A Cachorro Grande desembarca em São Paulo para um dos shows mais simbólicos dessa nova fase nesta sexta (17). A apresentação no Cine Joia acontece em clima de reta final, com últimos ingressos disponíveis e expectativa de casa cheia. O show faz parte da turnê que celebra os 26 anos da banda, um marco que reforça o peso histórico do grupo dentro do rock nacional e a força do reencontro com o público.
Formada em Porto Alegre no fim dos anos 1990, a Cachorro Grande construiu sua trajetória com base em riffs diretos, referências clássicas e uma energia de palco que virou marca registrada. Ao longo dos anos 2000, a banda se consolidou como um dos principais nomes do rock brasileiro, transitando entre garage rock e psicodelia, acumulando hits e presença constante em festivais e na programação da MTV Brasil. Após o hiato iniciado em 2019, o retorno reposiciona o grupo em um momento de reconexão com sua própria história.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, o vocalista Beto Bruno falou sobre três pontos centrais desse novo momento: o impacto emocional do reencontro com a banda após anos separados, a construção da atual turnê a partir da resposta do público e o desejo de transformar a reunião em um retorno definitivo. Segundo ele, a retomada deixou de ser pontual quando os primeiros shows mostraram que ainda havia algo forte acontecendo no palco, tanto musicalmente quanto na relação entre os integrantes.
O discurso também aponta para o futuro. A banda está prestes a oficializar esse retorno com material inédito e já tem planos concretos: entra em estúdio em junho para gravar um novo álbum, com repertório praticamente fechado. A ideia é lançar o disco ainda este ano e, a partir dele, estruturar uma nova turnê, deixando para trás o formato comemorativo. A proposta é clara: voltar a ser uma banda em atividade contínua, com produção autoral e não apenas sustentada pela nostalgia.
Como está funcionando a turnê de vocês, além do show no Cine Joia? Já existem outras cidades confirmadas?
A gente começou isso tudo de uma forma muito natural. Há uns três anos, depois de cinco anos separados, rolou um convite para tocar em Porto Alegre, no aniversário da cidade. E foi muito forte, sabe? Não só pelo reencontro pessoal, mas principalmente pelo som que saiu no palco. Aquilo ali me mostrou o quanto eu estava com saudade dos caras. E acho que isso foi recíproco. A partir dali, começaram a surgir convites, o público pedindo show em São Paulo, e a gente também queria muito tocar aqui. Fizemos São Paulo, depois vieram outras datas e, quando vimos, já estávamos estruturando uma turnê. Era para ser de 25 anos, mas o tempo passou e virou 26. Agora estamos nessa estrada, com mais datas sendo organizadas.
Qual o peso de um show em São Paulo para o Cachorro Grande hoje?
São Paulo sempre teve um peso diferente. Tudo o que acontece aqui repercute no resto do país. Então dá um nervosismo maior, sim. É uma responsabilidade grande, mas também é muito importante. É um termômetro para a banda.
Em que momento vocês perceberam que não seria apenas um reencontro pontual?
Isso foi acontecendo. Depois daquele primeiro show, bateu uma sensação muito forte. Quando eu subi no palco com eles, aconteceu uma coisa absurda, aquela química voltou na hora. E eu só fui entender o tamanho da saudade naquele momento. Não era só da amizade, era do que acontece ali em cima do palco, que é muito único. A gente tentou fazer mais um show, depois outro, e quando viu já não fazia mais sentido ser algo pontual. A gente queria continuar, e o público também.
E já que vão continuar, eu já vi vocês falando sobre músicas novas. Quais os planos do Cachorro Grande? Voltaram em definitivo, tem álbum em vista?
Então, bicho, nosso pensamento futuro é realmente a banda voltar definitivo. Não com turnê de reunião. É gravar um disco agora em junho que a gente já tem o repertório pronto.
O plano é lançar esse disco antes do fim do ano e aí sim, voltar definitivamente com uma turnê, com disco. Que eu acho que é muito mais valioso. Então a maneira da gente respeitar o nosso público e a melhor maneira da gente seguir tocando seria com um disco novo. E é isso que vai acontecer.

Falando sobre o álbum novo, você pode adiantar alguma coisa da sonoridade? Vocês vão mais para o som antigo ou algo novo?
A gente já passou por várias fases, inclusive aquela mais eletrônica, que ficou para trás. O que tinha para fazer ali, a gente já fez. A banda que se encontra hoje pra gravar um disco daqui três meses tá fazendo sim um disco diferente de tudo que a gente já fez. Mas não quer dizer que tenha alguma novidade com relação ao mercado. São novidades com relação à nossa própria história, à nossa própria evolução.
