Entrevista | Kadavar – “Eu só quero ser um som. Não quero ser um personagem público. Prefiro apenas ser um som”

Entrevista | Kadavar – “Eu só quero ser um som. Não quero ser um personagem público. Prefiro apenas ser um som”

O Kadavar retorna ao Brasil neste mês trazendo no setlist seus dois últimos álbuns lançados no ano passado. Será show único no país, dia 21, no Carioca Club em São Paulo. A realização é da Agência Sobcontrole. Os ingressos estão à venda no Clube do Ingresso.

Formada em Berlim em 2010, a banda alemã construiu uma trajetória marcada pelo resgate da estética do rock setentista, combinando riffs pesados, psicodelia e uma abordagem fortemente inspirada na gravação analógica. Com o passar dos anos, porém, o grupo ampliou seu alcance sonoro, incorporando novas texturas e explorando caminhos mais experimentais dentro do rock.

Ao longo de mais de uma década de carreira, o Kadavar passou de uma promessa da cena stoner e retrô para um nome consolidado no circuito internacional. Álbuns como Abra Kadavar e Berlin ajudaram a definir a identidade inicial da banda, enquanto trabalhos mais recentes mostram um grupo disposto a expandir suas referências e testar novas direções criativas. Essa evolução também aparece no palco, onde o quarteto costuma equilibrar peso, psicodelia e longas improvisações.

Em conversa com o Blog n’ Roll, o guitarrista Jascha Kreft e o baixista Simon Bouteloup falaram sobre o processo que levou à criação de dois discos em sequência, a origem da frase “I Just Want To Be A Sound” e a relação da banda com redes sociais e algoritmos.

Acaba de completar quatro meses desde o lançamento do último álbum. Como foi a recepção do público até agora? Foi a reação que vocês esperavam enquanto gravavam o álbum?

JASCHA KREFT: Nós estávamos em uma situação muito oportuna de trazer esse álbum com a gente em uma turnê antes do seu verdadeiro lançamento. Tocamos muitas músicas ao vivo, então foi muito legal experimentá-las dessa forma e ver as pessoas segurando o álbum nas mãos antes mesmo de ele estar oficialmente disponível.

E eu acho que o público também ficou feliz em levar para casa algo que ainda não estava disponível nos serviços de streaming.

Quando vocês perceberam que tinham material suficiente para dois discos diferentes? E por que decidiram lançar separadamente em vez de fazer um álbum duplo?

JASCHA KREFT: Nós terminamos o álbum I Just Want To Be A Sound, que levou bastante tempo. Acho que algo como um ano e meio, ou dois anos, trabalhando nela quase constantemente. Depois disso, a máquina da criatividade começou a funcionar e sentimos vontade de continuar.

Estávamos em um momento em que ainda havia algumas músicas que sobraram das sessões de I Just Want To Be A Sound. Ao mesmo tempo, continuávamos gravando por conta própria e ficamos surpresos com o quão fluido o processo estava.

Então chegamos a um ponto em que percebemos que estávamos praticamente terminando outro álbum. Também tivemos a sorte de ter o apoio do nosso selo para fazer algo assim, o que nem sempre é comum.

Eu estou aqui com o autor da frase “I Just Want To Be A Sound”. Essa frase é muito poderosa. Quando ela surgiu e quando você percebeu que poderia virar o título de um álbum?

SIMON BOUTELOUP: Acho que essa frase apareceu cerca de dez anos atrás. Um antigo baterista me perguntou por que eu não estava nas redes sociais. E ainda não estou.

Eu disse a ele diretamente que, se pudesse escolher, preferiria não estar. Eu só quero ser um som. Não quero ser um personagem público. Prefiro apenas ser um som.

Então foi assim que surgiu. Durante o processo do álbum, ela apareceu novamente e naquele momento simplesmente ressoou com todos nós e com o que queríamos fazer com o disco. Ela apareceu dessa forma e todos concordamos com a ideia de que primeiro seria uma música e depois um tema para o álbum.

Tem uma frase parecida do Jaron Lanier, que trabalha na Microsoft. Ele disse: “Eu evito as redes sociais assim como evito as drogas”.

SIMON BOUTELOUP: Essa é boa. Sim, é verdade. Também pode ser muito viciante.

Hoje muitos artistas pensam primeiro em singles e playlists antes de pensar em um álbum. Para vocês, o formato do álbum ainda é essencial para contar uma história?

JASCHA KREFT: Definitivamente. Eu acho que escolher qual música será um single ou não é algo secundário. Primeiro existe o álbum, e tudo vem depois.

Para nós isso é algo muito natural. Também não fazemos edições de singles para aumentar as chances de entrar em playlists. A maioria dos nossos singles ainda tem quatro minutos ou mais. E, na maioria das vezes, os algoritmos não gostam muito disso.

