Com referências “do Canal 1 ao 7”, banda santista Bayside Kings lança álbum Atlas

O Bayside Kings, um dos nomes de maior destaque do hardcore nacional, lançou o álbum, Atlas (Deck), junto com o clipe da faixa de abertura Só Eu Sei e Mais Ninguém. O título remete ao titã Atlas, condenado por Zeus a sustentar o peso dos céus. “Todo mundo tem um pouco de Atlas na própria vida. Todo mundo carrega alguma coisa e tem suas próprias responsabilidades, e só cada um sabe o peso delas”, explica o vocalista Milton Aguiar. Ao longo de 14 faixas e 28 minutos, Atlas fala sobre atravessar fronteiras, não apenas geográficas, mas também sociais e emocionais, e dialoga com a relação da Bayside Kings com a Baixada Santista, onde o grupo surgiu. Isso aparece já em Só Eu Sei e Mais Ninguém, cheia de referências a Santos, como no verso “do 1 ao 7”, que faz alusão aos canais que atravessam a cidade. “Antes de falar sobre os limites que queremos romper, fazia sentido começar dizendo de onde a gente veio”, diz Milton. O clipe foi gravado no píer de Mongaguá num domingo de manhã, antes da chegada dos banhistas. Com 16 anos de carreira, a banda descreve Atlas como um retrato do momento atual do grupo: “mais maduro, mas não menos inquieto”, com mais melodia, groove e, pela primeira vez, duas guitarras. “A gente vem da praia. A gente faz hardcore e é totalmente caiçara”, ele resume. O álbum marca uma nova fase da banda, com o retorno do guitarrista Marcão após oito anos afastado. A formação atual é Milton Aguiar (vocal), Teteu (guitarra), Manolo (baixo) e David Gonzalez (bateria). O show de lançamento será no dia 6 de setembro, no Rock in Rio.
Roberto Verta, do pós-punk de Santos à curadoria de um dos palcos do Rock in Rio

Seja operando os toca-discos nos tradicionais clubes caiçaras do fim dos anos 1970, revolucionando o underground nacional com a banda Harry na década seguinte, ou encabeçando as maiores turnês internacionais que o Brasil já viu, a bússola de Roberto Verta sempre apontou para o mesmo norte: a música. Hoje, o publicitário e produtor santista, com mais de 40 anos de indústria fonográfica, é o grande nome por trás da curadoria do Palco Supernova, no Rock in Rio. Esbanjando a energia de quem acabou de começar, Verta traçou um caminho inédito. Saiu da Baixada Santista aos 19 anos como um fã obstinado para se tornar um executivo de ponta, com passagens marcantes por gravadoras como RCA, BMG, Universal e Sony Music, além da produtora T4F. Nas últimas oito edições do Rock in Rio no Brasil, ele esteve presente nos bastidores, gerenciando gigantes como Guns N’ Roses e Oasis. Mas afinal, como um pioneiro do pós-punk santista chegou à cadeira de cocriador e curador de um dos palcos mais disputados do maior festival de música do país? Engenharia por trás do Palco Supernova Desde 2019, o Supernova nasceu de uma parceria estratégica entre a Sony Music e o Rock in Rio para ser uma vitrine de novos talentos e projetos especiais. O palco cresceu e, para a edição atual, espera receber até 10 mil espectadores por dia, com uma escalação que vai do rap e trap ao hardcore e MPB. Com uma lista inicial que passa dos 150 nomes, Verta precisa equilibrar o instinto artístico com a precisão dos algoritmos. Mas engana-se quem pensa que o engajamento digital é o fator decisivo para a escalação. “O mais importante não é isso (número de seguidores). O mais importante é a música. Antes de mais nada, tem que ser legal”, crava Verta, explicando como garimpa atrações que, independentemente do tamanho atual de suas redes sociais, entregam qualidade no palco. “Depois de alguns anos trabalhando nesse negócio, a gente consegue sacar quem é de verdade”. O número de seguidores entra na equação em um segundo momento, principalmente para garantir o posicionamento e o horário correto do artista dentro do festival. “A gente quer que o artista toque para um público legal. Então, procuro me colocar no lugar do fã, imaginando a experiência que vou ter ali naquela noite com aquela sequência de shows”. Olhar estratégico para a Baixada Santista Mesmo trabalhando com nomes do mainstream pop latino, como o fenômeno argentino Milo J, Roberto Verta não tira a Baixada Santista do radar. Nas edições anteriores, o curador já havia aberto as portas da Cidade do Rock para expoentes da região, como as bandas Zimbra, Surra, Bula e Dani Vellocet. Na edição deste ano, o hardcore pesado e a tradição