Entrevista | Winger – “Provavelmente será a última vez que tocamos no Brasil”

Entrevista | Winger – “Provavelmente será a última vez que tocamos no Brasil”

A banda Winger está confirmada no line-up do Bangers Open Air e se apresenta no dia 26 de abril. Formado no fim dos anos 1980, o grupo liderado por Kip Winger ganhou projeção com hits como “Seventeen” e “Miles Away”, consolidando seu nome no hard rock melódico da época. A banda também ficou conhecida pela forte musicalidade, equilibrando técnica refinada e apelo radiofônico, algo que os diferenciava dentro da cena glam.

Ao longo das décadas, o Winger enfrentou altos e baixos, especialmente durante a virada dos anos 1990, quando o grunge dominou o mercado e impactou diretamente bandas do estilo. Ainda assim, o grupo manteve sua relevância com trabalhos consistentes e retornos pontuais, como o álbum “Karma” e o mais recente “Winger VII”, que reuniu a formação clássica. Paralelamente, Kip Winger desenvolveu uma carreira respeitada na música erudita, inclusive com indicações ao Grammy na área de composição clássica.

A apresentação no Bangers Open Air ganha contornos ainda mais especiais por marcar uma das últimas passagens da banda pelo Brasil, dentro de uma turnê que sinaliza o encerramento gradual das atividades. Em entrevista ao Blog N’ Roll, Charles “Kip” Winger falou sobre o fim das turnês, a transição para a música clássica e a relação com o público brasileiro.

Quando você percebeu que era hora de encerrar a trajetória do Winger?

Já venho pensando nisso há cerca de cinco anos. Tenho me dedicado cada vez mais à composição orquestral e senti que queria focar mais nisso. Chegamos a planejar essa despedida antes da pandemia, mas com a COVID decidimos seguir e depois fazer uma despedida gradual, com shows finais ao redor do mundo. Não anunciei oficialmente que nunca mais vou tocar, mas estou diminuindo o ritmo. Também tive alguns problemas vocais nos últimos anos e não quero subir ao palco sem conseguir cantar bem.

Essa será uma despedida definitiva dos palcos ou ainda haverá espaço para apresentações pontuais?

Provavelmente será a última vez que tocamos no Brasil. Já fizemos nossos últimos shows no Japão e na Europa. Ainda temos algumas datas nos Estados Unidos, mas estou mantendo tudo bem reduzido e sem aceitar novos compromissos.

O que muda emocionalmente ao subir no palco sabendo que são os últimos shows?

Foi um processo gradual. Sinto que já fiz tudo que podia com a banda. O álbum “Winger VII” foi pensado como uma declaração final, reunindo a essência do início com tudo que construímos ao longo de 35 anos. Eu não gosto de me repetir como artista, então prefiro seguir em frente e explorar novos caminhos, principalmente na música clássica.

Como está sendo montado o setlist dessa turnê final sendo um show em Festival? Haverá surpresas para o Brasil?

Ainda não defini completamente. Inclusive meu empresário me perguntou isso recentemente. Se você tiver alguma música favorita, pode sugerir. Vamos incluir os principais hits, claro, e algumas faixas que gostamos de tocar ao vivo.

Gosto dos clássicos, mas imagino que já estejam no set, como “Seventeen”e “Can’ Get Enough”. Inclusive, “Miles Away” fez sucesso como trilha sonora de novela no Brasil. Como você vê esse tipo de exposição?

Fiquei sabendo disso depois. É uma grande honra. Sempre é bom quando sua música chega a outros contextos, como TV e cinema.

Há alguma música difícil de deixar de fora do repertório nessa turnê?

Não especificamente. Sempre priorizamos os hits, que são muitos, e escolhemos outras músicas dependendo do momento. Algumas funcionam melhor ao vivo do que outras.

Você sabia que São Paulo é hoje a cidade que mais ouve Winger no mundo? Inclusive ela tem quase o dobro de plays no Spotify do que Chicago, segunda colocada. Esse tipo de dado influencia decisões de turnê?

Não sabia. Isso é incrível e aumenta ainda mais a responsabilidade para o show. Sou bem old school e não acompanho estatísticas. Acho que isso pode até atrapalhar a criatividade.

Como você enxerga o público brasileiro?

Todos os shows que fiz no Brasil foram incríveis. Os fãs brasileiros são absolutamente impressionantes, eles vivem e respiram a música de uma forma única. Não existe nada igual. Fiz uma pequena turnê acústica com meu percussionista, Robbie Rothschild, e desde o primeiro show, mesmo em um lugar pequeno, estava lotado e o público estava enlouquecido. Eu me virei para ele e disse: “é disso que se trata tudo isso”. Porque você não vai ver isso em qualquer lugar. O Brasil é muito único nesse sentido. Os fãs simplesmente se tornam a música, é algo inacreditável. Então, quando você me pergunta sobre memórias, a verdade é que cada show no Brasil é melhor que o anterior.

Como foi a transição de tocar com Alice Cooper para liderar sua própria banda?

