Entrevista | Frank Turner – “Vou visitar o Brasil só porque toco guitarra. Sinto que tenho o dever de aproveitar isso ao máximo”

Entrevista | Frank Turner – “Vou visitar o Brasil só porque toco guitarra. Sinto que tenho o dever de aproveitar isso ao máximo”

Frank Turner vem ao Brasil no final deste mês como parte de sua aguardada turnê pela América Latina, com shows confirmados em São Paulo, Brasília e Curitiba. A passagem pelo país marca a estreia do cantor britânico em palcos sul-americanos e acontece em um momento especialmente simbólico de sua trajetória, após mais de duas décadas de estrada. Conhecido pela intensidade de suas apresentações e pela conexão direta com a audiência, Turner chega acompanhado de Dave Hause e da banda Katacombs, reforçando o caráter especial dessa primeira visita musical a região.

Desde a saída do Million Dead, Frank Turner construiu uma das carreiras mais consistentes do folk punk contemporâneo, somando mais de 3.000 shows ao redor do mundo, dez álbuns de estúdio e presença constante nos principais festivais europeus. Suas músicas transitam entre relatos pessoais, reflexões sociais e a defesa da cena independente, valores que também se manifestam fora do palco, como na maratona de shows que o levou ao Guinness World Records e nas ações de apoio a casas de shows durante a pandemia.

Em entrevista ao Blog N’ Roll, Frank Turner falou sobre a expectativa de shows na América do Sul, a relação com o Brasil, país no qual já passou férias, os bastidores do recorde no Guinness e até mesmo seu split com o NOFX.

Esta será sua primeira turnê na América do Sul. O que você espera da audiência da região e o que mais desperta sua curiosidade nesses shows?

A primeira coisa que quero dizer é que estive no Brasil uma vez, em férias, há alguns anos, e tive uma experiência incrível. Fui ao Rio de Janeiro e a Paraty. Foi há dois ou três anos, acho. Foi insano. O Rio simplesmente explodiu minha cabeça, foi algo realmente impressionante.

Fiquei até me sentindo mal por ter passado mais de 40 anos da minha vida sem nunca ter vindo à América do Sul e, mais especificamente, ao Brasil. É um lugar tão intenso, tão vivo. E percebi que não falo português, então peço desculpas por isso. Mas eu amei estar aí.

E finalmente vai atender aos tantos pedidos de “Come To Brazil”, né? Principalmente após os shows cancelados na época da pandemia…

Existe esse clichê sobre vir ao Brasil nas redes sociais, e eu vivi isso. Acho bonito, acho incrível. É algo muito louco para mim pensar que existem pessoas do outro lado do mundo, em um país onde eu nunca tinha estado, que sabem quem eu sou e que se importam com minha música. Isso é maravilhoso.

De forma mais ampla, os fãs brasileiros e sul-americanos têm a reputação de serem muito apaixonados, e eu acho isso algo de que vocês deveriam se orgulhar. É lindo. Se você me fizer escolher, eu sempre fico com pessoas apaixonadas.

Eu moro em Londres, e lá as pessoas podem ser muito irônicas, distantes às vezes. É uma relação diferente com a arte. Eu sempre prefiro a intensidade, a entrega. Em muitos sentidos, eu não sei exatamente o que esperar dessa turnê, e isso é justamente o que a torna tão empolgante. Estou realmente muito animado para finalmente vir.

Eu tinha uma turnê pela América do Sul marcada para 2020, que acabou não acontecendo por razões óbvias. Eu estava muito empolgado naquela época, então fico ainda mais feliz que agora isso finalmente esteja acontecendo.

E você veio ao Brasil somente de férias para descansar ou também teve tempo de estudar e conhecer bandas locais e a cena punk brasileira?

Não tive a oportunidade de conferir a cena punk brasileira naquela viagem. Dito isso, agora vou ser péssimo e não lembrar nomes, mas tenho amigos brasileiros há muitos anos. Posso dizer que cresci ouvindo Sepultura e amo essa banda, é algo gigantesco para mim.