A banda começou muito associada ao revival do rock dos anos 70. Em que momento vocês perceberam que precisavam ir além dessa identidade?

JASCHA KREFT: Eu não acho que precisávamos necessariamente ir além disso. A banda também poderia ter continuado fazendo isso e alguns fãs ficariam felizes. Talvez outros fãs também gostassem de ouvir o mesmo álbum repetidamente.

Falando sobre o público de rock, ele costuma reagir muito quando uma banda muda de som. Como foi lidar com a recepção de fãs mais conservadores durante essa evolução?

JASCHA KREFT: Acho que sempre estivemos muito conscientes de que isso poderia acontecer e de que alguns fãs mais conservadores talvez não gostassem. E acho que isso também é completamente normal.

Obviamente você acaba vendo algumas reações ou comentários. Mas eu acho que não há razão para ser rude ou muito agressivo. Às vezes isso acontece, mas faz parte.

A última visita da banda ao Brasil foi em 2018. Nessa nova turnê, o setlist vai misturar material clássico com músicas recentes, certo? Vocês podem dar algum spoiler sobre o que os fãs brasileiros podem esperar?

SIMON BOUTELOUP: Nós sempre tentamos incorporar todos as fases da banda no setlist, especialmente quando temos tempo para isso. Em um show completo você consegue desenvolver um pouco mais toda a discografia.

Com certeza vamos tocar algumas músicas novas, talvez cinco ou seis, mas também as antigas e algumas coisas mais psicodélicas.

JASCHA KREFT: Também temos uma versão de 15 minutos de Purple Sage, que fecha o primeiro álbum da banda e acabou se tornando algo meio psicodélico. Bem, talvez isso tenha sido spoiler demais.

SIMON BOUTELOUP: Não, está tudo bem. Purple Sage sempre é muito longa.

O público brasileiro tem fama de ser muito intenso em shows de rock. Como vocês sentem essa energia quando tocam aqui?

SIMON BOUTELOUP: Sim, isso realmente existe e nós gostamos muito disso. É exatamente o que você quer quando toca ao vivo. É por isso que tocamos música e também por isso que as pessoas vão aos shows.

Mas no Brasil sempre existe algo a mais. Há mais gente pulando, mais gente dançando do que em muitos outros lugares do mundo. Estou curioso para ver como isso está agora.

Existem histórias engraçadas ou memórias especiais da última visita ao Brasil?

SIMON BOUTELOUP: Histórias específicas não, mas lembro que fomos parar em algum tipo de roda de samba na rua. Era uma rua pequena, cheia de gente dançando ao redor. Era basicamente só percussão, estávamos bebendo com todo mundo e foi uma memória muito feliz.

É algo que normalmente faríamos fora da rotina da banda, mas foi incrível ver como a música está presente em todos os lugares da cultura. Isso é muito diferente de onde viemos e é realmente inspirador.

Jascha, é a sua primeira vez com o Kadavar no Brasil. Mas, você já veio para cá em outras oportunidades?

JASCHA KREFT: Nunca estive ai antes. Então realmente será a primeira vez e, provavelmente, terei muitas primeiras vezes nas próximas duas semanas. Estou muito animado e só ouvi coisas boas sobre o público. As expectativas estão altas.

Vocês falaram da nossa cultura brasiliera, mas Berlim é muito conhecida pela criatividade e pela atmosfera inspiradora. Inclusive, um dos meus álbuns favoritos do David Bowie, Heroes, nasceu ai. Como vocês definem Berlim no mapa da música global?

JASCHA KREFT: Comparada a outras grandes capitais da música, como Londres ou Nova York, nossa cena talvez esteja mais associada à música eletrônica. Mas também existe uma cena da qual fazemos parte e muitas bandas são extremamente internacionais. Você encontra pessoas de todos os lugares e pode tocar música com gente do mundo inteiro.

Na verdade, raramente encontro músicos que nasceram originalmente em Berlim. É o mesmo conosco. Todos nós nos mudamos para lá depois de terminar a escola. E isso é algo que eu gosto muito.

Há muita discussão hoje sobre o futuro do rock e vocês ainda são, relativamente, uma banda nova. Vocês sentem que o gênero ainda está evoluindo ou se reinventando a partir do próprio passado?

JASCHA KREFT: Você precisa considerar que, hoje em dia, na Europa, o rock não é realmente parte da cultura dominante entre os jovens. Nos últimos 20 anos tudo tem sido muito baseado no rap.

Mas eu sempre fico animado quando vejo pessoas mais jovens, no começo dos seus 20 anos, começando bandas. Eu realmente apoio isso. Isso aquece meu coração, ver bandas jovens tocando juntas. Às vezes até me pergunto como elas descobriram esse tipo de música.

Mas elas ainda descobrem e provavelmente sempre vão encontrar caminhos. Mesmo que seja algo mais de nicho, fico feliz que continue existindo.