Entrevista | Death to All – “Diziam que o death metal era barulho. Hoje falam que foi revolucionário”

Entrevista | Death to All – “Diziam que o death metal era barulho. Hoje falam que foi revolucionário”

O Death to All, projeto que reúne ex-integrantes do Death em uma celebração direta e respeitosa da obra de Chuck Schuldiner, falecido em 2001, retorna ao Brasil neste mês para uma série de quatro apresentações.

A turnê marca datas simbólicas da discografia da banda, com foco nos álbuns Spiritual Healing e Symbolic, que completam 35 e 30 anos, respectivamente. Os shows acontecem em Porto Alegre (20/01, no Opinião), Curitiba (21/01, no Tork n Roll), São Paulo (24/01, no Carioca Club) e Belo Horizonte (25/01, no Mister Rock), com produção da Overload e ingressos já à venda.

No palco, o Death to All traz Gene Hoglan, baterista que participou de Individual Thought Patterns e Symbolic, ao lado do baixista Steve DiGiorgio, do guitarrista Bobby Koelble e de Max Phelps, responsável pela guitarra e vocais. Mais do que um tributo, o projeto se consolidou como uma forma de manter viva a música do Death e a memória de Chuck Schuldiner para diferentes gerações.

Em entrevista ao Blog n’ Roll, Gene Hoglan fala sobre o início da carreira no Slayer, a relação com Chuck, a importância do Symbolic, a criação do Death to All e a conexão especial com o público brasileiro.

Antes de se tornar um dos bateristas mais respeitados do metal, você trabalhou nos bastidores com o Slayer, ainda muito jovem. Como essa experiência ajudou a moldar sua visão da estrada?

Eu trabalhava com iluminação e nem dá para chamar aquilo de design de iluminação. Era tudo muito rudimentar, de baixo custo e com pouquíssimo tempo para montar. Ainda assim, aquela experiência foi fundamental para mim.

Foi o meu primeiro contato real com a vida em turnê. Eu tinha 16 anos e estava cercado por adultos, músicos e técnicos mais experientes. Isso me ensinou muito sobre atitude. Aprendi rápido que, naquele ambiente, observar era mais importante do que opinar. Se eu pudesse voltar no tempo, diria a mim mesmo para falar menos e ouvir mais. Ninguém quer ouvir as opiniões de um garoto que acabou de chegar, muito menos alguém tentando repetir frases de rockstars que leu em entrevistas.

Quando você é jovem, imagina que a vida na estrada é glamourosa, cheia de limusines, aviões e festas. Mas a realidade é bem diferente. Muitos músicos falavam que só queriam voltar para casa e dormir na própria cama. Eu estava no meu primeiro tour, me divertindo, e tentando agir como se estivesse exausto, repetindo discursos que não se aplicavam a mim. Foi uma lição importante de humildade.

Essa fase também me ensinou a respeitar o processo e as pessoas ao redor. Mais tarde, quando comecei a tocar profissionalmente, eu já entendia como uma turnê funcionava de verdade. Isso moldou completamente minha postura até hoje.

Sei que você era um grande fã de Rush e Kiss, mas quais outros discos e bateristas foram fundamentais para moldar seu estilo e te levar ao metal extremo?

Foram muitos, e vieram em ondas. Judas Priest teve um impacto enorme em mim, especialmente discos como Stained Class, Sin After Sin, Hell Bent for Leather e até o álbum ao vivo. Simon Phillips tocando pedal duplo em músicas como “Call for the Priest” foi algo que abriu minha cabeça. Aquilo já apontava para o que depois seria o speed metal.

Iron Maiden também foi crucial. O primeiro álbum deles me marcou profundamente. Eu tinha cerca de 12 anos quando saiu. Motörhead foi outra influência gigantesca, principalmente pela abordagem crua do Phil “Philthy Animal” Taylor. Era agressivo, direto, sem polimento.

Anvil, com o Rob Reiner, Raven com o Rob “Wacko” Hunter, Accept com discos como Breaker e Restless and Wild, tudo isso ajudou a estabelecer uma linguagem baseada em velocidade e peso. Quando você olha para trás, vê claramente o fio condutor: o pedal duplo empurrando o metal para frente.

Depois, estar em Los Angeles no início dos anos 80 foi decisivo. Eu vi o Metallica tocar no Whisky (a Go Go) em 1982, no segundo show da banda. Eu tinha 15 anos. Estar ali, vivendo aquele nascimento do thrash metal, foi algo que moldou tudo o que veio depois, inclusive o death metal.

Quando você e os músicos do Death perceberam que estavam ajudando a criar algo novo, que mais tarde seria chamado de death metal?

Isso aconteceu ainda antes de eu entrar na banda. Na época em que o Death estava sendo formado, eu ainda estava no Dark Angel e antes disso no War God. Mas o Chuck e eu já éramos amigos. Todo mundo conhecia o material do Mantis, com Chuck, Kam Lee e Rick Rozz.

