O Bullet Bane lança nesta sexta-feira (29) o álbum O Agora Que Cobra Viver, trabalho que marca uma nova fase na trajetória do grupo. O disco chega acompanhado de mudanças importantes na formação, com a entrada do vocalista Lucas Guerra e do baterista Andrew Lee. As transformações refletem diretamente na identidade sonora da banda, que amplia ainda mais seus horizontes sem abandonar a intensidade característica construída ao longo da carreira.
Com produção de padrão internacional, O Agora Que Cobra Viver surpreende pela maneira como expande os limites do hardcore melódico moderno. O álbum incorpora elementos do metal contemporâneo e aposta em experimentações que incluem screams, sintetizadores, beats eletrônicos e até uma orquestra com 12 instrumentos na faixa “Mais Um Dia”. O resultado é um disco pesado, emocional e ambicioso, que alterna momentos explosivos e atmosferas grandiosas sem perder a conexão com o lado melódico da banda.
O trabalho ainda reúne participações especiais de Teco Martins, que aparece em “Mais Um Dia”, e Rodrigo Lima em “Paradoxo Progresso”. E ainda há espaço para uma surpresa: “Alma Gêmea”, tocada em voz e violão de maneira bem intimista.
Todas as letras do álbum foram escritas por Lucas Guerra, mostrando a importância da nova formação. A produção ficou a cargo do guitarrista Fernando Uehara, que dividiu a função com toda a banda, enquanto Caio Weber assinou a produção de vozes e colaborou em algumas melodias do disco.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, Fernando Uehara conta sobre a segunda troca de vocalista, o processo e cuidado na produção do álbum e como ele soa o reflexo do momento dos cinco integrantes.
Como tem sido o processo de composição com a entrada do Lee e do Lucas?
A primeira música que a gente fez foi “Reta-ação”. Eu, Dan e Rafa já tínhamos essa música e mostramos para o Lee e para o Lucas. Eles piraram e aquilo acabou funcionando como uma porta de entrada para essa nova fase. Foi uma conversa bem direta: “Galera, estamos com essa ideia para um novo momento da banda e queremos que tenha essa energia”. Eles compraram a ideia imediatamente e começamos a trabalhar juntos em cima disso.
O mais legal é que tudo fluiu de forma muito natural no estúdio, mesmo sem termos criado nada juntos até então. Foi um processo leve desde o começo. Depois dessa primeira experiência, o restante das músicas acabou acontecendo de forma quase automática. Fomos trabalhando faixa por faixa ao longo dos últimos meses. Já faz cerca de um ano desde que eles entraram na banda e acho que, mais para o final do ano passado, a gente realmente se encontrou musicalmente.
A ideia inicial era lançar o álbum antes, mas decidimos adiar porque percebemos que ainda poderíamos amadurecer alguns detalhes. Depois de tocar juntos, fazer shows e observar a reação do público, entendemos melhor o que as pessoas esperavam, o que gostávamos de fazer e qual energia queríamos transmitir. Então optamos por segurar o disco até agora para que tudo fosse encaixado da melhor forma possível. Queríamos que, ao ouvir as músicas, as pessoas realmente sentissem cada um de nós ali dentro. Acho que essa conexão que criamos é algo difícil de alcançar e o fato de nos entendermos tão bem e termos nos encontrado nesse momento da vida fez tudo fluir naturalmente. Todo mundo ficou muito satisfeito com o resultado.
A troca de um vocalista é sempre um processo complicado para muitas bandas, mas vejo que todo mundo ficou feliz com a nova formação. Como foram os primeiros shows e o feedback do público?
A troca de vocalista é sempre algo complicado e até curioso, porque é difícil lembrar de bandas que passaram por duas mudanças desse tipo e conseguiram continuar fortes. A primeira aconteceu em 2018, com a saída do Vitro, que era o vocalista original do Bullet Bane. Foi um momento difícil, mas logo nos recompusemos com a entrada do Arthur. Tivemos uma fase muito boa e tudo fluiu naturalmente naquele período.
Com o passar do tempo, porém, as coisas deixaram de funcionar da mesma maneira e, em 2025, aconteceu a saída do Arthur. Já não existia mais a mesma sinergia entre a gente e entendemos que fazia mais sentido cada um seguir seu caminho. Ele foi para a carreira solo e, para nós, era assustador pensar em uma segunda troca de vocalista. Uma mudança já é complicada, então uma segunda parecia um desafio ainda maior.
Quando o Arthur saiu, muita gente do Brasil inteiro entrou em contato interessada em fazer testes, mas o Lucas já era um amigo nosso de longa data. A gente nunca teve banda junto, mas já tínhamos convivido bastante e feito muitas coisas juntos. Por isso, ele foi a escolha mais coerente. Também coincidiu com o momento em que ele estava de volta ao Brasil e disposto a entrar nesse novo projeto. Tudo aconteceu de forma muito natural.
