Entrevista | Air Supply – “Geralmente ouvimos ‘nós nos casamos com uma de suas músicas'”

Entrevista | Air Supply – “Geralmente ouvimos ‘nós nos casamos com uma de suas músicas'”

O tempo parece não passar para as baladas que definiram gerações. O duo australiano Air Supply, formado por Graham Russell e Russell Hitchcock, desembarca no Brasil em maio para uma apresentação única no Vibra São Paulo, no dia 10. O show faz parte da turnê comemorativa de 50 anos de carreira, um marco raríssimo na indústria fonográfica que prova a resiliência do soft rock e o poder de hits que se tornaram hinos atemporais.

Desde que se conheceram nos ensaios de Jesus Christ Superstar na Austrália, em 1975, Graham e Russell construíram um império baseado em melodias perfeitas e harmonias vocais impecáveis. Com mais de 100 milhões de discos vendidos, a dupla é responsável por clássicos que dominam as rádios e as trilhas sonoras de casamentos ao redor do mundo, como Lost in Love, All Out of Love e Making Love Out of Nothing At All.

Entrevista exclusiva com Air Supply

Nesta entrevista exclusiva para o Blog n’ Roll, conversamos com Graham Russell diretamente da Filadélfia, nos Estados Unidos. O compositor e violonista do duo, hoje com 75 anos, revelou detalhes sobre a nova dinâmica do show, que agora conta com a adição de violoncelos para dar um toque orquestral às apresentações, e comentou sobre a dificuldade, e o privilégio de selecionar um repertório entre tantos sucessos acumulados em cinco décadas.

Graham também demonstrou um carinho especial pelo público brasileiro, que descreveu como “expressivo e sem medo de sentir”. Para ele, os fãs no Brasil possuem uma conexão visceral com as letras do Air Supply, criando uma troca de energia que torna cada vinda ao país uma experiência emocional tanto para a plateia quanto para os músicos no palco.

Um dos momentos mais curiosos da conversa foi quando Graham explicou o segredo da longevidade da parceria: a ausência total de discussões e egos. Enquanto muitos grupos se dissolvem por conflitos criativos, o Air Supply encontrou o equilíbrio perfeito onde Russell brilha nos vocais e Graham se dedica à criação das composições, mantendo a amizade intacta mesmo após 50 anos de estrada.

Confira abaixo a entrevista na íntegra.

Vocês estão celebrando 50 anos de carreira com esta nova turnê. Como é olhar para trás e medir o alcance mundial que a música do Air Supply teve nessas cinco décadas?

É bem impactante quando paramos para pensar nisso. Sabe, é uma vida inteira para se olhar. E nós tivemos uma vida ótima. Fomos muito afortunados por poder fazer o que amamos, que é tocar e criar música que as pessoas amam. Temos uma vida ótima, um trabalho ótimo e amamos cada momento. É incrível, 50 anos… Eu sei que existem muitos artistas que estão aí há tanto tempo, mas quando você pensa nisso, é realmente impressionante.

Você vive um sonho, certo?

Sim, é um sonho. Quando eu tinha 9 ou 10 anos, era isso que eu sempre quis fazer. E aqui estou eu. É incrível. Mas a vida é assim, sonhos podem se tornar realidade.

Graham, o show do Air Supply no Vibra São Paulo está marcado para 10 de maio. Como tem sido o processo de montar um setlist para uma turnê de aniversário tão extensa?

É difícil para nós. Temos que ser muito seletivos porque queremos tocar todos os grandes hits, e são muitos, mas tocamos todos. Isso deixa pouco tempo para coisas novas, mas encontramos espaço. Tocaremos algumas músicas inéditas do nosso novo álbum, mas a maioria do show serão os grandes sucessos, que é o que as pessoas querem ouvir. Além disso, acabamos de adicionar dois violoncelos à nossa banda, então o som está bem orquestral agora. Estamos muito felizes com o resultado, soa incrível.

O público brasileiro sempre demonstrou muito carinho pelas músicas do Air Supply. O que você mais lembra das suas visitas anteriores e quais são as expectativas para esta apresentação?

Viemos ao Brasil pela primeira vez em 1982 para dois programas de TV, um no Rio e outro em São Paulo. Ficamos impressionados com a resposta do povo brasileiro. Não tínhamos ideia! Desde então, voltamos para tocar muitas vezes.

Temos muitos amigos brasileiros. É sempre ótimo ir aí porque as pessoas não são apenas românticas, elas se expressam de imediato. Não guardam nada para si. Elas amam cantar, rir e chorar conosco. É isso que amamos na nossa música: ela alcança as pessoas. E os brasileiros não têm medo de demonstrar isso. Algumas pessoas são reservadas, mas não os brasileiros. De jeito nenhum.

Seus amigos brasileiros são músicos?

