O Joyce Manor consolidou-se na última década como uma das vozes mais autênticas do cenário punk/indie mundial. Recentemente, a banda de Torrance, Califórnia, lançou seu nono trabalho de estúdio, I Used To Go To This Bar, reafirmando a habilidade única de transformar angústias cotidianas em hinos curtos, rápidos e extremamente viscerais. O álbum mantém a essência “direto ao ponto” que os consagrou, mas traz camadas de maturidade sonora que mostram um grupo ainda disposto a experimentar.
Em entrevista ao Blog n’ Roll, os integrantes (vocalista Barry Johnson, o guitarista Chase Knobbe e o baixista Matt Ebert) abriram o jogo sobre os bastidores da produção e a dinâmica de estúdio. Um dos pontos centrais da conversa foi a influência do lendário produtor Brett Gurewitz (Bad Religion), que desafiou a banda a equilibrar as novas tendências mais melódicas do indie rock com a energia explosiva e veloz que define o DNA do Joyce Manor desde o início da carreira.
Durante o papo, Barry revelou uma honestidade desarmante ao falar sobre o conceito de amadurecimento. Ao contrário do clichê de “sabedoria adquirida com a idade”, Barry reflete sobre como se sente deslocado em relação aos próprios fãs que cresceram e assumiram responsabilidades adultas, enquanto ele permanece imerso na mesma rotina e espírito criativo de vinte anos atrás.
A entrevista também mergulha nos detalhes técnicos e nas participações de peso, como a colaboração com o baterista Joey Waronker. A banda detalhou como foi a experiência de tocar com o atual baterista do Oasis, e como a presença dele ajudou a elevar a autoconfiança durante as sessões de gravação.
Para a alegria dos fãs, o Joyce Manor deixou claro que, embora ainda não haja um plano concreto para este ano, o retorno aos palcos sul-americanos está no topo da lista de desejos para 2027.
Barry, você mencionou que o Brett (Gurewitz, produtor e dono da Epitaph) insistiu em músicas mais rápidas quando você estava tendendo para um som mais indie. Como foi ceder a essa visão e como você vê o equilíbrio entre as raízes punk e a evolução indie da Joyce Manor neste disco?
Barry Johnson: Quando estou escrevendo, foco em uma música por vez. No início, não penso no álbum como um todo; apenas vejo o que me inspira ou o que ando ouvindo. Estávamos gravando sessões de uma ou duas músicas e, na terceira sessão, o Brett notou que havia muitas faixas com sonoridade indie rock. Ele disse algo como: “acho que já cobrimos essa parte. Temos os momentos indie, mas seria bom equilibrar com momentos de alta energia”.
Sinceramente, não aceitei muito bem no começo. Achei irritante. Pensei: “podemos simplesmente fazer um disco mais indie, não é obrigatório ser rápido”. Mas eu sabia que a motivação dele era tornar o álbum mais instigante. Não foi algo cínico do tipo “seus fãs vão gostar mais se for rápido”, mas sim a visão de um fã que queria ouvir faixas mais energéticas. Aquilo mexeu comigo. Comecei a escrever pensando se havia uma forma de apresentar as ideias de um jeito mais “para cima”. Fui um pouco mimado no início, mas depois passou e acho que o álbum ficou melhor por causa disso.
Na faixa-título e em I Know Where Mike Chen Lives, há um olhar muito honesto sobre o passado sem romantizar o abuso de substâncias. Como foi revisitar essas memórias agora que você está em uma fase mais estável e sóbria?
Barry: Eu não estou (sóbrio). Quer dizer, bebo um pouco menos e talvez use um pouco menos de drogas do que antes, mas não é uma diferença tão grande assim. Eu costumava ser jovem e bêbado, agora sou velho e bêbado (risos). Não estou olhando para o passado de um lugar de sabedoria ou aprendizado. Não houve aprendizado, não há um novo contexto ou perspectiva adquirida. Está tudo igual.
O álbum traz elementos diferentes, como gaita e até uma vibe “cowpunk”. Como essas influências externas surgiram no som?
Matt Ebert: O Chase tinha aquela gaita no bolso de trás, literalmente. Mas não acho que tenha relação com o “cowpunk”.
Chase Knobbe: Para mim, a gaita soa mais como The Clash ou The Libertines, que é o estilo que eu gosto. Eu não estava morrendo de vontade de usar uma gaita, apenas achei que ficaria legal naquela música específica. Acabei comprando uma depois de ter a ideia, não tinha nenhuma por perto.
