Matchola lança Zero Bala: “um disco pra abraçar todos aqueles que se consideram deslocados”

*Matéria feita por Denis Araujo Se na Bahia a gíria que dá nome ao álbum remete a algo novo ou renovado, para Matchola, o buraco é mais embaixo. O lançamento de Zero Bala, que chegou às plataformas nesta quarta-feira (3), marca um estado de espírito. “Eu considero Zero Bala um termo que remete ao bem-estar, a estar tranquilo, a estar ZERO BALA”, explica o artista. Saindo da densidade de seu projeto anterior, Ok Tchola, o cantor agora mira na luz. “É uma parada solar/summer vibes, e mais importante, uma parada latina e baiana”, define ele, complementando sobre o momento atual: “Eu ‘tô’ numa fase onde eu quero que as pessoas saibam da onde eu vim e o que eu represento”. A “esquizofrenia musical” e o toque orgânico de Matchola Musicalmente, Matchola não economiza nas definições e assume o caos criativo. “Zero bala não foge da esquizofrenia musical que eu faço, não”, brinca. O álbum é uma verdadeira montanha-russa que vai do pagodão com rap ao reggae, passando por bossa nova, MPB e indie rock. Mas há um fio condutor nessa mistura. “A cola que une todos os sons são os elementos latinos. Muita percussão latina, muito bolero, muita guitarra, parada ‘caliente’”, detalha. Diferente de trabalhos puramente eletrônicos, aqui a pegada é instrumentada. “É um disco que foi arranjado mais do que sampleado, então tudo que você ouve ali tem um ser humano tocando”, diz Matchola, citando as contribuições de Denovaro (flauta e baixo) e João Mendes (guitarra). Autenticidade “Cringe” de Matchola e a morte do ego O conceito do álbum vai além da sonoridade; é um convite à autoaceitação. Matchola descreve o disco como um “refúgio pra galera que se sente ‘cringe’ querendo ser autêntico”. Para ilustrar essa liberdade, surge a figura de Seu Bala, interpretado por Jorge Mauadie (Jota). “É o primeiro álbum que eu introduzo um personagem de forma explícita mesmo (…) Que é a representação da morte do ego. Ele é a personificação da falta de vergonha, da aceitação e do sentimento de querer se soltar”, revela o artista. Sem clichês turísticos No single Barril Dobrado, a estética soteropolitana aparece crua e real, fugindo do óbvio. Matchola é enfático sobre evitar estereótipos: “Em Barril Dobrado mesmo, eu podia citar várias coisas clichês da Bahia, falar axé até umas horas, acarajé e dendê, mas eu não curto isso, acho muito básico”. A ideia foi trazer a vivência real da rua. “Preferi contar um ponto de vista muito específico de quem desce pro carnaval Barra-Ondina, a referência de se trombar na CopyArt ou da galera deitada no Cristo passando mal”, conta ele, rindo de situações que quem é de Salvador conhece bem. Colaborações e o selo OGEF O álbum marca também a consolidação do selo OGEF, sendo o primeiro disco distribuído pela label. A parceria com OGermano, fundamental para o amadurecimento de Matchola no “business” da música independente, abriu portas para feats de peso na cena alternativa. Nomes como Tangolo Mangos, Luiz Barata, 2ZDINIZZ, Enow e Thalin marcam presença nas faixas. “Aprendi a me levar a sério”, reflete o artista sobre sua evolução desde 2024, destacando a importância do planejamento estratégico que antecedeu este lançamento. Zero Bala está disponível em todas as plataformas digitais. Como diria o próprio Matchola: a salvação é individual, mas a música é para todo mundo se soltar.

Inspirado por nomes do hip hop experimental, rapper de salvador inova na versão deluxe do disco Ok Tchola

*Realizado em colaboração com Denis Araujo O lançamento da versão deluxe do disco Ok Tchola, no último dia 5, marcou um momento significativo para Matheus Reis, conhecido artisticamente como Matchola. O novo trabalho adiciona sete faixas inéditas à versão original do álbum, trazendo ainda mais profundidade ao seu trabalho, lançado em fevereiro de 2024. Nascido em Salvador, Matchola, aos 23 anos, não é um novato na arte de criar. Com uma trajetória que vai de aspirante a animador e designer a beatmaker e rapper, ele encarna a essência da renovação artística. Seu apelido, sugerido por um amigo, agora é sinônimo de inovação para ele. Ok Tchola Deluxe Ok Tchola se destaca por sua abordagem experimental do hip hop, influenciado por grandes nomes do cenário underground como Jpegmafia, Danny Brown e Death Grips. O projeto carrega um tom agressivo e ousado, trazendo um reflexo de sua busca constante por reinvenção. “Esse foi um trabalho que bebeu bastante da cena de hip hop experimento dos Estados Unidos,” explica o artista sobre suas influências no som do disco. Em resumo, a criatividade, segundo o artista, vem da capacidade de amalgamar diversas influências e criar algo novo. Essa abordagem é evidente não apenas em sua música, mas em sua visão artística como um todo. “Eu tento ao máximo escutar todo tipo de coisa. Assim, o leque de referências aumenta, ajuda na hora de compor e, querendo ou não, você encontra sua própria identidade carregada de várias outras identidades misturadas,” compartilha. Dificuldades e dicas No entanto, o caminho para emergir no cenário atual do rap não é desprovido de desafios. Matchola aponta a dificuldade em encontrar uma identidade própria em um mercado que exige constante adaptação. Porém, ele também vê oportunidades nos vários subgêneros e nichos existentes. “Você pode ser bem sucedido com seu nicho, é só cair de cabeça no estilo que mais te agrada,” ele aconselha outros artistas que estão iniciando. Vale lembrar que mesmo com 24 anos, Matchola já possui quatro discos. Anti-herói do rap Através das letras apresentadas em Ok Tchola Deluxe, o artista busca ser um “anti-herói do rap”, propondo múltiplas interpretações e significados. Sua visão de futuro é ambiciosa, almejando influenciar a cena musical, explorar outras formas de arte e estabelecer seu próprio estúdio e gravadora. O lançamento desta nova versão além de ser um marco na carreira de Matchola, também é um convite para ouvintes explorarem novos horizontes musicais, quebrando barreiras e desafiando o convencional. Com uma visão clara e uma paixão pela arte, o rapper está pronto para deixar sua marca no cenário underground do gênero.