Entrevista | Candlebox – “Acho que fomos subestimados. Fizemos vários discos bons e nunca paramos”

Entrevista | Candlebox – “Acho que fomos subestimados. Fizemos vários discos bons e nunca paramos”

O Candlebox será uma das principais atrações internacionais do Somos Rock Festival, com apresentações marcadas para São Paulo, no dia 25 de abril, e Curitiba, no dia 26. A passagem marca a estreia da banda no Brasil após mais de três décadas de carreira, dentro de uma turnê sul-americana que também inclui shows em Santiago e Buenos Aires.

Liderado pelo vocalista Kevin Martin, o grupo chega ao país em um momento de retomada, após um quase adeus, e impulsionado pelo retorno do guitarrista fundador Peter Klett. A formação reacende a essência dos primeiros discos e amplia a expectativa para performances de clássicos como “Far Behind” e “You”, além de um repertório mais abrangente que revisita diferentes fases da carreira.

Formado em Seattle no início dos anos 90, o Candlebox surgiu na esteira da explosão do grunge e rapidamente alcançou sucesso comercial com seu álbum de estreia, lançado em 1993, que ultrapassou a marca de quatro milhões de cópias vendidas. Ao longo dos anos, a banda consolidou seu nome como um dos principais representantes do post grunge, mantendo atividade constante mesmo após mudanças de formação e períodos de hiato, até chegar à atual fase, marcada por um “recomeço” após a anunciada turnê de despedida.

Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Kevin Martin explica os motivos da banda não ter encerrado a carreira na turnê de despedida, o retorno de Peter Klett, a inédita estreia da banda no Brasil e até mesmo sobre o famoso meme do “rock de pai divorciado”.

Kevin Martin em ação com o Candlebox – Foto por Anthony Frisketti

Quando você anunciou The Long Goodbye, aquilo era realmente o fim ou já existia alguma dúvida interna?

Era realmente isso que eu queria fazer. Eu tinha certeza de que havia terminado e não queria continuar tocando ou fazendo música. Sentia que tinha chegado a um platô na minha vida e na minha carreira. Então, o Pete e eu tivemos uma longa conversa e ele disse que queria voltar para a banda. Isso reacendeu algo em mim, renovou o que eu estava sentindo e as emoções que eu tinha naquele momento. Percebi que talvez não tivesse terminado de verdade. E, claro, eu sentia falta dele na minha vida, como músico, como amigo e como parceiro criativo.

Então você sente que esse retorno do Peter é como uma continuação natural da história da banda?

Sim, 100%. Eu realmente sinto isso. Faz todo sentido quando você pensa no quanto o Candlebox foi importante para tantas pessoas. É muito fácil esquecer, quando alguém sai da banda, ou decide se afastar por um tempo, o quanto aquela pessoa era essencial. Você começa a pensar que tudo depende de você, que você é a banda. Mas quando essa pessoa volta, você percebe exatamente o quanto ela foi importante e o quanto continua sendo para a continuidade da banda.

Além da volta do Peter, houve um show específico ou um convite que mudou a sua cabeça?

Acho que foi quando estávamos tocando no Texas e ele apareceu para tocar alguns shows com a gente. Naquele momento, senti que ele estava voltando com intenção, com vontade real de estar ali. E isso era algo que eu sentia que faltava quando ele saiu da banda em 2015. Na época, ele não estava comprometido com o que fazíamos. Mas naquele retorno, ficou claro que ele queria estar ali de verdade. Eu reconheci isso e senti isso no palco.

Hoje, olhando para trás, onde o Candlebox se encontra? É um novo começo, um novo capítulo ou algo ainda em aberto?

Eu vejo como um novo capítulo. Estamos trabalhando em música nova e não vamos parar tão cedo. E, como eu disse, isso tem muito a ver com o retorno do Peter. Ele me inspirou a voltar a trabalhar com ele e pensar em um novo álbum. Posso dizer com certeza que estamos de volta por um bom tempo.

E depois de mais de 30 anos, por que demorou tanto para o Candlebox tocar no Brasil?

Nós nunca conseguimos encontrar um promotor em quem pudéssemos confiar. Fomos convidados várias vezes, mas é complicado para uma banda como o Candlebox. Não somos uma banda do tamanho de Soundgarden ou Pearl Jam, então muitas vezes precisamos trabalhar com promotores menores ou novos. E sempre que começávamos a alinhar datas, algo dava errado e precisávamos cancelar. Estamos tentando tocar no Brasil e na América do Sul literalmente há mais de 30 anos. Agora finalmente aconteceu, e acho que é uma grande oportunidade. Pode até abrir portas para festivais como Lollapalooza ou Rock in Rio no futuro.

E o que você ouviu sobre o público brasileiro ao longo dos anos? Te dava mais vontade de vir?

Nosso tour manager por 17 anos, Carlos Novais, é de São Paulo, então sempre ouvimos coisas incríveis. Além disso, somos amigos de muitos músicos que já tocaram aí. Todos dizem que o público é apaixonado e intenso. E sempre fazem a mesma brincadeira: para tomar cuidado com as mulheres brasileiras. Então vamos ver como vai ser.

Vocês estão preparando algo especial para o debut no Brasil? Vão preparar um set especial?

