Atmosfera etérea de Katacombs abre a noite de Frank Turner em SP

A responsabilidade de abrir a noite para nomes de peso como Dave Hause e Frank Turner, no Fabrique Club, na Barra Funda, em São Paulo, na noite de sexta-feira (30), ficou a cargo de Katacombs. O projeto é a identidade artística de Katerina Kiranos, cantora norte-americana que traz em sua bagagem uma fusão cultural fascinante: nascida em Miami, ela é filha de mãe espanhola e pai grego. Com um repertório intimista, Katerina transformou o ambiente do clube antes da explosão de energia das atrações principais. Esbanjando carisma e uma qualidade vocal impressionante, ela apresentou faixas que transitam por melodias dramáticas e etéreas. O setlist incluiu Blue Beard, Fruta y Mar, Weeping Willow, Old Fashioned e Pin Pin (com exceção de Blue Beard, todas do álbum de estreia, Fragments of the Underwater), encerrando com a faixa-título de seu primeiro EP, You Will Not. A profundidade de suas canções não é por acaso. Antes de assumir os palcos, Katerina dedicou anos à escultura de móveis em osso e madeira, uma meticulosidade que ela parece ter transferido para a construção de suas melodias. You Will Not, seu trabalho de estreia, funciona como uma montanha-russa emocional, refletindo uma jornada de autodescoberta que atravessa fronteiras geográficas e gêneros musicais, algo natural para alguém que passou a vida navegando entre múltiplas culturas. No palco do Fabrique, Katacombs provou que sua decisão de sair do “quarto escuro”, onde compunha solitariamente, para compartilhar seu mundo sagrado com o público foi, sem dúvida, a escolha certa.
Mr. Bungle faz show caótico e insano no Cine Joia em São Paulo

A banda Mr. Bungle, liderada por Mike Patton, icônico vocalista do Faith No More, fez uma apresentação solo nesta segunda-feira (26), no Cine Joia, em São Paulo, antes de participar da abertura dos shows do Avenged Sevenfold em Curitiba (28/01) e novamente na capital paulista, no Allianz Parque (31/01), juntamente com A Day To Remember. Por ser uma casa de shows relativamente pequena, foi uma oportunidade única de ver de perto o que podemos chamar de supergrupo. Além de Patton, que por si só já é um espetáculo à parte, somam-se à banda os lendários Scott Ian, guitarrista do Anthrax, e Dave Lombardo, ex-baterista do Slayer. Completam o time dois membros originais do Mr. Bungle – Trey Spruance, guitarrista também com passagem pelo FNM, e o baixista Trevor Dunn, parceiro do vocalista em outros projetos. E falar de Mr. Bungle é falar de caos. Metal, ska, disco, funk, jazz e outros gêneros, tudo junto e misturado de forma imprevisível e experimental. Um retrato da personalidade genial e controversa de Mike Patton. O show atual, porém, é bastante focado nas músicas do pesado álbum The Raging Wrath of the Easter Bunny, de 2020, executado quase na íntegra, com alguns momentos de calmaria. O disco é a regravação da demo de estreia, de 1986, e reflete as raízes thrash metal dos atuais e antigos integrantes da banda. A apresentação começa tranquila, com todos sentados em banquinhos para um cover de Tuyo, de Rodrigo Amarante, tema da série Narcos, seguida pela instrumental Grizzly Adams. Na sequência, começa a pancadaria e as rodas de mosh – sim, mesmo o local sendo pequeno, teve roda durante quase todo o show –, com Anarchy Up Your Anus e Bungle Grind. Depois, um momento singelo (ao estilo Patton), com a execução da balada I’m Not in Love, do 10cc. Eracist, Spreading the Thighs of Death, a clássica Retrovertigo (tocada parcialmente) e State Oppression, cover do Raw Power, vêm em seguida, antecedendo um dos momentos mais marcantes do show, Hypocrites / Habla Español o Muere. Patton adaptou a letra para Speak Portuguese or Die, e finalizou cantando “Fala português ou morre”. A porradaria segue com Glutton for Punishment, USA, cover do Exploited, e Raping Your Mind, até o respiro romântico de Hopelessly Devoted to You, música de John Farrar que ficou conhecida na voz de Olivia Newton-John no filme Grease. My Ass Is on