religion, NOFX, Pennywise, e não tinha nada a ver com aquilo. Bom, mal sabia o pequeno Willian Portugal que aquelas quebras de tempo propositalmente marcadas pela bateria, o baixo groovado e as guitarras bizarramente distorcidas seriam o que justamente fariam aquela fase do Dead Fish ser uma das suas preferidas. Afasia, um álbum do Dead Fish viajante do tempo Anos mais tarde, logo depois do lançamento de seu sucessor, Zero e Um, fui atrás de adquirir Afasia e percebi o ponto fora da curva que essa obra foi do restante do que a banda produziu tanto antes quanto depois. Mas só recentemente fui perceber como o disco azul é um viajante do tempo, e não apenas por como soa, mas sim pelas letras compostas por Rodrigo Lima no alto dos seus 28 anos e seu poder de identificação contemporâneo. É claro que a já citada Proprietários confronta o estigma neocolonizador que nos rodeava desde sempre, naquela época, mas nos assombra principalmente nos dias de hoje. Tango, uma ode à luta e resistência feminista, e outras músicas desse LP são queridas e lembradas por grande parte do público até os dias de hoje, como Viver, Noite, Me Ensina, Iceberg e a própria faixa título. Mas gostaria de exaltar três que quase nunca são lembradas e dar razões do porquê deveriam ser. E claro, todas essas interpretações são MINHAS, o que pode ser totalmente equivocado e diferente da intenção final de quem compôs hahaha. Revólver: A previsão do “cidadão de bem” Começando: Revólver. Essa faixa é muito interessante por mostrar uma decepção política disfarçada pelo seu ritmo. Em um hardcore “tupá tupá” no melhor estilo Face To Face, a letra mostra o passo a passo de como a educação neoliberal influencia a classe média a acreditar em suas falácias individualistas, de que um bom emprego e os bens materiais provenientes dele te fazem acreditar que o problema não é você e a classe à qual você pertence. E mais: quem aí teve um amigo que cresceu ouvindo Dead Fish com você e se tornou um adulto apático, despolitizado, isso se não debandou para uns pensamentos MBL das ideias? Pois é… “Este poder jovem te tornará senil e destruirá tudo de bom que já existiu. Um homem morto aos 30, em uma boa posição. Este é você!” Teria Rodrigo previsto o punk de direita lá em 2001? Foto: Fred Bell Maya Reprogresso, a preservação da memória Continuando, agora seguiremos com Reprogresso. Quando ouvi o álbum pela primeira vez, não gostei dessa música, francamente. É uma música “difícil” de se escutar. Arrastada, “turva”. Mas, como os mais velhos dizem, “quando você for mais velho, você vai entender”. E entendi. Aqui, Rodrigo fala de uma Vitória da qual ele não reconhece mais, muito diferente daquela que ele conheceu quando era mais jovem. E não se trata de saudosismo barato, é sobre preservação da memória. Fui criado na Vila Vivaldi, no bairro de Rudge Ramos, em uma casa na Rua Antônio Simões. Era uma casa de muro baixo, chão de ladrilhos, um pequeno canteiro com algumas plantas, quintal enorme que eu brincava com meus primos. Ali, por meio do meu falecido tio Marco Aurélio, aprendi a gostar de futebol, de música, cinema e até mesmo um pouco sobre política (ele tinha um quadro do Che que ficava na sala, bordado à mão, vermelhão, a coisa mais linda). 23 anos depois, a casa não existe mais, existem poucas fotos, sobrou apenas uma construção abandonada, toda cinza e nenhum resquício visual do que foi a minha infância. Hoje entendo que “isso não pode ter sido sem querer, e vimos um prédio crescer”. No capitalismo, não existe espaço para que o afeto do trabalhador permaneça. Apenas suas mãos e suas pernas, enquanto elas funcionarem. Perfect Party, ansiedade antes do debate Por fim, a faixa que encerra o disco, Perfect Party. Essa fui apenas entender melhor quando eu comecei a me entender melhor por meio da terapia. A ansiedade esteve

