Há artistas cuja vida corre em paralelo com a própria intensidade de suas composições. Para o mestre argentino Fito Páez, um dos maiores nomes da história do rock latino-americano, o ano de 2025 guardou um de seus capítulos mais dramáticos e, ao mesmo tempo, transformadores. No início de setembro do ano passado, Fito sofreu um grave acidente doméstico que resultou na fratura de nove costelas, exigindo uma cirurgia complexa e meses de repouso absoluto.
Dessa temporada forçada de silêncio e reflexão nasceu Shine, o seu mais novo álbum de estúdio que acaba de chegar às plataformas digitais, além de edições físicas em CD e vinil. Composto por 13 faixas inéditas, o disco funciona como um verdadeiro manifesto de resiliência e um agradecimento por estar vivo, lúcido e ativo.
Retorno à essência analógica dos anos 70
Em Shine, Fito Páez deixa de lado as produções excessivamente digitais para abraçar o calor do rock n’ roll clássico, do R&B e da soul music. O álbum é um combate direto ao entorpecimento social e à alienação tecnológica atual, defendendo o valor do abraço, das relações fraternas e da amizade real.
O silêncio do período de recuperação física e espiritual do músico é traduzido de forma belíssima na estrutura do álbum. Três peças instrumentais, que funcionam como abertura, interlúdio e encerramento, com Fito sozinho ao piano, pontuam a obra. Cada uma delas termina com um sussurro: “Hablame” (Fale comigo), como um apelo por conexão humana após o isolamento.
Faixa a faixa: as histórias de “Shine”
- “Girl T. Rex”: Abre os trabalhos com um groove de funk contagiante, narrando a noite urbana de uma jovem pelas ruas de Buenos Aires.
- “Shine”: A faixa-título traz uma atmosfera crua e cinzenta dos anos 70, soando como um clássico de John Lennon produzido sob a clássica técnica de “Wall of Sound” de Phil Spector.
- “Nuestro templo”: Um reggae vibrante e solar que questiona o vazio contemporâneo. O trecho “Olha esses dois jovens que se beijam devagar entre a areia e o sal, hoje o mundo é uma imensa fogueira de vazio e solidão, estamos esquecendo de amar” dita o tom reflexivo do disco.
- “Prueba de amor”: Um registro dramático e ambicioso que transporta o clássico conflito de Romeu e Julieta (Capuletos e Montechios) da Verona de 1500 para a Rosário (cidade natal de Fito) de hoje.
- “Río Místico”: Uma composição forte sobre autossuficiência e a necessidade de tomar decisões difíceis para seguir em frente.
- “Las fuerzas armadas del amor”: Uma emocionante ode em primeira pessoa que relata o acolhimento e a amizade dos amigos de Madrid que ajudaram Fito a se reerguer após o acidente.
- “Universo”: Faixa dedicada à memória do gigante cubano Pablo Milanés, inspirada em sua obra e em sua importância no cosmos da canção latino-americana.
- “El honor de los lobos”: A retrospectiva de uma vida inteira que organiza as memórias e resgata a essência da infância para lembrar que resistir e lutar para viver é uma questão de honra.