Fire, icônica faixa do álbum homônimo de estreia da banda, inicia a parte final do show, que encerra com Sudden Death, Refuse/Resist, do Sepultura – outro ponto alto da noite, e um cover pra lá de inusitado de All by Myself, de Eric Carmen. O refrão foi adaptado para “Tomar no Cu”, cantado em coro pelo público, todos com o dedo do meio em riste. Que momento! Um fechamento perfeito para um show não muito extenso, de 1h20, mas com todo o caos e insanidade que os fãs esperavam. Vida longa ao Mr. Bungle! Avenged Sevenfold na área e banda de abertura para o Mr. Bungle no Cine Joia Antes de encerrar esta resenha, dois pontos de destaque. Os cinco integrantes do Avenged Sevenfold estavam no Cine Joia assistindo ao show. Em dado momento, Patton brincou dizendo que o público estava no show errado, e que o A7X estava tocando “logo ali”, o que gerou algumas vaias. Rapidamente, o vocalista disse “não façam isso, são nossos amigos”, e pediu palmas, sendo prontamente atendido. Também vale citar a banda que abriu a noite, o duo brasileiro TEST, que faz um death metal experimental. Eles ficaram conhecidos por tocarem do lado de fora de shows e festivais, usando uma Kombi como apoio, fazendo tanto sucesso que acabaram indo parar nos palcos. Destaque para o baterista Barata, que já foi citado por Igor Cavalera como “o melhor baterista do mundo”. Não sei se é o melhor do planeta, mas posso garantir que o cara é absurdamente brutal. Velocidade, técnica, peso… Faz muito tempo que não fico impressionado com um baterista como fiquei com ele! Vale muito conhecer!
Dead Fish: por que o álbum “Afasia” é um viajante do tempo?

Afasia é, sem dúvidas, um marco não apenas na carreira do Dead Fish, mas considero (humildemente) um marco na música brasileira, por ter uma sonoridade singular e temas que me pego pensando até hoje. Mas, antes de falar sobre os sons que irei mencionar, queria destrinchar um pouco dessa fase da banda, da qual tive meu primeiro contato com a banda. Na falecida MTV Brasil havia um programa que passava nas tardes de domingo, antes do Top 20 Brasil. Esse programa era o Toca Aí, no qual algumas pessoas pediam clipes específicos para se passar nessa faixa. Em um desses programas eram feitos especiais com músicos que bancavam os VJs por alguns minutos, e em uma dessas, o convidado foi o saudoso Marginal Alado, Alexandre Magno Abrão, mais conhecido como o Chorão do Charlie Brown Jr. Não achei o programa que Chorão participava, mas, na oportunidade, o cara escolheu Too Much Pressure do Selecter, War Inside My Head do Suicidal Tendencies, Big Pimpin’ de Jay-Z e uma tal banda capixaba chamada Dead Fish, com Proprietários do Terceiro Mundo. O clipe fazia um paralelo de como o capitalismo coloca o trabalhador em uma situação totalmente utilitarista e animais como tendo o significado de sua vida apenas para servir como alimento. E óbvio, eu, aos meus 10 anos de idade, nunca fiz essa reflexão. Mas o que me chamou a atenção foi um tipo de som que eu nunca tinha escutado, com uma voz vinda de uma garganta rasgada cheia de areia gritando palavras de liberdade, das quais eu não conseguia compreender muito bem do que se tratava. Meses depois, eu de bobeira no meu sofá mais uma vez, sintonizado no também saudoso Musikaos de Gastão Moreira, dei de cara com Rodrigo e sua trupe mais uma vez, dessa vez tocando Afasia, Noite e Sonho Médio. O que me gerou estranheza e uma pulga atrás da orelha sobre qual tipo de som o Dead Fish tocava, já que, na minha arrogância e pretensão de pré-adolescente, o tal do hardcore era Bad Religion, NOFX, Pennywise, e não tinha nada a ver com aquilo. Bom, mal sabia o pequeno Willian Portugal que aquelas quebras de tempo propositalmente marcadas pela bateria, o baixo groovado e as guitarras bizarramente distorcidas seriam o que justamente fariam aquela fase do Dead Fish ser uma das suas preferidas. Afasia, um álbum do Dead Fish viajante do tempo Anos mais tarde, logo depois do lançamento de seu sucessor, Zero e Um, fui atrás de adquirir Afasia e percebi o ponto fora da