Entrevista | Rogério Skylab: “Eu nunca tive tesão por bolhas”

Entrevista | Rogério Skylab: “Eu nunca tive tesão por bolhas”

Ele tem mais de 30 anos de estrada, uma personalidade cirurgicamente provocativa e adotou como sobrenome artístico uma nave espacial estadunidense que orbitava a Terra sem que ninguém soubesse direito onde iria cair. Rogério Skylab, batizado Rogério Tolomei Teixeira, é dono de uma das discografias mais extensas, complexas e intrigantes da música brasileira. São mais de 30 álbuns lançados desde 1992, sendo o denso Mesa de Dissecação (2025) o seu trabalho mais recente. E fica o primeiro spoiler: o músico já está debruçado na produção de um novo disco durante suas madrugadas em claro.

Prestes a desembarcar na Baixada Santista, Skylab está cruzando o país com a turnê que celebra os 20 anos do emblemático álbum Skylab IV. Nesta sexta-feira (29), será a vez de Santos receber o espetáculo no palco do Arena Club. Já separou o seu maço de cigarro? O segundo spoiler é que, sim: além de executar o clássico disco de 2006 na íntegra, Skylab incluirá no repertório os maiores sucessos de sua trajetória, como a indefectível Tem Cigarro Aí?

Em um papo que transita entre Charles Baudelaire, a ilusão do circuito underground, obsessões artísticas e a busca pelo grande público, confira abaixo a entrevista completa de Rogério Skylab ao Blog n’ Roll!

Você tem uma ligação muito forte com o Programa do Jô. Afinal, foram dez anos fazendo o lançamento dos seus álbuns no talkshow: do Skylab I ao Skylab X. Mesmo que atualmente a internet e as redes sociais sejam mais fortes do que a TV, você ainda considera programas de entrevista importantes para o artista independente?

Para o artista independente, tudo é importante. Eu te confesso que não faço diferença entre podcasts e televisão aberta, entendeu? Não faço diferenciação, para mim, é tudo veículo de divulgação e de informação. Então, acho que para o artista independente tudo é válido e ele não tem que ficar escolhendo ou fazendo distinção. Isso é o que penso.

E falando em programa de TV, você teve o seu. O Matador de Passarinhos foi transmitido no Canal Brasil entre 2010 e 2013, e recebeu nomes como Elza Soares e Rita Cadillac. Você faria algo parecido nos dias de hoje, como em um canal do YouTube, por exemplo?

Confesso que, hoje em dia, não me interessa não. Atualmente, estou mais interessado em participar deles, em receber convites e ir como convidado. Prefiro dessa forma do que dirigir o meu próprio programa, porque isso requer muito tempo e o meu trabalho com a música, seja em estúdio gravando ou na estrada com os shows, já me ocupa um espaço imenso na agenda. Então, hoje não me interessaria em fazer um programa nos moldes do Matador de Passarinhos. É por uma questão de tempo mesmo, eu não tenho mais essa disponibilidade que tinha antigamente (risos). Então é isso, não faria.

Você apresentava um podcast no Spotify ao lado de Marcos Lacerda, o Contemporâneos. Nele, vocês analisavam discos da música contemporânea brasileira lançados dos anos 2000 para cá. Queria saber quais os discos contemporâneos brasileiros que mais te surpreenderam (não precisa necessariamente ter sido analisado no podcast).

De fato, eu fazia esse programa com o Marcos Lacerda, que é um sociólogo, professor e escreveu alguns livros excelentes sobre a canção, um sobre o Vitor Ramil e outro sobre o Ronaldo Bastos. Ele também é uma pessoa que, como eu, se preocupa muito com a construção da canção. Para mim, foi fundamental fazer esse projeto.

Nós estruturamos uma série: relacionamos vários artistas e vários discos compreendendo esse período de tempo de 2000 até os dias de hoje. Gravamos uma boa parte, mas infelizmente, por questão de agenda dos envolvidos (inclusive a minha), tivemos que interromper o programa. Foi uma pena, porque tínhamos uma longa lista a fazer.

Desses discos analisados, eu destaquei algumas bandas e artistas. Por exemplo, o Cidadão Instigado, que tem um disco cujo título é uma língua estranha, UHUUU! [risos], e que me chamou muita atenção. São tantos que eu não conseguiria listar todos os que me impressionaram, mas o Lucas Santana, com o álbum Sem Nostalgia, é outro belíssimo, inclusive pelas questões que suscita.

A música popular brasileira é palpitante, borbulhante. Quem diz que hoje em dia não se produzem mais artistas como antigamente são pessoas extremamente nostálgicas e preguiçosas [risos], que não gostam de pesquisar. A internet está aí, fornecendo uma relação imensa de novos nomes muito importantes.

