Entrevista | Garage Fuzz – “Fazer EPs é uma maneira de manter a qualidade das composições”

Comemorar três décadas e meia de história pode soar, para muitos grupos, como um convite ao comodismo da nostalgia. Não para o Garage Fuzz. Formada em Santos em 1991 e tida como uma das fundadoras da linguagem do hardcore melódico no Brasil, a banda chega aos seus 35 anos de estrada focada no presente com o lançamento do EP Powerplant. O trabalho é o terceiro registro da atual formação, composta por Victor Franciscon (vocais), Wagner Reis (guitarra), Nando Bassetto (guitarra), Fabrício de Souza (baixo) e Daniel Siqueira (bateria), e traz cinco faixas inéditas, além de uma nova versão para a música Jaded. ​Gravado no estúdio OddSounds, em São Paulo, o registro marca o encontro da essência veloz e pesada da banda com uma produção moderna e detalhista assinada por Gustavo Scaranelo. A busca pela evolução sonora sem perder as raízes foi um dos grandes motores do processo. “A gente nunca deixou de tentar inovar dentro da sonoridade que construímos. O Powerplant traz as influências atuais da banda e um frescor enorme trazido pelo Victor, aliado à visão do Scaranelo, que deu um cuidado todo especial para as guitarras e os arranjos de voz”, destaca o baixista e fundador Fabrício de Souza. ​O conceito do EP gira em torno da imagem de uma usina em funcionamento ininterrupto, servindo como metáfora para as pressões do capitalismo contemporâneo, a ansiedade e o esgotamento mental da vida urbana. Entre faixas explosivas como Flashpoint e momentos de alívio e esperança como Synergy, o vocalista e letrista Victor Franciscon traduz o sentimento de uma mente sob tensão constante. “A gente vive conectado o tempo todo, consumindo e sendo consumidos. As letras nasceram desse excesso: da pressão de continuar produzindo, da ansiedade que acelera a mente e da sensação de estar sempre funcionando no limite”, explica o cantor. ​Essa renovação constante também se reflete nos palcos. Longe de ser apenas uma lembrança para saudosistas, o Garage Fuzz vive uma fase de forte apelo entre diferentes gerações. Para Fabrício, a volta dos shows no pós-pandemia resgatou os pilares mais profundos do gênero: “Acho que o momento político e o pós-isolamento resgataram o sentimento do hardcore, a resiliência, a resistência e o questionamento. Hoje, nos nossos shows, vemos uma molecada de 17 a 30 anos ao lado do pessoal das antigas que decidiu voltar. A cena está renovada, muito forte e mais bem estruturada”. ​Lançado pelo selo OddSounds Music, Powerplant também mira novos horizontes fora do país. Para o produtor executivo Bruno Arruda, o lançamento pavimenta o caminho para a expansão internacional do quinteto santista. “Colocando esse EP lado a lado com gravações gringas de grande aceitação, o Garage Fuzz não deve nada a nenhuma banda do mundo. Nosso objetivo é alinhar toda a estrutura para colocar o grupo no patamar mundial que ele merece”, pontua Bruno. Confira abaixo a entrevista com o baixista Fabrício de Souza e o produtor Bruno Arruda. ​O Garage Fuzz completa 35 anos lançando o EP Powerplant. Como foi o processo de composição e gravação deste trabalho na OddSounds? ​Fabrício: A gente nunca deixou de tentar inovar o som do Garage Fuzz dentro da sonoridade que construímos ao longo dos anos. Estamos sempre escutando bandas e sonoridades novas, e vamos incorporando essas referências nos nossos lançamentos. O Powerplant não foi diferente. ​Trouxemos o que vínhamos escutando, além da participação do Victor Franciscon, que trouxe um frescor enorme com as influências dele. Teve uma troca muito bacana: a gente mostrava o que ouvia, ele mandava o que escutava, e ele também trouxe muito o uso da tecnologia. O Victor compunha ideias na casa dele e mandava para a gente. Depois nos reuníamos no ensaio, que é o jeito clássico de compor, para ajustar cada parte. ​Para completar, tivemos a produção do Gustavo Scaranelo, que deu um cuidado especial ao trabalho de vozes, arranjos e dobras de guitarra, trazendo um peso e um frescor muito legais para o EP. ​Falando sobre o formato, este é o terceiro EP consecutivo lançado pela banda. O que motivou a escolha por EPs em vez de álbuns cheios? ​Fabrício: A gente gostou desse formato. Hoje em dia as coisas são mais dinâmicas, há muitos shows e compromissos para administrar. O Garage sempre demorou entre um álbum e outro, às vezes cinco ou seis anos. Fazer EPs é uma maneira de manter a qualidade das composições e aquele cuidado detalhista com cada música, mas lançando material novo com mais frequência, sem ter que esperar tanto tempo. ​Este já é o terceiro trabalho com o Victor Franciscon nos vocais. Como você avalia a consolidação dele na banda? ​Fabrício: Ele já está consolidado desde o início. Poucas vezes vi no rock ou no hardcore um vocalista ser tão bem aceito e se encaixar tão bem em uma transição como essa. O público o recebeu de braços abertos e ele se encaixou perfeitamente no som da banda. Ele compõe com muita facilidade e nos ajuda demais. Depois do susto inicial com a saída do Farofa por motivos familiares, a transição foi tão fluida que parecia até combinada. Ficamos muito felizes com a presença e a colaboração dele. ​O título Powerplant remete a uma usina em funcionamento contínuo e dialoga com a pressão da vida moderna. Como essa temática surgiu nas letras? ​Fabrício: Essa letra especificamente é do Victor, mas reflete o que todo mundo passa hoje. O mundo atual e digital traz uma pressão constante. A gente, que trabalha com arte e música, sempre é colocado em questionamento sobre o nosso trabalho, além de ter que conciliar mil coisas. O mundo digital pressiona muito mais. ​A “usina” da metáfora é a usina das ideias: você precisa continuar mantendo a engrenagem funcionando, preservando a pegada artística de maneira saudável, mesmo sob toda essa pressão externa. ​Além de cinco faixas inéditas, o EP traz uma nova versão de Jaded, lançada originalmente no EP Grawlix. De onde veio essa ideia? ​Fabrício: O EP tem essa variedade típica do Garage Fuzz: músicas mais rápidas, outras mais cadenciadas,