ARTIGO | Como a Budang virou minha nova banda preferida

Oi, meu nome é Willian Portugal. E para quem não me conhece, trabalhei quase oito anos no jornalismo musical independente no Music Wall e aqui mesmo no Blog N’ Roll. A minha motivação para cair de cabeça nesse mundo foi ter a oportunidade de falar da maneira que quisesse, sobre as bandas que já gostava. Mas o que acabei dando conta, é que a parte mais legal era poder descobrir bandas que não tinha contato, com suas sonoridades únicas. E isso foi o meu grande combustível. Me sentia uma criança brincando de Hunter Thompson na frente do meu PC. Mas, como nem tudo são flores, com a carga acumulada por trabalho, faculdade, relações e obrigações domésticas, perdi um pouco desse tesão. Bom, isso até dar de cara com a Budang. Isso aqui poderia ser uma resenha sobre o primeiro álbum da banda, mas teria tanta coisa para falar sobre o quarteto do HC da Magia, que acharia muito pouco falar apenas do lançamento. A primeira vez que eu ouvi falar sobre essa mulecada (falo assim porque presumo que eles sejam bem mais novos do que eu) foi através dos stories no Instagram de Fábio Mozine, o patrono da Läjä Recörds e visconde da cidade de Vila Velha/ES. E logo de cara já me chamou a atenção, mesmo antes de ouvir o som. As artes psicodélicas de cores chapadas, muitas delas que me lembraram peças hinduístas ou xintoístas. O próprio nome da banda é algo totalmente maluco e único, me lembrou bastante o cigarro indonésio Gudang Garam. Pesquisei algo relacionado a palavra Budang, e a única coisa que encontrei foi uma palavra em tagalog (um dos idiomas falados nas Filipinas) utilizada como superlativo de adjetivos (ex: “extremamente”, “muito”, etc). Porém, segundo o guitarrista Vinícius Lunardi e o baixista Pedro Sabino (mais conhecido como Pit) em participação no podcast Neo Rock Brasil, cada hora os integrantes inventam uma mentira diferente sobre essa origem, e de onde veio esse nome. E isso diz muito sobre a criatividade da banda. Para quem ainda não conhece a Budang, fica o aviso. Tudo que eu já falei acima formam elementos únicos, mas que enquanto fazem contrapontos entre si, se complementam de maneira extremamente homogênea. Apesar da estética mencionada, ao ouvir seu som, não espere nada perto do gratiluzismo e esoterismo barato, pelo contrário (recomendo escutar “Gratiluz 171” do EP “Astrologia, Destino & Salmos“). O som da Budang me lembrou uma mistura de muita coisa, e diversas vertentes do hardcore/punk. Umas paradas meio Suicidal Tendencies, Excel, mas com uma pitada de Circle Jerks, Black Flag e em alguns momentos, uns vocais totalmente Jello Biafra das idéias. Os próprios integrantes dizem que são influenciados pelas bandas da cena de Baltimore, principalmente pelos primeiros anos do Turnstile, mas como não conheço tanto, vou ser honesto e não vou usar essa carta no texto. Outra coisa que me chamou a atenção foi a personalidade que a Budang tem nas suas letras. Aqui falo sem querer farpar ninguém. Acredito que tem espaço para todo mundo, e deve ter, mas nos últimos anos sinto que uma parte das bandas de punk/hardcore caíram uma paumolescência lírica que me incomoda. Às vezes, sinto que escuto músicas que saíram de algum perfil que compila frases do Leandro Karnal ou da Monja Cohen. E não falo “paumolescência” no sentido de virilidade masculina, longe disso. Quer dizer, vivemos em um mundo onde a escala 6×1 é realidade, direitos trabalhistas estão cada vez mais escassos, tudo absurdamente caro, o cristianismo pentecostal ditando nossas vidas, thetahealing, constelação familiar, ozônio no cu, caos, destruição, enfim. Mas como poucas bandas tocam nesses pontos com tudo isso acontecendo? Os temas que a Budang aborda em suas músicas são 100% contemporâneos. E já aí falando do primeiro álbum da banda, Magia já começa com Mágica falando exatamente de chefe xarope folgado, rotina de trabalho cretina com gente te ligando no domingo para saber de projeto, condições de trabalho inacreditáveis baseada no “se vira”. E as críticas da banda seguem ao longo do play, passando pela apatia digital na qual pessoas se apegam à futilidade nas redes (Tempinho Bom), e as passadas de pano midiáticas para o manifestações golpistas (Bolsonanny). Tudo isso sem medo de utilizar de sarcasmo e sátira. Mas o que me pegou de vez na Budang foi a dobradinha Magia/Budangól. Algumas pessoas que eu apresentei esses sons reagiram de maneira comum: “Nossa, não dá para entender nada — Não entendi nada do que eles estão falando — Que idioma é esse?”. E é justamente ISSO que me fez me apaixonar pela banda! Aqui, a Budang se afirma como um quarteto legitimamente da região que veio. As gírias, piadas internas, maneirismos e expressões gritam Florianópolis, porém sem soar chauvinista ou bairrista, pelo contrário. A Budang finca sua bandeira de resistência à tudo isso, mostrando a cultura marginal local, e que Santa Catarina tem muito sim a oferecer. Por conta da Budang, hoje sei o que é a bernúncia e o que é chataria. E sobre os comentários de que “não dá para entender”, ao meu modo de ver, diz muito mais sobre como estamos acostumados a consumir arte. Naturalmente, achamos que “arte boa” é o que nos agrada, porém, particularmente e humildemente discordo disso. Fosse assim, não existiriam obras de suspense, terror. A arte é para nos desconfortar e confundir também. Ou como a própria Budang disse em um tweet recente: “Arte é para incomodar e fazer do teu jeito. Quer fórmula e regra, vai estudar física.” Na semana que vem, a Budang virá ao estado de São Paulo para se apresentar na La Iglesia (SP) que já deu sold out, Piracaia no Sábado, e na minha querida Santo André, no 74 Club. Show que eu espero muito poder ver de perto, se ainda tiver ingresso na porta e o Carlinhos me deixar entrar. Ingressos é só clicar aqui. Ouçam a Budang agora mesmo em todas as plataformas de streaming, os sigam nas redes sociais, comprem o seu merch e compareçam