caiçara retornam ao festival com o Bayside Kings. A escolha, segundo Verta, passa pela verdade e pela potência que o grupo entrega ao vivo. “Eu coloquei o Bayside Kings porque é foda pra caralho, é uma maior energia… hardcore total. E é meio que um herdeiro dessa cultura de praia que tem aqui”, ressalta. “Eu procuro sempre ajudar sempre que eu posso a galera de Santos, porque acho que tem gente muito legal aqui”. Pioneirismo vanguarda e as raízes no Harry A bagagem que Verta utiliza hoje para avaliar um artista em desenvolvimento foi forjada na prática. Antes de virar executivo, ele sentiu na pele os desafios de criar música alternativa no Brasil. Na juventude, rodou clubes santistas como Heavy Metal, Sírio Libanês, Caiçara e Clube XV trabalhando como DJ. Em 1977, com a explosão do punk rock e sua energia bruta, a vontade de tocar guitarra falou mais alto. Foi nesse cenário efervescente que conheceu Johnny Hansen, César e Renato Grilo, formando a banda Harry. A banda marcou época e moldou uma estética que o Brasil ainda engatinhava para compreender. “Não existiam muitas bandas nesse momento pós-punk que faziam o que a gente fazia no Brasil. Cantar em inglês naquele momento, misturar o punk com instrumentos eletrônicos…”, relembra. A introdução dos sintetizadores no som da banda veio de uma epifania de Verta. “Eu conheci uma banda chamada Tubeway Army, e uma música chamada Are Friends Electric?… Aquilo me endoidou por sintetizadores”. Sendo responsável pela produção das primeiras demos e dos dois primeiros discos do Harry, ele começou a entender que seu futuro também estava atrás da mesa de som. “O meu negócio era música. Aí um dia eu achei no jornal um anúncio pra ser auxiliar de escritório na RCA Victor, em São Paulo. Falei: ‘Bom, auxiliar de escritório é uma merda, mas pelo menos eu tô perto da música’”. Daquele anúncio, aos 19 anos, Verta foi redirecionado por falar inglês ao departamento internacional, dando início ao seu império nos bastidores. Bastidores tem histórias com Oasis e Madonna Essa imersão na indústria fonográfica rendeu a Verta transições pelas grandes mudanças de formato, do vinil ao CD, do CD aos downloads pagos inventados por Steve Jobs, e finalmente à era do streaming. Como produtor de shows internacionais pela T4F entre 2007 e 2013, o santista assinou as passagens de U2 (360 Tour), Madonna e Roger Waters pelo país. O relacionamento próximo com grandes artistas o colocou em situações que até hoje rendem boas histórias, como conseguir entrevistas exclusivas (e separadas) com os geniais e imprevisíveis irmãos Noel e Liam Gallagher, do Oasis, durante a última turnê da banda, na Venezuela, e acompanhar as peculiaridades de Noel em recusar táxis de gravadoras para usar o transporte público de Londres. “Os caras são muito loucos, né? Mas muito loucos todos eles são. Agora, o Noel Gallagher é um puto de um talento, sabe? Um puta gente boa”, pontua. Retorno ao lar Em setembro de 2020, impulsionado pela mudança na dinâmica de trabalho durante a pandemia, Roberto Verta decidiu voltar a morar em Santos com a família. O retorno à Baixada não diminuiu seu ritmo. Em seu estúdio caseiro, além de focar na mixagem de faixas inéditas do Harry, celebrando a memória do saudoso vocalista Hansen, ele segue ditando os rumos da música contemporânea no Brasil. Seja revelando
Lenda do Vulcano, Angel alça voo solo com banda paraguaia e abre o jogo sobre o mercado da música

Ângelo Cantalupo de Maria, ou simplesmente Angel (e Uruka, para os clientes de tatuagem), está prestes a completar 63 anos, mas a energia gutural que ajudou a moldar o heavy metal extremo na América do Sul segue intacta. Após décadas como frontman do Vulcano, banda santista que é referência mundial no estilo, Angel agora escreve um novo capítulo: uma carreira solo que já nasceu cruzando fronteiras. O pontapé inicial dessa nova fase aconteceu no início deste ano. Após uma participação especial com o Vulcano em um show com a banda americana Obituary, em São Paulo, o telefone tocou. Era um produtor de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, maravilhado com a performance e interessado em levar o vocalista para um show. “Eu falei: ‘Bom, vou te dar uma opção. Eu posso ir solo, mas vou precisar de uma banda de apoio’”, relembra Angel. A solução veio de Assunção, no Paraguai, com a banda Atomic Curse. Formada por músicos que já eram fãs declarados do