Capacetes em chamas e pistola de raios alfa: a abdução do Man Or Astro-man? em Santos, em 1999

Capacetes em chamas e pistola de raios alfa: a abdução do Man Or Astro-man? em Santos, em 1999

Considerada uma das maiores bandas de surf music do mundo, com repertório praticamente inteiro instrumental, o Man Or Astro-man? visitou Santos em sua segunda turnê ao Brasil, em 26 de setembro de 1999. A apresentação histórica aconteceu na extinta casa noturna Millenium (Av. Ana Costa, 554B, no Gonzaga), com abertura do Garage Fuzz e do Sonic Sex Panic.

Menos de um ano antes, a banda do Alabama (EUA) havia feito sua primeira turnê no Brasil. O rolê foi tão bem-sucedido que eles não pensaram duas vezes antes de retornar, e o motivo era uma verdadeira paixão pelo país.

Em entrevista para a Folha de Londrina, em 1999, o baterista e membro-fundador Brian Teasley (o Birdstuff) declarou que o Brasil era o seu país favorito. O músico fez questão de exaltar a energia local: “Nos Estados Unidos e na Europa, as pessoas sentam em suas poltronas e ouvem música de forma muito polida, muito correta. Vocês (brasileiros) aí vivem a música, todo mundo tem banda e parece que a música é uma parte significativa das vidas de vocês”.

A ligação da banda com o país foi além das palavras. Revelando admiração por Mutantes e Chico Science, Birdstuff foi poético: “Minha vida não estaria completa se não fosse o Brasil. Funcionou como uma inspiração para nós, por isso gravamos o disco aí”. De fato, a segunda turnê, que passou por 12 cidades brasileiras, serviu para divulgar o nono álbum da banda, Eeviac, gravado no estúdio móvel deles (o Zero Return) em Belo Horizonte durante a primeira passagem pelo país.

Risco do Garage Fuzz e a gafes da imprensa

Apesar do status cult da banda, o show em Santos quase não aconteceu. Segundo resenha da época feita pelo fanzine Surfcore, assinada por Marco Casado e Victor Martins, se não fosse pelo esforço do pessoal do Garage Fuzz, o público da Baixada teria que “subir a Serra de novo”.

O Surfcore detalhou que o aluguel dos espaços de shows estava muito caro e que a Millenium, local escolhido para o evento, era novata no ramo de rock, enchendo apenas “de vez em nunca de funkeiros ou playboys”. Isso fez com que os donos da casa duvidassem do sucesso do evento, mas a aposta do Garage Fuzz e a boa divulgação lotaram a discoteca, surpreendendo os proprietários.

A ironia do evento, no entanto, ficou por conta da imprensa. O fanzine relatou, com indignação, que a rádio, os jornais e os cartazes trataram o gigantesco Man or Astro-man? como uma banda de suporte para o Garage Fuzz. “O jornal apenas dizia ‘uma banda bem legal que toca vestida de uniformes da Nasa’ e o resto do texto todo falando do GF”, destacou a publicação.

Skate rock, mosh e os “roadies alienígenas” do Man Or Astro-man?

A noite começou quente com o Sonic Sex Panic. A banda entregou um HC melódico e agressivo, definido pelo zine como “skate rock”, tocando músicas novas em português que retratavam problemas pessoais, uma possível influência do novo baixista, Medina (também do Sociedade Armada).

O Garage Fuzz subiu na sequência, misturando os clássicos do primeiro CD com faixas mais recentes. A resenha pontuou, com certa irritação, que os fãs exaltados atrapalharam: “Mais uma vez os idiotas do stage diving atrapalharam o show”. Essa invasão repetiria-se no show principal, mas em menor escala, pois a “maioria dos chatos” já havia ido embora.

A longa espera para a atração principal justificou-se pela complexidade do palco. “Os integrantes travestiram-se de funcionários de usina nuclear com macacões e capuzes brancos com máscara de oxigênio e óculos escuros”, relatou o Surfcore sobre a equipe técnica. Os “roadies alienígenas” montaram um verdadeiro laboratório sonoro, espalhando projetor de imagens super-8, um laptop ligado ao P.A., samplers e inúmeras mangueiras pelo palco da Millenium.

Foto: Divulgação

Abdução: macacões da Nasa e espetáculo classe A

Do nada, Birdstuff (bateria), Blazar the Probe Handler (guitarra), Trace Reading (guitarra) e Coco the Electronic Monkey Wizard (vocal e mentor) surgiram vestindo macacões vermelhos da Nasa. Para o Surfcore, o que se viu a seguir não foi um show, mas um espetáculo “Classe A”.

Com movimentos robóticos enquanto tocavam, os integrantes entregaram um setlist focado no futurista Eeviac, mas recheado de faixas do aclamado Destroy All. Embora tenham deixado de fora clássicas como Popcorn Crabula, a destruição sonora foi garantida com músicas como Reverb 10,000, a viajante Bermuda Triangle Shorts, Bombora e Destination Venus.

Os pontos altos da noite uniram técnica e insanidade. A plateia foi ao delírio quando Coco e Blazar dividiram o mesmo baixo de dois braços para tocar, e o choque foi total quando Coco incendiou seu “capacete combustível”, repleto de mangueiras, em cima da própria cabeça.

Para resumir o nível daquela noite alienígena em Santos, o fanzine fechou sua resenha pegando emprestada uma frase do jornalista André Barcinski: “Quem perdeu este show merece ser dizimado por uma pistola de raios alfa”.