curva que essa obra foi do restante do que a banda produziu tanto antes quanto depois. Mas só recentemente fui perceber como o disco azul é um viajante do tempo, e não apenas por como soa, mas sim pelas letras compostas por Rodrigo Lima no alto dos seus 28 anos e seu poder de identificação contemporâneo. É claro que a já citada Proprietários confronta o estigma neocolonizador que nos rodeava desde sempre, naquela época, mas nos assombra principalmente nos dias de hoje. Tango, uma ode à luta e resistência feminista, e outras músicas desse LP são queridas e lembradas por grande parte do público até os dias de hoje, como Viver, Noite, Me Ensina, Iceberg e a própria faixa título. Mas gostaria de exaltar três que quase nunca são lembradas e dar razões do porquê deveriam ser. E claro, todas essas interpretações são MINHAS, o que pode ser totalmente equivocado e diferente da intenção final de quem compôs hahaha. Revólver: A previsão do “cidadão de bem” Começando: Revólver. Essa faixa é muito interessante por mostrar uma decepção política disfarçada pelo seu ritmo. Em um hardcore “tupá tupá” no melhor estilo Face To Face, a letra mostra o passo a passo de como a educação neoliberal influencia a classe média a acreditar em suas falácias individualistas, de que um bom emprego e os bens materiais provenientes dele te fazem acreditar que o problema não é você e a classe à qual você pertence. E mais: quem aí teve um amigo que cresceu ouvindo Dead Fish com você e se tornou um adulto apático, despolitizado, isso se não debandou para uns pensamentos MBL das ideias? Pois é… “Este poder jovem te tornará senil e destruirá tudo de bom que já existiu. Um homem morto aos 30, em uma boa posição. Este é você!” Teria Rodrigo previsto o punk de direita lá em 2001? Foto: Fred Bell Maya Reprogresso, a preservação da memória Continuando, agora seguiremos com Reprogresso. Quando ouvi o álbum pela primeira vez, não gostei dessa música, francamente. É uma música “difícil” de se escutar. Arrastada, “turva”. Mas, como os mais velhos dizem, “quando você for mais velho, você vai entender”. E entendi. Aqui, Rodrigo fala de uma Vitória da qual ele não reconhece mais, muito diferente daquela que ele conheceu quando era mais jovem. E não se trata de saudosismo barato, é sobre preservação da memória. Fui criado na Vila Vivaldi, no bairro de Rudge Ramos, em uma casa na Rua Antônio Simões. Era uma casa de muro baixo, chão de ladrilhos, um pequeno canteiro com algumas plantas, quintal enorme que eu brincava com meus primos. Ali, por meio do meu falecido tio Marco Aurélio, aprendi a gostar de futebol, de música, cinema e até mesmo um pouco sobre política (ele tinha um quadro do Che que ficava na sala, bordado à mão, vermelhão, a coisa mais linda). 23 anos depois, a casa não existe mais, existem poucas fotos, sobrou apenas uma construção abandonada, toda cinza e nenhum resquício visual do que foi a minha infância. Hoje entendo que “isso não pode ter sido sem querer, e vimos um prédio crescer”. No capitalismo, não existe espaço para que o afeto do trabalhador permaneça. Apenas suas mãos e suas pernas, enquanto elas funcionarem. Perfect Party, ansiedade antes do debate Por fim, a faixa que encerra o disco, Perfect Party. Essa fui apenas entender melhor quando eu comecei a me entender melhor por meio da terapia. A ansiedade esteve
Na saideira dos grandes shows internacionais de 2025, Limp Bizkit instala o caos no Allianz Parque