Tenho consciência de que existe uma cena de rock e punk muito forte no Brasil e espero que, dessa vez, enquanto estiver aí, eu consiga aprender mais sobre ela.

Depois de mais de 20 anos na estrada e mais de 3.000 shows realizados, o que ainda te motiva a continuar tocando com a mesma intensidade?

A primeira coisa que eu diria é que a intensidade é diferente. Eu não toco tão pesado quanto quando tinha 20 ou 30 anos, simplesmente porque meu corpo não aguenta mais. Já fiz turnês de 13 meses sem voltar para casa, e isso é ridículo. Ninguém precisa fazer isso, especialmente quando chega aos 40.

Mas eu amo o que faço. É a única coisa no mundo em que sinto que sou realmente bom e que sei fazer. É um privilégio enorme. Muitas pessoas tentam viver de música e não conseguem, muitas vezes por razões totalmente fora do controle delas.

Eu fui uma dessas pessoas raras que conseguiu fazer isso funcionar por muito tempo, e me sinto extremamente privilegiado. Quero honrar isso. Quero sentir que estou fazendo jus a essa sorte.

Vou visitar países que nunca estive antes por causa de uma guitarra, sabe? Vou tocar no Chile, na Argentina e no Brasil porque eu toco guitarra. Isso é loucura. Que tipo de sorte é essa? Sinto que tenho o dever de aproveitar isso ao máximo, de abraçar tudo.

Se eu estivesse tocando mais um show em Manchester, onde já toquei centenas de vezes, seria diferente. Eu amo Manchester, mas não é novidade para mim. Essa turnê é especial justamente porque é tudo novo, e isso me deixa muito empolgado.

Desde o início da sua carreira solo, você lança algo novo praticamente todos os anos. Isso é estratégia ou impulso criativo constante?

Seria generoso chamar isso de estratégia. Acho que é simplesmente quem eu sou. No começo, eu escrevia discos muito rapidamente. Hoje levo mais tempo, o que tem a ver com experiência e idade.

Gosto da ideia de ter coisas disponíveis, sejam compilações de raridades, discos ao vivo ou projetos paralelos. Não espero que todo mundo ouça tudo, mas é legal que isso exista. Também é assim que eu ganho a vida: tocando e lançando discos.

Se isso virou uma estratégia em algum ponto, funcionou. Então não posso reclamar.

Como surgiu a ideia de lançar um split com o NOFX e como foi ver uma banda tão lendária interpretando suas músicas?

A ideia veio justamente do Fat Mike. Eu já era amigo dele há bastante tempo quando ele perguntou. Cresci ouvindo NOFX, essa é a minha geração. O Mike sempre dizia que gostava da minha música, mas eu achava que era só gentileza entre músicos.

Hoje eu sei que ele é a última pessoa que falaria algo só para ser educado. Em 2019, estávamos relaxando em um festival na Itália e ele simplesmente virou para mim e perguntou se eu queria fazer um split.

Por dentro, eu estava em choque (nesse momento, Frank faz uma comemoração como se estivesse celebrando um gol), porque o último split deles tinha sido com o Rancid, em 2002. Eu comprei aquele disco no dia em que saiu. Por fora, tentei manter a calma e dizer “claro, parece ótimo”.

O processo foi muito divertido. Não trocamos informações sobre quais músicas cada um faria. Tentei dar uma abordagem diferente a cada faixa do NOFX, para não apenas copiar. Ver músicas minhas tocadas por uma das minhas bandas favoritas é algo surreal, no melhor sentido possível.

Tenho muito orgulho desse split. É uma espécie de auge punk rock na minha carreira. Discussões sobre o que é ou não punk são bobas, mas, nesse caso, eu tenho uma carta na manga: eu fiz um split com o NOFX. Isso é algo muito bom de ter no currículo.

Frank Turner exibe o Guinness Book atualizado com o seu recorde

Falando sobre o Guinness World Records, como foi o planejamento para transformar a maratona de shows em algo viável?

O planejamento foi provavelmente a parte mais divertida. Fazer os shows foi um pesadelo, e eu nunca mais quero fazer isso. Eu estava tocando sozinho, com duas pessoas da equipe, e ambos disseram depois que nunca fariam aquilo de novo.

