A banda americana Spin Doctors está confirmada como uma das atrações do Somos Rock Festival, com apresentações marcadas para 25 de abril em São Paulo e 26 de abril em Curitiba. Além das datas no evento, o grupo também fará sideshows no Brasil: 22 de abril no Rio de Janeiro, 28 de abril em Porto Alegre e 30 de abril em Belo Horizonte, ampliando a aguardada volta da banda ao país após três décadas.
Formado em Nova York no final dos anos 1980, o Spin Doctors se tornou um dos nomes mais populares do rock alternativo dos anos 1990 com o álbum Pocket Full of Kryptonite. O disco revelou sucessos que dominaram a programação da MTV e das rádios, como Two Princes, Little Miss Can’t Be Wrong e Jimmy Olsen’s Blues, ajudando a consolidar a banda como parte importante da geração que levou o rock novamente às paradas de sucesso da década.
No Brasil, a banda ficou conhecida também pela passagem em 1995, quando abriu shows dos The Rolling Stones no festival Hollywood Rock. Foi a única passagem deles por aqui. Agora, com nova turnê e o álbum Face Full of Cake na bagagem, o baterista Aaron Comess falou com o Blog N’ Roll sobre as lembranças da primeira visita ao Brasil, a nova geração que descobriu a banda nos últimos anos e como o grupo equilibra clássicos com material recente nos shows.
O Spin Doctors tocou no Brasil há cerca de 30 anos, abrindo shows dos Rolling Stones no Hollywood Rock. Mas a reação do público foi intensa. O que você lembra daqueles shows hoje? Acha que isso influenciou o fato de a banda não ter voltado ao Brasil por tanto tempo?
Acho que você está se referindo às pessoas jogando coisas no palco, né? Olha, para ser sincero, nossa experiência no Brasil foi em grande parte muito positiva. Mas lembro de um show específico em um estádio enorme, em que estava chovendo muito. Eu estava no palco e havia muitas garrafas sendo jogadas na nossa direção, então a gente ficava ali tocando e meio que se esquivando. Mas você precisa seguir em frente. Tinha algo como 200 mil pessoas naquela noite, então penso que pelo menos metade delas gostou do show. Foi uma situação interessante, digamos assim.
De qualquer forma, não existe um motivo específico para termos demorado tanto para voltar. A banda passou por muitas coisas ao longo dos anos, mas agora estamos funcionando a todo vapor novamente e estamos muito felizes por ter a oportunidade de retornar.
Nota da redação: O show foi no Pacaembu, no dia 30 de janeiro de 1995, e para um público menor do que o mencionado por conta da capacidade do estádio.
Agora vocês que vão voltar depois de muitos anos, como você acha que os fãs brasileiros vão reagir ao Spin Doctors hoje? Eu prometo que a recepção será melhor.
Tenho certeza de que o público brasileiro é muito legal. Na verdade, sempre foi. Acho que vai dar tudo muito certo. Tenho um pressentimento muito bom sobre isso. O que temos visto aqui nos Estados Unidos, cerca de 30 anos depois do grande sucesso da MTV e dos hits da banda, é que uma nova geração inteira descobriu nossa música. Hoje temos muitos jovens nos nossos shows, então o público acaba sendo bem variado em termos de idade. Tenho a sensação de que isso também vai acontecer no Brasil. É isso que espero e imagino que aconteça.
Pensando nos sideshows no Brasil e no Festival Somos Rock, vocês planejam alguma surpresa no setlist? Como vocês vão mesclar as músicas novas com os clássicos que o público quer ouvir?
Nós sempre tocamos todos os clássicos que as pessoas querem ouvir. Isso é essencial e também adoramos tocar essas músicas, então o público pode esperar ouvir todas as canções que espera de um show do Spin Doctors. Mas, dependendo da duração do set, gostamos de variar um pouco de show para show. Sempre incluímos algumas músicas novas e também resgatamos faixas de outros discos. Às vezes tocamos um ou dois covers também. No último ano começamos a fazer uma versão de Purple Rain, do Prince, e tem sido muito divertido. Então é bem possível que a gente toque essa música na maioria dos shows.
Eu ia perguntar justamente sobre o cover de Purple Rain, estava curioso sobre isso. Falando sobre os hits, uma das músicas mais curiosas da banda é Jimmy Olsen’s Blues, inspirada no universo do Superman. Como surgiu a ideia de escrever sobre um personagem de quadrinhos?
Essa música foi escrita pelo Chris. Só ele poderá dizer de onde veio a inspiração inicial, mas é muito o estilo de letras dele. Tem muito daquele espírito de Nova York e das histórias que ele gostava de contar. Com certeza vamos tocar essa música. Na verdade, acho que tocamos Jimmy Olsen’s Blues praticamente todas as noites desde que a banda começou. Deve ser a única música em todos os shows desde que entrei na banda.
E já que falamos de super-heróis, no filme Wanderlust, o ator Paul Rudd canta Two Princes em uma cena bem divertida. E, veja bem, hoje ele é um dos Vingadores (risos). Como foi ver essa situação?
Aquilo é hilário. Muito engraçado mesmo. Eu adorei. Foi clássico! Quem sabe ele não aparece em um show para tocar com a gente algum dia?
E quando o Spin Doctors gravou Two Princes, vocês imaginavam que ela se tornaria um dos grandes hinos do rock dos anos 90?
Para ser honesto, não. Nós éramos uma banda jovem e queríamos simplesmente fazer um grande disco. A ideia era gravar um álbum forte, em que cada música tivesse personalidade e mostrasse os diferentes lados da banda. Nunca imaginamos que seria um sucesso tão grande.
