O ano era 1996 e o hardcore dominava a MTV Brasil. Se você ligasse a TV em qualquer tarde daquele ano, era questão de tempo até o clipe de Here We Go invadir a tela com sua energia contagiante. A faixa catapultou o álbum Mantra (1995) e transformou o Shelter, banda americana liderada por Ray Cappo (ex-Youth of Today), em um fenômeno global.
A sonoridade agressiva contrastava com a mensagem pacifista e espiritual de orientação hindu, criando um subgênero próprio: o krishnacore. E foi exatamente no auge dessa febre, em junho de 1996, que a banda desembarcou no Brasil para uma turnê histórica. Além de capitais como São Paulo, Rio de Janeiro e Curitiba, a rota incluiu uma parada obrigatória na Baixada Santista. O resultado? Um dos shows mais caóticos, divertidos e inusitados da história de Santos.
Palco improvável e a ironia do destino do Shelter em Santos
A ironia de uma banda estritamente vegetariana tocar em um antigo restaurante chinês não passou despercebida. O relato histórico do fanzine santista Surf Core detalhou perfeitamente a atmosfera daquela noite. O Cadillac Café, na Avenida Conselheiro Nébias, 788, provou ser um cenário impecável para o hardcore: com dois andares, palco na altura ideal e duas caixas de som gigantes, a estrutura parecia ter sido feita sob medida para os stage dives.
A abertura foi uma celebração à parte. O Cólera, com o saudoso Redson, subiu ao palco em formato power trio e entregou um set rápido e agressivo. Em seguida, o Garage Fuzz, que estava há tempos sem tocar em casa por conta da composição de novas músicas, matou a saudade e fez “todo mundo pogar”, com o então vocalista Alexandre Sesper (Farofa) dedicando o show a todos os animais que haviam sido sacrificados ali no passado. O Blind fechou o suporte mostrando sua forte influência do punk rock dos anos 80. Quando o Shelter finalmente assumiu os instrumentos, a catarse foi imediata.
Para Marco Casado Lima, fã que esteve presente, a escolha do local refletia a essência da cena na época: “Punk/HC é foda… sempre que um lugar abria espaço, é porque já tava ruim das pernas. Era tipo a última cartada dos donos desesperados”.
Quando o Shelter subiu ao palco, a catarse foi imediata. “A galera dava stage dive do mezanino, aquilo me impressionou. Me senti num show do Bad Brains em Nova York no início dos anos 80”, relembra Marco.