Falamos de música contemporânea… agora, vamos voltar um pouquinho no tempo. Recentemente, você disse em uma entrevista que a sua origem é a MPB, ou seja, você consumia muita MPB, sobretudo na época em que a vertente “dominava” o país. E foi só a partir dos anos 1990 que você passou a ouvir rock. Como começou essa transição? Quais foram as bandas e artistas que mais te chamaram atenção?

De fato, a minha origem é a MPB. Se você ouvir o meu primeiro disco, Fora da Grei, vai ver que ele se banha totalmente na tradição da MPB. Hoje, se você assistir ao show que eu venho fazendo, ele está intimamente ligado ao rock. É uma porradaria [risos], digamos assim. Mas essa virada foi nos anos 1990, justamente no período em que comecei artisticamente.

Meu debut foi em 1992 e, naquele momento, passei a me interessar pelo rock. Talvez o Nirvana tenha sido o primeiro estalo, mas eu gostava mesmo era do rock experimental: Captain Beefheart, Frank Zappa e, um pouco mais moderno, o John Zorn. São todos ligados a essa vertente experimental que sempre me interessou. O Nirvana era um pouquinho menos experimental, mas esses outros nomes representam essa corrente que me pegou.

Em uma entrevista ao Jô, em 2003, ele perguntou o que leva você a fazer músicas. E você disse que é uma questão de obsessão. Hoje, 23 anos depois, o Skylab daria uma resposta diferente para essa pergunta?

Lamento informar que a minha resposta hoje seria exatamente igual [risos muito sinceros]. Idêntica! É isso, porque quando você pensa em arte, você tem que saber na marra que é uma atividade extremamente difícil, complicada, na qual você precisa levantar questões.

Quando falo em música popular brasileira, me refiro a qualquer gênero produzido no Brasil, seja o trap ou o que tradicionalmente conhecemos como MPB. Não importa: música popular brasileira é a música feita no Brasil. E esse espaço é disputadíssimo, é dificílimo! Já existem propriedades de capitanias hereditárias, grandes produtores que investem pesado em determinados artistas… É uma disputa ferrenha. Você precisa ter muita perseverança, senão não aguenta.

Por isso que duas características são fundamentais: a obsessão e saber que tudo pode dar errado e, ainda assim, você vai continuar. Porque não é uma questão de se dar bem, não é simplesmente um emprego para ganhar dinheiro. A arte tem o lado financeiro, mas envolve outras questões. A minha atividade como músico é de uma vida inteira, de uma existência de mais de 30 anos. Para viver nesse diapasão, você tem que ter obsessão e colecionar fracassos [risos]. Por isso, minha resposta seria idêntica à de 23 anos atrás.

Os seus últimos trabalhos, como o álbum Mesa de Dissecação, não têm músicas com muitos palavrões, ao contrário dos seus trabalhos mais antigos e suas composições mais conhecidas. Tem algum motivo para isso?

Esse negócio de associar minhas músicas a muitos palavrões, na verdade, é mais um folclore. Não que não exista, de fato existem muitas faixas com palavrões. Mas, desde a minha origem, elas são minoria no conjunto da obra. Esse susto que as pessoas levaram com o meu último disco, Mesa de Dissecação, por não ter muito palavrão… A verdade é que a minha obra em si não tem tanto palavrão assim [risos]. Ocorre que as músicas com palavras de baixo calão foram as mais difundidas pela internet. Elas tiveram maior engajamento, divulgação e distribuição. Eu acabo recebendo essa pecha de artista escrachado, mas isso não condiz com a realidade. Se você se debruçar seriamente sobre o meu trabalho, vai selecionar algumas músicas assim, mas a grande maioria é sem palavrão.

Algumas pessoas só conhecem os seus trabalhos mais antigos, com composições líricas escrachadas. Você sente dificuldade em atingi-las com os seus trabalhos mais recentes?

Eu venho produzindo música há mais de 30 anos. Então, evidentemente, o meu trabalho varia com o tempo, ele não é monotemático. Em um determinado momento, existiam sim muitas composições líricas que você chama de escrachadas.

Mas a minha vida sempre foi pautada por um procedimento que a poesia do século 19, por exemplo, já fazia. Charles Baudelaire é um poeta que se caracterizava essencialmente pela mistura de tons: um tom baixo, com termos chulos, e um tom sublime. Essa fricção era a marca do Baudelaire. Eu sempre quis trabalhar com essas diferenças de matizes: o sublime e o baixo calão.

Em um determinado período da minha produção, essa preocupação estética foi muito forte e me ocupou bastante. Com o passar dos anos, a minha música foi tomando outros vieses. Atualmente, talvez essa já não seja uma questão tão relevante para mim; outras buscas estão me ocupando. É uma carreira longa. Talvez eu seja um dos artistas brasileiros com a discografia mais extensa em atividade.

