“Springsteen: Salve-me do Desconhecido” e o ciclo de vida de uma criação

Os discos, assim como os filmes, têm vida própria. Ou pelo menos é nisso que o público, que os consome e, às vezes, os venera, acredita quando tem o contato com a obra final, lapidada e definida. Para o artista, que trabalha incansavelmente em algum projeto, no entanto, o que ocorre é um processo de transferência de ideias que se somam ou se separam durante uma transição de momentos, que podem resultar em uma turnê em larga escala ou um mergulho individual na zona criativa e deprimida que habita o semblante e o interior de um músico deprimido. O filme Springsteen: Salve-me do Desconhecido, do nem sempre inspirado diretor Scott Cooper, opera nesse universo de indecisões com prazo de validade. Bruce Springsteen precisou de apenas duas semanas enfiado dentro de um quarto que o aproximava de memórias dolorosas e também de notícias de crimes reais, para gravar seu disco mais aclamado pela crítica, mas o preço da libertação máxima das convenções, do manual de como “seguir a fórmula do sucesso” quase foi muito alto para sustentar a profundidade de sua visão. Com 31 anos de idade no início dessa jornada, Bruce viveu o ciclo todo de um ano, e passou a ter 32, quando o álbum finalmente foi lançado. Partindo desse princípio, de um confinamento de expectativas substituídas pela insistência e teimosia de um cara que sabia exatamente o que queria de sua música, Springsteen: Salve-Me do Desconhecido é muito mais um recorte de uma história com múltiplas narrativas do que uma série de ações sequenciadas para ter cadência de cinema. O filme de Scott Cooper, acostumado a um certo “refinamento técnico”, que ilude mais do que convence (como pôde ser visto em outro filme com fundo musical, o esforçado Coração Louco), mais uma vez conta muito com a eficiência (e, por vezes, o brilho, mesmo) de seu elenco, tanto de Jeremy Allen White transmitindo o mistério e a rebeldia imponente de Bruce desfilando com seus casacos de couro, cara de poucos amigos e mãos nos bolsos, quanto de Jeremy Strong, no papel de Jon Landau, produtor, empresário e até conselheiro afetivo do cantor. As personagens precisavam umas das outras para se ampararem na indústria e nos caminhos da vida, e os dois atores nasceram para atuar juntos. As soluções para retratar o dilema que Bruce enfrentava, de como transformar gravações caseiras, com voz, gaita, violão e uma sonoridade caseira, lo-fi, com ecos nas vozes estão todas ali, em cena: Bruce vai ao estúdio, e, de repente, Bruce vai ao parque, e Bruce volta ao estúdio (com uma banda, com o empresário, com um violão, com um canal de gravação, com… sua voz, no fim das contas), com um amor de fachada, mas sempre com muitas lembranças que parecem bater na porta, querendo levar a tristeza embora, mas aí você percebe que Nebraska não é um álbum sobre acerto de contas com o pai, com a família ou sobre aquele momento que não aconteceu. Nebraska representa um limbo, onde assassinos ganham a forma de fantasmas e saem impunes, onde pais amam os filhos sem usufruir do amor, onde fantasias de cinema importam mais do que a realidade concreta do dia-a-dia. Mas nada disso tem cor, e nem é muito claro. O preto e branco da capa é quase negativo. Se não tem vida, não tem julgamento. Essa não é a mesma narrativa de The River, 1980, ou Born in the U.S.A., de 1984, os avassaladores sucessos que antecederam e sucederam, respectivamente, o “patinho feio” de 82. Não há vilões e mocinhos, não há o Romeu que quer impressionar a Julieta e morrer em seus braços, tampouco. Nebraska é apenas um pedacinho de poeira dentro do porta-luvas de um carro onde estão guardadas algumas canções em uma fita-cassete bem velha. Acho que o filme poderia ser um pouco mais errático e menos didático se quisesse traduzir com exatidão o sentimento descrito, mas, além do elenco principal, há um elenco de apoio fantástico, com aparições de Stephen Graham, Gaby Hoffman e Paul Walter Hauser que ajudam bastante um diretor aquém da demanda a trabalhar melhor e fazer o filme funcionar um pouco mais do que eu esperava, mas ainda menos do que deveria. Springsteen: Salve-me do Desconhecido é uma pretensa biografia musical, em um primeiro momento, se mostrando muito mais uma ruminação pessoal de memórias, sobre um artista se recuperando de um período de cansaço físico e emocional, se colocando como protagonista, pela primeira vez em muito tempo, de sua história, ao mesmo tempo que é personagem de tantas outras, de mocinhos e mocinhas procurando seu lugar na América.
