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Poesia e Rock #35 – Eu amo essa rádio

MANOEL HERZOG

Estudo de uma professora da USP esmiúça a crise da música brasileira a partir da década de 1980, culpando primacialmente o rádio que, rendendo-se a fatores mercadológicos e colonizatórios, além do velho jabá, deixou de tocar música boa propositadamente. Foi mais ou menos na época das especializações, quando a música passou a ser setorizada: axé, pagode, sertanejo, rock nacional e coisas afins. Dentro destas categorias uma não menos bizarra, a de “alta-MPB”, onde figuram coisas do tipo Ana Carolina ou Maria Rita e, mais recentemente, Criolo e Marcelo D2. Seguramente eu estou ranzinza, e vou me tornando injusto, amargo mesmo, não considerem metade do que falo.

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Nem moral pra isso eu tenho, gosto de Alexandre Pires. Mas quero ressaltar que a culpa deste comportamento antissocial é justamente do rádio, ao qual, não sei por qual razão masoquista, não deixo de escutar. Talvez preguiça mesmo, escuto no carro e não sei manusear toca-fitas (meus filhos aqui me avisam que não existe mais toca fitas, nem CD de carro, nem pen drive, meu Deus, não acompanho).

Preferencialmente, quando na cidade de São Paulo, me ponho a ouvir a USP-FM. A programação musical é ótima, mas meu ódio é bastante incitado quando vem algum luminar nomeado pelo governo do Estado pregar que a privatização da USP e o sucateamento da educação publica são um avanço civilizatório. Sim, eles fazem isso numa rádio pública.

Agora raiva mesmo eu agarrei foi ouvindo as rádios da nossa Baixada Santista. Ouvindo passivamente, feito aquele pobre não-fumante que trabalha numa sala de tabagistas. Meus vizinhos, o porteiro do prédio, o motorista do caro ao lado, o entorno inteiro dá um jeito de sintonizar num desses veículos locais, pra meu infinito desgosto, por onde me atualizo no que há de mais repulsivo no showbizz brasileiro, notadamente os segmentos de musica universitária, sertanejo em especial. Por tais razões, no meu carro eu gosto de ouvir uma rádio de programação saudosista, e isto me aguça bastante a ideia de que “no meu tempo é que era bom”.

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Referida rádio não foge muito ao padrão local: pra cada dez musicas desencavadas de um passado remoto, pode-se ouvir um ou dois hits que de fato nos provocam algo próximo à saudade, e mais oito ou nove porcarias. Mas, esperançoso que sou e sigo sendo, insisto na simpática emissora, cuja programação musical tem lampejos bons. Triste, mas triste mesmo é quando vêm especialistas locais (advogados, colunistas sociais e afins) emitir opinião em programas de debates. Ou quando um dos locutores da rádio desanda a filosofar. Por exemplo, dia desses fez niver o Paul. E o locutor locutou assim:

“Sir John Paul MacCartney, que hoje completa 73 aniversários, é atualmente o ex-Beatle mais bem sucedido da História”.

Considerando que a História da Humanidade está repleta de ex-Beatles (eles eram uma Big Band); Considerando que dois deles já se foram, logo não podem estar bem-sucedidos; considerando que um dos ex-Beatles vivos é café-com-leite. Foi uma bela homenagem, convenhamos.

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