Roberto Verta, do pós-punk de Santos à curadoria de um dos palcos do Rock in Rio

Roberto Verta, do pós-punk de Santos à curadoria de um dos palcos do Rock in Rio

Seja operando os toca-discos nos tradicionais clubes caiçaras do fim dos anos 1970, revolucionando o underground nacional com a banda Harry na década seguinte, ou encabeçando as maiores turnês internacionais que o Brasil já viu, a bússola de Roberto Verta sempre apontou para o mesmo norte: a música. Hoje, o publicitário e produtor santista, com mais de 40 anos de indústria fonográfica, é o grande nome por trás da curadoria do Palco Supernova, no Rock in Rio.

Esbanjando a energia de quem acabou de começar, Verta traçou um caminho inédito. Saiu da Baixada Santista aos 19 anos como um fã obstinado para se tornar um executivo de ponta, com passagens marcantes por gravadoras como RCA, BMG, Universal e Sony Music, além da produtora T4F. Nas últimas oito edições do Rock in Rio no Brasil, ele esteve presente nos bastidores, gerenciando gigantes como Guns N’ Roses e Oasis.

Mas afinal, como um pioneiro do pós-punk santista chegou à cadeira de cocriador e curador de um dos palcos mais disputados do maior festival de música do país?

Engenharia por trás do Palco Supernova

Desde 2019, o Supernova nasceu de uma parceria estratégica entre a Sony Music e o Rock in Rio para ser uma vitrine de novos talentos e projetos especiais. O palco cresceu e, para a edição atual, espera receber até 10 mil espectadores por dia, com uma escalação que vai do rap e trap ao hardcore e MPB.

Com uma lista inicial que passa dos 150 nomes, Verta precisa equilibrar o instinto artístico com a precisão dos algoritmos. Mas engana-se quem pensa que o engajamento digital é o fator decisivo para a escalação.

“O mais importante não é isso (número de seguidores). O mais importante é a música. Antes de mais nada, tem que ser legal”, crava Verta, explicando como garimpa atrações que, independentemente do tamanho atual de suas redes sociais, entregam qualidade no palco. “Depois de alguns anos trabalhando nesse negócio, a gente consegue sacar quem é de verdade”.

Acervo pessoal

O número de seguidores entra na equação em um segundo momento, principalmente para garantir o posicionamento e o horário correto do artista dentro do festival. “A gente quer que o artista toque para um público legal. Então, procuro me colocar no lugar do fã, imaginando a experiência que vou ter ali naquela noite com aquela sequência de shows”.

Olhar estratégico para a Baixada Santista

Mesmo trabalhando com nomes do mainstream pop latino, como o fenômeno argentino Milo J, Roberto Verta não tira a Baixada Santista do radar. Nas edições anteriores, o curador já havia aberto as portas da Cidade do Rock para expoentes da região, como as bandas Zimbra, Surra, Bula e Dani Vellocet.

Na edição deste ano, o hardcore pesado e a tradição caiçara retornam ao festival com o Bayside Kings. A escolha, segundo Verta, passa pela verdade e pela potência que o grupo entrega ao vivo.

“Eu coloquei o Bayside Kings porque é foda pra caralho, é uma maior energia… hardcore total. E é meio que um herdeiro dessa cultura de praia que tem aqui”, ressalta. “Eu procuro sempre ajudar sempre que eu posso a galera de Santos, porque acho que tem gente muito legal aqui”.

Pioneirismo vanguarda e as raízes no Harry

A bagagem que Verta utiliza hoje para avaliar um artista em desenvolvimento foi forjada na prática. Antes de virar executivo, ele sentiu na pele os desafios de criar música alternativa no Brasil.

Na juventude, rodou clubes santistas como Heavy Metal, Sírio Libanês, Caiçara e Clube XV trabalhando como DJ. Em 1977, com a explosão do punk rock e sua energia bruta, a vontade de tocar guitarra falou mais alto. Foi nesse cenário efervescente que conheceu Johnny Hansen, César e Renato Grilo, formando a banda Harry.

A banda marcou época e moldou uma estética que o Brasil ainda engatinhava para compreender. “Não existiam muitas bandas nesse momento pós-punk que faziam o que a gente fazia no Brasil. Cantar em inglês naquele momento, misturar o punk com instrumentos eletrônicos…”, relembra. A introdução dos sintetizadores no som da banda veio de uma epifania de Verta. “Eu conheci uma banda chamada Tubeway Army, e uma música chamada Are Friends Electric?… Aquilo me endoidou por sintetizadores”.

Sendo responsável pela produção das primeiras demos e dos dois primeiros discos do Harry, ele começou a entender que seu futuro também estava atrás da mesa de som. “O meu negócio era música. Aí um dia eu achei no jornal um anúncio pra ser auxiliar de escritório na RCA Victor, em São Paulo. Falei: ‘Bom, auxiliar de escritório é uma merda, mas pelo menos eu tô perto da música’”. Daquele anúncio, aos 19 anos, Verta foi redirecionado por falar inglês ao departamento internacional, dando início ao seu império nos bastidores.

Bastidores tem histórias com Oasis e Madonna

Essa imersão na indústria fonográfica rendeu a Verta transições pelas grandes mudanças de formato, do vinil ao CD, do CD aos downloads pagos inventados por Steve Jobs, e finalmente à era do streaming.

Como produtor de shows internacionais pela T4F entre 2007 e 2013, o santista assinou as passagens de U2 (360 Tour), Madonna e Roger Waters pelo país. O relacionamento próximo com grandes artistas o colocou em situações que até hoje rendem boas histórias, como conseguir entrevistas exclusivas (e separadas) com os geniais e imprevisíveis irmãos Noel e Liam Gallagher, do Oasis, durante a última turnê da banda, na Venezuela, e acompanhar as peculiaridades de Noel em recusar táxis de gravadoras para usar o transporte público de Londres.

“Os caras são muito loucos, né? Mas muito loucos todos eles são. Agora, o Noel Gallagher é um puto de um talento, sabe? Um puta gente boa”, pontua.

Acervo pessoal

Retorno ao lar

Em setembro de 2020, impulsionado pela mudança na dinâmica de trabalho durante a pandemia, Roberto Verta decidiu voltar a morar em Santos com a família. O retorno à Baixada não diminuiu seu ritmo. Em seu estúdio caseiro, além de focar na mixagem de faixas inéditas do Harry, celebrando a memória do saudoso vocalista Hansen, ele segue ditando os rumos da música contemporânea no Brasil.

Seja revelando os próximos headliners do país, escutando atentamente bandas emergentes de Mogi das Cruzes, Rio de Janeiro ou Santos, ou liderando um dos palcos mais importantes do Rock in Rio, Verta mantém a mesma essência do garoto que viajava para São Paulo atrás de um emprego que o deixasse “perto da música”. Hoje, ele não está apenas perto. Ele é quem abre a porta.