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Entrevista | Gab Scatolin – “Passei a ouvir música de forma diferente”

Gab Scatolin é daquelas pessoas que fazem de tudo para “manter o pop punk na elite”, como diria o NOFX. Ex-guitarrista do FeijãoComArroz e Cueio Limão, nos últimos anos o músico se dedicou a carreira de produtor. E talvez por amar tanto o esse estilo musical, ele vem fazendo excelente parcerias ao lado de bandas como Dinamite Club e Never Too Late.

Para entender melhor como é ser colaborador dessa cena que se fortifica cada vez mais, conversei com Gab e o resultado foi um bate-papo incrível. Aprecie essa entrevista cheia de conteúdo interessante sobre pop punk, produção musical e música em geral.

Muita gente conhece você do FeijãoComArroz e do Cueio Limão. Mas como você entrou para o mundo da música? Quais foram suas primeiras influências?

Minha história na música começa em 1996, quando ganhei minha primeira guitarra aos 10 anos e minha cabeça tinha pirado no Sepultura e Metallica. No ano seguinte, já montei uma banda com meu irmão e meu primo. Eles me apresentaram o rock “de protesto”: desde o punk rock até o Rage Against The Machine. Essa foi uma banda que mexeu demais comigo a ponto de eu ir buscar algo além só da “música pelo som”.

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Junto com isso veio a “melodia” no rock e as bandas do hardcore e punk rock californiano: NOFX, Pennywise, Face To Face. Caí de cabeça nisso e ouvia os discos dessas bandas em fita cassete que a galera da escola gravava e passava para frente. Tirava todos os arranjos na guitarra e ficava tocando horas e horas sozinho em casa. Graças a isso percebi que o que gostava era justamente da melodia. Conseguir fazer com que não apenas a voz grudasse na cabeça, mas todos os instrumentos. Fosse um riff ou uma virada de batera e tal. 

Quando o pop punk entrou na sua vida?

O pop punk veio naturalmente na sequência. Como eu já tinha aberto bem o leque de estilos e levadas, eu comecei a ver que eu me interessava mais por refrões “catchy” e melodias/levadas “mais pra cima”. Mesmo já conhecendo blink-182, Descendents, Green Day e as bandas mais consagradas, foi o EP de covers From The Screen To Your Stereo (2000) do New Found Glory que me fez ficar completamente bobo com aquela fusão de melodias, riffs e levadas alternadas.

Daí pra frente abracei o estilo como meu preferido. O ano de 2002 é quase um “ano mágico” para mim graças a uma enxurrada de ótimos discos lançados pelas gravadoras do estilo, principalmente pela Drive-Thru Records. Nessa época eu já tocava em outra banda e praticamente queria só fazer esse som que chamávamos de “Pop Punk Drive-Thru”. Durante os anos seguintes toquei em muitas bandas de estilos diferentes entre si, e sempre dei um jeito de deixar uma marca do pop punk em cada uma delas. (Risos)

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Como surgiu o interesse em produzir bandas?

Sempre escrevi praticamente todas as músicas nas bandas que passei. Desde o começo, ainda adolescente, eu amava compor. Criava um riff, e automaticamente já queria cantar um refrão em cima, então saia escrevendo. Obviamente que no começo eram letras horrorosas e riffs duvidosos. (Risos)

Com isso eu comecei a reparar mais em como seria o processo de se compor uma música. Ali com a guitarra desligada, com lápis, papel e transformar tudo isso naquele puta som animal que ouvíamos. Foi aí que passei a ouvir música de forma diferente. De uma forma “analítica”. Prestava mais atenção no timbres das guitarras do que na canção como um todo.

O estalo mesmo veio justamente quando passei a ouvir sem parar o disco Why Do They Rock So Hard (1998) do Reel Big Fish. Por ser uma banda de ska, com naipe de metais, é um disco com muitos elementos e soa maravilhosamente bem. A bateria eu arrisco a dizer que é um dos melhores timbres que alguém já tirou. Fiquei besta com o fato de que havia muita, mas muita coisa rolando e tudo se encaixava no final.

Outra coisa que me deixou louco foi que eu ouvia sempre no fone. Cada vez percebia algo a mais, uns detalhes. Como por exemplo uma guitarrinha que entrava só no 2º verso e nunca mais, e aí comecei a entender o que era “produção” de fato.

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Comecei a aplicar isso tudo nas minhas bandas, porém de forma consciente. Aí a vontade de cuidar dessa parte só foi crescendo. Produzi discos ou singles em todas as bandas que passei: New Life New (2000 a 2004), Martuchos (2001 a 2004), Redial (2004 a 2006), FeijãoComArroz (2006 a 2012), Cueio Limão (2009 a 2011) e Carox (2010 a 2011).

Você é especializado em Produção Musical e Engenharia de Gravação. Como foi transformar isso no seu trabalho?

