Wassup: a ascensão emo, o QG na Praça da Independência e o estouro no PureVolume

Se você foi adolescente em Santos no início dos anos 2000, muito provavelmente esbarrou na Wassup. A banda nasceu em 2002, dentro dos muros do Liceu Santista, tocando Blink-182 e hardcore melódico. “Queríamos tocar, então nós mesmos organizamos um festival na escola”, conta o baixista e fundador Renato Melo (hoje conhecido pelo perfil O Cara dos Discos e pelo bar Mucha Breja). Mas a verdadeira revolução da Wassup foi geográfica. Naquela época, a famosa Ilha de Conveniência (na praia) havia se tornado um local perigoso, com tráfico e tiroteios. A juventude precisava de um novo refúgio. “Começamos a ocupar uma galeria aberta na Avenida Ana Costa, em frente ao antigo Cine São José. Ficávamos tocando violão noite adentro. Os vizinhos começaram a chamar a polícia, então passamos a tocar na escadaria da Praça da Independência“, relembra Renato. O boca a boca digital fez o resto: “Encontros foram criados no mIRC e a Praça se tornou o grande ponto da cena”. “Patrick Stump” santista e a era de ouro O primeiro show fora da escola foi no Saloon Beer, abrindo caminho para o circuito clássico: Armazém 7, Bar do 3, People e, principalmente, o Praia Sport Bar. A formação passou por várias mudanças. O núcleo original tinha Renato (baixo/vocal), Renatinho e Felipe (guitarras) e Yugo (bateria). Após passagens de Markinhos, Marcio e Anderson, a banda encontrou sua formação clássica para gravar: Renato, Yugo, Mauro e Thiago (guitarras) e Tigo (vocal). A entrada de Tigo mudou o patamar da Wassup. “A voz dele lembrava muito a do Patrick Stump (Fall Out Boy). Além disso, a aparência ajudou a ganharmos um grande público feminino e aumentar nossa base”, confessa o baixista. Com influências que iam do pop punk da Califórnia ao emo e post-hardcore da Vans Warped Tour, a banda lançou o EP Mais Forte Que Nós. O sucesso foi estrondoso para os padrões independentes: duas tiragens esgotadas, destaque na plataforma PureVolume e prêmio de top 3 no portal Zona Punk, com direito a show no lendário Hangar 110 (SP). Shows de arena e o fim silencioso da Wassup A Wassup viveu o auge comercial do rock nacional dos anos 2000. Eles tocaram no lançamento do álbum Valsa das Águas Vivas, do Dance of Days, e lotaram a Associação Atlética dos Portuários tocando com Pitty, Fresno, Glória e Scracho para mais de mil pessoas. O currículo inclui ainda aberturas para Strike, NX Zero e o argentino Boom Boom Kid. Apesar do sucesso, a banda sofreu com o desgaste da época. “A falta de espaço e o bullying que o Emo começou a enfrentar atrapalharam. Nossas composições novas atiravam para todo lado, de Strike a Hawthorne Heights”, explica Renato. Além disso, ele se tornou pai aos 23 anos. Como era o “faz-tudo” (marcava ensaios, shows), o motor parou. “Em nenhum momento falamos ‘acabou’. Simplesmente não marcamos mais ensaios e aconteceu”. Hoje, uma reunião não é descartada. Com o baterista Yugo de volta ao Brasil, a vontade de fazer um barulho no estúdio renasceu. “Quem sabe no futuro os cinco não se reencontrem?”, deixa no ar.