Camarim vegano para o Shelter em Santos e a ajuda divina
Para o produtor do show, Alexandre Macia, o Pepinho, a noite marcou sua estreia com atrações internacionais. “Foi super bem-sucedido, deu sold out. Foi fácil de vender porque Here We Go estava tocando não só na MTV, como nas rádios de rock. Acabaram os ingressos e ainda tinha gente querendo”, conta.
Mas se os números de bilheteria eram de rockstars, o rider (lista de exigências) do camarim pegou o produtor de surpresa. Acostumado a comprar cerveja e uísque para bandas de metal, Pepinho se viu em um cenário diferente com os devotos de Krishna, que na época contavam com ninguém menos que Roy Mayorga (que depois brilharia no Soulfly e Stone Sour) na bateria.
“Os caras só queriam fruta! Eu fiz a feira pela primeira vez na minha vida graças ao Shelter, comprando mamão papaya, banana… E os caras eram muito gente fina, de boa”, diverte-se o produtor. A logística ainda contou com uma “intervenção divina”: “O templo Hare Krishna de Santos fez questão de levar a banda para almoçar no dia do show. Isso foi uma maravilha, economizei um bom dinheiro de rango!”
“Hi, my name is Dangerous”
O clima amigável de Ray Cappo rendeu uma das histórias mais hilárias dos bastidores santistas. Pepinho havia prometido ao seu funcionário da loja Metal Rock, apelidado de “Perigoso” e fã do Shelter, que o apresentaria ao ídolo.
Durante a montagem do palco, Cappo pediu para tomar uma água de coco. Pepinho topou, com a condição de passarem na loja primeiro. “Quando eu entro na loja com o Ray Cappo, o Perigoso quase desmaiou”, relembra o produtor.
Tomado pela emoção e querendo impressionar o ídolo em inglês, o fã cometeu um erro de tradução fatal na hora de se apresentar. “O Perigoso, em vez de falar o nome, traduziu o próprio apelido. Ele soltou um: ‘Hi! My name is Dangerous!’. O Ray Cappo chorou de rir de encostar na parede. Ele ria e falava: ‘Ok, sorry, you are dangerous!’. Puta, coitado do Perigoso”, gargalha Pepinho.
Caos no mosh, cusparada e a debandada dos “modistas”
O sucesso estrondoso de Here We Go nas rádios e na TV cobrou seu preço na pista. Se o produtor Pepinho celebrou o sold out, o fanzine Surf Core relatou o que isso significou na prática: foram mais de mil ingressos vendidos para um espaço que, teoricamente, não comportava aquele volume de pessoas. “Não cabe isso tudo, mas coube”, resumiu a publicação.
Essa superlotação misturou a velha guarda do punk com o público novato atraído pela MTV, gerando atritos. A empolgação com os saltos do mezanino e invasões de palco fugiu do controle. Em determinado momento, os “babacas de plantão” invadiram tanto o espaço da banda que uma das músicas do Shelter acabou sendo tocada de forma quase totalmente instrumental, pois Ray Cappo mal conseguia cantar.
O clima, que era de festa, atingiu um pico de tensão com uma atitude inaceitável. Sempre pregando o pacifismo e o respeito, o vocalista parou o show e ameaçou não continuar após um fã dar uma cusparada na intérprete que estava no palco tentando traduzir as mensagens da banda para o público.
Apesar do estresse, a apresentação teve um “filtro” natural. Assim que o super hit Here We Go foi executado, ocorreu um fenômeno clássico dos anos 90 relatado pelo fanzine: os “modistas” deram a noite por encerrada e foram embora para casa. Foi só a partir desse momento, com a pista respirando um pouco mais, que os fãs reais de krishnacore puderam absorver a agressividade musical do Shelter em sua plenitude.
Tumulto das camisas de futebol
Se nos bastidores o clima era de comédia, no palco o Shelter quase causou uma tragédia por pura inocência gringa.
Em depoimento ao Blog n’ Roll, Ray Cappo relembrou o choque cultural ao tentar fazer uma homenagem ao público brasileiro. Sem entender a dimensão e a agressividade do clubismo no país, a banda teve uma ideia que parecia genial no papel, mas desastrosa na prática.
“Lembro que subimos no palco em Santos e todos nós vestimos camisas de times diferentes, pensando que era uma coisa boa. ‘Vamos usar uma de um clube de São Paulo, uma do Rio, uma do Santos’. E nós pensamos que todo mundo acharia ótimo. Mas quase causamos um tumulto. Essa é minha única lembrança de Santos” — Ray Cappo
As camisas haviam sido compradas dias antes. Segundo uma matéria da Folha de S. Paulo publicada durante a turnê, o primeiro passeio da banda no Brasil foi ir a um shopping em São Paulo comprar roupas, CDs do Sepultura (considerada por eles a melhor banda de hardcore do mundo) e uniformes de futebol. A paixão pelo esporte pegou Cappo de jeito, tanto que ele adotou a camisa do São Paulo Futebol Clube e a utilizou até em ensaios fotográficos para o disco Beyond Planet Earth (1997).

Sexo, mantras e consumo
A mesma matéria da Folha, assinada por Silvia Ruiz, destacava o paradoxo fascinante do Shelter: o peso do som versus a pureza dos costumes. Os membros (com exceção de Mayorga) não bebiam, não fumavam, não usavam drogas, eram vegetarianos e celibatários. O guitarrista Dave Porcell não fazia sexo há oito anos; Ray Cappo, há cinco. “Não beijo minha namorada por mais do que 30 segundos”, declarou o vocalista na época.
Eles dedicavam as manhãs à ioga, leitura e entoavam mantras. Para eles, até alho e cebola eram proibidos, pois carregavam “energia pesada”. A única fraqueza material da banda? O consumismo. O baixista Franklin confessou durante as compras no Brasil: “Eu adoro roupas; preciso alcançar um nível espiritual mais alto para poder controlar esse desejo”.
Seja pela devoção espiritual, pelos saltos suicidas do mezanino, pelas frutas no camarim ou pelo lendário encontro com “Mr. Dangerous”, o show do Shelter no extinto Cadillac Café provou que o hardcore em Santos, em meados dos anos 90, era um universo onde o sagrado, o profano e o improvável andavam, literalmente, de mãos dadas no mosh pit.
Retorno do Shelter a Santos
A marcante passagem do Shelter pelo Brasil rendeu mais uma visita a Santos em 2000. Poderiam ter sido duas, mas uma delas foi cancelada, em 1998. O show aconteceria na Jump, local que no ano seguinte recebeu a histórica apresentação do Bad Religion após um apagão nacional.
Curioso notar no cartaz do show, que teria abertura da banda gaúcha Tequila Baby, vários cursos universitários envolvidos no evento, como Turismo e Educação Física (Unimonte), Arquitetura e Enfermagem (Unisantos), além de Publicidade (Unisanta).

Pouco mais de dois anos depois, em 10 de agosto de 2000, o Shelter, enfim, voltou a Santos. A casa escolhida dessa vez foi o extinto Bar do 3, na Avenida Washington Luiz, 422, no Gonzaga.
Para acompanhar o Shelter, três excelentes bandas: Dead Fish, Street Bulldogs e a santista Overjoyed.
Após essa turnê, o Shelter ficou 24 anos longe do Brasil, retornando no fim de 2024 para dois shows: Curitiba e São Paulo.
