Com tributo à MPB e clássicos, Deep Purple emociona em SP

O Deep Purple foi certeiro no setlist. Quinta banda a se apresentar no Monsters of Rock, que rolou neste sábado (22), no Allianz Parque, em São Paulo, a lendária banda inglesa abriu os trabalhos com Highway Star e deixou Smoke on The Water para a reta final, dois dos seus maiores hits. No recheio dessa apresentação, Uncommon Man foi dedicada ao finado Jon Lord, enquanto When a Blind Man Cries ficou ainda mais potente ao vivo. Ian Gillian, aos 77 anos, não se rendeu ao playback. Segue firme e forte, apesar do desgaste natural. Simon McBride rendeu um fôlego ainda maior para os veteranos. Assumindo o lugar de Steve Morse, demonstrou muita personalidade no palco. Extremamente técnico, o músico de 44 anos fica muita à vontade no palco, parece companheiro de décadas. Ian Pace e Roger Grover estão envelhecidos na aparência, mas na disposição e técnica, nada mudou. É impressionante ver esses senhores de 74 e 77 anos, respectivamente, curtindo a apresentação do Deep Purple. O tecladista Don Airey, que já havia declarado seu amor pela música brasileira em entrevista ao Blog n’ Roll, fez um medley com Sampa, Brasileirinho, Tico Tico no Fubá e Meu Brasil, Brasileiro. Isso tudo misturado com um trecho de Mr. Crowley, clássico de Ozzy Osborne, que começa com o teclado de Airey. Aliás, o músico estava com um bonequinho de Ozzy em cima do instrumento. Perfect Strangers, Space Truckin’ e Smoke on the Water vieram na sequência do solo de Airey, que foi provavelmente um dos poucos que não ficou cansativo ao longo do festival. Hush e Black Night vieram nos acréscimos, quando boa parte do público já se deslocava para ir ao banheiro ou reabastecer de cerveja.
Helloween faz set curto e repleto de clássicos no Monsters of Rock

Quarta atração a subir no palco do Monsters of Rock, que aconteceu neste sábado (22), no Allianz Parque, em São Paulo, a banda alemã Helloween apresentou um set curto, com dez músicas apenas, priorizando os clássicos. Intercalando duetos de Andi Deris e Michael Kiski com ambos sozinhos na linha de frente, o grupo de power metal iniciou o show com uma trinca de peso: Dr Stein, Eagle Fly Free e Power. Das dez músicas apresentadas no show, somente três vieram dos últimos oito álbuns lançados de 2000 para cá: Best Time, Future World e If I Could Fly. Mas, mesmo essas mais “recentes”, foram muito bem recebidas pelos fãs. Heavy Metal (Is the Law), com Kai Hansen assumindo os vocais, também fez a plateia vibrar bastante. Forever and One, com Andi Deris e Michael Kiski sentados no banquinho, garantiu um momento mais emocionante para o público, que acompanhou a canção no coro do início ao fim. I Want Out deu números finais para a apresentação, deixando os fãs extasiados. Sem dúvida alguma foi um dos momentos mais empolgantes de todo o festival. O Helloween retornou ao Brasil menos de um ano de sua última apresentação, mas comprovou mais uma vez que os retornos de Kiski e Kai Hansen, em 2016, foi a decisão mais importante que o grupo poderia ter tomado.
Além do Buena Vista, o furacão Wil Campa e a resistência dançante em Havana