Faxes, salada de churrascaria e futebol: a histórica primeira turnê do Millencolin no Brasil, em 1998

​Agosto de 1998 marcou a primeira vez que a banda sueca de hardcore Millencolin pisou no Brasil. A turnê histórica incluiu datas em São Paulo, Curitiba, São Bernardo do Campo, Rio de Janeiro, Santos, Belo Horizonte, Porto Alegre e Londrina. ​Mas o que o público via no palco era apenas a ponta do iceberg de uma operação monumental. Organizada por João Veloso Jr. (baixista do White Frogs, banda de abertura) e Marcelo Bastos (da produtora Anorak), a excursão englobou Santos, São Paulo, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e até Buenos Aires. ​A vinda dos suecos representou um salto de profissionalismo para o underground na época, provando que era possível viabilizar uma turnê continental partindo de ideias forjadas em Santos e no Rio de Janeiro. ​Negociações por fax e o choque de realidade para o Millencolin no Brasil ​Longe das facilidades da internet e dos e-mails, o acerto para trazer um dos maiores nomes do skate punk mundial foi feito na raça. “A negociação foi tranquila, foi tudo por fax. Era fax pra lá, fax pra cá, ligação pra lá, ligação pra cá”, relembra João Veloso Jr. O produtor revela ainda que, antes do Millencolin, a dupla tentou trazer o Face to Face, mas as negociações esbarraram em detalhes difíceis para a época. ​Quando os suecos finalmente desembarcaram, trouxeram convidados ilustres: Peter Ahlqvist, dono da lendária gravadora Burning Heart, e Mikael Danielsson, guitarrista do No Fun At All, que atuou cuidando do merchandise. Para João, foi um encontro surreal. “Fui o primeiro na América do Sul a ter alguma coisa do Millencolin e do No Fun At All. Mandei carta escondida e comprei com o Peter, e depois daquele dia ele tá junto. Acabou sendo uma coincidência grande”, conta. ​Porém, a realidade estrutural do Brasil de 1998 cobrou seu preço. Acostumada a tocar na gigante Warped Tour e em grandes festivais pela Europa, a primeira pergunta da banda ao chegar foi: “Onde é o escritório da Mesa/Boogie?”. A resposta brasileira foi um balde de água fria. “Não tem Mesa/Boogie no Brasil, não tem escritório, não tem nem o amplificador. Não tem nem como a gente alugar porque ninguém tem”, explica João. Sem a estrutura gringa, tudo teve que ser adaptado. ​Outro choque cultural envolveu a alimentação. Em uma época sem restaurantes vegetarianos ou veganos acessíveis, a solução para alimentar a banda foi curiosa. “Quase na turnê toda eles comeram no buffet de salada de churrascaria, o que foi complicado, mas virou”, diverte-se o produtor. A pirataria na Galeria do Rock, em São Paulo, também deixou a banda e o dono de sua gravadora impressionados com a falta de CDs oficiais no mercado nacional. ​*Trecho do documentário do Millencolin no Brasil Caos na estrada: amplificadores caídos, brigas e cusparadas ​A turnê pelo continente entregou o puro suco do caos sul-americano dos anos 1990: ​Oásis santista com casa cheia na Jump ​No meio de tanta loucura, o show em Santos, realizado na extinta casa noturna Jump em 12 de agosto de 1998, foi considerado um sucesso absoluto e um porto seguro. “Santos a gente andou pela praia, foi um show legal, mas não teve essas coisas nem de briga, nem de equipamento caindo, nem de decepção. Foi um show bom”, garante João. ​Para o baixista, a noite santista carregava um peso extra. “Tocar em casa sempre é diferente. A gente (White Frogs) estava numa mudança de formação, então era uma ansiedade muito grande por fazer o show e ver como é que ia ser a reação”, confessa. A apreensão deu lugar ao alívio ao ver a Jump lotada recebendo um show grande. ​ “Punk rock de verdade” e hóquei no gelo: As memórias de Mathias Färm Quase três décadas após essa excursão histórica, as lembranças do caos e da intensidade continuam vivas na memória da banda. Em entrevista recente ao Blog n’ Roll, o guitarrista Mathias