Monica Casagrande transforma vozes femininas em ritual audiovisual no álbum Corpo Coral

Monica Casagrande transforma vozes femininas em ritual audiovisual no álbum Corpo Coral

A cantora Monica Casagrande apresenta Corpo Coral, um álbum audiovisual que transforma repertório feminino em um percurso sensorial e simbólico guiado pela voz. O projeto reúne releituras de compositoras brasileiras e internacionais em uma construção que atravessa diferentes estados emocionais, tratando a interpretação como gesto criativo e o corpo como elemento central da narrativa.

Concebido como uma obra-chave em sua trajetória, o disco parte da ideia de que o corpo é atravessado por múltiplas vozes femininas. Cada faixa funciona como um ciclo dentro de um ritual de transformação não linear, em que desejo, resistência, entrega e renascimento se conectam como estados de passagem. A noção de “coral” aparece justamente como essa sobreposição de vozes que ganham unidade na interpretação da artista.

Gravado em parte no Estúdio Kumbuka e com sessões audiovisuais realizadas na Bolha Films, Corpo Coral prioriza a presença da voz, da respiração e dos silêncios. Os arranjos atuam como suporte para a interpretação, evitando protagonismo instrumental. O resultado é um trabalho que transita entre jazz, MPB, soul, pop e blues, tendo o smooth jazz como eixo de unidade sonora, sem se prender a um gênero específico.

O álbum conta com participações de Lan Lahn e Navalha Carrera, ampliando a presença feminina no projeto. A escolha das colaborações reforça o caráter coletivo do disco, que se constrói a partir de diferentes trajetórias e linguagens.

O repertório percorre momentos distintos desse ritual simbólico. A emancipação aparece em “Don’t Let Me Be Misunderstood”, eternizada por Nina Simone; o desejo ganha movimento em “Fullgás”, de Marina Lima; a liberdade se afirma em “Agora Só Falta Você”, de Rita Lee; enquanto o autorreconhecimento se revela em “Suddenly I See”, de KT Tunstall. Já a ruptura e autonomia atravessam “You Don’t Own Me”, de Lesley Gore, enquanto a entrega emocional se aprofunda em “Amor, Meu Grande Amor”, de Angela Ro Ro.

Na reta final, o disco caminha para a cura em “Put Your Records On”, de Corinne Bailey Rae, a maturidade em “At Last”, de Etta James, e o renascimento em “Baby”, associada à interpretação de Gal Costa. Longe de um tributo nostálgico, as versões funcionam como reinscrições dessas canções em um novo contexto corporal e vocal.

Pensado desde o início como um projeto audiovisual, Corpo Coral chega acompanhado por uma série de videoclipes e conteúdos de bastidores. Os vídeos, com direção criativa de Di Tateishi e Nora Jasmin, expandem o conceito do álbum ao explorar arquétipos, atmosferas e estados corporais, evitando a reprodução literal das artistas homenageadas.

A estética visual também reforça essa proposta. A capa apresenta a artista em camadas e fragmentações, sugerindo múltiplos estados internos e dialogando com símbolos de ciclicidade e transformação. Assim como o disco, a imagem não se fecha em uma única leitura, propondo movimento e desdobramento.

Após quatro trabalhos centrados em composições próprias, Monica Casagrande desloca o foco para a interpretação como prática criativa. Corpo Coral marca uma nova fase em sua carreira ao transformar canções que atravessam gerações em um espaço de escuta, reconhecimento e reinvenção contínua.