Vulcano, a química foi instantânea. Com passagens pagas para ensaiar no país vizinho, o vocalista se surpreendeu com o preparo dos paraguaios. “Tudo de primeira, cheguei a ligar as aparelhagens. De primeira ali, os caras já… foram nove músicas do Vulcano, baseadas no Live! até o Bloody Vengeance. No outro dia tocamos, tudo perfeito. Até hoje estou impressionado e agradecido de ter encontrado eles”. O projeto engrenou. O primeiro show oficial ocorreu em maio, em Assunção. Logo na sequência foi a vez da Bolívia, em Santa Cruz de La Sierra. Para 2027, Angel já possui alguns shows agendados na Europa. E a nova formação, que viaja sob o nome Angel, já planeja o lançamento de um EP conjunto, com quatro composições inéditas do vocalista e faixas do Atomic Curse. Nascimento da voz de Angel e a influência sobre o Sepultura Nascido em Montevidéu, no Uruguai, e registrado em Porto Alegre, Angel desembarcou na Baixada Santista ainda pré-adolescente. Seu primeiro contato com a música pesada foi com a banda Satanic, de Praia Grande, no final dos anos 1970. Mas foi em 1984 que a história mudou. Convidado inicialmente apenas para participar de uma foto por conta de seu visual roqueiro (“tinha o cabelão na cintura”), ele acabou fazendo um teste para o Vulcano. Foi durante esse ensaio, improvisando em cima de uma base pesada do guitarrista Johnny Hansen e do líder Zhema, que a identidade vocal de Angel surgiu. “Ó, vou tocar aqui na guitarra e você canta o que você quiser”, disseram a ele. “Já comecei a botar uma gutural lá, umas coisas assim bem gutural. Aí parou, cinco minutos, um olhou para a cara do outro. O Zhema falou: ‘Amanhã a gente começa a ensaiar’”. Essa voz marcou o disco Bloody Vengeance (1986), considerado um clássico do metal extremo. A sonoridade chamou a atenção de um jovem Max Cavalera. Segundo Angel, Max chegou a declarar que aquela era a música mais pesada que já havia escutado. A conexão com os mineiros, aliás, é um orgulho para a cena santista. “O Zhema sempre estava como promotor para promover o Vulcano. Não foi nem um, nem dois, foram três shows que eles (Sepultura) foram convidados, até então nunca tinham tocado em São Paulo. O Zhema proporcionou o empurrãozinho no início do Sepultura”. O impacto não parou no Brasil. A brutalidade do Vulcano atravessou o oceano e forjou a base do black metal no norte da Europa, influenciando gigantes da Dinamarca, Finlândia e Noruega. Lendas, ossos e igrejas em chamas No rock, a música caminha lado a lado com a mística, e a trajetória de Angel é repleta delas. Uma das maiores polêmicas envolveu um ensaio fotográfico para a Revista Veja, em um cemitério de São Paulo. A banda levou ossos humanos reais, emprestados de uma faculdade de medicina por um amigo. O problema? A matéria foi publicada com uma frase inventada, afirmando que os ossos haviam sido “surrupiados de um cemitério de Mongaguá”. A brincadeira virou caso de polícia. O baterista Laudir Piloni chegou a ser indiciado. Para evitar um flagrante, a banda tomou uma medida drástica. “Pegamos, martelamos ele, quebramos tudo e jogamos no canal lá na Praia Grande. O Laudir quis falar que era de plástico. Ninguém ali era caçador de ossos! Mas fez barulho. E rock’n’roll é isso, vocês fazem barulho e se projeta”, diverte-se o vocalista. Outra lenda famosa envolve a capa do disco Bloody Vengeance (1986), que trazia uma igreja e um padre em chamas. Poucos anos depois, a onda de incêndios criminosos em igrejas varreu o norte da Europa, capitaneada por membros da cena black metal. O álbum do Vulcano chegou a ser censurado no continente europeu, saindo com uma capa preta. Angel teria inspirado os crimes? “Os caras olharam a capa e pensaram: ‘Que ideia legal, como a gente não pensou em queimar uma igreja?’. Não confirmo nem desminto. Deixa como lenda, né? Cada um tire sua conclusão”. Uruka, arte na pele e na estrada Paralelamente aos palcos, Angel construiu uma sólida carreira como tatuador. Sob a alcunha de Uruka, ele empunha máquinas desde 1981. Apesar de lamentar a atual crise de desvalorização do mercado da tatuagem no Brasil, ele encontrou uma forma de unir suas duas paixões na atual turnê. “É juntar o útil ao agradável. Inclusive nesses locais que eu tô indo, eu tô levando a máquina de tatuagem, já tem uma pré-divulgação para os fãs e conhecidos que quiserem tatuar comigo. Chego um ou dois dias antes do show e uso os dias que antecedem”.