Färm confirmou a loucura estrutural relatada pelos produtores brasileiros. “Foi algo muito especial para nós vir ao Brasil. É muito longe da Suécia, mas foi incrível. Tenho muitas boas lembranças e também muito caos”, contou o músico. O episódio da invasão de palco em São Paulo, inclusive, teve um desfecho fatal para o seu instrumento. “Minha guitarra quebrou em dois pedaços durante aquele primeiro show porque um cara a jogou para longe. Foi punk rock de verdade, com muita intensidade”, relembrou, garantindo que o amor pelo Brasil permaneceu intacto. Apesar de Santos ter sido o ponto de calmaria daquela turnê turbulenta, Färm admite, com bom humor, que a rotina insana na estrada ofuscou os detalhes da passagem pela Baixada Santista. “Para ser honesto, eu não me lembro muito de Santos naquela primeira vez, porque isso foi há quase 30 anos. Naquela turnê, eu realmente não sabia em que cidade estava, eu apenas tocava”, confessou o guitarrista. O ritmo alucinante de tocar todos os dias, quase sempre atrasados e sem dias livres, transformou a viagem em um grande borrão de adrenalina. “Mesmo assim, voltamos para Santos outras vezes, isso eu lembro”, pontuou. A paixão pelo esporte, que marcou os dias de folga no Brasil, também foi confirmada por Färm. Ele reforçou que o baixista Nikola é o mais fanático, mas que o amor pelo futebol é unânime na banda, rendendo até uma música em homenagem ao time local deles, o Örebro. E aproveitou para brincar com o choque cultural esportivo entre os dois países: “Na Suécia, futebol e hóquei no gelo são os maiores esportes. Imagino que hóquei não seja tão popular em Santos (risos), mas o futebol é incrível”. ​”A moçada foi doida”: o caos em SP e o encontro com Romário ​Para o vocalista e baixista Nikola Sarcevic, a lembrança daquela primeira vez no Brasil também mistura a insanidade dos palcos com a realização de um sonho de fã. Em entrevista à revista Trip, o frontman do Millencolin endossou o relato do colega de banda sobre a energia caótica do público e o icônico episódio na capital paulista. ​”Os shows foram ótimos,

“Fogo” no Bar do 3: a antológica passagem do Agent Orange por Santos, em 1997

O ano de 1997 foi, indiscutivelmente, um divisor de águas para a cena underground da Baixada Santista. Apenas dois meses após a lendária passagem do NOFX por Santos, o público santista provou que a engrenagem das turnês internacionais estava girando a todo vapor. No dia 27 de maio daquele ano, a lenda viva Agent Orange desembarcou na “Califórnia Brasileira”. O evento reuniu uma das maiores concentrações de surfistas e skatistas por metro quadrado já vistas na região, atraídos pelos verdadeiros pais do surfcore californiano. O palco escolhido para essa festa foi o Bar do 3, uma casa que surpreendeu o público e a crítica da época. O que poucos sabiam, no entanto, era o peso histórico daquela noite: tratava-se do primeiro show da história do Agent Orange no Brasil. A viabilização financeira ficou a cargo de Marcelo Bastos, da produtora Anorak, a mesma parceria que, mais tarde, traria Rhythm Collision e Millencolin para a cidade. Cola de farinha, tensão e a escalação local Apesar do suporte financeiro, o trabalho nas ruas foi puramente “Faça Você Mesmo”. João Veloso Jr., baixista do White Frogs (uma das bandas de abertura) e produtor local do evento, relembra o corre frenético e a ansiedade de produzir a primeira gig de uma gigante americana na cidade. “Às vezes as pessoas falam de banda de abertura, mas ninguém tem ideia do corre. Eu e o Fefe (Sociedade Armada) fomos pra rua colar cartaz em Santos inteiro, com cola de farinha e água”, conta João. “Todo show dá aquela tensão do evento não dar certo. Vamos lembrar que era uma garotada saindo pra colar cartaz na cidade e lotou o Bar do 3”. Foi exatamente essa parceria no trabalho braçal que definiu o line-up da noite. A Sociedade Armada, banda de Fefe, foi escolhida para