Poucas bandas conseguem transformar um projeto escolar em uma turnê internacional em apenas três anos, mas o Jayler parece ter pressa. Formado no Reino Unido em 2022, o quarteto chega ao Brasil em abril de 2026 para uma estreia que muitos veteranos levariam décadas para conquistar. O que começou como uma parceria em um open mic agora cruza o oceano para encarar o fanatismo do público brasileiro em três apresentações que prometem ser históricas.
A jornada em solo brasileiro começa no dia 2 de abril, em São Paulo, com um show completo na Audio ao lado do Dirty Honey. A prova de fogo, no entanto, acontece no dia 4, quando a banda sobe ao palco do Allianz Parque como uma das atrações do Monsters of Rock. Dividindo o lineup com gigantes como Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd e Extreme, o Jayler terá a chance de mostrar para milhares de pessoas a “energia setentista” que se tornou sua marca registrada.
Para encerrar a passagem com chave de ouro, o grupo desce para o Rio de Janeiro no dia 5 de abril. No palco do Qualistage, eles reencontram o Dirty Honey e se juntam às lendas do southern rock, o Lynyrd Skynyrd. Essa sequência de shows não é apenas uma turnê, mas a validação de uma banda que soube usar as redes sociais para criar uma conexão profunda com os fãs brasileiros muito antes de pisar no país.
Em entrevista exclusiva ao Blog n’ Roll, os integrantes James Bartholomew (vocal/guitarra), Tyler Arrowsmith (guitarra), Ed Evans (baixo) e Ricky Hodgkiss (bateria) revelaram que a surpresa com o convite foi proporcional à empolgação. “Não esperávamos nada assim por anos”, confessa Tyler, lembrando que, até pouco tempo atrás, o grupo ainda se apresentava em pequenos pubs britânicos equilibrando covers e composições autorais.
Além da expectativa para os shows, o grupo vive o momento fértil que precede o lançamento de seu primeiro álbum de estúdio, Voices Unheard, previsto para o dia 29 de maio. O título do disco é um tributo à própria base de fãs, que eles carinhosamente chamam de “The Voices”, e reforça a filosofia de “paz, amor e união” que a banda tenta resgatar das décadas de 60 e 70 para os dias atuais.
Confira abaixo o bate-papo completo sobre essa nova fase.
Muitas bandas levam anos para alcançar oportunidades internacionais, e essa turnê brasileira é um salto enorme na carreira de vocês. Como é para uma banda que começou no Reino Unido cruzar o oceano para tocar em estádios brasileiros com nomes como Guns N’ Roses e Extreme?
TYLER ARROWSMITH: Cara, é insano. Desde agosto ou setembro do ano passado, começamos a notar todos aqueles comentários de “come to Brazil” e vimos os números subindo por aí. Pensamos: “Meu Deus, esse público brasileiro é fantástico!”, mas é tão difícil conseguir um show no Brasil. Não esperávamos nada assim por anos.
Pois é, não tão cedo.
TYLER ARROWSMITH: Sim, nem de longe tão cedo! Mas quando recebemos a ligação no final do ano passado falando sobre o Monsters of Rock, o Audio Club e o Qualistage no Rio, o show com o Lynyrd Skynyrd, foi tipo: “Meu Deus!”. Além de estarmos empolgados com os shows, estamos muito felizes por tocar para essa base de fãs brasileira que já está nos apoiando.
Como foi a transição de um projeto escolar para uma banda profissional? Em que momento vocês perceberam que o Jayler não era mais apenas um hobby, mas uma carreira de verdade?
JAMES BARTHOLOMEW: Acho que foi na turnê com a Kira Mac. O Ricky tinha acabado de entrar e nos ofereceram nossa primeira turnê pelo Reino Unido. Topamos e, naquele período de duas semanas na estrada, pensamos: “É isso”. Foi o meu momento de “é isso que eu quero fazer”. Antes eu sentia que o Jayler poderia chegar em algum lugar, mas a turnê confirmou.
TYLER ARROWSMITH: Mas não houve um corte claro; há pouco mais de um ano ainda tocávamos em pubs. Fomos introduzindo nossas músicas autorais aos poucos. Não teve um dia em que dissemos: “Hoje deixamos de ser uma banda de covers de pub para ser profissionais”. Usamos “profissionais” entre aspas, sabe? O que é ser profissional? A gente só toca nossa música. Foi algo que aconteceu com o tempo.
O Reino Unido tem uma história lendária de exportar as maiores bandas de rock do mundo. Não contem aos americanos, mas prefiro as bandas britânicas! Como vocês veem a cena atual e vocês se sentem parte de um movimento de “revival” do rock clássico?
JAMES BARTHOLOMEW: Tem algumas bandas por aí. A maior no momento provavelmente é o Greta Van Fleet; eles estão fazendo o que nós fazemos, de certa forma. Eles chegaram primeiro nesse “revival”.
TYLER ARROWSMITH: Eles sofreram muito preconceito e críticas, o que é uma pena, porque as mesmas pessoas que dizem “tragam o rock clássico de volta” são as que atacam as bandas novas.
JAMES BARTHOLOMEW: Também tem o Dirty Honey, com quem vamos dividir o palco no Brasil, o que vai ser incrível. A gente busca aquele movimento de paz, amor e união do final dos anos 60 e início dos 70. Temos músicas pesadas, mas também acústicas e suaves. Não é só “rock and roll agressivo” o tempo todo; temos seções onde realmente nos conectamos com a mensagem.
