O silêncio falou tão alto quanto o piano ou o potente barítono de Cameron Winter em sua estreia no Brasil, no Auditório Ibirapuera, na noite do último domingo (24). Com os ingressos limitados vendidos separadamente, o show fez parte da programação do C6 Fest, que ocupou o parque paulistano no último fim de semana.
Cerca de 800 pessoas assistiram ao nova-iorquino que viu, no último ano, tanto o seu trabalho solo quanto a sua banda do ensino médio, o Geese, estourarem e serem incensados por crítica, público e seus pares.
Em Try As I May, segunda música do show e primeira tirada do disco Heavy Metal, único registro solo completo do cantor, Winter descreve, com a sua lírica característica, o que parece ser uma relação romântica. Tal qual a sua voz, que sempre parece embriagada, as composições vão de um mundano que não passa longe das palavras de um lunático até o sublime, muitas vezes no mesmo verso.



“Você estava destinada a assistir às minhas cerimônias privadas, todas nos cantos escuros de quartos”, ele canta. Se em disco e no papel parece claro que fala sobre a intimidade de um casal, no Auditório, em versão arrebatadora que chega a tornar difícil retornar para a gravação de estúdio, as palavras ganham outro sentido. O show parece mesmo uma cerimônia privada.
O posicionamento do piano, na diagonal, faz com que boa parte do público consiga ver apenas as costas do cantor. Mesmo nos melhores lugares, seu rosto segue oposto à plateia. Em toda a noite, se dirige à audiência apenas uma vez, com um “obrigado” em português ao fim da última música, quase como se estivesse tocando sozinho em seu quarto e todo mundo só pudesse contemplar o artista trabalhando.
No palco, além do piano, só a luz: ora do holofote, ora do canhão posicionado atrás do instrumento, ora um calor amarelado que desfaz, por alguns instantes, as sombras, e ora a escuridão.
Quando não emenda uma música na outra, as pausas são para arrumar o banco, tomar um gole de água, arrumar o cabelo ou ajeitar as mangas da jaqueta, antes de se curvar novamente sobre o instrumento.
Ao invés de prejudicar o show, a postura dá força a ele. Se engana quem pensa que Winter faz o que faz porque ignora ou público ou, pior, porque se coloca em um pedestal muito acima dos meros mortais que pagaram por um ingresso.
Pelo contrário, como quem diz muito com pouco, a todo momento ele joga com as expectativas e encontra caminhos diferentes dentro de seu próprio repertório. É assim em “Drinking Age”, por exemplo, que aparece ainda mais cadenciada que em estúdio, com longas pausas propositais que fazem com que quem assiste tenha vontade de prender até a própria respiração antes de a canção chegar em seu grandioso e anticlimático refrão: “hoje eu conheci quem eu vou ser daqui pra frente e ele é um merdinha”.
A linha tênue entre a loucura e a iluminação está presente o tempo todo, tendo o seu clímax em um dos momentos em que o público se permite irromper em aplausos e gritos, durante a canção “$0”, quando, no que parece um rompante de alguém que acorda de um sonho febril, Winter declara que Deus existe: “Eu não estou brincando dessa vez, eu não faria piada com isso”.
Não é à toa que o artista já tenha levado o seu show para os salões de diversas igrejas durante a sua turnê, ou que muitos chamem a experiência de vê-lo ao vivo de “transcendental”.
Houve quem ainda arriscasse um ou outro grito fora de hora, inclusive pedindo por alguma música do Geese. Foram poucos, mesmo com o peso da grande expectativa para a estreia brasileira do músico.
No geral, Cameron Winter veio, tocou, cantou e se calou. O público o ajudou com um silêncio entrecortado por soluços e pausas pontuais para aplausos.