O último sábado (20) marcou um encontro geracional no Allianz Parque, em São Paulo. O Limp Bizkit, um dos maiores expoentes do nu metal, provou que sua relevância em 2025 vai muito além do saudosismo. O que se viu foi uma celebração explosiva de uma sonoridade que, embora frequentemente criticada no passado, hoje é abraçada com uma energia renovada por fãs de todas as idades. Fred Durst, ostentando seu visual de “vovô do rock” que se tornou sua marca registrada recentemente, comandou a massa com a precisão de um maestro. O show não foi apenas uma sucessão de músicas, mas um espetáculo de entretenimento. Durst sabe como manipular a dinâmica da plateia, alternando entre momentos de pura agressividade sonora e interações descontraídas, mantendo o público na palma da mão durante toda a apresentação. Enquanto Fred é a voz, Wes Borland continua sendo o motor criativo visual e sonoro da banda. Com seu figurino extravagante e riffs que definiram uma era, Borland entregou uma performance impecável, lembrando a todos por que é considerado um dos guitarristas mais inventivos do gênero. A química entre os membros originais remanescentes transpareceu em cada nota de clássicos como My Generation e Rollin’ (Air Raid Vehicle). Um dos pontos altos e mais sensíveis da noite foi a homenagem ao baixista Sam Rivers, falecido recentemente. O tributo, antes do início do show, trouxe uma camada de profundidade emocional para a apresentação, equilibrando o “caos controlado” característico da banda com um respeito genuíno ao legado de um de seus fundadores. Foi um momento de união entre banda e público, transformando o estádio em um ambiente de celebração e despedida. O Limp Bizkit em 2025 é uma banda que entende perfeitamente seu papel. Eles não tentam reinventar a roda, mas sim polir a energia bruta que os tornou gigantes. O Allianz Parque testemunhou rodas de pogo insanas durante Break Stuff, provando que a geração Z e os millennials compartilham o mesmo entusiasmo pela catarse sonora proporcionada pelo grupo. Foi, sem dúvida, um dos shows mais energéticos e memoráveis do ano em solo brasileiro, incluindo até lançamento de fogos de artifício do meio da plateia. Edit this setlist | More Limp Bizkit setlists
Bullet For My Valentine substitui Yungblud com show focado em “The Poison”

Substituir um headliner de última hora é uma tarefa ingrata, mas o Bullet For My Valentine provou ser a escolha definitiva para ocupar a lacuna deixada por Yungblud na etapa latino-americana da Loserville Tour. Convocados para suprir a ausência do músico britânico, que se retirou do lineup por questões de saúde, os galeses não apenas cumpriram a tabela: eles dominaram o palco do Allianz Parque com uma autoridade que só veteranos do metalcore possuem. A conexão com o público paulistano foi instantânea e avassaladora. Antes mesmo dos primeiros acordes ecoarem pelo estádio, a pista já fervilhava com mosh pits espontâneos, sinalizando que a audiência estava pronta para uma descarga de energia pesada. O respaldo dos fãs foi o combustível necessário para que o quarteto entregasse uma performance técnica e emocionalmente carregada. Estrategicamente, a banda optou por não montar um setlist genérico de festival. Em vez de uma coletânea de hits esparsos, eles mantiveram a espinha dorsal de sua turnê de 2025: a celebração monumental dos 20 anos de The Poison. O álbum, que definiu uma era para o metal moderno, foi o protagonista da noite, sendo executado quase na íntegra. Das 13 faixas originais, dez foram resgatadas, transportando o público diretamente para 2005 com hinos como Tears Don’t Fall e 4 Words (to Choke Upon). O show ainda guardou fôlego para pérolas essenciais da discografia, como Hand of Blood e o encerramento catártico com Waking the Demon. Embora o formato reduzido do set tenha deixado um gosto de “quero mais” nos presentes, a recepção calorosa e o apoio incondicional da plateia consolidaram a passagem do BFMV por São Paulo como um dos grandes momentos do evento. Eles entraram como substitutos, mas saíram como protagonistas. Setlist Her Voice Resides 4 Words (to Choke Upon) Tears Don’t Fall Suffocating Under Words of Sorrow (What Can I Do) Hit the Floor All These Things I Hate (Revolve Around Me) Hand of Blood Room 409 The Poison 10 Years Today Cries in Vain The End Waking the Demon
Pai da turma toda, 311 entrega show repleto de hits no Allianz Parque

