Entrevista | Nanda Moura – “O que aconteceu para a gente ter encaretado tanto?”

Nome consolidado no cenário do blues contemporâneo, a cantora e guitarrista Nanda Moura atravessa uma fase de profunda inquietação artística. Após levar seu talento para palcos europeus e marcar presença em grandes festivais como o Best of Blues and Rock, a artista mergulha em uma sonoridade mais visceral e provocativa com seus lançamentos mais recentes, os singles Chega e Louca. Nesta nova etapa, Nanda Moura deixa de lado as fórmulas prontas para confrontar o que chama de “caretice” dos tempos atuais, um estado de anestesia emocional alimentado pela obrigação das redes sociais e pelo domínio dos algoritmos. Com referências que vão do surrealismo de Salvador Dalí à crueza do blues de Muddy Waters, Nanda Moura propõe um retorno à autenticidade e ao erro como marcas da verdadeira humanidade. Acompanhada por nomes de peso como Nasi (Ira!) e o produtor Apollo 9, a artista prepara o caminho para seu próximo álbum, apropriadamente intitulado Deglutir, Digerir e Devolver. Em um bate-papo exclusivo para o Blog n’ Roll, Nanda Moura falou sobre o impulso criativo por trás de suas novas composições, a parceria com ícones do rock e do rap, e por que a arte continua sendo nossa maior ferramenta de resistência. Seus últimos lançamentos, Louca e Chega, trazem uma sonoridade e letras muito fortes. Louca soa quase como um grito de libertação. De onde veio o impulso para compor essa música que confronta tão diretamente a anestesia emocional dos nossos tempos? Louca nasceu de uma inquietação que começou a me incomodar muito. Essa coisa da rede social, sabe? No início, a gente fica empolgado, mas depois de um tempo ela acaba sufocando. Me sinto assim hoje: sufocada pela obrigação da rede social. O estalo final veio após visitar uma exposição sobre os 100 anos do Surrealismo. Fiquei de frente para obras de artistas como Salvador Dalí e Remedios Varo, que pintavam coisas exageradas, exuberantes e “descaralhadas” há um século. Pensei: “Caramba, os caras já eram tão loucos há 100 anos. O que aconteceu para a gente ter encaretado tanto?”. Parece que andamos em círculos; evoluímos em alguns pontos, mas retrocedemos na liberdade. Vivemos com medo do julgamento, nos mascarando na arte e nas relações. Louca é uma provocação contra esse retrocesso. Você diz que Louca é também uma declaração de princípios. O que representa pessoalmente essa busca por autenticidade que você canta na letra? É o meu momento de prezar por ser verdadeira, mais do que nunca, com o tipo de som que faço e como quero soar. Sendo bem aberta, não tem outra forma de fazer Louca se não for sendo sincera. É um grito para as pessoas, mas principalmente para mim mesma, dizendo: “Não seja medíocre, não seja careta, não se deixe misturar na multidão”. Quero que as minhas marcas de “loucura” apareçam sem eu ligar para os apontamentos alheios. É uma provocação de mim para mim mesma que acaba atingindo todo mundo. Esse single teve a produção de Apollo 9 e a coprodução de Nasi. Como foi trabalhar com eles e como essa parceria influenciou o resultado final? O Apollo é um cara muito antenado, experiente, já trabalhou com Seu Jorge, Rita Lee, Paralamas… Ele tem uma visão muito ampla e sensibilidade para entender o que queremos colocar na música. Já o Nasi tem aquela coisa visceral e crua do rock que eu adoro e que busco muito no blues. Fiz o arranjo com músicos incríveis: o Otávio Rocha (guitarra) e o César do Baixo, ambos do Blues Etílicos, e o Gil Eduardo (primeiro baterista do Blues Etílicos e ex-Erasmo Carlos). Quando o Apollo e o Nasi entraram, eles trouxeram “pitacos” que deram uma certa estranheza à música, um clima mais incômodo, pesado e provocador. Eu sou muito instintiva; quando ouvi, senti que aquele incômodo era exatamente o que a música pedia. No single anterior, Chega, você também teve o Nasi e ainda contou com a participação do Thaíde, gerando uma mistura interessante de blues, rock e rap. Como surgiu esse encontro? Eu e o Nasi já temos uma parceria estabelecida. Nos conhecemos no Best of Blues and Rock, quando ele estava gravando o projeto solo Rock Soul Blues. Ele buscava uma cantora para um dueto em Coração de Caveira (versão de Martinho da Vila) e o santo bateu na hora. Sobre Chega, queríamos fazer uma versão de I’m Be Satisfied, do Muddy Waters. Como o Nasi foi o primeiro produtor de rap no Brasil, surgiu a ideia de colocar uma inserção do gênero. Ele chamou o Thaíde, que topou na hora. Casou perfeitamente: blues, rock e rap são música negra, não tem erro. Em Chega, você fala sobre retomar o controle da própria atenção. Você acredita que a arte é uma das poucas formas de resistência contra a automatização da vida? Com certeza. E se não nos atentarmos, pode piorar. As pessoas estão muito automatizadas. Hoje nos entregamos ao algoritmo: ouvimos o que nos é sugerido e oferecido, e isso nos torna medíocres. Cadê a curiosidade de ir atrás de um assunto, de buscar conhecimento? Temos acesso a tudo, mas estamos acomodados. Procuro usar a minha linguagem, que é a música, para “cutucar” e fazer as pessoas refletirem, saindo um pouco do automático. Você é um nome consolidado no cenário do blues contemporâneo. O que você acha que falta no Brasil para o gênero ter um alcance maior ou mais comercial? Historicamente, o blues nunca foi mainstream; ele sempre esteve à margem, em um nicho. Ao mesmo tempo, é a origem de tudo: do rock, rap, soul, country, pop e jazz. Acho que falta conhecimento das pessoas sobre isso. Existe a barreira da língua, já que a língua-mãe do blues é o inglês, mas ele é um estilo universal porque comunica emoções puras, do improviso à melancolia. O caminho é ocupar espaços e mostrar como o blues conversa com os nossos elementos culturais. Para encerrar, o que vem por aí? Quais são os planos após Chega e Louca? Estou trabalhando no meu próximo álbum, que está sendo