Guns n’ Roses entrega melhor show em uma década com surpresas e emoção

Atrasado? Gordo? Nervosinho? Cantando mal? Os críticos de plantão tiveram que aguentar Axl Rose em plena forma, pontual, feliz e entregando o melhor show do Guns n’ Roses em São Paulo desde 2016. A apresentação no Allianz Parque, no sábado (25), foi a melhor resposta possível para quem adora malhar um dos maiores vocalistas da história do rock. “Porque o que você quer e o que você obtém são duas coisas completamente diferentes” (Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things). O nome da atual turnê do Guns não poderia ser melhor, são várias interpretações que podem ser feitas. Seja pela “torcida” dos críticos por falhas do Axl ou pela alteração constante nos sets. Em tempos de repertórios decoradinhos do primeiro ao último show, o Guns quebra essa roda e surpreende com ótimos achados. Mas vamos voltar ao Axl Rose. É impressionante o trabalho de recuperação do artista desde o retorno de Slash e Duff, em 2016. Foram muitos percalços e dramas até chegar no nível atual. Da falta de ritmo à insegurança, que teve seu auge em Londres, em 2022, quando chegou a dormir no estádio do Tottenham após uma crise de ansiedade depois de uma das apresentações. Axl está com 63 anos e por muitos anos gastou sua voz com um alcance vocal poderoso. Óbvio que a conta chega, chega para todos. Steven Tyler (Aerosmith) precisou parar, Bon Jovi pausou a carreira, só para citar alguns exemplos. O líder do Guns n’ Roses se recusou a parar. E mais do que isso, não quer entregar qualquer coisa para os fãs, foram 3h10 de show. Fica a pergunta: qual banda ou cantor(a) faz isso hoje em dia? Mas os cornetinhas sempre vão achar um jeito de querer provocar ou falar besteira. Se o desempenho de Axl melhorou, “vamos caçar novos problemas”… Tentaram criar um desentendimento entre o vocalista e o novo baterista, Isaac Carpenter, após um problema técnico no retorno do som, na Argentina, algo que foi desmentido pela banda nas redes sociais. Sem o menor cabimento, aliás. Isaac tem uma performance impressionante, toca muito e esbanja carisma no banquinho. O que resta? Falar do repertório. Sim, também reclamam das escolhas para o set. Alguns choram pelo “excesso de covers”, outros pela falta de “novidades”. Não podemos esquecer que estamos falando de uma banda com 40 anos de história. É impossível fazer um set predominante com b-sides ou faixas novas. Não é assim com nenhuma grande banda com longa jornada, como o Guns, mas a implicância é sempre maior com eles. Parece um trauma vitalício decorrente da cadeira arremessada por Axl nos jornalistas, no Maksoud Plaza, em São Paulo, em 1992. Por falar em “novidades”, Hard Skool, Absurd, The General e Perhaps são canções relativamente recentes. Mas é impossível esperar um show do Guns sem protagonismo dos álbuns Appetite for Destruction e Use Your Illusion I e II, os maiores sucessos comerciais. Mas mesmo dentro desse universo, o grupo faz suas alterações. Patience saiu do set em São Paulo, Don’t Cry voltou. Yesterday foi resgatada. Duff também modifica sua participação no vocal, no Allianz Parque optou por Thunder and Lightning, do Thin Lizzy. Por falar em covers, que linda homenagem prestada ao gigante Ozzy Osbourne, com Sabbath Bloody Sabbath e Never Say Die, ambas do Black Sabbath, acompanhada de uma linda imagem do finado vocalista no telão. Human Being, do New York Dolls, que também perdeu seu vocalista, David Johansen, em março, foi outro momento memorável e inesperado. Em 3h10 de show, Axl e companhia emocionaram, divertiram e colocaram mais de 45 mil pessoas para cantar do início ao fim. E isso tudo com Slash desfilando solos e riffs marcantes da história do rock, quase todos com a sua assinatura, inclusive com um momento blues sensacional, antes de Sweet Child O’ Mine. O guitarrista Richard Fortus, com mais de 20 anos de banda, já está consolidado na formação. Se Izzy ou Gilby quiserem voltar, certamente terão que pegar uma terceira guitarra. O tecladista Dizzy Reed, desde 1990 no Guns, é um porto seguro para garantir que Axl, Slash e Duff tenham o protagonismo compartilhado na linha de frente. E todos parecem estar bem com suas posições. Axl distribui sorrisos, conversa com o público e até agradece com o bom e velho português “obrigado”. Sobrou algo para os cornetinhas? Que o Guns n’ Roses retorne muitas outras vezes ao Brasil, com ou sem álbum novo. Isso é um mero detalhe. Setlist Welcome to the Jungle Bad Obsession Chinese Democracy Pretty Tied Up Mr. Brownstone It’s So Easy The General Perhaps Slither (Velvet Revolver) Live and Let Die (Wings) Hard Skool Wichita Lineman (Jimmy Webb) Sabbath Bloody Sabbath (Black Sabbath) Never Say Die (Black Sabbath) Estranged Yesterdays Double Talkin’ Jive Don’t Cry Thunder and Lightning (Thin Lizzy) Absurd Rocket Queen Knockin’ on Heaven’s Door (Bob Dylan) You Could Be Mine Slash Guitar Solo Sweet Child o’ Mine Civil War November Rain This I Love Human Being (New York Dolls) Nightrain Paradise City
“Deadbeat” e a era do relaxamento desacelerado para Kevin Parker, do Tame Impala

Na música, quando um artista supera o status dele esperado, passando a agir como um guia para o que há de mais moderno na indústria, e não apenas como um mero instrumentista ou compositor, mas também como um produtor, colaborador que atravessa gêneros e convenções, chega um momento em que ele pode muito bem querer descansar, e abrir mão de jogar de acordo com as expectativas. É justamente aí em que pode haver um desentendimento, um desacordo, entre a idolatria do público, sempre querendo o máximo, e o olhar mais íntimo que pode haver, de minimizar o esforço, mesmo, ser menos colorido, menos preocupado em ser genial, e mais sarcástico, autodepreciativo, que está no cerne da existência de Deadbeat, quinto álbum do Tame Impala (primeiro a ser lançado pela Sony Music), de Kevin Parker. O relapso pode ser uma forma de cuidado, pelo menos é o que está estampado na capa, que já começa contrariando o perfeccionismo usual ao “quebrar” com as artes conceituais padronizadas com nome da banda e do álbum alinhados simetricamente, com a mesma fonte. Dessa vez, Parker aparece segurando sua filha, em paz consigo mesmo, sem querer trazer nenhuma mensagem através das cores da imagem, entusiasmo ou vibração. Na verdade, o universo familiar é o da estabilização, e o que é estável não se sobressai, assim como as batidas repetitivas de cada música, ou o groove cansado e insistente, pouco criativo da faixa Loser, derivativa de um mesmo riff animado que é gostoso de ouvir, mas não se transmuta na faixa que muitos esperavam, com vigor criativo. Parker, vocalista, multi-intrumentista, compositor e tudo o mais que uma única pessoa pode ser (não custa dizer a essa altura que a banda só o acompanha em shows) um dia furou a bolha e, pela primeira vez desde que isso aconteceu, resolveu olhar para trás e se isolar nela. Para uma parte do público, não está tudo bem. A outra parte está tentando decidir como se sente, mas o fato é que, apesar de ainda existir vestígios de psicodelia e rock alternativo no projeto, Parker sacrificou o ritmo previamente estabelecido, dinâmico e acelerado, pela paz e a liberdade que a música house, em conjunto com a produção eletrônica e a cultura das raves australianas, pode e pôde oferecer a ele. A princípio, soa aleatória a escolha de não “criar” uma arte própria para o disco, mas nunca antes Parker se importou menos com coerência. As letras não acompanham a acomodação do ritmo, quando muito refletem um disparo alucinado para todos os lados, com referências a pessoas famosas, seriados de televisão e ligações diretas com canções de outros músicos. Sem dúvidas, Deadbeat é um disco camaleônico, que aborda romance com um pé no esotérico em Piece of Heaven, aludindo a Enya com harpas, teclados saturados e também acenando para Phil Collins e clássicos da madrugada de estações saudosas de rádio. Parker também quer incorporar Michael Jackson, temática e sonoramente, em faixas como Dracula (o funk aqui é contagiante) e Afterthought (uma versão de Thriller malhada no sintetizador), mas dificilmente se contenta em ser ele mesmo. Kevin Parker se enxerga (ou ao menos quer que você o veja assim, talvez com um certo cinismo), como um fracassado, um perdedor, alguém que tentou e agora parou. O recado está claro: não espere mais nada de Tame Impala. Dê um tempo às ilusões, ao maximalismo, às convenções. Essa é a era do desapego, mesmo que você não acredite nisso ou ache o álbum uma farsa. Talvez ele seja, mas nem tudo tem que ter personalidade formada.
