Foals ignora a chuva e a indiferença do público com show matemático e escalada de palco no Anhembi

Abrir para o Red Hot Chili Peppers exige coragem. O público, ansioso pelos hits de rádio, costuma ser impiedoso com bandas de som mais complexo. Quando o Foals subiu ao palco do Anhembi sob uma garoa chata, 80% da plateia parecia se perguntar “quem são esses caras?”. Mas os outros 20% (e quem prestou atenção) viram uma das bandas mais interessantes daquela geração dando o sangue. Focados nos álbuns Antidotes e Total Life Forever, os ingleses trouxeram seu “math rock” dançante e quebrado. A abertura com Blue Blood mostrou uma banda tecnicamente impecável, com as guitarras entrelaçadas de Yannis Philippakis e Jimmy Smith cortando o ar úmido de São Paulo. A banda sabia que precisava de mais do que técnica para ganhar o jogo. Em Cassius e Olympic Airways, a energia subiu, com a banda se movendo freneticamente apesar do som complexo. Mas o momento que definiu o show, e que acordou o público, veio no final. Durante a execução catártica de Red Socks Pugie, o vocalista Yannis Philippakis decidiu que o palco era pequeno demais. Ele desceu para a grade, correu entre os seguranças e, num momento de pura energia, escalou a estrutura de iluminação lateral do palco. Ver o vocalista pendurado a metros de altura enquanto a banda destruía os instrumentos lá embaixo foi o cartão de visitas definitivo. O Foals saiu de cena suado e tendo convertido alguns milhares de fãs. Eles provaram que, por trás da complexidade “nerd” do som, existe uma banda de arena pronta para explodir. Foi o aquecimento perfeito, cerebral e físico, para a festa que viria a seguir. Edit this setlist | More Foals setlists

U2 transforma o Morumbi em nave espacial e entrega noite de comunhão e tecnologia

Não existe nada comparável à estrutura da 360° Tour. Quando as luzes se apagaram e a fumaça começou a sair da “garra”, ao som de Space Oddity (David Bowie), o Morumbi parecia estar prestes a ser abduzido. O U2 entrou em cena com Even Better Than the Real Thing, e imediatamente o telão cilíndrico se expandiu, criando uma experiência visual que fazia a arquibancada se sentir dentro do palco. Diferente da chuva torrencial da primeira noite (sábado), o domingo ofereceu um clima mais ameno, o que permitiu à banda e ao público uma conexão mais limpa e eufórica. Clássicos e raridades O setlist foi um equilíbrio fino entre o gigantismo do pop e a nostalgia. O bloco inicial com I Will Follow e Get On Your Boots manteve a energia alta, mas foi em Magnificent e Mysterious Ways que a banda mostrou seu “groove” de estádio. Para os fãs mais dedicados, a noite reservou pérolas. A execução de Zooropa, uma faixa que passou anos fora dos repertórios, foi um momento de transe psicodélico, casando perfeitamente com a estética futurista do palco. Coração político e emocional Como de costume, Bono transformou o show em missa. Sunday Bloody Sunday foi cantada com a urgência de sempre, mas o momento de maior impacto visual veio em City of Blinding Lights e Vertigo, onde a “garra” parecia pulsar luz. A homenagem aos direitos humanos e a conexão com o Brasil apareceram em Miss Sarajevo, com Bono assumindo a parte lírica de Pavarotti de forma surpreendentemente competente. O estádio, iluminado por milhares de celulares (e isqueiros), virou uma galáxia particular durante Pride (In the Name of Love). Apoteose O bis foi uma sequência de golpes baixos emocionais. One, com seu discurso de unidade, fez 90 mil pessoas se abraçarem. Em seguida, a introdução de sintetizador de Where the Streets Have No Name causou a explosão habitual: as luzes se acenderam e o Morumbi pulou como se fosse gol em final de campeonato. O encerramento solene com Moment of Surrender trouxe a nave de volta à terra. O U2 provou, mais uma vez, que entende a arquitetura da emoção como ninguém. A 360° Tour não foi apenas um show de rock; foi um evento de engenharia, marketing e fé, executado pela maior banda do planeta em seu auge técnico. Edit this setlist | More U2 setlists

