Entrevista | Jéssica Falchi – “Subir ao palco com o Tool me deu a certeza de que tocar guitarra é o que eu quero fazer da vida”

Entrevista | Jéssica Falchi – “Subir ao palco com o Tool me deu a certeza de que tocar guitarra é o que eu quero fazer da vida”

A guitarrista Jéssica Falchi vive um momento de afirmação artística com o lançamento de seu primeiro EP instrumental, que marca uma nova fase da carreira após anos de estrada em bandas e projetos de destaque no metal. Conhecida pela técnica apurada e pela versatilidade, ela apresenta um trabalho autoral que transita entre o metal moderno, o progressivo e influências clássicas do rock instrumental, apostando em atmosferas diversas e identidade própria. Mas, apesar de usar seu sobrenome no projeto, ela deixa bem claro: “Nós somos uma banda”.

O EP reúne quatro faixas que refletem diferentes facetas da guitarrista, incluindo uma participação especial de Aaron Marshall, da banda canadense Intervals, uma das maiores referências do metal instrumental. O lançamento também impulsiona uma nova etapa nos palcos, com shows já realizados e outros confirmados, além de ações internacionais, como a presença no NAMM Show, nos Estados Unidos.

Em entrevista ao Blog N’ Roll, Jéssica Falchi fala sobre o nascimento do projeto solo, os desafios da música instrumental e momentos marcantes da carreira, como o convite para tocar com o Tool e os perrengues da estrada.

Seu projeto solo, com o lançamento do EP, marca uma nova fase. O que motivou a decisão de seguir esse caminho?

Nunca foi minha intenção ter algo solo. Tanto que o projeto leva só o meu sobrenome, não é “Jéssica Falchi”, porque pensei que as pessoas que não me conhecem poderiam entender como o nome de uma banda, e não associar diretamente a uma pessoa.

No começo do ano passado, eu fui convidada para participar de um podcast da MG, que é um dos meus patrocinadores, e achei que seria interessante levar uma música instrumental. Só que eu não tinha nada pronto, apenas uma demo com algumas ideias. Comentei isso com o Jean Patton, e ele sugeriu que produzisse a música comigo.

Quando a gente se reuniu para finalizar a composição, a nossa vibe bateu muito. Foi algo muito natural. Quando a música ficou pronta, a gente simplesmente continuou compondo. No fim, nem cheguei a ir ao podcast, porque voltei para tocar no Lollapalooza, mas acabei lançando um EP inteiro. Foi um processo muito orgânico. Não era algo que eu almejava desde sempre. A experiência de compor, pensar no conceito e chamar amigos para participar foi tão legal que pensei em lançar tudo da melhor forma possível.

E por que sustentar o trabalho instrumental, em vez de uma banda “tradicional”?

Quando comecei a tocar guitarra, cresci tocando música instrumental. Meu professor tinha uma banda cover de Joe Satriani e sempre me passava esse tipo de repertório. Depois descobri esse universo mais a fundo e virei consumidora do gênero.

Steve Vai, Liquid Tension (projeto com membros do Dream Theater) Experiment, Intervals, Plini, Night Verses são coisas que eu escuto muito. Então faz total sentido ser instrumental, porque é algo que eu realmente consumo e gosto de ouvir.

Agora com o EP lançado, quais são as principais expectativas?

Quero continuar compondo, agora com a banda completa. No começo era só eu e o Jean, mas hoje tenho músicos incríveis comigo. O Luigi, o João Pedro, com quem já toquei anos atrás, e o Guilherme, guitarrista do Mystifier.

A ideia é trazer eles cada vez mais para perto, porque isso traz novas influências e ideias. Também queremos tocar bastante. Já temos um show anunciado com o Katatonia e outras coisas fechadas que ainda não foram divulgadas.

No ano passado tocamos no Amplifica Fest, do Rafael Bittencourt, e ali tive a certeza de que a vibe bateu muito. Tocar ao vivo é completamente diferente de só lançar música. A gente gosta dessa energia de palco e até dos perrengues, porque tocar também é isso.

Falando em perrengue, como foi passar por um furacão nos Estados Unidos?

Foi péssimo. Uma experiência muito estranha. Você nunca imagina que algo assim vai acontecer. O trailer da banda foi destruído, mas ninguém se machucou.

Mesmo assim, a turnê não parou, porque o prejuízo financeiro seria enorme. Como todo mundo estava bem, seguimos em frente. Foi terrível, mas também mostrou o quanto a estrada exige resiliência.

Com um EP de quatro faixas, como funciona o repertório ao vivo?

Geralmente o tempo de set é curto, cerca de meia hora. Minha vontade é não tocar covers, quero tocar o EP inteiro, o que dá mais ou menos 20 minutos. Existe uma música nova em forma de demo que talvez entre no repertório, olha, em primeira mão, viu? Mas isso ainda está sendo decidido.