A presença do 311 na Loserville Tour foi muito mais do que um simples show de abertura; foi um acerto de contas histórico com o público brasileiro. Sendo apenas a segunda visita da banda ao país, a primeira ocorreu há longos 14 anos, no festival SWU em 2011, a expectativa era palpável tanto para os fãs veteranos quanto para os admiradores do Limp Bizkit, que puderam testemunhar a fonte onde Fred Durst bebeu para moldar sua própria visão musical. Em um setlist conciso de 50 minutos, o quinteto não desperdiçou um segundo sequer. Abrindo com a dobradinha de peso Beautiful Disaster e Come Original, a banda reafirmou a força de seu repertório híbrido, que funde rock, reggae e hip-hop com uma fluidez invejável. A dinâmica vocal entre Nick Hexum e Doug “SA” Martinez continua sendo um dos grandes trunfos do grupo: a dupla esbanjou vigor físico e entrosamento, dominando o palco com uma energia que desmentia o hiato de décadas longe do Brasil. Para o público da pista, as comparações foram inevitáveis. A sonoridade solar do 311 ecoou referências que vão desde o Sublime até os brasileiros do Forfun (declaradamente influenciados pelos americanos). Um dos momentos de maior coro coletivo veio com a interpretação de Lovesong, clássico do The Cure que ganhou contornos icônicos na voz de Hexum pela trilha sonora do filme Como se Fosse a Primeira Vez. O ápice técnico da apresentação ficou por conta do baterista Chad Sexton. Seu solo vigoroso transformou-se em uma celebração coletiva no palco com a “invasão” dos integrantes do Slay Squad, que já haviam dado as caras no set da Ecca Vandal, reforçando o clima de camaradagem que permeia toda a turnê Loserville. O desfecho não poderia ser diferente: uma sequência de hinos como Amber e a explosiva Down, encerrando uma performance que provou que, mesmo após 30 anos de estrada, o 311 permanece relevante, técnico e absurdamente contagiante. Setlist Beautiful Disaster Come Original Freak Out Lovesong (The Cure) Applied Science Drum Solo (Slay Squad (+ crew) on stage before full band drum act) Amber Creatures (for a While) Feels So Good Down
Ecca Vandal estreia no Brasil misturando The Distillers com hip hop, mas deixa a desejar

Embora muitos brasileiros tenham tido o primeiro contato com Ecca Vandal apenas no anúncio da Loserville Tour, a artista sul-africana radicada na Austrália carrega uma trajetória de uma década marcada por um ecletismo radical. Com apenas um álbum de estúdio lançado, o elogiado disco homônimo de 2017, e um longo período de hiato que interrompeu sua ascensão, sua vinda ao Brasil cercava-se de curiosidade sobre como seu “caos organizado”, que funde punk rock, hip hop e música eletrônica, se comportaria em um estádio. A proposta de Ecca é fascinante: em seus melhores momentos, sua agressividade vocal remete à crueza de Brody Dalle (The Distillers), mas envelopada em batidas eletrônicas e uma estética urbana moderna. No entanto, no palco do Allianz Parque, no último sábado (20), abrindo para o Limp Bizkit, a execução esbarrou em questões técnicas que comprometeram a experiência. A escolha por um formato reduzido de banda, focada essencialmente em bateria e baixo, com alternâncias pontuais para guitarras e sintetizadores, acabou soando esvaziada. O excessivo volume da bateria engoliu as camadas mais ricas do som, tirando o peso industrial e a profundidade que tornam seu trabalho de estúdio tão impactante. Apesar dos problemas de mixagem, a presença de palco de Ecca foi inegável. O ponto alto da apresentação foi o single Cruising to Self Soothe, lançado no início de 2025. A faixa injetou uma dose necessária de energia pesada no set, permitindo que a cantora explorasse seus vocais rasgados e demonstrasse a atitude visceral que a tornou uma queridinha da crítica internacional anos atrás. Econômica nas interações para otimizar os 40 minutos de palco, Ecca Vandal não deixou de prestar sua homenagem à cultura anfitriã. Em um gesto de reverência à música pesada brasileira, apresentou-se vestindo uma camiseta do Sepultura, reforçando sua conexão com as raízes do metal e do punk. Foi um show de contrastes: uma artista talentosa e visualmente impactante, mas que ainda parece buscar o equilíbrio ideal para transpor sua complexidade sonora para arenas de grande porte.