Bayside Kings lança o single Daqui Pra Frente e antecipa detalhes do álbum Atlas

​A banda santista Bayside Kings liberou nas plataformas digitais o single Daqui Pra Frente, terceiro avanço de seu aguardado novo álbum de estúdio, Atlas, com lançamento oficial programado para o final de agosto de 2026. A faixa sucede os singles Nada Pra Mim e A Lei do Retorno. ​Com letras que abordam maturidade, responsabilidade e as marcas deixadas pela trajetória, a nova música reflete sobre o peso e o compromisso que acompanham cada passo dado ao longo dos anos. ​Nova formação e estreia histórica no Rock in Rio ​Daqui Pra Frente marca o debute fonográfico da nova formação do quinteto, agora composto por Milton Aguiar (vocal), Teteu (guitarra), Manolo (baixo), David Gonzalez (bateria) e o retorno do guitarrista Marcão, que integrou o grupo entre 2014 e 2018. ​O lançamento chega na reta final dos preparativos para um dos momentos mais importantes da carreira da banda: no dia 6 de setembro de 2026, o Bayside Kings fará sua estreia no Rock in Rio, levando a força do hardcore da Baixada Santista para os palcos do festival e apresentando ao público as novas composições de Atlas.

Entrevista | Immolation – “Nos juntar ao Testament e Municipal Waste pareceu uma ótima oportunidade”