Planejamos tudo no Reino Unido, que eu conheço muito bem. Eu e meu diretor de produção imprimimos um mapa da Inglaterra e começamos a marcar lugares. Pensávamos em casas de show, lojas de discos, logística, trânsito, jogos de futebol. Tudo precisava funcionar perfeitamente.

No dia, tudo correu bem em termos de planejamento, mas o cansaço foi brutal. Minha voz sofreu muito. Quando cheguei em casa, era meio da tarde e eu estava completamente destruído, sem saber se dormia ou não. Foi uma sensação estranha.

Apesar disso, ajudamos lojas de discos e casas independentes, arrecadamos dinheiro, criamos conscientização e entramos para o livro dos recordes. Estou feliz por ter feito e entrado para a história, mas não repetiria.

Suas letras são profundamente autobiográficas. Em que ponto você sente que está realmente se expondo e quando começa a construir uma narrativa?

Essa é uma ótima pergunta. Sempre existe algum nível de construção narrativa, simplesmente pela escolha do que contar. Tento ser emocionalmente honesto, mas não é como ler meu diário em voz alta. Quero manter alguma privacidade e, além disso, se fosse só um diário, talvez ninguém se conectasse.

O objetivo é encontrar emoções reais e apresentá-las de uma forma que outras pessoas consigam se reconhecer nelas. É um equilíbrio delicado. Às vezes é estressante, porque algumas pessoas acham que sabem tudo sobre mim, mesmo sem nunca terem me conhecido.

Como ouvinte, minhas músicas favoritas são aquelas em que alguém diz algo brutalmente honesto, algo que faz você pensar “eles realmente disseram isso?”. Eu amo isso na música e tento buscar esse mesmo impacto.

Você veio de uma cena de clubes pequenos e o rock está indo cada vez mais para os estádios. Como você vê os bares e casas independentes com papéis essenciais para a música?

Porque, com exceção de música pop fabricada, ninguém vai direto para arenas. Você precisa aprender fazendo. Esses lugares pequenos são como departamentos de pesquisa e desenvolvimento da indústria musical.

Foi nesses espaços que aprendi a cantar, tocar, performar, encontrar minha voz e meu público. Eu não seria quem sou sem isso. Ainda hoje, continuo tocando em lugares pequenos. Meu último show solo foi em Colchester, antes do Natal, para um evento beneficente, e foi incrível.

Meu sonho, no fundo, ainda é um show em uma sala pequena, suada, com 200 pessoas enlouquecidas, todo mundo conectado. Shows grandes também são incríveis, mas há algo mágico em um pequeno clube punk.

Durante a pandemia, você arrecadou dinheiro para apoiar essas casas. Isso mudou sua percepção sobre o papel social do músico?

Eu não diria que mudou, mas ampliou algo que eu já fazia. A pandemia foi estranha para todo mundo. Meu trabalho se tornou ilegal da noite para o dia e ninguém sabia quando aquilo acabaria.

Houve uma oportunidade de usar meu tempo e minhas plataformas para ajudar quem precisava mais do que eu. Casas de show vivem de reunir pessoas, e isso foi um desastre durante a pandemia. Fiz cerca de 23 transmissões para apoiar 23 espaços diferentes. Não salvei ninguém, mas ajudei a manter portas abertas por algum tempo, e isso já valeu a pena.

Para encerrar, existe a possibilidade de trazer o festival Lost Evenings para a América do Sul?

Seria incrível. Escolher onde fazer o festival é sempre uma decisão enorme, mas a ideia de levar para a América do Sul é muito empolgante.

Essa viagem agora é como uma primeira visita técnica (risos). Estou vindo sozinho, só eu e minha guitarra. Da próxima vez, se tudo correr bem, gostaria de trazer a banda como próximo passo, porque artisticamente é onde minha cabeça está agora.

Talvez depois de mais algumas visitas eu possa fazer o Lost Evenings em São Paulo. Isso soa muito bem. Seria incrível.