As influências eram compartilhadas. Venom, Slayer, Possessed, todas essas bandas estavam moldando a cena. Dark Angel tocava com Slayer naquela época, e era possível perceber que todos estávamos bebendo da mesma fonte.

Quando você está criando algo novo, não existe a consciência de que está fazendo história. O que existe é resistência. As pessoas diziam que aquilo era ruim, que não era música, que era barulho. Isso aconteceu com o thrash, aconteceu com o death metal. Só muitos anos depois é que as pessoas olham para trás e dizem que aquilo foi revolucionário.

O Chuck tinha uma visão muito clara. Quando o death metal começou a seguir caminhos que não o interessavam, ele simplesmente seguiu em frente, evoluindo do jeito dele. Ele nunca se preocupou em se encaixar. Essa foi uma das maiores forças dele.

Como era a dinâmica de trabalho entre você e Chuck Schuldiner no estúdio? Havia espaço para colaboração ou ele que dava as cartas?

O Chuck era extremamente aberto à colaboração. Ele sempre dizia que não era baterista, então confiava completamente em mim nesse aspecto. Quando eu perguntava se alguma coisa estava exagerada ou difícil demais, ele sempre respondia: “Vai fundo, você está aqui porque eu quero tocar com você”.

Essa confiança era mútua. Quando fui para a Flórida gravar Individual Thought Patterns, tivemos pouquíssimo tempo para preparar tudo. Sugeri que pegássemos guitarras e que ele me ensinasse todos os riffs. Queria entender exatamente como eles funcionavam harmonicamente para construir a bateria em cima disso.

Durante esse processo, surgiram ideias novas. Em alguns momentos, sugeri variações de riffs, mudanças de posição no braço da guitarra. O Chuck adorava isso. Ele nunca teve ego em relação à autoria. O que importava era a música ficar melhor. Muitas ideias surgiram assim, de forma natural, colaborativa.

O álbum Symbolic completou 30 anos e é frequentemente citado como um dos discos mais importantes do metal extremo. Como foi viver aquele momento e como é revisitar esse repertório hoje?

Durante as gravações, nós só queríamos fazer um bom disco. Não havia preocupação com tendências ou expectativas externas. Era simplesmente ser honesto artisticamente. Tanto eu quanto o Chuck acreditávamos que era saudável não soar como ninguém mais.

Quando o álbum saiu, houve muita resistência. Parte dos fãs mais antigos não entendeu a direção musical. Eles queriam algo mais próximo de Scream Bloody Gore, Leprosy ou Spiritual Healing. Houve críticas duras, mas isso nunca nos abalou.

Com o tempo, o disco ganhou outra dimensão. Muitas pessoas me dizem que Symbolic foi o primeiro álbum de metal que ouviram. Alguns músicos que hoje estão em bandas gigantes contam que aprenderam a tocar ouvindo esse disco. É impressionante ver como ele cresceu ao longo dos anos.

A morte do Chuck, em 2001, também congelou o legado do Death. Não houve mais capítulos depois disso. Talvez por isso a obra tenha se tornado ainda mais forte e reverenciada com o tempo.

O que te motivou a criar o Death to All, mais do que como um tributo, mas como uma celebração do legado do Death?

Tudo começou em 2011, com o relançamento de Individual Thought Patterns. Eu estava fazendo uma turnê mundial de workshops e dediquei grande parte delas a esse álbum. Depois de um desses workshops, uma pessoa me procurou com a ideia de reunir ex-integrantes do Death para tocar esse material ao vivo.

O nome Death to All surgiu ali e fez todo sentido. A ideia era representar o legado musical do Chuck de forma respeitosa, já que, sem ele, o Death nunca mais existiria como banda ativa. A primeira tour foi pequena, com poucos shows, mas rapidamente cresceu.

Hoje, tocar com Steve DiGiorgio e Bobby Koelble é algo muito especial para mim. Steve esteve envolvido em todo o processo criativo de Symbolic, mesmo sem ter gravado o disco. Para mim, ele faz parte dessa história. Ter o Max Phelps também é fundamental. Ele leva o projeto muito a sério e honra cada detalhe.

O mais importante é ver a música do Chuck continuar viva, sendo compartilhada com fãs de diferentes gerações. Isso é o que dá sentido ao Death to All.

Você já tocou muitas vezes no Brasil. Existe alguma memória marcante envolvendo o público brasileiro?

Cada show no Brasil é memorável. Os fãs aqui são intensos, apaixonados e muito respeitados dentro da cena mundial. Sempre que anunciamos uma turnê pela América do Sul, todo mundo comenta que gostaria de tocar no Brasil.

Uma lembrança muito forte é o show do Dark Angel no Bangers Open Air, em São Paulo, pouco mais de um ano atrás. Estávamos sem um guitarrista, o Eric Meyer não pôde tocar. Poderia ter sido uma noite frustrante, mas a Laura Christine assumiu e transformou aquilo em algo incrível. O público respondeu de forma absurda.

O Brasil sempre transforma situações difíceis em momentos especiais. E agora, com o Death to All, sei que vamos criar muitas novas memórias por aqui. Estamos todos muito animados para isso.