Codeine envolve público de São Paulo entre a calmaria e a explosão

Matheus Degásperi Ojea Quem só escutasse o som do show dos nova iorquinos do Codeine no último sábado (11) no City Lights Hall, em São Paulo, poderia chutar que tinha mais do que três pessoas no palco. O cultuado trio nova iorquino fez a sua estreia no Brasil com alguns anos de atraso, mas fez valer a espera de muita gente que talvez nem acreditasse que um dia a banda viria, com um show bonito e ensurdecedor Daquelas bandas ao mesmo tempo influentes e desconhecidas do público em geral, o Codeine é um expoente do slowcore, gênero de ‘rock triste’ que aposta no andamento mais lento para construir as suas paisagens sonoras sempre com altas doses de distorções. Tecnicamente, a banda durou de 1989 até 1994, tendo se reunido uma vez em 2012 e uma segunda em 2023, retorno que dura até hoje. Durante este ano, eles só tocaram ao vivo três vezes, incluindo o show de São Paulo. Pelo histórico, fica fácil de entender porque a frase que mais se repetia entre os presentes que encheram a casa de shows era algo do tipo ‘não acredito que esses caras estão aqui’, sentimento ecoado inclusive pelo vocalista Stephen Immerwahr no palco e em conversas com quem o abordava após o show. Imersão Foi nesse clima de deslumbramento que o público recebeu a porrada sonora que a banda deu por pouco mais de uma hora. Alternando momentos de calmaria e intensidade, o som do Codeine se traduziu muito bem ao vivo e deixou claro o ponto forte tanto do grupo como do estilo que eles ajudaram a criar: o de gerar atmosferas imersivas capazes de transportar a audiência e envolver o ambiente em que eles tocam. A qualidade impecável do som durante a noite também foi essencial para que tudo funcionasse da maneira certa. Além de Immerwahr, que também é baixista, o trio é formado por John Engle na guitarra e pelo baterista Chris Brokaw, que toca baixo em músicas que não contam com percussão, como Pea, Summer Dresses e Broken-Hearted Wine. A banda tocou colocando pressão no som aparentemente sem fazer muito esforço, com a tranquilidade de quem sabe o que está fazendo mesmo com os intervalos na carreira e os shows mais escassos. A apresentação começou logo com uma das favoritas dos fãs, a música D, que também abre o clássico Frigid Stars LP, disco que emprestou 6 das 16 músicas do setlist. A plateia acompanhou tudo quase como se estivesse prestando reverência ao grupo. Não houveram grandes coros ou danças na pista, que, com exceção de algumas pessoas berrando nomes de música entre uma canção e outra, acompanhou tudo com atenção, na mesma sintonia da viagem que a banda propunha no palco. Guandu Vale mencionar que a produção do show foi do selo independente Balaclava Records, que vem trazendo alguns nomes destes que pareciam meio impossíveis de vir tocar aqui, como foi o Karate no ano passado, banda com um histórico semelhante com o do Codeine. Para a abertura do show de sábado, as redes sociais do selo publicaram pedidos de indicação de artistas e os escolhidos foram os paulistanos do Guandu. O show do trio formado por Caique Lima, Cleozinhu e João Corte foi uma grata surpresa para mim, que não conhecia a banda antes. Claramente influenciado pelo pessoal do Codeine, que viu o show da pista, o grupo apostou em um repertório com várias músicas ainda não lançadas, além de um cover de Morrer, do Ratos de Porão, em versão slowcore, surpreendentemente bom. Para algumas músicas, o show teve participação da cantora Marina Mole, que casou muito bem com o som e parecia fazer parte da banda. No geral, foi uma escolha certeira para começar os trabalhos da noite. SETLIST – CODEINE D Cigarette Machine Barely Real Loss Leader Median Washed Up Tom Jr Sea Pickup Song Atmosphere (cover do Joy Division) Pea BIS: Cave-In Promise of Love (cover do MX-80 Sound) Summer Dresses Broken-Hearted Wine
