Crítica| Cidade Invisível: Muito além do folclore brasileiro

Cidade invisível tem sido um sucesso, não só no Brasil, mas também em mais de 40 países. Lançada em 05 de fevereiro, produzida pela Netflix, a trama entrelaçou a mitologia com a realidade; tornando uma investigação policial em aprofundamento no folclore brasileiro. Entenda a trama Ainda em seus primeiros minutos a série entrega o que há por vir: suspense, drama, e muito plot-twist. Acontece que a esposa do policial Eric (Marco Pigossi) teve uma morte inexplicável, e cabe a ele desvendar a causa, e quem está por trás da fatalidade. Nesse meio tempo de série é apresentado mais um problema, já que do outro lado da cidade, temos uma terrível maldição a solta, que deve ser contida o mais rápido possível. Seguindo a trama,temos a apresentação de outros personagens. Ainda que não seja como conhecemos em histórias de Monteiro Lobato. Ainda que não saibamos como a série de sete episódios irá terminar, é possível afirmar que teremos diversos acontecimentos. Cidade Invisível e seus protagonistas Como dito no início desse texto, a série tem como pontapé inicial o folclore brasileiro. Iara ou Camila, interpretada por Jéssica Córes, é uma mulher negra, diferente do que nos apresentaram na escola. Além de jogar no time místico, Iara ajuda Eric a desvendar grandes mistérios. Outro personagem cativante é o Saci, ou Isac (Wesley Guimarães), jovem negro, cheio de entusiasmo e solidariedade. De antemão, antecipo que o Curupira ou Ciço, interpretado por Fábio Lago, é peça principal para terminar o quebra-cabeça entre os dois acontecimentos. Acontece que logo após o incêndio na floresta, ele desapareceu, indo morar nas ruas do Rio de Janeiro, desistindo de ser o guardião da floresta. Bem como os demais, temos também a Cuca, que diga-se de passagem, me pega (quem pegou a referência?). Interpretada por Alessandra Negrini, a bruxa é fundamental para desenterrar o passado, e conter a maldição que está a solta. Anteriormente se mostra como vilã, mas outrora faz com que você venha entender sua história de vida. Notas sobre Cidade Invisível Ainda que apresente falhas, como a falta de atores indígenas para representar alguns personagens, a série conseguiu trazer outra perspectiva sobre o folclore brasileiro. A princípio imagine que a série iria ser 100% mística e clichê, mas serviu além do esperado. Assim como sua produção, o fato de terem trazido grandes personagens para a realidade em que vivemos foi sensacional.
Pose: A invisibilidade da atualidade

Pose é uma série de drama, produzida por Ryan Murph. Sua primeira temporada está disponível na Netflix. Em suas duas temporadas, conta a história de mulheres trans na década de 1980 e 1990, em que negros, principalmente LGBTQ+ eram descriminados e invisíveis para a sociedade. Pose entre o drama da ficção e realidade A série se passa em Nova York, no fim da década de 1980, em que mostra a cidade em seu auge da noite noturna. Enquanto pessoas cisgêneros buscam o sonho americano de ser bem sucedidas, já tendo um espaço tomado, a comunidade LGBTQ+ organiza bailes secretos, repleto de muita animação, danças e desfiles por categorias. Mas em outra perspectiva, o baile é a única alternativa para que esse grupo se sinta incluído em sociedade. Adiante, uma das protagonista, Blanca (Mj Rodriguez), decide sair da casa de sua mãe adotiva, Elektra Abundance (Dominique Jackson), personagem autoritária, egoísta e de extremo narcisismo. Dado a decisão, decide inaugurar sua própria casa, afim de construir seu nome dentro da cena. Nesse ínterim de tempo temos Damon (Ryan Jamaal Swain), um adolescente cheio de sonhos, que é expulso de casa após assumir sua orientação sexual para seus pais. Por consequência, vai morar nas ruas de Nova York, mas outrora passa a conhecer Blanca, e se tornando o primeiro membro da casa “Evangelista”. Assim como Damon, os demais personagens possuem histórias instigantes: Angel (Indya Moore), é uma mulher trans que sonha em ter uma vida igual a de uma mulher cis; Elektra, que dentre os personagens, é a única da alta classe, sonha em fazer redesignação sexual, ainda que seja sustentada por Dick Samuels (alusão ao dono do Ace Studios), que não lhe autoriza; Candy luta conta seu próprio corpo, fazendo procedimentos estéticos, afim de ser aceita em sua comunidade. Tema tratado com seriedade Pose é uma série extremamente necessária, não só em seu enredo mas também como uma verdadeira aula de história, que tem como princípio desmistificar a visão retrógada existente até os dias de hoje sobre a comunidade LGBTQIA+. Com seu roteiro emergente e dramático, Murph reforçou mais uma vez a