Foi uma experiência muito importante para mim. Aprendi bastante com o Alice, principalmente sobre turnês e sobre como se comportar como frontman. Eu vinha de uma banda com meus irmãos, onde esse papel era dividido, então precisei desenvolver isso quando o Winger começou. Observar como ele conduzia o público e comandava o palco foi uma grande escola, e isso acabou sendo fundamental quando a banda engrenou.

Kip Winger com Alice Cooper em 2014

A banda sofreu críticas nos anos 1990 com o grunge e a cultura pop, teve o episódio do personagem de Beavis and Butthead que era fã de Winger e sofria bullying, teve a cena do Lars do Metallica jogando dardos na sua foto… Como você lidou com isso?

Aquilo tudo simplesmente aconteceu ao nosso redor. A chegada do grunge, o impacto cultural de coisas como Beavis and Butt-Head e até o próprio Metallica acabaram nos colocando no centro de uma situação que não controlávamos. Foi algo que prejudicou bastante a nossa imagem por um tempo, mas musicalmente nunca me afetou. Eu sempre tive uma visão clara do que queria fazer e continuei evoluindo. Foquei na música, segui trabalhando e, no fim, consegui sair do outro lado, inclusive com reconhecimento na música clássica.

Por outro lado, hoje há um revival de estilos clássicos. Inclusive, o Crazy Lixx que dividirá o palco com vocês é uma banda bem mais nova e segue a estética do Glam. Como você vê esse legado de bandas que são influenciadas pelo Winger?

Eu não fico pensando muito nisso de legado para ser honesto. Se outras bandas se sentem influenciadas pelo nosso trabalho, isso é uma honra enorme. Mas nunca foi algo que guiasse minhas decisões. Minha mentalidade sempre foi seguir em frente, continuar evoluindo e criando coisas novas, em vez de olhar para trás ou tentar reviver algo.

E o que te atraiu na música clássica?

É basicamente o som que eu escuto na minha cabeça. Foi algo que levei anos para entender e desenvolver. A música tem esse aspecto quase mágico, em que uma ideia surge de forma muito rápida e intensa, e você precisa agarrar aquilo e transformar em algo concreto. É um processo constante de descoberta, de criação e recriação. É isso que me motiva hoje.

Sendo do Rock Old school e indo em direção a música clássica, como você vê o uso de tecnologia e backing tracks ao vivo?

A gente nunca quis usar esse tipo de recurso. Sempre fomos uma banda muito old school, no sentido de subir ao palco e tocar tudo ao vivo, sem apoio de trilhas ou gravações. Já pensei que poderia facilitar em alguns aspectos, como vocais de apoio, mas nunca foi a nossa proposta. O que o público vê é exatamente o que está sendo tocado ali na hora.

Você já falou sobre parar de beber. Como foi essa decisão e que conselho você dá para os músicos mais novos?

Eu nunca me considerei exatamente um alcoólatra, mas bebia bastante em determinada fase, especialmente quando me mudei para Nashville. Com o tempo, percebi que isso estava prejudicando minha voz e meu desempenho. Chegou um ponto em que pensei que não fazia mais sentido continuar. Parei completamente em 2012 e nunca mais voltei. Hoje não bebo, não uso drogas e estou mais focado na minha longevidade.

A cena do rock diminuiu os excessos com o tempo, você sente que as bandas ao seu redor estão com outra postura?

Olha, eu nunca convivi muito com esse tipo de ambiente de excessos, para ser sincero. Sempre estive mais cercado de pessoas que até bebiam, mas não tanto com drogas. Ainda assim, conheço algumas pessoas que são ótimas quando estão sóbrias, mas mudam completamente quando bebem, ficam irreconhecíveis, e isso é algo que eu nunca gostei de estar por perto. Eu sempre tentei me afastar disso, não é a minha vibe. Mas lembro que, na época da turnê com o Poison em 2002, a banda Faster Pussycat era conhecida por ter o “evil bus”. Se você quisesse festa de verdade, era só ir para o ônibus deles. Era onde toda a loucura acontecia. Mas até isso mudou com o tempo. Hoje, muita gente daquela época também está sóbria, então dá para ver que houve sim uma desacelerada nesses excessos.

Você se incomoda ou se arrepende de usar o visual glam no passado?

Na época, eu mesmo não tinha muita noção de qual deveria ser a minha imagem. Eu vinha de tocar com o Alice Cooper, que já tinha uma estética forte, e ao mesmo tempo o cenário estava cheio de bandas como Bon Jovi, Def Leppard e Whitesnake. Então a gente acabou meio que seguindo aquela linha naturalmente.

Se eu tivesse que apontar algum “erro” da banda, talvez fosse esse, porque não era realmente necessário. Poderíamos simplesmente ter subido ao palco de jeans e camiseta e deixado a música falar por si. Talvez isso até tivesse ajudado na longevidade ou na forma como fomos levados a sério em alguns momentos.

Ao mesmo tempo, foi divertido. Era uma época específica, com uma estética própria, e foi legal fazer parte disso. Quando olho para outras bandas, como o próprio Poison, eles eram muito mais exagerados visualmente do que a gente. Então, no fim das contas, é aquela coisa de cada um com seu estilo. Foi uma fase marcante e dá para entender por que bandas atuais, como o próprio Crazy Lixx, ainda querem revisitar aquele visual.