Upchuck lança I’m Nice Now, punk cru que transforma raiva em música

O Upchuck lança I’m Nice Now, seu terceiro álbum, com uma explosão de punk cru e visceral que transforma raiva em força e resistência. Produzido por Ty Segall, o disco aborda temas urgentes como racismo, sexismo e lutas diárias, mantendo a energia crua que tornou a banda referência do cenário atual. O Blog’n’Roll entrevistou recentemente a banda e, no bate papo, a vocalista Kaila “KT” Thompson afirmou: “Nunca houve um momento em que eu não tivesse raiva. Neste mundo de distrações constantes e estressores, é importante manter seu corpo e espírito sãos o suficiente para continuar nesta luta aparentemente interminável.” Essa raiva se traduz em músicas como Tired, faixa de abertura que soa como um grito coletivo contra injustiças, e Forgotten Token, escrita após a perda da irmã de KT, que aborda luto, racismo e desumanização: “Eu só sinto / Porque sou negra / Isso está empilhado / Em um armário perdido” O álbum também se destaca pela diversidade de vozes e idiomas, com o baterista Chris Salado assumindo os vocais em espanhol nas faixas Un Momento e Homenaje, trazendo uma perspectiva multicultural que amplia os limites do punk tradicional. “Para mim é natural. Meu pai e meu avô me ensinaram a tocar cumbia desde criança. Já toquei em banda de cumbia. Quando entro no estúdio, faço freestyle, vou gravando partes e guardo o que gosto. Punk e cumbia andam juntos”, confessa. A produção de Ty Segall mantém a intensidade das guitarras distorcidas e do baixo pulsante, equilibrando momentos de groove mais suaves em Slow Down e New Case com explosões sonoras em Nowhere, faixa que encerra o álbum com força e emoção. “Nós amamos o Ty. Gravamos no Sonic Ranch, em dez dias, e ele trouxe uma vibe muito boa. É um cara relaxado, que nos dá liberdade, mas também direciona em alguns pontos. Depois do último álbum com ele, foi natural voltar”, conta KT. I’m Nice Now, do Upchuck, é um manifesto sonoro de resistência e sobrevivência.
Horizons/West: Thrice mistura alt-rock e post-hardcore com maestria

Quatro anos após Horizons/East, o Thrice retorna com Horizons/West, um álbum que não apenas dá sequência ao trabalho anterior, mas também expande suas fronteiras sonoras. Enquanto Horizons/East explorava texturas atmosféricas e introspectivas, Horizons/West mergulha em uma sonoridade mais crua, com guitarras distorcidas e um flerte evidente com o alt-rock. O álbum abre com Blackout, uma faixa que mistura elementos de post-punk com uma energia cinematográfica, lembrando trilhas sonoras de filmes de ação. A guitarra de Teppei Teranishi, com riffs pesados e atmosferas densas, é um dos destaques. Faixas como Gnash e Vesper Light apresentam uma agressividade que remete aos primeiros trabalhos da banda, mas com uma maturidade sonora adquirida ao longo dos anos. Albatross surge como uma balada introspectiva, enquanto Undertow traz influências de Radiohead, com uma mistura de folk eletrônico e rock alternativo. O encerramento fica por conta de Unitive/West, uma faixa meditativa que, apesar de sua beleza, pode parecer um pouco anticlimática após os picos de intensidade anteriores. Em 2023, o Thrice revisitou seu clássico The Artist in the Ambulance, álbum que me apresentou a banda, regravando-o com novas interpretações e participações especiais. Essa releitura serviu como um exercício de reflexão sobre sua trajetória, preparando o terreno para a evolução sonora apresentada em Horizons/West. Com este álbum, o Thrice reafirma sua capacidade de se reinventar, mantendo sua essência enquanto explora novas sonoridades. Horizons/West é uma continuação natural de Horizons/East, mas com uma energia renovada e uma direção mais ousada.