urgência de falar sobre preconceito, não deixando de lado o cenário da época, em que o protagonismo tem ênfase sobre as personagens e sua exclusão até mesmo do grupo pertencente. Ademais, Vouguing, glamour e fashion, é entrelaçado com a crescente epidemia do HIV e AIDS, que até então não tinha tratamento adequado, já que o governo americano negava-se a ajudar. Com isso, Pose conseguiu fazer com que a série cause indignação e repressão do sistema capitalista, e exibindo a consequências do branqueamento. Notas sobre Pose Ainda que traga fantasia em seus episódios, ao retratar os anos 1980 e 1990, não deixa de transparecer a verdade, que ainda reflete em nossa sociedade. Revela o lado que ninguém gosta de falar: a transfobia, opressão e a censura existente para pessoas que não estão no padrão que ainda é estabelecido. Seu elenco conta com o maior número de transgêneros protagonistas em produções audiovisual, o que faz com que sua narrativa seja real, contada por mulheres que lidam com a exclusão e medo diariamente. De um lado temos Damon, que sonha em ser um bailarino profissional, e de outro Angel, que na 2° temporada busca pela aceitação de seu corpo, e almeja a carreira de modelo. Tendo Elektra e Blanca como rivais em sua primeira temporada, destaca que mesmo com diferenças, as pessoas da comunidade se unem quando o assunto afeta a vida de algum membro, o que se aproxima da realidade; mesmo com adversidades no meio LGBTQ+, a luta é uma só. Pose é isso e muito mais. Se trata de resistência, aceitação e representatividade. Viva, Rebole, Pose!
Crítica | After Life: Humor ácido em perspectivas sobre luto

After Life é uma série original Netflix com duas temporadas, que em seus episódios de 20 minutos, conta a história de Tony Johnson, um jornalista que trabalha em uma redação local na Inglaterra e perdeu sua esposa após uma luta contra o câncer de mama. No momento em que a série se inicia, é perceptível a tristeza e o pensamento suicida de Tony (Rick Gervais), o recém viúvo. São apresentados vídeos que sua esposa deixou antes de falecer, e por meio deles, desenrola-se a história da série. Por mais que deseje a morte, Tony falha miseravelmente em inúmeras tentativas. Quando decide se revoltar contra a sociedade, não poupando ninguém, se torna um homem amargo, liberando sua ira para qualquer pessoa, mesmo que isso signifique magoar as pessoas que o amam. Seus colegas sofrem diariamente com seu comportamento, principalmente seu cunhado Matt (Tom Basden), que é seu chefe e se recusa a demiti-lo por medo de perder mais uma pessoa querida. Importância das amizades Ao decorrer de After Life, é perceptível o desenvolvimento do protagonista e suas tentativas de se tornar uma pessoa melhor, ainda que na verdade só queira morrer. Amizades como a de Roxy (Penelope Wilton), uma “profissional do sexo”, como prefere ser chamada (que inclusive é hilária), foram cruciais para que Tony enxergasse além de si mesmo em sua jornada. Sandy (Mandeep Dhillon) também é um dos pilares para a construção da história. Mesmo sendo uma estagiária recém chegada na redação, não se deixa abalar com a falta de interesse de Tony em ensinar, buscando mostrar a ele uma nova perspectiva de vida. Notas sobre After Life De início, After Life parece ser um poço de grosseria com humor ácido. Porém, é demonstrado equilíbrio entre o drama e o humor no desenrolar da trama, sendo os coadjuvantes pilares para a construção do enredo. Ainda que sua primeira temporada não tenha aprofundamento nos personagens, outrora passa a investir nos secundários. Ao contrário de Tony, os demais personagens reagem de maneiras diferentes ao luto, insinuando que não é necessário ser agressivo para lidar com os problemas da vida. A série sempre remete à premissa de que o sentimento autodestrutivo é motivado pela perda recente, e que essas perdas fazem com que venhamos a mudar quem somos a fim de omitir o luto. É um esboço da realidade. Em suma, vale a pena conferir a série e refletir sobre seus acontecimentos. Confira o trailer:
Crítica | Inacreditável: um caso real de estupro