Nanda Moura abre Best of Blues and Rock com show cativante

Atração de abertura do primeiro dia do Best of Blues and Rock 2023, Nanda Moura foi a responsável por representar o blues em uma tarde/noite marcada por guitarristas virtuosos. Acompanhada de Gil Eduardo, Cesar Lago e Otávio Rocha, a cearense Nanda Moura, de 32 anos, surgiu no palco com uma cigar box guitar, algo característico em seus shows, e apresentou um repertório cativante. Apresentou um set com clássicos do blues e jazz. Debaixo de forte sol e com poucas pessoas na plateia, Nanda Moura não diminuiu o ritmo. Pelo contrário, mostrou muita dedicação e técnica. Quando tocou Hit the Road Jack, de Ray Charles, conseguiu colocar o público para cantar junto. Foi o grande momento da apresentação.  Fiquei com muita vontade de assistir em um clube de blues ou bar do Sesc. Casa bem com a proposta do som. Confira set list abaixo Trouble So Hard (Vera Hall) Hard Times Killing Floor (Skip James) Walking Blues (Robert Johnson) Who You Gonna Hoodoo Now (Tony Joe White) Everything Is Gonna Be Alright (Little Walter) Let The Good Times Roll (B.B. King) Nextdoor Neighbor Blues (Gary Clark Jr.) Baby, Please Don’t Go (Big Joe Williams) Skinny Woman (R.L. Burnside) Halfway To Jackson (Justin Townes Earle)

Malvada e Nanda Moura entram no lineup do Best of Blues and Rock

Marcado para os dias 2, 3 e 4 de junho, o Best of Blues and Rock anuncia mais duasatrações para sua edição de dez anos. A banda de rock Malvada e a cantora de blues Nanda Moura se apresentam na sexta, dia 2 de junho, na plateia externa do Auditório Ibirapuera, em São Paulo, na abertura do festival. Enriquecendo ainda mais o cast nacional, a banda Malvada é a mais nova representante das mulheres no rock brasileiro e conta com Angel Sberse (voz), Bruna Tsuruda (guitarra), Marina Langer (baixo) e Juliana Salgado (bateria). A cantora e guitarrista Nanda Moura sobe ao palco e apresenta versões de clássicos do blues tradicional. Ela é acompanhada por músicos veteranos do cenário nacional: Otávio Rocha (guitarra), César Lago (baixo), Gil Eduardo (bateria). Os ingressos do festival podem ser adquiridos a partir de R$ 450,00 com parcelamento em até 10 vezes pelo site da Eventim ou na bilheteria do Estádio do Morumbi (nesse último, sem taxa de conveniência). Os fãs contam com a opção Combo Promocional, que dá direito a assistir aos três dias do festival. Também está disponível para todo o público a Entrada Social, mediante a entrega de um agasalho na entrada do evento, destinado à instituição Cruz Vermelha de São Paulo. Confira abaixo as atraçõesconfirmadas em cada dia do festival e fique atento que em breve mais atrações do festival serão divulgadas! DIA 2 DE JUNHO Tom Morello Extreme Malvada Nanda Moura DIA 3 DE JUNHO Buddy Guy — Damn Right Farewell Tour (turnê de despedida) Steve Vai Dead Fish DIA 4 DE JUNHO Tom Morello Buddy Guy — Damn Right Farewell Tour (turnê de despedida) Goo Goo Dolls Ira! Day Limns SERVIÇO Best of Blues and Rock 10 anos bestofbluesandrock Data: Dias 2, 3 e 4 de junho de 2023 Local: Plateia externa doAuditório Ibirapuera: Av. Pedro Álvares Cabral -Ibirapuera – São Paulo Classificação: 16 anos (menores podem comparecer acompanhados de responsável legal) Ingressos: a partir de R$ 450,00 (meia-entrada) Vendas online: Eventim