AFI retorna aos anos 80 com Silver Bleeds the Black Sun

O AFI se reinventa mais uma vez com Silver Bleeds the Black Sun, mergulhando no post-punk e no gótico dos anos 80, com homenagens explícitas. Você pode se identificar com The Cure, Joy Division, Siouxsie and the Banshees, Bauhaus e Echo & The Bunnymen facilmente, porém tudo com a originalidade do AFI. O Baixo marcante, sintetizadores etéreos e elementos de bateria eletrônica criam uma atmosfera densa e cinematográfica, reafirmando a identidade da banda em seu novo álbum. Entre as faixas, Ash Speck in a Green Eye merece destaque. Com uma batida surpreendentemente animada e quase dançante, ela contrasta com a poesia sombria de Davey Havok, que canta versos como “I’m an ash that burns in beauty’s fire and I fall upon its fragile knife”. A música equilibra energia e melancolia, lembrando Blaqk Audio (projeto eletrônico de Davey Havok e Jade Puget) em alguns momentos, e prova a habilidade do AFI em fundir letras profundas com arranjos eletrônicos sofisticados. É uma faixa que se destaca pelo lirismo e pelo groove envolvente, transformando o peso emocional em movimento quase hipnótico. Davey Havok brilha em todo o álbum, sua voz mais madura e imponente guia o ouvinte por camadas de guitarras, sintetizadores e baixo pulsante. Embora o álbum tenha momentos em que algumas músicas compartilham cadências semelhantes, a intensidade e o refinamento das performances fazem valer cada faixa. Silver Bleeds the Black Sun é uma carta de amor aos anos 80 e um convite para explorar a elegância sombria do AFI.
The Rasmus acerta em cheio com Weirdo misturando pop e metal

O The Rasmus chega ao 11º álbum de estúdio com a segurança de quem já sabe o próprio caminho e, ao mesmo tempo, a ousadia de abraçar novas camadas de som e discurso. Weirdo é um trabalho que equilibra peso e melodia, mantendo a marca registrada da banda finlandesa enquanto mergulha em temas de aceitação, diferença e identidade. O início com Creature of Chaos estabelece o tom sombrio e poderoso, conduzido por riffs densos e atmosfera que flerta com o Nu Metal e a sonoridade dos anos 2000. Em seguida, Break These Chains cresce em intensidade até desembocar em um refrão explosivo. A sequência com Rest in Pieces e Dead Ringer reforça a capacidade do grupo de escrever músicas que transitam entre a fúria e a vulnerabilidade, sempre guiadas pela voz inconfundível de Lauri Ylönen. O coração do disco, no entanto, está na faixa-título. Weirdo, em parceria com Lee Jennings (The Funeral Portrait), transforma-se em um hino de celebração ao “ser diferente”. A canção consegue pop, mas ao mesmo tempo traz o discurso que permeia todo o álbum. Em meio às surpresas, Banksy injeta energia punk, Love Is a Bitch, minha favorita, aposta em um refrão radiofônico com groove provocativo e Bad Things mostra força na simplicidade. Já You Want It All aponta para o lado mais acessível da banda, ainda que menos impactante em comparação às anteriores. O desfecho com I’m Coming for You, escrita para o filho de Lauri, oferece um momento íntimo e emotivo, que fecha o trabalho de forma delicada e sincera. Com produção polida e variada, Weirdo reafirma o The Rasmus como um nome capaz de dialogar tanto com fãs antigos quanto com novas gerações. É um álbum de refrões pegajosos, arranjos bem trabalhados e mensagens universais. Se não revoluciona, mostra consistência e coração, qualidades que mantêm a banda relevante mais de duas décadas depois do sucesso mundial.