dividir o palco com o White Frogs por um motivo simples e leal: “Na hora do corre, era eu e o Fefe que íamos colar cartazes. Sempre rolava essa coisa de você buscar quem ajuda”. A Sociedade Armada subiu ao palco ainda com a casa enchendo, entregando um set curto, mas de arrepiar. Embora o público não tenha agitado tanto no início, a banda compensou a ausência de faixas esperadas, como Mídia e Chega de Utopia, com uma saraivada de clássicos do CD 400% HC, como Miséria Total, Treta e Juventude Transviada. Logo depois, o White Frogs assumiu os instrumentos. Presença carimbada na cena, o grupo fez o que sabia de melhor: “Nada muda, tudo igual, eles novamente detonaram, simplesmente é muito bom assistir essa excelente banda novamente”, registrou o fanzine Surfcore na época. Praia, bate-papo e zero estrelismo do Agent Orange A tensão dos organizadores logo se dissipou graças à atitude dos gringos. “A lembrança mais marcante é como a banda era acessível, sem estrelismo. Eles chegaram mais cedo e viram os shows de abertura”, recorda João. O clima praiano de Santos contagiou os californianos, felizes por estrearem no Brasil em uma cidade litorânea. O baixista da banda americana, Sam Bolle, passou o dia caminhando pela praia e conversando com os produtores locais. “Ficamos trocando ideia o dia inteiro sobre como baixistas são pessoas estranhas”, diverte-se o músico santista. Mike Palm: cerveja, clássicos e fogo no palco Após uma pausa para a troca de equipamentos e passagem de som, a espera foi recompensada com juros. O Agent Orange iniciou a apresentação a mil por hora com Voices in the Night, abrindo sorrisos na plateia. A noite foi dominada de forma absoluta por Mike Palm. Único remanescente da formação original e carregando mais de 18 anos de estrada nas costas na época, o frontman sentiu-se em casa. O relato do Surfcore descreve uma performance incendiária, literalmente: Palm pulou, tocou muito, conversou com o público, cuspiu cerveja e chegou a cuspir fogo no palco! O setlist embalou a rapaziada com clássicos como Everything turns Grey, Tearing Me Apart e This Is Not The End, além de faixas mais recentes como Electric Song. Após cerca de uma hora de apresentação frenética, a banda encerrou com o bis de The Last Goodbye. “Disneylândia Punk”, elogios ao Green Day e farpas no Offspring Para entender o peso da atitude de Mike Palm no palco do Bar do 3, é preciso olhar para o que o vocalista pensava na época. Durante a passagem da turnê pelo país, Palm concedeu uma entrevista franca à Folha de S. Paulo, onde deixou claro que o Agent Orange não tinha interesse em seguir a cartilha comercial que explodia na MTV naqueles anos. “Nós nunca quisemos ser milionários”, afirmou Palm. “Nós gostamos de tocar, somos uma banda para fazer shows em clubes, agitar. Nós somos underground e estamos bem assim”. O vocalista também não teve papas na língua ao analisar a nova geração da Califórnia. Se por um lado disse ter orgulho de ser fonte de inspiração para bandas mais jovens como o Green Day, por outro, sobrou um ataque direto para um dos maiores fenômenos daquele momento. “O Offspring, diferentemente do Green Day, não tem originalidade, não traz surpresa alguma. Eu não gosto deles”, disparou. A aura de diversão refletia as influências declaradas do guitarrista em nomes como Dick Dale, Ramones, Germs e X, exatamente o que ele entregou aos santistas. “A única função da minha música é divertir as pessoas, fazer com que elas passem algumas horas agradáveis, cheias de energia”, resumiu. Um show de prateleira, TV Mar e o retorno em 2012 Para os autores do zine Surfcore, o impacto foi definitivo: a passagem do Agent Orange foi eleita o melhor show daquele ano e colocada no mesmo patamar de genialidade de uma apresentação do Fugazi. Além dos relatos escritos, o espetáculo foi eternizado em vídeo. João Veloso Jr., que trabalhava na TV Mar na época, conseguiu cópias das fitas com as gravações feitas pela emissora, material que hoje sobrevive nos arquivos do YouTube para os mais saudosistas. O gosto amargo de “quero mais” foi tanto que o fanzine chegou a recomendar aos faltosos a audição do CD