E qual sua expectativa do público brasileiro a um show instrumental?

Era um receio real, porque não temos tantas bandas instrumentais de metal no Brasil. Mas fui surpreendida positivamente. As pessoas abraçaram a ideia e estão apoiando bastante.

Muita gente brinca dizendo “solta um vocal”, mas, no geral, a recepção foi muito boa. Acho que é mais uma questão de costume. Lá fora, bandas instrumentais fazem turnês e festivais o tempo todo. Aqui o metal já é um gênero mais de nicho, e o instrumental é ainda mais específico.

Como está sendo o planejamento e estratégia de divulgação do EP, especialmente no exterior com a participação no NAMM?

Lanço o EP no dia 23 e no dia 24 tenho uma sessão de autógrafos na Richter, que é a marca de correias que me patrocina. Vou fazer um meet and greet no estande deles no NAMM Show mesmo.

Vou levar CDs físicos, algo que me deixa muito feliz, porque sempre quis ver esse trabalho materializado. Queria muito fazer um vinil de 10 polegadas, mas ainda estou procurando uma empresa que viabilize isso. Por enquanto, fica no CD mesmo.

Quatro músicas, quatro filhos, né? Existe um filho favorito nesse EP?

É muito difícil escolher, porque todas são muito diferentes entre si. “Moonlace” tem uma pegada mais moderna, flertando com bandas como Vola. A segunda faixa é mais progressiva, com influência de Pink Floyd. A terceira é mais thrash.

E a próxima, com a participação do Aaron Marshall, é completamente diferente de todas. Cada música representa uma faceta da minha personalidade.

Já que entrou no assunto, como foi ter uma inspiração como o Aaron Marshall participando do seu trabalho? Como foi o convite?

É surreal. Dez anos atrás eu levava músicas do Intervals para o meu professor me ajudar a tirar. Se alguém dissesse para a Jéssica daquela época que eu teria um feat com o Aaron, eu não acreditaria.

A gente se conheceu pela internet e foi se aproximando aos poucos. Durante a composição dessa última música, pensei que faria muito sentido chamá-lo, tanto pessoal quanto artisticamente. Ele topou, o que foi incrível.

No solo dele, tem uma parte com uma pegada de baião, bem brasileira. Ele quis dobrar essa parte com a banda, estendendo o solo. Ficou muito especial, porque ele colocou a identidade dele, mas também entrou nessa onda brasileira.

E falando em convite, como foi o convite para tocar com o Tool no Lollapalooza e a sensação de subir ao palco com eles? Porque eles são conhecidos por quase não ter colaborações ao vivo…

Foi surreal. O Tool realmente raramente convida alguém para participar ao vivo. Foi a primeira vez deles no Brasil, no Lollapalooza, e eu ali no palco. É uma história que eu contaria para os meus netos.

O Adam (Jones) me deu essa experiência de ser um rockstar por um dia. Passei o dia com a banda, conheci a rotina deles, tudo em outro nível. Pouco antes do show, ele ainda sugeriu que eu dobrasse o solo dele. Faltavam só 15 minutos para subir no palco.

Eu fiquei muito nervosa, mas quando você sobe e toca os primeiros acordes, tem a certeza de que está fazendo a coisa certa na vida. É isso que me faz feliz e o que eu quero fazer até não aguentar mais.

Bom, o EP sendo lançado, quais são os próximos planos?

Quero manter o projeto, fazer colaborações e tocar fora do Brasil, onde o instrumental tem mais espaço, mas também seguir tocando aqui. Tem a Falchi, tem a Iron Ladies (tributo ao Iron Maiden só com mulheres), que completou dez anos, e outros projetos vindo por aí que ainda não posso revelar.

Estou muito animada. Sei que o mercado é mais restrito, mas gosto de somar com outras pessoas e seguir criando. Esse ano promete ser muito especial.

O Smashing Pumpkins não só convidou, como também tem dado espaço e destaque à Kiki Wong no palco. Se uma banda grande te chamasse para virar membro ou uma participação especial, qual seria esse convite dos sonhos?

Se o Tool chamasse de novo, estamos dentro, sem pensar duas vezes. Mas tem muitas bandas. Eu gosto muito de Leprous, por exemplo. Faria facilmente algo com o Einar (Solberg) solo também.

Pensando em bandas, talvez o próprio Leprous fosse mais complicado, porque eles já têm duas guitarras. Então coloco o Vola como uma possibilidade, porque é uma banda com uma guitarra só e eu gosto muito do som deles.

Mas, no fim, teria que ser algo que fizesse sentido artisticamente e que eu realmente gostasse. Isso é o mais importante para mim.