… And Out Comes the Wolf: veja o trailer de filme inspirado em álbum do Rancid

Nas vésperas da celebração de 30 anos de lançamento de … And Out Come The Wolves, lendário álbum do Rancid, um filme inspirado na obra de Tim Armstrong e companhia ganhou seu primeiro trailer. Veja abaixo o trailer de … And Out Comes the Wolf. O filme conta com Ryan Hurst (Walking Dead/Sons of Anarchy) e Giancarlo Esposito (Breaking Bad/The Boys) no elenco, além da direção de Danny Peykoff (Horizon: An American Saga) fazendo sua estreia em um longa-metragem. Ainda não há data de estreia para …And Out Comes the Wolf, mas saindo, você ficará sabendo aqui no Blog n’ Roll.

Tony Hawk’s Pro Skater: Charlie Brown Jr. é confirmado na trilha do game

A versão remasterizada de Tony Hawk’s Pro Skater 1 e 2 foi anunciada para esse ano. Com isso, diversos fãs do game usaram as redes sociais para pedir que Chorão e o Charlie Brown Jr. fossem homenageados. Entretanto, a internet pode comemorar, pois a banda estará inclusa no jogo. “Confisco”, faixa que abre “Preço Curto… Prazo Longo”, álbum de 1999, fará parte da trilha sonora, ao lado de nomes consagrados como Sublime, Bad Religion, Millencolin, entre outros. Além disso, para quem está aguardando o lançamento com ansiedade, podemos dizer que a trilha sonora já está em uma playlist oficial já foi lançada. Sendo assim, Tony Hawk’s Pro Skater 1+2 sai no dia 04 de Setembro para Xbox One, Playstation 4 e PC. Agora é só aguardar.