Se você vai a Cuba esperando encontrar apenas os senhores do Buena Vista Social Club sentados em cadeiras de vime, o alerta local é certeiro: os remanescentes do lendário grupo hoje brilham mais nos palcos da Europa e dos EUA do que nas ruelas de Havana Velha. Para quem busca a pulsação atual da ilha, o nome que ecoa entre os cubanos é um só: Wil Campa. O show de Will Campa Assistir a Wil Campa e sua orquestra La Gran Unión é mergulhar em um espetáculo que desafia definições simples. No palco, Campa é um showman completo, herdeiro da disciplina rigorosa de quem estudou Canto Popular e lapidou seu talento em festivais de jazz por 38 países antes de fundar sua própria orquestra. O som é uma evolução contagiante do Son cubano, flertando com o merengue eletrônico e a música urbana. Mas o que realmente prende o olhar é a encenação. Para quem viveu os anos 90 no Brasil, a experiência tem um sabor familiar: a energia e as coreografias sincronizadas dos dançarinos evocam imediatamente a estética do Axé Bahia 97 ou, para os íntimos da Baixada Santista, o vigor do grupo Filhos do Sol. É uma lambaeróbica caribenha de alto nível, onde os músicos não apenas tocam, mas performam com tacos de beisebol, máscaras e tambores em uma entrega física absoluta. Experiência “real” na Casa de la Música O cenário dessa imersão é a histórica Casa de la Música. Aqui, a autenticidade cubana encontra as complexidades do turismo moderno. Se você não estiver disposto a desembolsar os “mínimos extravagantes” para garantir uma mesa, o destino é o balcão. E, honestamente? Talvez seja o melhor lugar para observar a fauna local. Enquanto Campa desfila sucessos como La Bambina e Me Gustas Tú, o salão é dominado por figuras que parecem saídas de um filme de ação: “dublês” em miniatura do Vin Diesel, que ostentam o controle dos espaços vips e regem a pista, convidando mulheres solitárias para dançar com uma confiança que só Havana proporciona. Veredito sobre Will Campa Wil Campa se define como um “camponês empreendedor e guerreiro”. Fora do palco, um cavalheiro de voz suave; sob os refletores, uma força da natureza que mantém viva a tradição de Benny Moré e Juan Formell, mas com a roupagem de quem conquistou a era digital. Se o Buena Vista é a nostalgia de uma Cuba que se recusa a passar, Wil Campa é a prova de que a música popular dançante da ilha está mais viva, disciplinada e suada do que nunca. É show para se ver em pé, de preferência com um mojito na mão e sem se preocupar com o rigor das mesas, deixando-se levar pelo ritmo de quem nasceu para não deixar ninguém parado.
Sepultura estreia nova fase da turnê com poucas surpresas em Santos
Yungblud incendeia Interlagos e consagra sua relação de amor com o Brasil

Dias após destruir (no bom sentido) o Cine Joia em um sideshow caótico, o britânico Yungblud provou no Lollapalooza, em Interlagos, que sua energia não se dilui em palcos grandes. Vestindo uma camisa do Brasil (que virou quase uniforme), ele correu, gritou e cuspiu marra punk durante uma hora ininterrupta. O setlist foi um ataque frontal: The Funeral, Parents e Tissues foram tocadas em velocidade máxima. A conexão com o público foi visceral, ele desceu para a grade, regeu os mosh pits e exigiu participação total. O encerramento com Loner foi o ápice de uma performance que misturou a teatralidade do glam rock com a sujeira do punk. Yungblud saiu de cena como o nome mais vibrante da nova geração do rock no festival. Edit this setlist | More YUNGBLUD setlists
Wallows dribla o estigma de ‘banda de ator’ e faz estreia solar (mesmo com o tempo fechando) no Lollapalooza