Em 2009, senti que deveria levar isso como uma carreira mesmo. Na época, já tinha acompanhado muitas gravações e estava quase que “estagiando” com o Otávio Cavalheiro no Rock Together Studio em São Paulo. Eu me formei Técnico de Áudio no Souza Lima e caí de cabeça. O Bruno Peras do Dinamite Club foi a primeira pessoa com a qual eu não tocava que acreditou total em mim e na minha bagagem e me chamou pra produzir o primeiro disco deles, e aí as coisas andaram sem parar.

Hoje me alterno entre as produções, mixagens e masterizações de artistas/bandas e meu trabalho de produção musical e mixagem para o meio publicitário dentro da produtora Cabaret Studio, que é um mundo que me permite mixar MUITO todos os dias, os mais variados estilos, desde a música clássica até uma escola de samba.

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Você cita o Chris e Tom Lord-Alge como suas influências, e ambos foram produtores ou mixaram discos de vários artistas do pop punk. Que elementos dos trabalhos deles você sempre traz para suas produções?

Eu sou quase um “devoto” do Chris Lord-Alge. (Risos) Tem um monte de amigo véio meu que AMA o trampo do cara, mas fica de frescura porque o cara “exagera na compressão”, ou “usa samples na batera” e tal. Para mim, existe dois tipos de produção e mixagem: a que EU acho boa e a que EU acho ruim. Entende?

Não me importa o que o cara usou pra chegar naquele som, mas sim como aquele resultado soa pros meus ouvidos. Que aliás pros seus ouvidos vai soar completamente diferente. Para mim, o trabalho deles nesse quesito, é magnífico. Conseguem criar uma atmosfera gigantesca no som, e ainda preservar as características originais da banda. Sério, o que são os vocais que esses caras mixam? Parece que o vocalista está na sua frente cantando, mas mesmo assim totalmente “dentro” da música. (Risos)

Acredito que o que realmente me pegou no Chris foi o som de bateria. Aquelas caixas dos discos do Green Day são incrivelmente lindas. Mérito também do baita produtor Rob Cavallo. O som da sala estéreo dos discos mais recentes então, nem se fala. Eu amo aquele som de bateria gigantesco, mesmo no punk rock de levada rápida.

E o som do pop-punk early ’00s tinha exatamente a bateria como elemento principal. Aí foi instantâneo a minha admiração né. Tanto que acho o disco Take Off Your Pants and Jacket (2001) do blink-182, o melhor som de mix de rock moderno que já ouvi.

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Uma outra característica importante sobre o porque eu admiro demais esses caras: o som do disco Direction (20077) do Starting Line resume bem o que eu acho do Chris: eu não gosto nem um pouco do som das guitarras e do baixo, mas no geral ele conseguiu deixar tão absurdamente lindo o resultado de tudo, “tocando junto”. É assim que eu determino pra mim quem é um mixador acima da média.

Nos últimos anos vi você trabalhando com duas bandas em especial, o Dinamite Club e o Never Too Late. Vejo que você não é apenas “o produtor”, mas também amigo deles. Como é acompanhar o trabalho dessas bandas praticamente desde os primeiros materiais e desenvolver essa amizade?

O lance com o Dinamite Club veio através do Peras que é um amigo meu desde mais ou menos 2002, quando ele tocava no Low Fat Diet. Em 2010, ele me mostrou o Dinamite Club e adorei o som logo de cara. Fiz questão de chamá-los para tocar nos shows que eu conseguia encaixar com algumas das minhas bandas. Aí eu participei cantando em uma música do primeiro EP deles, e fomos ficando cada vez mais próximos.

Foi meio que automático entrar em estúdio para trabalhar juntos. É como eles mesmo dizem “é muito bom ser fã dos meus amigos”. Nesses seis anos, eu sinto um orgulho tremendo de tudo que já fizemos juntos. A música é boa, a amizade melhor ainda então só tende a melhorar.

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O Never Too Late veio falar comigo por ter ouvido meu trampo justamente com o Dinamite Club. Dizem eles que eu não dei muita bola na primeira vez que vieram cotar para eu produzir um som deles. Eu acho que foi um mal-entendido porque esse é meu trabalho. E se tem uma coisa que eu “dou bola” é pra trabalho (Risos).

No fim de 2014 começamos a produzir o EP deles, Premiere. E daí pra frente cada coisa nova que eles iam me mostrando, eu ia ficando de cara com o talento deles. O disco No Return (2016), que produzimos juntos, é um dos trabalhos que eu mais recebi elogios até hoje.

Talvez por eu ser mais “velho” nesse rolê do que eles, uma coisa legal é que os caras me ouvem não só como produtor, mas muitas vezes como o “irmãozão” que dá uns conselhos sabe? Quando estávamos gravando esse disco em 2016, eles comentavam comoera difícil fazer show legal, ter uma agenda e tal. Eu disse que tudo começava ali, na produção de um disco foda, e que o restante viria.