Hellbenders: Novo single critica ignorância e isenção política

O Hellbenders está na véspera do lançamento do seu próximo disco. Abordando a parcela do Rock nacional, onde existe a defesa do conservadorismo, a banda critica reações em que artistas devem manter a neutralidade política, e apenas focar em seu desenvolvimento sonoro. Em contrapartida, os goianos lançaram o single, batizado de “Delírio”, abordando a narrativa de pós-verdade, as retóricas reacionárias e neo-liberais construídas através das rede sociais. Assim, o Hellbenders chuta a porta com “Pra Entreter”, com participação de Rodrigo Lima, vocalista do Dead Fish. A faixa, que leva o nome do próximo álbum, é uma resposta a quem acredita que a música não deve gerar reflexões, ou ser contundente e subversiva. Ainda, tudo em bom português, para que não haja nenhuma dúvida sobre o tema. Atualmente, se construiu uma ideia de que o Rock é um espaço onde não se pode derrubar tabus. Porém, quebrar paradigmas sempre foi função do gênero, e mesmo que seja óbvio lembrar algumas pessoas disso, é totalmente necessário. Hellbenders: Spotify|Facebook|Instagram|Twitter

Estreia: Nietts e seu Inferno Dançante

Foto: Fernanda Carrilho Gamarano Faz bastante tempo que não escuto algum lançamento do independente nacional, presto atenção e escrevo sobre. Tem uns dias que sinto que algo me chama à pratica novamente, e sinais diários são frequentes. Recentemente, assisti um vídeo do Lisciel Franco, produtor musical com carreira longa, refletindo sobre as diferenças entre Underground e Mainstream. Encurtando, ele deixa uma mensagem que no Underground você pode criar e ser quem você quiser, sem amarras ou qualquer tipo de obrigação. Horas depois de ter visto esse vídeo, preso no umbral das redes sociais, me deparei com uma postagem do meu amigo André Guimarães, que já tocou na Muff Burn Grace, uma das bandas mais legais que o Stoner Rock brasileiro produziu. No post, o André falava do lançamento do EP de estréia da sua nova banda, a Nietts. “Niets”, traduzido do holandês, significa “nada”, sendo pronunciada “níts”. De acordo com a própria banda, todos os nomes possíveis já foram usados, “então não coloca nada”. A formação conta com o já citado André Guimarães na voz e guitarra, Luiz “Zezito” no baixo e backing vocals, e Allan Carvalho na bateria. Composta em Fevereiro de 2019, o trio já arregaçou as mangas para produzir o seu primeiro material, e fazer dois shows no mesmo ano, no 74 Club em Santo André/SP. Me lembro de nessa época, voltar do trabalho e encontrar com o André no Metrô, e ele me contar sobre essa nova banda, que nem nome tinha no momento. Se nesse tempo eles já conseguiram seu primeiro EP, sinal que as coisas estão indo muito bem. Afinal, quem tem banda, ou tem contato com quem tem, sabe como as coisas funcionam em um ritmo não tão acelerado. O tal EP é intitulado “Disco Inferno”, e escutando as 4 faixas que ele tem a nos oferecer, dá pra entender o porquê do nome. Ao escutar o som da Nietts, você consegue se imaginar dançando totalmente chapado a algo que não soe artificial, a algo piegas. Tem a característica sombria, mas ao mesmo tempo sensual, dignas de um Madame Satã. É nítida a influência do Pós-Punk oitentista, do Rock Alternativo britânico da década de 90, e principalmente do Indie do início dos anos 2000. Você consegue perceber cada traço e pode identificá-los em cada nota tocada. Porém, é importante deixar bem claro que a autenticidade está presente, por mesclar tudo isso de forma singular. “Disco Inferno” foi gravado no Caffeine Sound Studio em São Paulo, e produzido no Estúdio Jukebox por Kléber Mariano e André Leal, responsáveis por trabalhos com Color For Shane, Stone House On Fire, Carbo, Troublemaker, entre outros. “Bad Times” foi a faixa escolhida para ganhar um clipe, com a direção do próprio baterista da banda, retratando a luta diária para manter a sanidade mental em dia durante o isolamento social causado pela pandemia do COVID-19. O Lisciel tem razão. A obra do independente não tem cabresto, você apenas faz do seu jeito e pronto. Dificilmente vamos ver um novo fenômeno que arrastará multidões, mas e daí? Estamos em um momento em que a música se prende a muitos padrões pasteurizados, e que artisticamente, nos separam cada vez mais de algo que realmente possa nos tocar. E quando nos deparamos com algo que é sincero, despretensioso e honesto, isso nos cativa. Desperta aquela vontade de falar sobre, de apresentar pros amigos, de voltar a escrever num artigo. É algo que nos marca pro resto da vida. Nietts: Instagram|Facebook