O Immolation retorna ao Brasil em dezembro ao lado de Testament e Municipal Waste. Em São Paulo, as três bandas se apresentam no dia 6 de dezembro, no Carioca Club, com ingressos já esgotados. A passagem acontece pouco mais de um ano depois da extensa turnê que o grupo norte-americano realizou pelo país e reforça a longa relação do quarteto com o público brasileiro. A nova visita acontece na esteira de Descent, 12º álbum de estúdio do Immolation, lançado em abril de 2026 pela Nuclear Blast. Sucessor de Acts of God (2022), o trabalho mantém a combinação de death metal brutal, riffs dissonantes e estruturas pouco convencionais que se tornou assinatura da banda, ao mesmo tempo em que mostra um grupo ainda interessado em desenvolver sua sonoridade quase quatro décadas depois do início da carreira. Formado em 1988, em Yonkers, Nova York, o Immolation tem Ross Dolan e Robert Vigna como núcleo desde os primeiros anos e se consolidou como um dos nomes mais influentes do death metal norte-americano. A discografia inclui trabalhos fundamentais como Dawn of Possession (1991), Here in After (1996) e Close to a World Below (2000), álbum que ajudou a definir de vez a identidade marcada pelas guitarras pouco convencionais, atmosfera sombria e críticas à religião, ao poder e às estruturas de controle. Em entrevista ao Blog N’ Roll, o guitarrista Bob Vigna falou sobre os primeiros anos do Immolation e a construção de sua identidade musical, detalhou o processo de criação do novo álbum, Descent, e comentou a relação da banda com o Brasil. Vocês começaram no fim dos anos 1980, quando a Flórida tinha uma cena absurda com Death, Morbid Angel, Obituary e várias outras bandas. Como era a cena de metal no seu terrno, Nova York, naquela época? Vocês sentiam que existia uma identidade diferente por aí? Era parecida, eu acho, no sentido de que todos nós estávamos entrando em contato com aquela música nova. Era novidade para todo mundo. Em Nova York havia muitas bandas legais e todo mundo tentava se ajudar com shows, principalmente em clubes locais. Às vezes saíamos do estado e conseguíamos algumas apresentações perto da Filadélfia ou em Nova Jersey. Foi uma época muito boa e interessante porque aquele era praticamente um novo gênero sendo criado. Era legal ver outras pessoas interessadas naquilo e outras bandas surgindo. A partir daí, a cena foi crescendo lentamente. Definitivamente foi uma época muito boa. A guitarra sempre foi uma parte muito marcante da identidade do Immolation. Mesmo nos primeiros trabalhos já havia riffs diferentes, solos e acordes pouco convencionais. De onde veio essa abordagem? Existia algum guitarrista que servia de referência para você naquela época? Foram muitos. É até difícil dizer. Eu era um grande fã de Iron Maiden e Judas Priest naquela época. Depois veio Possessed. Os primeiros discos deles tiveram uma influência enorme sobre nós. Certamente vou esquecer alguns nomes, mas tive muitos guitarristas como referência desde a adolescência. Quando fizemos nossa primeira demo, ainda éramos adolescentes. Eu ouvia Black Sabbath, Dio, os guitarristas do Ozzy, como Jake E. Lee, e tantos outros que me inspiravam naquela época. Quando começamos a fazer nossas próprias coisas, inclusive ainda na época do Rigor Mortis (antiga banda de Bob e nada a ver com a banda de thrash metal de mesmo nome), tudo isso aparecia. Metallica também, claro. Eu era um grande fã. Tudo isso definitivamente influenciou minha maneira de tocar. Quando fazíamos as demos do Rigor Mortis, eu ainda estava no ensino médio. Quando comecei a trabalhar nos solos, percebi que sempre gostava de fazer algo que tivesse melodia, mas que também tivesse uma função dentro da música. Sempre encarei dessa maneira e simplesmente continuei desenvolvendo isso. Os primeiros anos foram definitivamente muito importantes. Quando você está começando a tocar guitarra e tem todos aqueles guitarristas incríveis ao seu redor, desde as maiores bandas até grupos novos surgindo, existe muita inspiração. Você falou que ainda era adolescente. Quantos anos tinha naquela época? Uns 17 ou 18? A primeira demo do Immolation foi em 1988, então eu tinha 18 anos. As demos do Rigor Mortis saíram, acho, em 1986, quando eu tinha 16. Comecei a levar a guitarra um pouco mais a sério por volta dos 14 anos. Então eu ainda não tocava havia tanto tempo. Antes disso, cheguei a estudar um pouco de piano. Fiz algumas aulas, mas depois queria sair, encontrar meus amigos e fazer outras coisas, então não durou muito. Depois fui para a guitarra e fiz algumas aulas básicas, mas foram suficientes para me dar uma base. Quando aprendi, por exemplo, a escala pentatônica, comecei a ouvir Metallica e vários tipos de solos e tentava tirar tudo de ouvido. Quando você conhece a pentatônica, já consegue entender mais ou menos o que está acontecendo. Muitas vezes, para mim, era simplesmente ouvir, tentar descobrir e aprender sozinho. Desde adolescente sou apaixonado por isso e fico empolgado em tocar guitarra. Felizmente, ainda consigo fazer isso hoje. Legal saber disso… O piano, ou melhor, o teclado, também foi meu primeiro instrumento. Depois virei baixista. Legal. É um instrumento sobre o qual eu gostaria de aprender mais no futuro. É uma das coisas que gostaria de ter continuado porque adoro piano. É incrível. Só não tenho oportunidade de tocar com frequência. Mas é algo que, no futuro, gostaria de retomar e aprender um pouco mais. É realmente um instrumento muito legal. No primeiro álbum vocês fizeram uma escolha interessante. Em vez de trabalhar com um produtor americano ligado à cena de death metal, foram até Harris Johns, que já havia trabalhado com Kreator e Sodom. Por que escolheram um produtor alemão em vez de um americano. Foi decisão da Road Runner? Basicamente por isso. Ele tinha feito muitos trabalhos que conhecíamos muito bem e dos quais éramos fãs. Acho que tínhamos três opções. Uma delas era Colin Richardson, porque eram os produtores que estavam fazendo a maior parte desse tipo de trabalho quando estávamos na Roadrunner Records. Escolhemos Harris por tudo