A banda Punho de Mahin, consolidada como um dos principais nomes do afro punk no Brasil, lançou o segundo álbum de estúdio, Entre a Penitência e a Ruptura.
Com produção musical assinada por ninguém menos que a lenda Clemente Nascimento (fundador dos Inocentes) e lançamento pela gravadora Deck, o disco traz uma sonoridade crua e contundente. Mais do que música rápida e distorcida, o projeto tem uma proposta artística e política clara: colocar o dedo na ferida e revisitar a experiência negra na sociedade contemporânea, uma temática historicamente negligenciada dentro da própria cena underground.
Temas como protagonismo negro, racismo estrutural, machismo, intolerância e violência policial ganham forma em 12 faixas divididas em dois atos muito bem definidos. Junto com o álbum, a Punho de Mahin também liberou o videoclipe do single Meritomentirano YouTube.
Lado A: A Penitência
A primeira metade do álbum (até a sexta faixa) funciona como uma radiografia da “penitência”. Sob perspectivas históricas e atuais, as músicas refletem o legado sangrento da colonização, a espoliação e o encarceramento. O disco expõe o projeto estrutural de opressão, questiona o falso mito da meritocracia e narra os processos de exclusão social.
Lado B: A Ruptura
Já a segunda parte do disco foca na “ruptura” e na resistência. A articulação e a ancestralidade tomam a frente para conduzir a insurreição. As letras resgatam a potência de mulheres que foram apagadas pela história e destacam o embate feminino atual por respeito e permanência plena, inclusive dentro de espaços que se dizem libertários.
“O lado A contextualiza essa luta que aflige a existência de milhares de pessoas; ele é mais sangrento. Já o lado B traz a esperança, que surge mesmo depois de atravessar experiências difíceis”, resume Natália Matos, vocalista da banda.
🎧 Faixa a faixa de “Entre a Penitência e a Ruptura”, do Punho de Mahin (por Paulo Tertuliano)
Para mergulhar de cabeça no conceito do disco, confira o faixa a faixa detalhado:
1. Violação: Desperta a reflexão sobre a negligência do estado diante do sistema carcerário feminino, expondo a extrema desigualdade que vigora na sociedade.
2. Marcus Vinicius da Maré: Não é apenas uma menção à vítima do aparato de segurança pública, mas expõe as ações do racismo estrutural e do genocídio planejado ao longo dos anos.
3. Meritomentira: O impacto da desigualdade social aplicada em diversos níveis, gerando uma reflexão crítica sobre a meritocracia projetada por eixos conservadores.
4. Vão: Destaca como a administração público-privada gere a mobilidade urbana e o direito de ir e vir, apontando o descaso do capitalismo, que nunca prioriza vidas.
5. Linha Tênue: Abrange de maneira direta os vestígios da ditadura que vigoram até hoje na suposta democracia e nas corporações.
6. 13 de Maio: Expressa o contexto histórico e deflagra a falsa abolição, propondo um questionamento direto sobre a história manipulada.
7. Entre a Penitência e a Ruptura: A faixa-título reflete a emancipação e resistência diante das violações que afligem mulheres e grupos marginalizados.
8. Raios, Trovões e Tempestades: Fala sobre as forças da natureza e da ancestralidade como elementos que nutrem a luta necessária para a permanência do povo preto.
9. Dandara: Sobre a força da mulher negra, pareando figuras como Luiza Mahin, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Marielle Franco a inúmeras mulheres não reconhecidas.
10. Ei Mulher: Um convite para mulheres sentirem e celebrarem as melhores vivências além da luta, contrapondo as violências do patriarcado.
11. Respiro: Expõe os levantes de corpos que exigem o direito de existir e ter suas subjetividades respeitadas. Fala sobre liberdade e amor que não dependem apenas da legislação.
12. Grito Quilombo: Amplia a força ligada à contínua organização e ao aquilombamento pleno, construindo a ideia de potência coletiva.