Conheça a Alem do Front, o peso do nu-metal e hardcore que pulsa em São Paulo

Se alguém ainda ousa dizer que o rock está perdendo a força nas ruas, é porque ainda não cruzou com o som da Alem do Front. Nascida em 2023 no ABC Paulista e com integrantes vindos das Zonas Sul e Leste de São Paulo, a banda é a prova viva de que a música pesada continua pulsando e se reinventando nas metrópoles. Carregando diferentes histórias e vivências, o grupo encontra sua voz em riffs pesados, letras intensas e uma energia que não pede licença para entrar, ela simplesmente invade. DNA: nu-metal, hardcore e rap A sonoridade da Alem do Front bebe diretamente da fonte do nu-metal, mas as influências não param por aí. É nítida a presença do hardcore e do rap na espinha dorsal da banda. O resultado é um som visceral, com uma pegada própria e sem nenhum medo de experimentar. Mas a Alem do Front vai além da música: é um manifesto. Cada composição funciona como um grito de resistência e liberdade. Nos palcos, eles entregam shows explosivos, abordando temas do cotidiano, autoconhecimento e uma forte crítica social. A missão é ser verdadeiro, autêntico e sem filtros, conectando fãs que acreditam na força transformadora da música. Formação O peso sonoro e a presença de palco são garantidos por um quinteto de peso: Discografia Desde a sua fundação, a banda vem construindo um catálogo sólido que já conquistou espaço em playlists e rádios independentes. Confira os lançamentos e assista aos clipes: 1. A Cicatriz é Uma Dádiva (2023): a faixa de estreia já ditou o ritmo do que a banda veio fazer na cena. 2. Poesia Bélica (2024): com rimas afiadas e guitarras pesadas, a faixa é um verdadeiro soco no estômago. 3. Simples Ato (2024): mantendo a constância, a música aprofunda a identidade do grupo. 4. Primeiro Aplauda (2025): o lançamento mais recente consolida a evolução técnica e lírica do quinteto.

Como o All You Can Eat abriu as portas do hardcore internacional em Santos, em 1995

O Rollins Band pode ter sido o primeiro nome gringo punk ou de hardcore de peso a pisar em Santos, em 1994, mas o contexto era outro: um megafestival gratuito nas areias da praia. Quando falamos do verdadeiro “marco zero” do underground, do espírito do it yourself (faça você mesmo) operando na raça e inaugurando a rota das turnês independentes na Baixada Santista, a história aponta para o dia 4 de novembro de 1995. Nesta data, a banda californiana All You Can Eat desembarcou no Teatro de Arena (canal 1), para um show histórico com ingressos a módicos R$ 5. Com produção local encabeçada por Fabrício Souza, baixista do Garage Fuzz, e apoio do Safari Hamburguers e da Secretaria de Cultura, o evento foi a faísca que faltava. “Foi um dos meus primeiros shows como produtor de eventos”, relembra Fabrício. “Representou o potencial para o estilo que a região tinha, abrindo as portas da cidade para várias outras turnês de punk e hardcore que vieram a acontecer. Foi um divisor de águas”. Conexão do All You Can Eat com Santos: fanzines, Ratos de Porão e Fat Mike A vinda do All You Can Eat para o Brasil não envolveu grandes agências corporativas, mas sim selos postais e fanzines. Devon Morf, vocalista da banda, trabalhava com as icônicas publicações americanas Maximum Rocknroll e Flipside. “Eu lia muitas cartas deles e fiz muitos pen pals (amigos por correspondência) em todos os continentes”, conta Devon. A paixão pela cena nacional surgiu através do escambo. “Fiz conexão com um cara no Brasil e trocávamos discos de punk brasileiro por discos de metal dos EUA. Isso me tornou um grande fã das bandas brasileiras. Ratos de Porão, até hoje, é uma das minhas bandas favoritas”. Essa