Depois de um tempo começamos a perceber a reação do público nos shows com músicas como Two Princes, Little Miss e Jimmy Olsen. Então pensamos que talvez algo pudesse acontecer com aquelas canções. Mas a gravadora não fazia praticamente nada para divulgar o disco naquele primeiro ano. Houve momentos em que ligávamos para eles dizendo que talvez pudessem tentar trabalhar Little Miss ou Two Princes, e eles respondiam que não eram hits.
No fim, quando decidiram apostar nelas, acabaram se tornando grandes sucessos. Mesmo assim, eu jamais teria imaginado que chegariam onde chegaram.
Alguns fãs têm a teoria de que Two Princes seria uma metáfora sobre a indústria musical e que um príncipe seria o músico autoral e outro aquele que faz tudo pela fama. O que você acha dessa interpretação?
Essa é a beleza das músicas. Cada pessoa pode interpretá-las da maneira que quiser.
O groove dessa música é muito marcante. Como surgiu a batida da bateria?
Foi algo muito orgânico. Nem mesmo o início da bateria foi algo que planejei conscientemente. Naquela época tocávamos muito ao vivo. Chegávamos a fazer quatro ou cinco shows por semana só em Nova York. As músicas iam se desenvolvendo naturalmente no palco e, em algum momento, aquela levada simplesmente ficou. O groove surgiu de forma muito natural.
Little Miss Can’t Be Wrong também se tornou um grande sucesso e é bem pessoal, fala sobre a relação do Chris com a madrasta. Como foi quando ele apresentou essa música para a banda?
Eu lembro exatamente do dia. Ele me ligou e disse que tinha escrito uma música nova e queria tocar para mim. Eu morava com o Eric no Lower East Side, então o Chris foi até lá e tocou a música. Assim que ouvi percebi que era muito forte. Começamos a tocar juntos e, quando o Eric chegou, acrescentamos aquela parte da ponte. Na verdade, nem chegamos a ensaiar direito. A primeira vez que tocamos foi em um pequeno bar no East Village chamado Nightingale. Explicamos os acordes para o Mark, nosso baixista, e tocamos. Tudo aconteceu de forma muito orgânica.
Você acha que músicas baseadas em histórias pessoais ajudam o público a se conectar mais com a banda?
Sim, acho que quando algo é realmente sincero, honesto e pessoal, as pessoas se conectam de uma forma diferente. Elas podem relacionar aquilo com algo da própria vida. No caso de Little Miss Can’t Be Wrong, muita gente nem sabia exatamente sobre quem era a música. Durante anos todo mundo achou que fosse sobre uma namorada do Chris. Só cerca de vinte anos depois ele revelou em uma entrevista que era sobre a madrasta. Às vezes é até melhor não saber exatamente sobre o que uma música fala, porque cada pessoa pode interpretá-la do seu jeito.
A banda passou por alguns hiatos ao longo dos anos. O que você fez nesse período?
Sempre me mantive muito ocupado fora da banda. Morar em Nova York é ótimo porque há muita música acontecendo o tempo todo. Eu faço muito trabalho de gravação como músico de estúdio e também toco com vários outros artistas. Além disso, tenho meu próprio projeto, que é mais voltado para o jazz. Então estou sempre envolvido com algum trabalho musical.
Já que você atua bastante como músico de estúdio e produtor, o que essas experiências acrescentaram ao seu jeito de tocar?
Desde cedo percebi que o trabalho do músico é servir à música. Não se trata de tocar de forma chamativa ou de chamar atenção para si mesmo. Quando você grava com outros artistas precisa deixar o ego de lado e pensar apenas no que é melhor para a canção.
E há algum projeto fora do Spin Doctors que tenha sido especialmente importante para você?
Tenho meus próprios discos instrumentais, com músicas que escrevi. Esse projeto é muito especial para mim. Também toquei por muitos anos com a banda da Joan Osborne e gravei vários discos com ela. Além disso, trabalho há cerca de duas décadas com um artista chamado James Maddock. São relações musicais muito importantes para mim.
Vocês lançaram recentemente o single Indiana Wants Me com o Gin Blossoms e Blues Traveler. Como surgiu essa colaboração?
No verão passado fizemos uma turnê com Blues Traveler e Gin Blossoms. Temos uma longa história com essas bandas. O Robin Wilson, vocalista do Gin Blossoms, sugeriu fazermos algumas gravações juntos. Primeiro gravamos uma música no estúdio dele e depois veio Indiana Wants Me, que acabou sendo uma colaboração entre integrantes das três bandas.
E nesse tempo vocês também gravaram um álbum. Como foi a recepção do álbum Face Full of Cake?
Foi muito boa. O disco recebeu ótimas críticas e as pessoas parecem gostar bastante das músicas novas. Não havia expectativa de ter um grande hit como nos anos 90, porque a indústria da música é diferente hoje. Mas várias canções funcionam muito bem ao vivo e foi ótimo ter material novo para tocar. O álbum deu uma renovada na energia criativa da banda e desde então temos feito mais shows por ano do que fizemos nas últimas décadas.
Depois de mais de três décadas, como você vê o lugar do Spin Doctors na história do rock alternativo dos anos 90?
Acho que somos uma pequena parte dessa história. Os anos 90 foram um período incrível para o rock. Era uma época em que o rock dominava o Top 40. O Nirvana abriu muitas portas para bandas daquela geração. O nosso disco saiu mais ou menos na mesma época do deles, mas levou cerca de um ano e meio para realmente estourar. Sem aquela explosão do grunge talvez muitas bandas não tivessem tido espaço.
Nós acabamos ficando em um outro grupo de bandas, como Blues Traveler e Gin Blossoms. O mais legal hoje é ver como essa música está voltando. Uma nova geração está descobrindo essas bandas e os shows estão crescendo novamente. Não sei exatamente qual será nosso lugar nos livros de história, mas fico feliz de fazer parte disso.