Inacreditável chegou ao catálogo da Netflix em 2019. A série, com apenas oito episódios, é baseada em fatos reais, e conta a história de Marie Adler, uma garota problemática, brutalmente estuprada aos 18 anos. Entenda a trama de Inacreditável Em 2008, Marie Adler foi atacada em seu apartamento por um homem. Segundo o depoimento da vítima para a polícia, ela estava dormindo até o momento do ato. Nesse ínterim de tempo, diz que o homem a amarrou, estuprou, e tirou fotos durante e após o ato. Antes de mais nada, temos de um lado uma vítima fortemente abalada, e uma equipe de policiais despreparados, questionando se realmente houve um estupro, passando a desacreditar da adolescente, e a constrangendo. Mais uma vítima silenciada Posteriormente, dado o acontecimento e a pressão psicológica que sofre por policiais e familiares, Marie (Kaitlyn Dever) retira as acusações. Com isso, a polícia a denuncia por ter dado um falso depoimento, que outrora passam a arquivar o caso. Adiante, Marie é excluída da sociedade, por conta de seu falso depoimento. Isso porque o caso repercutiu na mídia, fazendo com que a garota já problemática, viesse a ter mais conflitos internos. O passado que persegue Três anos após a exposição, duas policiais do Colorado começam a investigar casos semelhantes. Seguindo, as investigadoras passam a trabalhar juntas, afim de solucionarem o caso. Adiante, vê-se a limitação no desenrolar da história. Devido a falta de provas, as investigadoras se veem sem saída, enfrentando muitas dificuldades. A série tem seu último episódio guiado pela emoção, trazendo o alívio para o espectador. Notas sobre Inacreditável Em suma, o caso de Inacreditável é verdadeiro, baseado em uma investigação do ano de 2015. A publicação originalmente chamada de Uma História Inacreditável de Estupro, conta a história de Marie e dos detetives de Colorado. A série é instigante, fazendo com que o espectador assista tudo de uma vez. Por outro lado, acaba sendo difícil de acompanhar, devido o conteúdo explícito, uma vez que a série tratou com seriedade sobre o caso, conseguindo expor todos os traumas que o estupro causou nas vítimas. De acordo com o que é abordado, ao falar sobre os policiais iniciais, não poupou roteiro para descrever que muitas vezes policiais, homens em sua maioria, deixam de acreditar na vítima, usando palavras invasivas em um momentos tão complexos. Essa exposição retrata a realidade, já que a cada 1000 estupros, apenas 230 são denunciadas. Sob o mesmo ponto de vista, o Sistema de Justiça Criminal, afirma que as vítimas não denunciam para proteger a família ou a própria vítima de outros crimes que o agressor poderia voltar a praticar, e por medo do crime ocorrer novamente. Assim como Inacreditável relata, ser violado é doloroso, mas precisa ser comentado para que tenha um fim. Não se cale, denuncie. Ligue 180
Crítica | Sangue e Água – um universo paralelo (contém spoilers)

Sangue e Água (Blood and Water) é mais uma das novidades do ano no catálogo da Netflix. A série baseada em fatos reais tem feito muito sucesso desde sua estreia, chegando a ficar duas semanas no top 10 do ranking nacional. É preciso aceitar que a plataforma tem feito muitas produções adolescentes, acertando em todas. Assim como, Eu Nunca… e Control Z, Sangue e Água é mais uma série que tem o drama e suspense como chaves de sucesso. A trama de Sangue e Água De início, sentimos a tensão da série, durante o aniversário de 17 anos de desaparecimento de Phume, a primogênita da família Khumalo. Antes que a série comece a desenrolar, já apresenta que por conta da dor da perda, Thandeka (Gail Mabalane) deixa os seus outros dois filhos de lado. Após fazer amizade com Fikile Bhele (Khosi Ngema) em uma festa, Pulenge (Ama Qamata) fica obcecada pela nova amiga. Acontece que descobriu que Fikile está fazendo aniversário no mesmo dia em sua irmã desaparecida faria. Obsessão pelo passado Adiante, a família de Pulenge é exposta na mídia, por problemas do passado. Dado o acontecimento, Pulenge vê a oportunidade de estar mais próxima de sua possível irmã. Posteriormente, muda-se para a mesma escola de Fikili, um colégio particular estilo High School (em que os personagens são em sua maioria ricos), para estar mais próxima de sua suposta irmã. Tendo em vista o novo mundo que foi inserida, decide “ser outra pessoa”, para que seus novos amigos não descubram o seu passado, e atrapalhem sua investigação. Com a ajuda de Wade (Dillon Windvogel), seu novo melhor amigo, traz a tona muitos segredos antigos, que irão causar problemas em sua próxima temporada. Notas sobre Sangue e Água Assim como uma boa série adolescente, Sangue e Água trouxe muito drama e paixão, reforçando o formato da série. Entretanto, o que mais merece destaque é sua representatividade. Em suma, a produção Sul Africana inovou em trazer um elenco negro, desconstruindo o estereótipo de séries e filmes desse formato. Possuindo apenas seis episódios, Sangue e Água é daquelas que você maratona em poucas horas. Mesmo que pareça um universo paralelo, já que não vemos essa ascensão negra em nosso dia a dia, é satisfatório devanear por esse mundo, renovando esperanças para que um dia possamos estar ocupando espaço na sociedade.