imersão no underground rendeu frutos históricos. Devon estudou com Fat Mike (do NOFX) em São Francisco e trabalhou na lendária gravadora Fat Wreck Chords quando ela ainda funcionava em uma casa. “Muitas pessoas no Brasil perguntavam quando o NOFX viria. Eu contei ao Mike o quão animados eram os fãs brasileiros”, revela o vocalista. Embora o NOFX só tenha conseguido descer para a América do Sul algum tempo depois, a semente californiana já estava plantada. Caos na Arena e a invasão do público O local escolhido para a gig santista foi o Teatro de Arena (hoje conhecido como Teatro Rosinha Mastrângelo). Segundo resenha da época publicada no fanzine Surfcore, de Marco Casado e Victor Martins, o espaço era “bem pequeno, mas com uma acústica incrível”. O local ficou completamente lotado, deixando muita gente do lado de fora. A escalação de peso contava com o Garage Fuzz, que, segundo o fanzine, foi “matador” e fez todo mundo pular. A outra banda local foi o Safari Hamburguers, que na opinião da publicação estreava uma formação “cabulosa” com Fabião nos vocais. Quando o All You Can Eat, formado por Devon (vocais), Danny (guitarra), Craig (baixo) e Seth (bateria), começou a tocar, a configuração do teatro em formato de arena (sem um palco elevado) garantiu uma proximidade perigosa e divertida. O Surfcore relatou a típica catarse da época: “Sempre aparecem aqueles atravessados que vão lá, abraçam o guitarrista e enchem o saco da banda, não deixando os caras tocarem direito”. Mas o caos era parte intrínseca do espetáculo. O fanzine descreve que o show foi maravilhoso, “com o vocalista subindo pelas colunas e fazendo macaquices, e o baterista que deixava o prato cair em cima de toda música que acabava, pulava com o bumbo, batia no prato”. Skates, Pelé, capoeira e a “Califórnia Brasileira” Fora do palco, a turnê sul-americana, que passou por cidades como Rio de Janeiro, São Paulo, Florianópolis, Curitiba e Buenos Aires, teve momentos de turismo afetivo. O roadie da banda, Todd, era fanático por Pelé desde a infância e ficou maravilhado por estar na cidade onde seu herói viveu e reinou. A cultura urbana santista também impressionou os gringos. Antes da turnê, o baterista Seth visitou a redação da renomada revista Thrasher, que abasteceu a banda com camisetas e bonés para distribuírem no Brasil. “Ficamos maravilhados com todos os skatistas no Brasil”, recorda o vocalista. A performance insana no palco também rendeu histórias inusitadas nos bastidores. O curioso termo “macaquices”, usado pelo fanzine Surfcore para descrever os pulos de Devon no Teatro de Arena, foi confirmado pelo próprio músico em um relato recente. “Depois do show, uma mulher muito legal disse que gostou da apresentação e que eu me movia e pulava como um ‘Macaco’”, diverte-se. A conversa com a fã revelou uma conexão transcultural: “Ela disse que fazia capoeira, e acabou que eu estava fazendo aulas de capoeira na faculdade em San Francisco. Ela queria se encontrar para jogar na praia de manhã, mas o All You Can Eat ia partir para Curitiba naquela mesma noite”. A vontade de aproveitar a praia santista, no entanto, foi cobrada anos mais tarde. Devon retornou à cidade em uma turnê com a banda What Happens Next?. “O Boka nos disse que poderíamos surfar, mas acabou não tendo ondas. Estava um dia lindo e quente, e eu só tinha surfado com roupas de borracha na fria San Francisco. Infelizmente, perdi alguns momentos na Califórnia Brasileira!”, relembra o vocalista, citando o famoso apelido da região. O saldo da passagem do All You Can Eat em 1995 vai muito além dos 5 reais cobrados na porta do Teatro de Arena. O show provou que a Baixada Santista tinha força motriz, bandas de altíssimo nível para segurar um line-up e um público sedento por energia. Foi a noite em que Santos confirmou, com suor, fanzines e stage dives improvisados, que estava pronta para abraçar de vez a sua vocação underground.