Estamos tocando muitas músicas que as pessoas talvez não esperem. Vai ser um show longo, com cerca de 90 minutos, algo entre 20 e 22 músicas. Não vamos focar só no primeiro álbum. Vamos tocar coisas de Happy Pills, Into the Sun e várias músicas que não tocamos há anos. Também vamos incluir bastante material do Lucy. Vai ser um show bem completo.

Bem, o público sul-americano é conhecido por ser intenso. Isso muda a forma como vocês encaram o show?

Sim, nós focamos muito na energia. Queremos que o público sinta o que veio sentir. Normalmente começamos com algo do primeiro álbum, mas durante o show vamos ajustando o setlist de acordo com a reação. Se sentimos que algo não está funcionando, mudamos na hora. É um processo muito dinâmico.

E o line-up do Festival está bem interessante, como um revival indo dos anos 80 aos anos 2000. Vocês tem alguma relação ou história com as outras bandas do festival?

Não diretamente, mas adoro “The Killing Moon”, que é uma das minhas músicas favoritas de todos os tempos. Echo & The Bunnymen é uma das minhas bandas favoritas, eu cresci ouvindo isso. Estou muito animado para vê-los. Já tocamos com o Smash Mouth antes, embora agora seja diferente sem o vocalista original. Foi triste quando ele faleceu. Mas estou animado para dividir o palco com bandas tão boas.

Falando agora dos primeiros anos, como era a sua relação com a cena grunge de Seattle?

Foi uma relação um pouco estranha. Nós éramos cerca de cinco anos mais jovens do que muitas daquelas bandas, como Pearl Jam, Soundgarden e Alice in Chains. Sempre nos sentimos como os irmãos mais novos que não eram convidados para a festa. Isso foi difícil, porque acreditávamos que fazíamos boas músicas e queríamos fazer parte daquela cena. Mas entendíamos que eles estavam na estrada há mais tempo e tinham uma trajetória mais pesada. Eu ainda tenho amigos ali, mas sempre senti que o Candlebox não era exatamente uma banda grunge. Era mais um rótulo para aquela cena, e se quiserem nos colocar nisso, tudo bem.

Você imaginava que “Far Behind” se tornaria um clássico? Ela é um dos hinos dos anos 90.

Não. É curioso, falamos sobre isso até hoje. Sabíamos que era uma boa música, mas não imaginávamos que ela faria parte das nossas vidas por mais de 30 anos. Esperávamos que alcançasse um público, mas não que se tornasse algo tão duradouro. É uma música muito especial para nós. Foi escrita sobre o Andy (vocalista do Mother Love Bone), e no começo a letra era mais direta, mencionando o nome dele. Depois adaptamos. Temos muito orgulho dela.

E para vocês como foi lidar com o sucesso imediato do álbum de estreia?

Foi muito difícil. Não esperávamos que tudo acontecesse tão rápido. Não estávamos preparados mentalmente. Você espera a vida inteira para lançar um primeiro álbum e torce para que dê certo, mas quando acontece desse jeito, é difícil lidar. Acabamos nos envolvendo com drogas e álcool, e isso levou a banda para um caminho que não queríamos. Mas aprendemos com isso. Acho que essas experiências nos moldaram como pessoas. A vida não é fácil, é um desafio constante. E aqui estamos, mais de 30 anos depois, ainda fazendo isso.

Você falou dos vícios. Como foi o impacto de ver tantos artistas da cena de Seattle sendo derrotados pelas drogas?

Foi horrível. São pessoas com quem você cresce, pessoas que você conhece. Você tenta ajudar, mas quando alguém é dependente, não há muito que você possa fazer. A decisão precisa partir da própria pessoa. Foi assim com Andy Wood, foi assim com Kurt Cobain. Ele chegou a ir para a reabilitação, mas não queria estar ali. São perdas muito difíceis. Aquilo fez toda a cidade de Seattle parar e refletir sobre o que estava acontecendo e sobre como poderíamos ajudar uns aos outros.

Eu sinto que o Candlebox foi uma das bandas que pavimentou o caminho para que Creed, Nickelback, 3 Doors Down e toda aquela sonoridade dos anos 2000 surgirem. Você acredita que o Candlebox foi subestimado ao longo dos anos? Como você vê o legado da banda?

Sim, acho que fomos subestimados. Fizemos vários discos bons depois do primeiro e nunca paramos. Nosso legado é o de uma banda que sempre fez a música que quis fazer, sem seguir regras externas. Sempre buscamos evoluir, experimentar e seguir em frente. Se isso influenciou bandas como Creed e Nickelback, ótimo. Já ouvi isso de outras pessoas, inclusive de músicos como o pessoal do Breaking Benjamin. É algo que nos deixa orgulhosos.

Chamavam essa cena de post grunge, e agora essas bandas são colocadas na internet como “divorce dad rock”? Isso chegou até você? Como você viu isso?

Eu já vi isso. Acho engraçado. Existem várias bandas que se encaixam nesse rótulo, é meio que um tipo de rock de arena. Talvez a gente seja uma delas. É uma forma curiosa de enxergar, então eu levo com bom humor.

Apesar da distância e dos anos, você tem contato com Seattle? Como você vê a cena de Seattle hoje?

Honestamente, não acompanho tão de perto porque estou em Los Angeles. Mas sei que ainda sai muita coisa boa. Gosto muito de bandas novas e acho que a Sub Pop continua sendo fundamental para descobrir talentos. Seattle sempre foi uma cidade que produz arte, mas hoje me parece uma cena mais independente, mais voltada ao underground. E isso é algo que eu respeito bastante.