Os críticos sempre destacam a energia de vocês. Quais bandas daquela década mais influenciaram o jeito que vocês tocam e compõem?
JAMES BARTHOLOMEW: Tem as óbvias: Led Zeppelin, Deep Purple, The Who. Para composição, eu gravo muito em Bob Dylan e John Denver. Para performance de palco, Queen é uma influência enorme.
ED EVANS: Eu e o Rick nos conectamos primeiro através do Jimi Hendrix, antes mesmo de conhecermos o Tyler e o James. Então é uma variedade bem ampla.
Toda banda nova luta contra comparações. O que vocês acreditam que o Jayler traz de diferente para esse universo do rock clássico?
JAMES BARTHOLOMEW: Verdade, eu acho. Não é apenas o som. Existe um significado por trás das nossas letras. Não é só sobre solos de guitarra, bateria ou vocais gritados. É sobre o que defendemos: paz, amor e união. Queremos continuar essa tradição de unir as pessoas através da música.
O álbum de estreia da Jayler, Voices Unheard, sai em maio. O que esse título significa e o que ele representa para a banda neste momento?
JAMES BARTHOLOMEW: Essa é uma ótima pergunta. Voices Unheard (Vozes Não Ouvidas) é sobre a nossa base de fãs — no Reino Unido, no Brasil, na América, onde quer que nos ouçam. Se alguém sente que sua voz não é ouvida, nossa música e nossa plataforma são um meio para expressar suas emoções sobre o mundo em que vivemos hoje. É também um trecho de uma das músicas e achamos que era um nome poderoso.
TYLER ARROWSMITH: Nossa comunidade de fãs se chama “The Voices”, então está tudo conectado.
Comparado ao EP A Piece In Our Time, o que os fãs podem esperar em termos de som e letras neste novo disco?
JAMES BARTHOLOMEW: Wow! Cara, ele tem todas as perguntas certas. Ele é diferente, adoro ele. O EP foi sobre a gente encontrando nosso caminho como banda. No novo álbum, as letras pregam muito mais o que a banda é. No EP não tocamos tanto nesse assunto porque queríamos que as pessoas encontrassem seu próprio significado.
Sonoramente, eu diria que está completamente diferente. Mostra o que dois anos fazem com uma banda. Ficamos mais velhos, melhores nos nossos instrumentos. Meu canto mudou muito; pareço dois caras diferentes comparando o EP com o álbum. As raízes estão lá, mas é “mais Jayler”.
Eu adorei o single Riverboat Queen, tem uma energia poderosa. Existe alguma faixa específica no álbum que vocês sentem que representa melhor a identidade do Jayler hoje?
JAMES BARTHOLOMEW: Cada um de nós tem uma resposta! Eu diria Over the Mountain.
TYLER ARROWSMITH: Outra forte seria The Rinse, mas ela é quase um experimento único.
RICKY HODGKISS: Hey See It End também é muito boa.
JAMES BARTHOLOMEW: O álbum mostra três lados nossos: o melódico, o de riffs pesados e o acústico suave.
TYLER ARROWSMITH: Para um álbum de estreia, é importante colocar as cartas na mesa e mostrar tudo o que podemos fazer e onde queremos expandir.
Vocês estarão na estrada com Dirty Honey e Lynyrd Skynyrd. Como planejam conquistar o público brasileiro nesses shows?
JAMES BARTHOLOMEW: Ah, não sei… é “tudo ou nada” (go big or go home). Acho que vamos conquistar pelo puro apelo visual e energia.
TYLER ARROWSMITH: Uma coisa que me deixa confiante é que já tem muita gente no Brasil que ouviu falar de nós. Em muitos lugares que vamos, pensamos: “Ok, precisamos dar tudo de nós para sermos conhecidos”.
Mas para o público brasileiro, sinto que já temos essa conexão pelas redes sociais. Esperamos ver a galera na frente cantando as músicas que já conhecem, o que tornaria o show ainda melhor para nós.
É diferente de alguns shows que faremos mais tarde, com bandas como Deep Purple ou Sammy Hagar, porque já sentimos que temos essa conexão com os fãs.
Após a turnê brasileira e o lançamento do álbum, quais são os planos para o resto do ano?
JAMES BARTHOLOMEW: Novas músicas! Já estamos trabalhando no segundo álbum, no terceiro, no quinto… temos muita música guardada nos bastidores. Nunca ficamos entediados. Enquanto fazemos esses shows, as novas ideias estão sempre na nossa cabeça.
O público brasileiro é famoso por cantar cada música e cada riff de guitarra. Vocês já ouviram as histórias sobre os fãs daqui?
TYLER ARROWSMITH: Mostrei para os caras algumas semanas atrás. Vi o Limp Bizkit tocando lá, no mesmo estádio, em São Paulo, e o público… Nunca vi nada igual na minha vida. Eles usaram sinalizadores, fogos de artifício.
JAMES BARTHOLOMEW: O quê? Quero usar sinalizadores. Na última música.
RICKY HODGKISS: É, espero que não seja Smoke on The Water. (referência com a música do Deep Purple, que relata um incêndio real ocorrido em 4 de dezembro de 1971, durante um show de Frank Zappa no cassino de Montreux Casino, na Suíça. O fogo começou quando um fã disparou um sinalizador no teto do local, destruindo o cassino).