Tosco: o luto que virou thrashcore e a trilogia da indignação

Em 2017, um grupo de veteranos da cena santista se reuniu sem grandes pretensões, inicialmente para tocar covers de KISS. O projeto ganhou corpo, mas ainda faltava um nome. A escolha veio de forma dolorosa e honrosa. “Tínhamos um amigo em comum, o Manoel Neto, que volta e meia dava aquele esculacho na gente: ‘Pô, cara, isso tá meio tosco’. Ele agia como um ombudsman nosso”, relembra o guitarrista Ricardo Lima. Com a morte inesperada desse amigo, a banda decidiu adotar o adjetivo crítico como batismo. Assim nasceu o Tosco: uma homenagem póstuma transformada em metal furioso. Trilogia da indignação do Tosco Musicalmente, o Tosco se define como thrashcore, mas o rótulo é pequeno para a mistura de Black Sabbath, Slayer e hardcore que eles produzem. O diferencial está nas letras em português, que funcionam como crônicas da degradação social brasileira. A discografia é uma escalada de brutalidade: Conexões internacionais e locais O prestígio dos integrantes abriu portas inimagináveis. O álbum Agora É A Sua Vez conta com Dave Austin (da lenda americana Nasty Savage) solando na faixa Hellvetia, que denuncia a epidemia de crack no centro de São Paulo. Outra participação de peso é Silvio Golfetti (Korzus) no cover de Guerreiros do Metal. “Justiça foi feita. Essa música com o Dave Austin era para ter saído no primeiro álbum, mas acabou esquecida. Ficou uma cacetada”, celebra o vocalista Osvaldo Fernandez. A formação atual é um “quem é quem” do metal santista: Do estúdio para o palco ao vivo A banda gravou boa parte de seu material recente no Play Rec, em Santos, e lançou em 2025 o álbum ao vivo Facão Afiado, gravado no RedStar Studios (SP). Em Santos, o Tosco é presença constante em casas que mantêm a chama do som pesado acesa, como Boteco Valongo, Studio Rock e o Bar do Gabiru (São Vicente), provando que a experiência, quando somada à indignação, produz o metal mais vital possível.

A passagem tempestuosa (e seminal) do Rollins Band por Santos em 1994

Rollins Band

Muito antes da internet facilitar o intercâmbio musical e das turnês internacionais se tornarem rotina no Brasil, a praia do Boqueirão, em Santos, foi palco de um encontro improvável e histórico. Em 5 de fevereiro de 1994, o festival M2000 Summer Concerts reuniu na areia de Santos o hard rock do Mr. Big, o indie rock do The Lemonheads, o fenômeno nacional Raimundos, o pop inocente de Deborah Blando, o peso do Dr Sin e a fúria visceral da Rollins Band. Tudo isso com o testemunho de 180 mil fãs. Para a história da “Califórnia Brasileira”, foi um marco que ajudou a pavimentar a cena local. Mas para Henry Rollins, ex-frontman do Black Flag e ícone do hardcore, a noite foi um misto de dor física, alucinação e um choque de realidade brutal. Anos depois, em um show de stand-up comedy em 2013, Rollins revelou os detalhes sórdidos daquela noite. O que parecia apenas um show com “público frio” revelou-se uma comédia de erros que envolveu ódio gratuito a Evan Dando, um crânio exposto e uma teoria darwiniana que falhou miseravelmente. Rollins Band e a “missão de matar Evan Dando” em Santos A Rollins Band chegava ao Brasil em seu auge técnico. Após a entrada no Lollapalooza de 1991 e o sucesso do álbum The End of Silence (1992), a banda estava prestes a estourar na MTV com o disco Weight. Mas a cabeça de Henry Rollins não estava na música, e sim no ódio ao vocalista do The Lemonheads. Rollins confessou que chegou a Santos com uma missão: “Destruí-lo. Nem vou falar com o Evan quando o vir. Nunca o conheci, mas ele toca aquele tipo de música de garota (…) e as mulheres simplesmente correm atrás dele”. A inveja da atenção feminina que Dando recebia consumia o vocalista da Rollins Band. “Eu olho para esse cara e penso: ‘Você morre hoje à noite. O punho esmagador e inacreditável da Rollins