Jota Quest lança disco com sucessos do padrinho Tim Maia e estreia no Rock in Rio

Para comemorar três décadas de trajetória nos palcos, a banda mineira Jota Quest decidiu retornar às suas origens na black music, no soul e no funk setentista. A celebração ganha forma com o lançamento do álbum Jota Quest & Tim Maia – Dance Enquanto é Tempo, um projeto especial com 16 faixas que resgata os maiores sucessos e o “Lado B” do Síndico do Brasil. O álbum marca a estreia de uma turnê especial que terá seu ponto de partida no Palco Sunset do Rock in Rio, no dia 6 de setembro. O título do projeto remete à música Dance Enquanto é Tempo, que abriu o disco de estreia do Jota Quest em 1996. A admiração profunda pela obra de Tim Maia, somada ao desejo de regravar clássicos dos anos 70, uniu os integrantes no tributo. “Tim Maia era um homem de muitos hits extraordinários, que merecem e precisam ser constantemente revisitados pelas novas gerações”, destaca o baixista PJ. Apadrinhamento de Tim Maia na hora de definir o Jota Quest A conexão entre o grupo e o cantor vem do início dos anos 90. Quando os jovens garotos mineiros decidiram regravar Dance Enquanto é Tempo, a banda enfrentava uma transição forçada de nome (de J. Quest para Jota Quest). Com seu humor característico, Tim Maia encontrava certa dificuldade para pronunciar o nome original e chamava os garotos apenas de “Jota Quest”. A alcunha pegou, a banda adotou a grafia e o cantor passou a apadrinhá-los publicamente. “Achei engraçado pra caramba uma banda mineira cantar soul music”, brincou Tim Maia na época sobre os jovens músicos. Lançado em parceria entre a gravadora Universal Music e Carmelo Maia, filho do artista e gestor de seu acervo, o álbum mergulha em memórias afetivas. Entre os destaques está a faixa Estrela do Meu Show, canção de forte valor emocional para a família. “O Jota Quest tem o DNA completamente engatilhado com o do meu pai. É bonito demais ver essa junção fluindo no estúdio”, celebra Carmelo Maia. Para o vocalista Rogério Flausino, a experiência foi transformadora: “Mergulhar nesse universo novamente e voltar para as nossas raízes ao lado de uma figura tão gigante quanto o Tim é algo surreal”. Participações especiais no álbum O projeto reúne um time plural de convidados da música brasileira para interpretar os arranjos setentistas: Emoção no Rock in Rio e turnê nacional A apresentação no festival no dia 6 de setembro promete um dos momentos mais marcantes da edição. A abertura do show contará com a voz do próprio Tim Maia no sistema de som saudando a banda: “Aí, Jota Quest!”. Para Carmelo Maia, a apresentação carrega um tom de reparação histórica, já que cantar no Rock in Rio era um dos grandes sonhos não realizados por seu pai em vida: “Era um sonho antigo do meu pai cantar no palco do Rock in Rio. De forma indireta, por meio do Jota Quest, ele estará lá se apresentando. Fiquei extremamente feliz e orgulhoso com essa homenagem”, emociona-se Carmelo. Flausino brinca que seu único desejo após o show seria “tomar uma gelada com o Tim para comemorar essa vitória no camarim”. Após a estreia na Cidade do Rock, a banda viajará o país com a turnê Jota Quest Toca Tim Maia, passando pelas principais capitais brasileiras. Reencontrar o ponto de partida também renovou o fôlego da banda para composições inéditas no futuro: “É como se tivéssemos voltado ao ‘poço um’. Nos hidratamos, lavamos a alma no soul e bebemos direto da fonte. É um fôlego renovado para os próximos anos”, conclui o grupo.