Quando o Wallows foi anunciado para o Lollapalooza 2023, o ceticismo era inevitável. Afinal, bandas lideradas por atores de Hollywood costumam ser apostas arriscadas. Mas na tarde de sábado (25), Dylan Minnette (voz/guitarra), Braeden Lemasters (voz/guitarra) e Cole Preston (bateria/guitarra) subiram ao Palco Budweiser dispostos a enterrar qualquer preconceito. O horário (16h45) foi estratégico, pegando a transição da tarde. Curiosamente, o clima de Interlagos decidiu participar do show: o sol escaldante que castigava o público deu lugar a ventos frios e nuvens pesadas exatamente durante o set, criando uma atmosfera “london-indie” que casou perfeitamente com a sonoridade da banda. Início bem brasileiro do Wallows no Lollapalooza A banda ganhou o jogo antes mesmo de tocar a primeira nota. A entrada ao som de Sonho Meu, clássico de Dona Ivone Lara e Délcio Carvalho ecoando nas caixas, foi um aceno de respeito que pegou a plateia desprevenida e abriu sorrisos imediatos. Quando engataram I Don’t Want to Talk, ficou claro que o som ao vivo tinha mais “punch” do que nas gravações. A “cozinha” da banda funcionou como um relógio, sustentando a euforia dos fãs que se espremiam na grade. Momento meme O show não foi apenas uma reprodução do Spotify. O trio mostrou versatilidade com a troca de instrumentos, ver Dylan assumir o baixo ou Cole sair da bateria para a guitarra deu uma dinâmica visual interessante, provando que são músicos reais, não apenas rostos bonitos. O setlist navegou bem entre o indie dançante de Talk Like That e Quarterback (cantada por Cole). Mas o momento de catarse coletiva, e um tanto cômica para os brasileiros, foi o cover de What Makes You Beautiful, do One Direction. Para o público local, impossível não associar a melodia ao meme “Nissim Ourfali”, o que transformou a pista em um karaokê caótico e divertido. Clímax Diferente da postura tímida (e até meio ranzinza) que Dylan apresentou em algumas entrevistas pré-festival, no palco ele foi um frontman completo. Desceu para a grade, cantou com os fãs e prometeu voltar “o mais rápido possível”, promessa que a banda pareceu fazer com sinceridade. A reta final foi uma surra de hits indies. Remember When e Pleaser prepararam o terreno para o encerramento obrigatório com Are You Bored Yet?. Sem a participação de Clairo (apenas a voz gravada), o público assumiu os vocais femininos, criando o momento mais bonito da apresentação. O Wallows saiu de Interlagos maior do que entrou. Em suma, eles provaram que sua base de fãs é real e barulhenta, e que seu som, uma mistura inteligente de post-punk revival com pop moderno, funciona muito bem em grandes festivais. Para quem duvidava, ficou a lição: o Wallows é uma banda de verdade, e das boas.
Twenty One Pilots espanta o fantasma do blink-182 com show acrobático e homenagem aos veteranos

A missão era ingrata: substituir o blink-182, a banda mais esperada da década, aos 45 do segundo tempo. Mas o Twenty One Pilots não apenas segurou a bronca, mas fez o público esquecer a ausência. O show do Twenty One Pilots foi uma aula de entretenimento. Desde a escalada suicida de Tyler Joseph na estrutura do palco até a bateria montada sobre a plateia, o duo entregou tudo. Musicalmente, foram respeitosos: tocaram um trecho de All The Small Things, ganhando o respeito dos fãs órfãos do blink. Na parte do trompetista, que costuma prestar pequenas homenagens locais, Garota de Ipanema, Más que nada e Baile de Favela foram lembradas. Hits como Stressed Out, Heathens e Ride foram executados com a precisão de sempre, mas foi a energia de “temos que vencer esse jogo” que tornou a noite especial. Saíram ovacionados, não como substitutos, mas como titulares absolutos.
Entre o deboche e a genialidade, The 1975 entrega o show mais estiloso do festival

Matty Healy subiu ao palco com uma garrafa de vinho, um cigarro e a postura de quem não liga para nada, exatamente o que os fãs esperavam. O show do The 1975 foi uma viagem estética e sonora. Com um setlist que privilegiou o álbum Being Funny in a Foreign Language, a banda soou impecável. A trinca inicial com If You’re Too Shy (Let Me Know) e TooTimeTooTimeTooTime colocou todo mundo para dançar. Mas os pontos altos foram os hits da era “Tumblr”, como Robbers e Sex, que causaram histeria na grade. Healy, equilibrando-se entre o personagem arrogante e o frontman carismático, provocou, bebeu e entregou um dos shows mais visualmente coesos do evento. O encerramento com Give Yourself a Try deixou aquele gosto de rock de arena moderno e inteligente. Edit this setlist | More The 1975 setlists
Gilsons transforma Lollapalooza em fim de tarde na Bahia com hits de ‘Pra Gente Acordar’

Entre tantas guitarras distorcidas e batidas eletrônicas, o show dos Gilsons funcionou como um oásis. O trio (filhos e netos de Gilberto Gil) trouxe a brisa da MPB contemporânea para o palco principal, provando que o som orgânico tem, sim, espaço em megafestivais. O hit Várias Queixas foi cantado em uníssono, transformando o gramado em uma roda de samba gigante. Mas a força do show residiu nas faixas do álbum Pra Gente Acordar, como Proposta e a faixa-título, que misturam a sofisticação harmônica da família Gil com o pop radiofônico. Foi uma apresentação leve, solar e dançante, que serviu para “limpar o paladar” do público antes da maratona de rock que viria a seguir.