Band vai te transformar em picadinho, seu filho da puta’”, relembrou no stand-up. A ironia? Ao encontrar o “inimigo” nos bastidores da praia santista, a raiva desmoronou. “O Evan é uma das pessoas mais legais que eu já conheci. Um amor de pessoa. Então eu penso: desculpa por ter sido um idiota.” Nocaute: “Eu sinto meu crânio” Sem o inimigo externo, Rollins voltou sua fúria para si mesmo. A banda entrou no palco com a missão de mostrar “suor, músculos e poder do rock”. Mas durou pouco. Logo na primeira música, Low Self Opinion, a intensidade cobrou seu preço. “A banda entra com tudo. Eu ainda não disse uma palavra. Minha cabeça abaixa. Meu joelho subiu. Pá! Me nocauteou na frente de todos eles. Apaguei”, conta Rollins. O relato do vocalista sobre os segundos seguintes é aterrorizante e cômico na mesma medida. Ele apagou em pé por cerca de 20 segundos. Ao acordar, desorientado, ouviu a própria banda tocando como se fosse um som distante e colocou a mão na testa. “Estendo a mão até minha cabeça. Tem um buraco que vai de cima da minha sobrancelha até o fundo da minha sobrancelha (…) Eu enfio a mão e sinto meu crânio. O que eu acho bem legal.” O vocalista do The Lemonheads, Evan Dando, assistiu a tudo da lateral do palco horrorizado. “Sim, me lembro quando Henry (Rollins) bateu no rosto com o próprio joelho e ele estava todo ensanguentado. Íamos jogar uma toalha para ele, mas ele disse ‘não, não, não’. Porque ele era aquela coisa de Alice Cooper. Não sei, ele disse: ‘não, não, não, não quero a toalha, obrigado’. Mas é disso que me lembro principalmente.” Teoria Darwiniana do Rollins Band falha em Santos Com o rosto coberto de sangue e o chão do palco virando um matadouro, Rollins decidiu continuar o show. Não por profissionalismo, mas por uma lógica distorcida de atração sexual. “Na minha mente darwiniana infantil e distorcida, eu acho que as lindas mulheres brasileiras vão ver um cara banhado em luz branca (…) Elas veem sangue. E percebem que esse é o cara (…) Preciso pegar o sêmen de alguém. E imagino ondas de lindas brasileiras, se atropelando umas às outras para chegar até mim”, devaneou o cantor. A realidade da plateia santista, porém, foi o oposto. O público, que já estava frustrado pela ausência de covers do Black Flag e desconhecia as músicas novas e pesadas como Liar e Disconnect, reagiu com repulsa. “A multidão estava se afastando de mim. Não encontrei uma única brasileira em três dias”, lamentou Rollins. “Tudo o que eu fiz foi: ‘Oi, meu nome é Evan, você vai lá para baixo no corredor e entra na fila’. Então não precisei de nenhuma.” Sangue vs. pijamas O show terminou com a Rollins Band tocando músicas inéditas para um público atônito e um vocalista mutilado. A imagem final que Rollins guarda daquela noite no Boqueirão resume perfeitamente o choque de culturas do festival M2000. De um lado, ele: “Me sinto um deus do rock furioso. O sangue escorre pelo meu rosto. Eu só penso: ‘É isso aí’”. Do outro, o “rival” Evan Dando: “A melhor coisa foi ver o Evan sair depois. De pijama. Ele toca de pijama. ‘Oi, eu sou um cara legal’. E eu estou imerso no meu próprio sangue.” Frustração dos fãs com a Rollins Band em Santos Enquanto Rollins sangrava, parte do público sangrava por dentro, mas de decepção. Havia uma expectativa latente de que a banda tocasse clássicos do Black Flag. Marco Casado Lima, fã presente no show, resume o sentimento da “velha guarda” punk que foi à praia naquela noite. “No meu caso era o Rollins Band. As pessoas da cena hardcore até conheciam, mas meu conhecimento se restringia ao álbum End of Silence. Estava lá com a ilusão de ouvir eles tocando músicas do Black Flag.” O setlist, contudo, olhava para o futuro. O repertório ignorou solenemente a antiga banda de Rollins e focou no peso do vindouro álbum Weight. Faixas inéditas para o público, como Civilized, Disconnect