Tá aí, 2017 os caras já tocaram em todos os lugares e sendo reconhecidos como uma das bandas mais legais do país. Acho que é o que mais me satisfaz em trabalhar com gente talentosa assim.

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Além disso o mais legal é que quem toca pop punk meio que curte as mesmas coisas, saca? Então é muito fácil para virarmos amigos. É quase como aquela amizade de escola, que você pira num som e mostra pro seu brother que curte a mesma coisa. E vocês ficam cada vez mais próximos!

Meio que sempre levantei essa bandeira do Pop-Punk “Drive-Thru” no Brasil. Mas nem sempre tinham bandas do mesmo estilo para fortalecer uma cena boa mesmo. Depois que ouve aquela invasão de bandas influenciadas pelo dito “Emocore” em 2006 e 2007. Por sorte essa onda passou, e vejo surgir uma nova onda de bandas que fazem esse pop punk de qualidade. Mais sorte ainda de poder participar do disco dessa galera. Hoje temos uma cena se fortalecendo com a volta do Phone Trio (RJ), com o Dinamite Club, o Never Too Late.

Inclusive eu mesmo estou de banda nova depois de 6 anos longe dos palcos. Acabamos de gravar um disco com 10 músicas, que deve sair nos próximos meses, e vamos pra estrada novamente. De leve, mas vamos! (Risos) Já já todo mundo vai poder ouvir! o/

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Hoje é muito mais “fácil” gravar o próprio material de forma caseira. Porém, algumas bandas no começo de carreira acabam se atrapalhando bastante durante este momento. Queria que você falasse sua opinião sobre a importância de ter um produtor para ajudar durante o processo de produção de um Single/EP/Disco.

Para mim é simples: GRAVEM! Sério! Gravem seus materiais em suas casas com uma plaquinha minimamente boa. Gravem. Vocês não precisam de ninguém para gravar suas músicas. Registrar aquela ideia que você criou no papel é algo mágico.

Então, se você não tem recursos para contratar um profissional ou um estúdio para criar sua música de forma mais orgânica, vai lá e faz por você, no computador. Não deixe de gravar suas músicas por nada.

Agora, se você quer um disco produzido, uma música produzida, ou bem mixada aí a direção é outra. Um produtor não vai fazer tudo para você. Mas um bom produtor vai saber tirar o melhor de você, da sua música, da sua intenção e transformar cada parte do processo no resultado mais próximo daquele que você projeta ouvindo suas referências por aí. A mesmíssima coisa para um bom mixador.

Aqui vai algo que funciona muito bem também: Ás vezes quando a grana não é suficiente para começar um trabalho com um produtor, se empenhe em trabalhar bem a sua música, gravar com bastante atenção em um estúdio bacana e passa para um bom mixador. A mágica acontece também, pode confiar.

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Para finalizar, duas perguntas bem “complicadas”. Existe algum disco que você admira tanto que gostaria de ter participado da produção? E se pudesse produzir qualquer banda no mundo (mesmo aquelas que já acabaram), qual seria?

Olha vou te falar que nem acho assim tão complicada essa pergunta. Eles são super diferentes entre si, mas são tão maravilhosamente bem construídos e produzidos que eu fico descobrindo coisas novas cada vez que eu ouço. São eles: Love (2002) do The Juliana Theory e o Nine Lives (1997) do Aerosmith. As músicas são ridiculamente bem escritas e a produção no geral é muito acima da média.

Sobre alguma banda que eu gostaria muito de produzir, acho que são duas. A primeira seria o New Found Glory com toda certeza, por ser a minha banda predileta e que fez com que eu me apaixonasse pelo estilo de música que mais toquei/gravei/produzi até hoje.

E eu gostaria muito de produzir algo com o Racionais, saca? Sou bem fã de diversos sons deles, e acho que seria um desafio muito interessante juntar experiências de outro universo com a bagagem gigante cultural e musical que eles têm.

Muito obrigado pela entrevista Gab. Fique a vontade para deixar seu recado para o pessoal do Blog n’Roll e do Pop Punk Academy?

Pô, valeu você Lupa! Eu que tenho a agradecer a todas as bandas que têm trabalhado comigo e a toda galera que está cada vez mais se interessando pelo meu trabalho e por entender melhor o que um produtor musical faz. Espaços como esse aqui são muito importantes para nós, não só pra divulgar ainda mais o nosso trabalho como para dar força à nossa profissão!

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Se você gosta de compor, grave sua música e coloque ela pro mundo. Se der pra contratar os serviços de profissionais que podem elevar mais ainda a qualidade do seu trampo, melhor ainda…mas faça!

Toda música tem uma verdade em si, e essa verdade pode fazer a diferença na vida de muita gente. Te garanto que dinheiro nenhum do mundo paga esse sentimento. Valeu galera, até a próxima!

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