Vai ser um disco diferente dentro da nossa própria história, da nossa evolução. Não é uma coisa pensada para seguir tendência ou surpreender o mercado. O mais importante é não deixar de fazer o que a gente gosta. Porque quando você tenta forçar algo novo só para impressionar, você deixa de ser verdadeiro. E aí não funciona nem para a gente, nem para o público. A única forma de seguir no rock é sendo verdadeiro. Então o disco vai ser isso.
Vocês chegaram brigar e isso levou ao fim da banda. Agora que a volta é definitiva, vocês chegaram a conversar sobre o que não repetir do passado ou foi algo mais natural?
Teve uma conversa, sim. Antes mesmo do primeiro ensaio, a gente sentou e falou sério sobre tudo. Sobre como deveria ser dali para frente, para não repetir os erros que levaram ao fim da banda. Mas muita coisa também veio naturalmente. Esses cinco anos separados, fazendo projetos solos, e a pandemia fizeram a gente refletir muito. Quando você está no meio do furacão, não consegue olhar para trás. Quando para, começa a entender melhor. Hoje existe um respeito muito maior entre a gente. Claro que existe amizade, mas o respeito é o principal. E isso está funcionando. Já faz mais de dois anos e está tudo muito tranquilo.
E o setlist para o Cine Joia? Vai ser focado em hits ou vocês pensam em surpresas?
É uma coletânea. Nesse momento é um show de hits. Não faria sentido a gente continuar muito tempo nessa ideia de turnê comemorativa, de aniversário de disco e tudo mais. Isso serve para agora. Mas o que vai trazer verdade de novo para a banda é quando a gente lançar o disco novo e puder fazer uma turnê em cima dele. Aí sim faz mais sentido artisticamente.
Com 26 anos de banda, poucas bandas se consolidaram no rock. Você acha que falta algo no cenário atual? Por que não surgem tantas bandas novas como antes? A MTV e a rádio eram os reais propulsores de tudo?
Você matou ai. Eu acho que mudou muito, principalmente com o fim da MTV. Na nossa época, a MTV tinha um papel enorme. As pessoas esperavam os clipes, descobriam bandas ali, criavam uma relação com aquilo. Hoje está tudo muito acessível. Você quer ouvir uma banda, vai lá no streaming e está tudo na sua mão. Isso tem muitos lados positivos, claro. Eu mesmo uso para descobrir coisa nova. Mas, ao mesmo tempo, tirou um pouco daquela valorização que existia antes. A gente esperava, corria atrás, gravava fita, ia em loja de disco perguntar se o álbum tinha chegado. Quando conseguia, ouvia até furar. Hoje está tudo muito fácil, e isso muda a forma como as pessoas se conectam com a música.
E falando em MTV, como foram os planos de reviver algo o especial das bandas gaúchas?
Recentemente rolou uma nova edição, celebrando aquele momento. E foi muito emocionante. No Rio Grande do Sul, aquilo ali é histórico. Reunir as bandas de novo foi uma loucura, no melhor sentido possível. Foi muito especial mesmo.
Depois de tocar com nomes como Oasis e Rolling Stones, existe ainda algum sonho a realizar? Com quem vocês gostariam de tocar?
Eu falei há uns anos atrás sobre abrir para o Oasis e Rolling Stones dando risada, achava impossível e realmente rolou. Para mim ainda é um sonho ter tocado com eles. Vamos dar risada de novo? Gostaria de abrir o show do Paul McCartney. Ou o Neil Young também. Seria mais um sonho realizado.
E sobre os projetos paralelos, como eles ficam agora com a volta do Cachorro Grande?
Eu gravei dois álbuns enquanto estive fora da Cachorro Grande. Agora que voltou, da minha parte, toda a minha energia está na Cachorro Grande. Eu não vejo sentido em dividir isso agora. É a banda que eu mais gosto, que eu mais me orgulho. Então, enquanto eu estiver aqui, vou dedicar tudo a ela. Os outros integrantes eu já não sei, mas eu estou 100% focado nisso.
SERVIÇO
Cachorro Grande no Cine Joia (17/04)
Data: 17 de abril de 2026 (sexta-feira)
Horário: a partir das 20h
Local: Cine Joia
Endereço: Praça Carlos Gomes, 62, Liberdade – São Paulo/SP