Crítica | Control Z – uma amostra da vida real (contém spoilers)
Crítica | Hollywood da Netflix é uma mistura de fantasia e escuridão

Hollywood da Netflix é o fantasioso sonho americano de se tornar um astro do cinema de Hollywood. Dessa vez, Ryan Murphy trouxe seu olhar crítico para a série, expondo o lado obscuro do cinema na década de 1940. Já não bastasse a história a ser contada, trouxe um elenco de peso. Dentre muitos talentos, Jim Parsons (Sheldon Cooper de The Big Bang Theory), e participação especial de Queen Latifah. Início do sonho americano O enredo começa contando a história de Jack (David Corenswet), indo atrás de seu sonho de se tornar ator das produções da Ace Studios. Enquanto essa chance não chega, trabalha como garoto de programa no posto de gasolina de Ernie (Dylan Mcdermott). Ernie tinha as mesmas ambições que Jack quando chegou em Hollywood, entretanto acabou frustrado. Com isso abriu um posto de gasolina de fachada, que tem como verdadeiro negócio a prostituição de homens. O lado escuro de Hollywood As histórias começam a se entrelaçar quando Jack encontra Archie (Jeremy Pope), um roteirista que não consegue emplacar seus trabalhos em Hollywood por ser negro. Diante da rejeição da indústria, apresenta o roteiro de Peg para Rymond (Darren Criss), um homem branco que sonha em produzir seu primeiro filme. Juntamente com Archie, consegue seu primeiro trabalho como diretor de cinema com o projeto. Em suma o projeto não teria o nome de Archie, pois as críticas não seriam favoráveis com um roteirista negro. Do outro lado temos Camile e Rock Hudson. Camille (Laura Harrier) compartilha das mesmas ambições que os demais. A problemática por não conseguir papéis além de empregadas é sua cor. Busca pelo sonho de ser uma grande atriz de Hollywood. Tem como conselheira Hattie McDaniel (Queen Latifah), a primeira mulher negra a ganhar um Oscar. Com poucas cenas, a personagem descreve problemas enfrentados na indústria em sua época, alegando inclusive que teve que discutir com seguranças para que pudesse participar da cerimônia. Rock (Jake Picking) é recém chegado do interior. Assim como Camille, é aspirante de cinema. Em pouco tempo de cena demonstra seu interesse por homens, o que o leva a namorar Archie escondido, tendo em vista a carreira que desejavam seguir. Posteriormente consegue ser agenciado por Henry Wilson (Jim Parsons), um jornalista muito famoso. Ao passo que foi conhecendo Rock, trouxe à tona o famoso teste de sofá, colocando em prática o abuso que pessoas influentes praticavam na época, e a aceitação do abuso por um futuro de sucesso. Mudando o cenário de Hollywood Após afastamento médico do proprietário da Ace Studios, sua esposa Avis (Patti LuPone) assume o comando da empresa. Nesse meio tempo que assumiu o comando, Avis é vista como incapaz de dirigir uma empresa pelo fato de ser mulher. Adiante, coloca em ação todos os planos que irão mudar a indústria cinematográfica, desafiando a resistência e colocando a empresa em risco de falência. Fatos sobre os personagens da série. O posto de gasolina realmente existiu e era de propriedade de Scotty Bowers. Anteriormente, Scotty reuniu amigos da marinha para trabalhar como garoto de programa. Era conhecido por seu passado de cafetão e por ser amante de diversas celebridades; Rock Hudson só assumiu sua orientação sexual em 1985, quando não conseguia esconder mais que estava com aids; Henry Wilson era um jornalista famoso, posteriormente transformado em agente. Fazia sexo com muitos dos clientes. Ao contrário da série nunca assumiu que fosse gay; Assim como na série, Hattie Mcdaniel realmente não entrou na cerimônia do Oscar de 1940. Foi chamada apenas para receber a premiação. Também foi excluída do after da festa, que era restrita a brancos. Hattie foi a primeira mulher negra a ganhar um Oscar. Até o ano de 2020 somente uma mulher negra ganhou o Oscar de melhor atriz. Halle Berry, por Monster-s Ball, em 2002. 18 anos atrás e 73 anos após a premiação ter começado (triste né?). A série trouxe a tona o lado podre da indústria e da sociedade. Em resumo, apresenta a luta pela igualdade, a resistência e a busca por representatividade. É emocionante e revoltando de assistir. O olhar crítico de Ryan Murphy conseguiu ser refletido na sociedade.
Netflix e a geração do empoderamento: La Casa de Papel