Muse ignora a ‘garra’ do U2 e faz show de headliner com peso e virtuosismo

Colocar o Muse para abrir um show é um risco para qualquer banda principal, até mesmo para o U2. Na noite deste domingo (10), o trio britânico subiu ao palco montado no centro do gramado não para aquecer o público, mas para competir. Com a luz do dia ainda presente, Matt Bellamy, Chris Wolstenholme e Dominic Howard entregaram um som maciço que fez a estrutura da “garra” tremer. A banda vivia o auge da turnê The Resistance, e a confiança era visível. A abertura com Plug In Baby foi um ataque sônico: o riff agudo e distorcido cortou o ar do Morumbi, acordando até quem estava nas arquibancadas mais distantes apenas esperando por Bono. Prog-rock de estádio O que impressionou foi como o som do Muse preencheu o estádio. Em Uprising e Supermassive Black Hole, o baixo distorcido de Wolstenholme funcionou como um terremoto controlado. A banda não se intimidou com o palco 360º; eles o usaram a seu favor, correndo pelas passarelas e interagindo com os fãs que cercavam a estrutura. Momentos mais teatrais, como United States of Eurasia (com sua pegada Queen), mostraram a versatilidade vocal de Bellamy. Mas foi nos hits radiofônicos, como Time Is Running Out e Starlight, que o público, majoritariamente fã de U2, se rendeu e cantou junto, batendo palmas no ritmo. Final épico O encerramento já se tornou folclore em shows de estádio. A introdução de gaita de Man with a Harmonica (Ennio Morricone) preparou o terreno para a cavalgada espacial de Knights of Cydonia. Com um final frenético e pesado, o Muse saiu de cena deixando a sensação de que aquele palco também pertencia a eles. Foi uma abertura curta, grossa e tecnicamente impecável, elevando o sarrafo lá no alto para os donos da festa. Edit this setlist | More Muse setlists

Ozzy Osbourne encharca o Anhembi com espuma e clássicos do Sabbath

Havia uma dúvida no ar, no sábado (2), no Anhembi, em São Paulo: como o público brasileiro, órfão do carisma ogro de Zakk Wylde, receberia o novo guitarrista, o grego Gus G.? A resposta veio logo nos primeiros acordes de Bark at the Moon. Gus G. é um virtuoso, técnico e preciso, e embora não tenha o “peso visual” de Zakk, entregou cada nota com perfeição cirúrgica. Mas a estrela, claro, é Ozzy. Aos 62 anos, o Madman subiu ao palco correndo, pulando seus “polichinelos” e, claro, armado com sua mangueira de espuma e baldes d’água. A turnê Scream trouxe um repertório equilibrado. Faixas novas como Let Me Hear You Scream funcionaram bem, mas o Anhembi queria história. E Ozzy entregou. A trinca do Black Sabbath com Fairies Wear Boots, War Pigs e Iron Man transformou o sambódromo em um templo profano. Ouvir a sirene de War Pigs ecoando no concreto de São Paulo é uma daquelas experiências religiosas do metal. A voz de Ozzy, sempre uma incógnita, estava em uma noite boa. Ele desafinou aqui e ali (como é de lei), mas manteve a potência e, principalmente, o carisma inabalável, regendo a plateia com seus gritos de “I can’t hear you!”. A calmaria veio com Mama, I’m Coming Home, iluminada por milhares de isqueiros e celulares. Foi o respiro necessário antes da tempestade final. Crazy Train colocou o Anhembi abaixo. Gus G. brilhou no solo icônico, provando que o posto estava em boas mãos. Para o bis, a rápida e visceral Paranoid encerrou a noite. Ozzy, encharcado e sorridente, prometeu voltar.

Sepultura ignora posto de ‘banda de abertura’ e massacra o Anhembi com clássicos e a estreia de ‘Kairos’

Não existe banda de abertura melhor para Ozzy Osbourne no Brasil do que o Sepultura. Às 20h30, no Anhembi, em São Paulo, quando as luzes do Anhembi se apagaram, o quarteto não entrou para pedir licença; entrou para dominar. A escolha de abrir com Arise e Refuse/Resist foi uma declaração de guerra: o som estava alto e definido, algo raro para bandas de abertura no Anhembi. Derrick Green, imponente como sempre, comandou o público com seu português cada vez mais afiado. A banda vive a transição da era A-Lex para o vindouro Kairos, e a formação com Jean Dolabella na bateria mostra um entrosamento técnico impressionante. A coragem da banda apareceu ao testar a faixa inédita Kairos. Pesada e cadenciada, a música foi recebida com respeito, mas foi nos clássicos que a “roda” se abriu na pista. Choke e Territory mantiveram a energia no topo, com Andreas Kisser desfilando riffs que são o abecedário do metal para muitos ali presentes. O momento tribal, marca registrada da fase Derrick, veio com a jam de percussão, preparando o terreno para o final apoteótico. Roots Bloody Roots fez 30 mil pessoas pularem simultaneamente, criando aquela visão assustadora e bela de um mar de gente em transe. Edit this setlist | More Sepultura setlists