Pierce the Veil reforça conexão com o Brasil em show intenso e participativo

Pierce the Veil passou pelo Brasil com a turnê “I Can’t Hear You”, incluindo apresentações em Curitiba e São Paulo. Na capital paulista, em apresentação realizada na última terça (16), a banda norte-americana entregou um show marcado por intensidade constante, equilíbrio entre diferentes fases da carreira e uma conexão direta com o público do Espaço Unimed. A abertura da noite ficou por conta do Health, que preparou o ambiente com um set denso e atmosférico, baseado em camadas eletrônicas, peso industrial e climas sombrios. A proposta funcionou como aquecimento eficiente antes da entrada do Pierce the Veil, com o público já atento e participativo desde os primeiros momentos. Quando a banda principal subiu ao palco, a reação foi imediata. O início do show colocou a pista em movimento, com o público cantando em coro e ocupando cada espaço disponível. O repertório alternou faixas recentes com músicas que ajudaram a consolidar a trajetória do grupo, criando uma dinâmica que manteve a atenção do começo ao fim. Ao longo da apresentação, o Pierce the Veil construiu momentos de explosão coletiva e passagens mais melódicas, sem perder intensidade. A condução segura do set, aliada à resposta constante da plateia, transformou o Espaço Unimed em um grande coro, com poucas pausas e energia elevada mesmo nos momentos de respiro. Mais do que revisitar a própria história, a banda mostrou estar confortável com o presente. A execução precisa, a comunicação direta e a escolha de repertório reforçaram a relevância do Pierce the Veil no circuito atual, confirmando em São Paulo uma relação sólida com o público brasileiro. Confira o Setlist abaixo:1. Death of an Executioner2. Bulls in the Bronx3. Pass the Nirvana4. I’m Low on Gas and You Need a Jacket5. I’d Rather Die Than Be Famous6. Yeah Boy and Doll Face7. She Makes Dirty Words Sound Pretty8. I Don’t Care If You’re Contagious9. Wonderless10. May These Noises Startle You in Your Sleep Tonight11. Hell Above12. Emergency Contact13. Circles14. Disasterology15. Hold On Till May16. King for a Day Foto: Marcos Oliveira
P.O.D. inicia turnê sul-americana em show explosivo no Carioca Club

O encontro de P.O.D., Demon Hunter e Living Sacrifice transformou o Carioca Club em uma noite dedicada ao rock cristão. As três bandas dividiram o palco em um evento que reuniu gerações e estilos diferentes dentro do metal. Living Sacrifice abriu a noite em sua primeira passagem pelo Brasil, seguido pelo peso característico do Demon Hunter, que aqueceu a plateia antes da entrada do P.O.D. Quando subiu ao palco, o P.O.D. iniciou com Southtown, uma escolha pouco comum para abrir os shows e que já incendiou a plateia. Em seguida vieram faixas que mantiveram o público em alta, como Rock the Party (Off the Hook) e Boom, além de momentos mais recentes que mostraram a fase atual da banda, destaque para o cover de The Beatles “Don’t Let Me Down”. Mesmo com a energia alta e uma performance consistente, o repertório deixou uma ausência sentida pelos fãs mais antigos. A clássica Satellite não apareceu no setlist, assim como outros sucessos de época que muitos esperavam ouvir. O show teve cerca de 1h15 e foi direto, sem bis, com Alive encerrando a noite. A apresentação abre a turnê sul-americana e valorizou a união de três nomes importantes do rock cristão. A soma delas trouxe peso, variedade e uma atmosfera particular que dificilmente será repetida em outra turnê. Setlist do P.O.D.SouthtownRock the Party (Off the Hook)BoomDropI Got ThatDon’t Let Me Down (The Beatles cover)BreakingMurdered LoveLost in ForeverSleeping AwakeI Won’t Bow DownSoundboy KillaWill YouYouth of the NationAfraid to DieAlive Turnê A turnê do P.O.D. e Demon Hunter segue da seguinte maneira: Rio de Janeiro (06/12 – Sacadura 154 – com Living Sacrifice)Recife (07/12 – Armazém 14)Curitiba (09/12 – Tork N’ Roll)Belo Horizonte (10/12 – Mister Rock)Brasília (12/12 – Toinha Brasil Show)São Paulo (13/12 – Carioca Club) O último show já está com cerca de 90% dos ingressos vendidos, indicando que a segunda apresentação na cidade deve ter casa lotada e a possibilidade de surpresas no repertório para quem ainda espera ouvir clássicos deixados de fora. A organização é da Estética Torta e En Hakkore Records.