Ao aliar hits com renegadas, Teenage Fanclub entretém em show empolgante no Cine Joia

Muitas bandas que fizeram sucesso no passado e desenvolveram um nicho de fãs fieis, devotos à identidade estabelecida e ao som tradicional dos primeiros álbuns, sustentam o resto da carreira, depois de lançarem as consagradas obras-primas, com uma postura conservadora. Optam por não lançar nada de muito revolucionário, mas marcam shows e gravações de álbuns com frequência. No caso do Teenage Fanclub, banda escocesa que se apresentou na última quinta-feira (4), no Cine Joia, em São Paulo, o lema adotado do fim da década de 90 em diante sempre foi o de achar um pico de estabilidade e se acomodar em melodias cada vez mais cantaroláveis, em uma toada acústica, com menos guitarras e mais efeitos de vozes, uso de teclados e sintetizadores expressos em canções melancólicas, agridoces e muito sinceras. Fundado em 1989 por Norman Blake (vocal e guitarra) Raymond McGinley (vocal e guitarra solo) e Gerard Love, os Fannies, como são popularmente conhecidos, passaram por alterações no lineup, especialmente em um passado recente. Em 2018, Love, que atuava como compositor, vocalista e baixista em doses imensuráveis, deixou a banda por não suportar mais a escala de viagens e acumular divergências com os outros integrantes. Como resultado dessa dissolução, os membros restantes, entre eles o baterista Francis McDonald, que os acompanha desde o princípio, tomaram a decisão de não tocarem mais nenhuma música composta por Love, mas é difícil fazer uma plateia inteira ignorar tantas faixas icônicas que faziam parte do repertório do ex-baixista. Certamente, o público que encheu a casa de shows ontem queria mais é que canções como Sparky’s Dream, do clássico álbum Grand Prix, de 1995, ou Star Sign, do ainda mais icônico Bandwagonesque (o que eles já venderam de camiseta com a estampa da capa não está escrito), de 1991, mas não é assim que funciona. Felizmente, Norman Blake é um líder extremamente carismático, ainda que tímido nas palavras de agradecimento, e sabe como satisfazer o público. Mais do que entregar o que as pessoas querem, ele ouve cada pedido, cada chamado, desde que consiga correspondê-los, claro. No show do dia anterior, no Circo Voador, alguém pediu por duas vezes para a banda tocar Baby Lee, canção fofíssima, acústica, baladinha para esquentar o coração com acolhimento e ternura, do álbum Shadows, de 2010, e o frontman não pensou duas vezes e recrutou seus colegas para alterarem o setlist e, de última hora, proporcionarem essa quebra de expectativa muito bem-vinda para quem não aguenta mais a mesmice de um show para outro. As surpresas não pararam por aí, felizmente. Verisimilitude, grande clássico do Grand Prix, composta e cantada por Raymond, deu às caras ainda no início, bem antes da metade da duração, para o delírio de adultos que já foram jovens como os responsáveis pela atração, e também declararam versos sarcásticos de rebeldia como uma suposta prova de amadurecimento, típica de quem não sabe nada ainda, mas já quer tentar se virar pelo mundo. Também rechearam a seleção faixas ansiadas por todos e presentes em todos os shows, de qualquer turnê, como as contagiantes What You Do to Me e About You, com seus refrões que incendeiam fãs até mesmo à distância. O repertório foi muito variado, dentro das possibilidades de faixas a serem tocadas e, para variar, encerraram a apresentação com Everything Flows, o primeiro single, pulsando uma energia cheia de distorção e sentimento nos instrumentos. Foi uma noite bonita, de distribuição de sorrisos, um apego ao saudosismo da disposição e da esperança ingênua que tomava conta do corpo lá atrás, e que agora sorri à adolescência, mas amplia a perspectiva para as necessidades da vida adulta, e a principal delas, para o Teenage Fanclub, é manter a constância. Setlist do Teenage Fanclub Home About You Endless Arcade Alcoholiday I Don’t Want Control of You Everything is Falling Apart 120 Mins Verisimilitude Baby Lee It’s a Bad World Middle of my Mind What You Do To Me See the Light Neil Jung My Uptight Life The Concept God Knows It’s True Falling into the Sun Mellow Doubt Everything Flows