Sobre as diferentes instrumentações, muito veio do Brett. Em All My Friends Are So Depressed, há uma guitarra barítono no trecho instrumental. Ele sugeriu isso porque sentiu que a música precisava de um novo instrumento para quebrar a monotonia. Isso me fez pensar que não deveríamos ter medo de testar instrumentos que nunca usamos. Mas a gaita é algo fácil, palatável. Não é como se tivéssemos apelado para um keytar ou uma tuba.
Joey Waronker (baterista do Oasis na turnê mais recente) tocou na faixa The Opossum. O que a presença dele trouxe para a energia da Joyce Manor no estúdio?
Matt Ebert: Conhecendo o currículo dele, foi interessante chegar e perguntar: “você quer tocar essa música meio psychobilly com a gente?”. O estilo dele não é agressivo ou pesado, ele toca de forma suave e deliberada. Ele é um baterista incrível, mas não é de “perder o controle”. Vê-lo destruir naquela música foi muito legal.
Barry: Acho que ele se divertiu mais do que nas outras, porque raramente o chamam para tocar punk rápido. No estúdio, depois que a fita parava, você ouvia ele gritando: “acertei!”.
Eu confesso que fiquei intimidado. Quando ele comentou que depois dali faria shows com o Oasis, minha síndrome de impostor bateu forte. Mas estou superando isso. Ele tocou com Paul McCartney, Roger Waters e Beck… e agora tocou com a gente. Poder dizer isso sem fazer uma piada autodepreciativa é bom para a minha autoestima.
O disco é curto e direto, fiel à ética da banda. Você sente que a mensagem do Joyce Manor só funciona com essa urgência ou se vê escrevendo um álbum longo no futuro?
Barry: Eu não tento fazer as músicas serem curtas, tento fazer com que sejam boas. Esse é o formato em que trabalhamos nos últimos 20 anos, tentando melhorar cada vez mais. Nós cavamos um nicho próprio que não existia antes. Não me parece atraente dizer: “agora vamos fazer um post-rock ambiente de nove minutos”.
Outras pessoas dedicam a vida a isso. Se fôssemos fazer algo lento e meditativo, eu gostaria de me dedicar tempo suficiente para ser bom nisso, e é difícil ser bom nas coisas. Me sinto sortudo por ser bom em uma coisa e quero continuar desenvolvendo isso. Não tenho desejo de fazer curvas bruscas rumo ao épico.
Matt: Acho que ninguém quer ouvir uma ópera rock do Joyce Manor.
O álbum fala sobre o desconforto de ainda sentir coisas das quais já deveríamos ter desapegado. Como é ser uma referência para uma geração que cresceu com vocês e agora lida com suas próprias “ressacas da vida adulta”?
Chase: É estranho ver as pessoas crescendo na sua frente. Às vezes alguém fala: “eu vi vocês quando tinha 15 anos, agora tenho um filho e minha vida é uma droga”. É bizarro.
Barry: Tem gente de 33 anos, divorciada, pagando pensão, que ouve nosso primeiro disco para lembrar de quando a vida era simples aos 18. E eu continuo fazendo exatamente as mesmas coisas, não tenho filhos… minha vida é a mesma. Eu me sinto mais jovem que eles, mesmo eles sendo mais novos que eu. É como se eu estivesse perpetuamente na fase da vida que eles tinham aos 20 anos, enquanto o mundo real quebrou o espírito deles em mil pedaços.
O que você mais lembra da visita ao Brasil? Alguma história de bastidor ou interação com fãs?
Barry: Em São Paulo, antes do show, fui a um bar do outro lado da rua da casa de shows para relaxar. Quando entrei, o bar estava tocando Joyce Manor no talo, e todo mundo estava cantando junto e abrindo roda de mosh antes do show começar. Eu saí imediatamente! Pensei: “não dá pra ficar aqui”. Isso não acontece nos Estados Unidos. Foi lisonjeiro, mas assustador.
Matt: No final do set, o público inteiro estava em cima do palco. Foi um show memorável!
Existem planos para trazer essa turnê para a América do Sul ainda este ano?
Barry: Provavelmente não este ano, mas no próximo com certeza.
Matt: Não é um plano ainda, mas vai se tornar um.
Barry: Eu juro por Deus. Estamos morrendo de vontade de ir. Eu vou, nem que os outros não venham, eu vou!
Quais os três álbuns que moldaram vocês como banda?
Chase: Enema of the State, do Blink-182, foi o que nos conectou no início como banda.
Barry: Alien Lanes, do Guided by Voices, uma influência enorme na nossa forma de compor.
Matt: Stay What You Are, do Saves the Day, é um disco pop-punk, mas com influência de Beatles, harmonias incríveis e composições sofisticadas. É tudo o que eu quero nesse tipo de música.