Não. Ao longo dos anos, as pessoas nos param na rua, dizem que foram aos shows muitas vezes e acabamos virando amigos. Mantemos contato com alguns, mas não são músicos. São pessoas comuns, como nós. É muito legal ter amigos que não são necessariamente músicos.

É incrível que vocês façam amigos assim.

Sim, podemos estar em um restaurante e as pessoas na mesa ao lado dizem: “Oh, vamos ao seu show hoje à noite”. Começamos uma conversa, descobrimos que a pessoa é médico ou advogado, vemos que temos coisas em comum e mantemos contato. Não com todos, mas temos muitos amigos e sempre ansiosos para revê-los.

E eles geralmente dizem: “Ah, eu pedi minha esposa em casamento com a sua música” ou algo assim?

Sim! Geralmente é “nós nos casamos com uma de suas músicas”. Então nossa música se torna parte da vida deles. Você se torna parte da história deles sem perceber. Eles dizem que casaram ouvindo Two Less Lonely People ou que All Out of Love foi a primeira dança do casamento. Você se torna parte deles de uma forma pequena. Isso acontece muito e é algo maravilhoso de se ouvir e compartilhar.

Graham, durante sua última visita a São Paulo em 2024, você recitou um poema escrito para a cidade, “The Best for Last”. Podemos esperar surpresas semelhantes no próximo show do Air Supply aqui?

Ah, sim! Eu sempre escrevo um poema à tarde para a cidade onde estamos, sobre como estou me sentindo em relação às pessoas dali. Nunca sei como será, mas sempre escrevo um e recito no show. É algo que eu sempre aguardo ansiosamente porque é diferente, é outro aspecto do Air Supply. Mesmo que eu recite em inglês, as pessoas entendem. Se não falam muito inglês, elas ainda entendem o significado por trás. Não sei como, mas entendem. É um grande momento de conexão pessoal, além das músicas.

É muito especial e atencioso. E as faixas como Lost in Love e All Out of Love, do Air Supply, são referências gigantes no pop rock. Como você mantém o frescor e a emoção tocando-as noite após noite depois de tanto tempo na estrada?

Eu penso nisso porque, em nossa carreira, fizemos quase 6 mil shows. Para manter o frescor, nós não “tentamos”, mas quando subimos no palco, o público é sempre diferente. Nós nos alimentamos do público. Vemos pessoas chorando quando entramos no palco. Não somos nós, é a música. Quando os vemos energizados, pensamos: “Ok, essas pessoas vieram ouvir essas músicas, vamos entregá-las da melhor forma possível”. Isso mantém tudo novo para nós.

Você pensaria que ficaríamos cansados de cantar as mesmas músicas, mas não ficamos. É um sentimento lindo e as pessoas precisam de sentimentos bonitos para compartilhar. É uma energia recíproca. Eles se tornam nossa família por duas horas.

É legal você dizer que consegue ver o público, porque às vezes, na plateia, pensamos: “Ah, será que ele me viu?”.

Sim, nós vemos. Este é nosso 50º ano. Somos tão sortudos por ainda fazermos o que amamos e ter um público que ama o que fazemos. É uma vida fantástica.

A dinâmica entre você e o Russell continua muito sólida. Qual é a base que sustenta essa parceria criativa e pessoal por 50 anos ininterruptos?

Bem, somos famosos por nunca termos tido uma discussão. Nunca brigamos, nunca. Acho que o motivo é que não competimos. O Russell não quer escrever músicas, ele só quer cantar. E eu amo escrever. Então é perfeito, não há ego envolvido.

Além disso, quando não estamos em turnê, não nos vemos. Ele mora a uns 1.300 km de distância de mim. Temos vidas diferentes, então quando nos reunimos, temos muito o que compartilhar e colocar o papo em dia. Mas o principal é que o Russell me deixa criar a música e eu o deixo brilhar no vocal. É a combinação perfeita.

Quero fazer um jogo rápido: eu digo o nome de uma banda e você me diz se a música deles foi trilha sonora de mais romances do que a de vocês ou não. Topa?

Sim!

Daryl Hall & John Oates.

Um pouco. Gosto das músicas antigas deles.

Aerosmith.

Mesma resposta. Acho uma ótima banda com ótimas músicas. Curiosamente, as duas bandas que você citou são da nossa era. Nos anos 80 havia músicas incríveis. Aerosmith é muito inspirador para nós.

U2.

Sim, definitivamente. Amo o U2 porque eles são muito originais e únicos.

Boston.

Não tanto o Boston, até porque acho que eles não tocam há uns 30 anos. Mas foram muito influentes nos anos 80.

REO Speedwagon.

Ah, sim, eles eram ótimos. Ainda tocam. Novamente, tinham ótimas músicas e ótimos vocais. Se você tem boas músicas, já percorreu metade do caminho.