Você retorna para se apresentar em Santos nesta sexta-feira. O que pode adiantar sobre o show e o repertório? Terá mais músicas além do Skylab IV?

Eu estou fazendo a turnê comemorativa dos 20 anos do Skylab IV. Então, estou cantando o repertório integral do disco. Essa é a espinha dorsal dos shows atuais e do que farei em Santos. Além disso, eu acrescento outras músicas que já fazem parte do meu cancioneiro tradicional. Tem a música do cigarro (Tem Cigarro Aí?), Fátima Bernardes Experiência… Esse show homenageia o Skylab IV, que é um dos discos mais icônicos da minha carreira e, provavelmente, o que o meu público mais gosta. Foi por isso que resolvi prestar essa homenagem.

E por falar em Santos, quais são as suas lembranças da cidade?

Sobre Santos, eu tenho dois shows marcantes no meu histórico. O primeiro foi no Sesc, há alguns anos, e o outro foi relativamente recente, em uma casa noturna. Eu tenho uma excelente memória de Santos, principalmente da minha passagem pelo Sesc, onde participei de um bate-papo e respondi a perguntas do público na parte da tarde. Houve esse encontro no auditório e, passadas algumas horas, à noite, fizemos o show em um espaço muito grande. A minha melhor lembrança da cidade vem justamente desse dia no Sesc Santos.

Você é um consumidor assíduo de literatura, sempre abordou o tema em suas entrevistas (tanto como entrevistado quanto como entrevistador no Matador de Passarinhos) e tem livros publicados. Por que decidiu deixar a faculdade de Letras e migrar para a Filosofia?

Eu cursei Letras até um determinado momento e depois migrei para a Filosofia, mas a literatura nunca sai da gente. Eu sempre fui apaixonado por livros. Se você observar, muitos filósofos importantes também tinham um profundo amor pela literatura e a praticavam. Posso citar Jean-Paul Sartre, que escreveu teatro e romances, Georges Bataille, que também escreveu ficção, e Albert Camus, autor de O Estrangeiro. Essa relação entre filosofia e literatura é natural. Muitos filósofos foram romancistas. Eu não vejo tanta separação assim. Existem diferenças metodológicas, evidentemente, mas eu sou daqueles que prefere construir pontes entre uma área e outra.

Você não se considera um artista underground. Mas já se considerou, algum dia, no início da sua carreira?

Eu tenho uma certa implicância com esse termo, underground. Sabe por quê? Porque o underground me remete à imagem do artista maldito, daquele sujeito que fica escondido em uma caverna (risos). E eu sempre fui uma pessoa que quis se relacionar com o grande público. Eu sempre dou este exemplo: meu grande sonho era entrar para o casting de uma grande gravadora. Se eu tivesse entrado, teria uma produção ainda maior em termos discográficos. Como enfrentei dificuldades nesse sentido de mercado, qual foi a brecha que busquei? O programa do Jô Soares, que era televisão aberta e de massa.

A minha vocação sempre foi me comunicar com a multidão. Eu posso não ser um artista de massa em termos de vendagem, mas não interessa a quantidade de público, você pode ter 300 mil pessoas ou apenas 300 na plateia. A questão não é o número, o ponto é o seguinte: o meu interesse sempre foi conversar e tensionar com o grande público. É isso o que me move! Eu nunca tive fetiche por bolhas, por manter um público restrito, porém totalmente fiel… Não. O grande barato para mim é dialogar com o grande público, que é constituído pelas pessoas mais diferentes possíveis, de todos os credos políticos. É nesse sentido que não aceito a carapuça do underground. Quando vou a podcasts de grande alcance hoje, como o Flow, o objetivo é o mesmo: falar com a massa. Esse sempre foi o meu norte.

Agora… Skylab, as madrugadas ainda são um período sagrado para você?

Sim, a madrugada sempre foi fundamental na minha vida. Mesmo na época em que trabalhava no Banco do Brasil… Porque fui funcionário do Banco do Brasil e o meu expediente às vezes começava muito cedo. Então, frequentemente acontecia o seguinte: eu passava a madrugada em claro acordado (risos) e ia trabalhar direto, sem dormir. Quando voltava, à tarde, aí sim eu descansava.

O meu relógio biológico sempre foi meio maluco, mas sempre prezei a madrugada pelo silêncio, pelo fato de que ninguém vai te incomodar ou te ligar no telefone. Para mim, a madrugada sempre foi o período mais produtivo em todos os sentidos, seja para perder tempo vendo bobagens na internet ou para trabalhar seriamente. Sou uma pessoa totalmente noturna, sempre fui.