A aceitação do público foi muito positiva. O Lucas já é um cara muito querido por conta dos trabalhos anteriores e da carreira que construiu. As pessoas gostaram muito de vê-lo cantando as músicas antigas e nós também curtimos bastante como elas soaram na voz dele. E as músicas novas ficaram ainda mais fortes. Eu sou fã dele há muito tempo, principalmente pela forma como escreve e pela visão que tem nas letras. Acho que as pessoas vão gostar muito dessa fusão que aconteceu.
Qual a história por trás do nome “O Agora Que Cobra Viver”?
Para ser sincero, a gente não tinha um nome definido para o álbum. Fomos fazendo as músicas e desenvolvendo o projeto até chegar o momento em que precisávamos decidir isso para avançar com a arte e toda a identidade visual. Sempre é uma escolha difícil porque o nome precisa soar forte, fazer sentido e agradar todo mundo da banda.
“O Agora Que Cobra Viver” surgiu a partir de um trecho da música “Decisão”, a segunda faixa do disco. No refrão existe a frase “do agora que cobra viver” e aquilo começou a fazer muito sentido para nós. Principalmente porque essa música representa muito bem o momento atual da banda e da nossa vida.
Ela fala sobre essa correria constante, sobre fazer mil coisas ao mesmo tempo e ainda sentir que falta tempo para tudo. Essa ansiedade do mundo de hoje esteve muito presente nos nossos últimos 365 dias e o álbum acabou refletindo bastante isso. Então o nome veio dessa conexão entre o que vivemos recentemente e o significado da letra da música.
Como surgiu o convite para o Teco Martins e o Rodrigo Lima participarem do álbum?
Foi tudo muito natural. Tanto o Rodrigo quanto o Teco são artistas que acompanhamos há muitos anos. Somos fãs deles e das bandas em que tocam, então sempre acabávamos nos encontrando em shows e outros lugares. O Rodrigo, inclusive, mora perto da gente, então frequentemente nos trombávamos na rua e comentávamos que seria legal fazer algo juntos algum dia.
Quando começamos a trabalhar em “Paradoxo Progresso”, percebemos que a música tinha muito dessa essência do hardcore melódico mais pesado que sempre fez parte da nossa história. Então mandamos a faixa para o Rodrigo ouvir e ver se ele curtia. Desde o começo, conseguimos imaginar perfeitamente a voz dele naquela música e foi muito legal construir essa participação.
Com o Teco também aconteceu de forma espontânea. O Lucas já era amigo pessoal dele há bastante tempo e eles tinham uma relação fora da música. Além da admiração que temos pelo trabalho dele, existia essa conexão pessoal. Quando mostramos “Mais Um Dia”, ele gostou muito da energia e principalmente da letra. Durante as gravações, foi um momento bastante emocionante para todos nós porque é uma música muito intensa emocionalmente. Ficamos muito felizes com a participação dos dois e acreditamos que o público também vai gostar bastante.
Para uma banda underground é difícil ter uma grande produção e vocês contaram com uma equipe muito grande, incluindo uma orquestra. Vocês percebem que estão lançando um álbum com cara de mainstream?
É um desafio muito grande para uma banda independente conseguir fazer um álbum com uma qualidade tão alta e entregar algo que consiga competir com trabalhos que tiveram investimentos muito maiores. Mas eu, Dan e Lucas somos produtores musicais e estudamos durante todos esses anos justamente para conquistar essa autonomia. Somos muito críticos com o nosso próprio trabalho e colocamos muito tempo e dedicação em tudo para conseguir entregar o melhor resultado possível.
Também fizemos questão de chamar outras pessoas para colaborar na produção porque queríamos trazer diferentes energias para o álbum. Era uma ideia que eu, Rafa e Dan já tínhamos há bastante tempo. Então convidamos pessoas que admiramos e confiamos, como o Jota, o Caio Weber, que canta no Bad Luv e também cantava no Cepha, o Camada e o Cauê Menezes, que é praticamente um irmão nosso e fez parte da primeira formação da banda. Todo mundo acabou contribuindo de alguma forma, principalmente para criar essa sensação de um trabalho coletivo.
Sobre a orquestra, “Mais Um Dia” já existia há algum tempo e desde o começo imaginávamos elementos orquestrais nela. Inicialmente tínhamos programações, mas depois conversei com um amigo meu, o Fernando Herrera, que mora na França e toca em uma orquestra por lá. Mostrei a música para ele e perguntei se existia a possibilidade de reunir alguns músicos para gravar com a gente.
Foi um sonho realizado. Ter uma orquestra de verdade tocando na música trouxe uma energia completamente diferente. São muitos instrumentos acústicos reais gravados por músicos que estão do outro lado do mundo. Eles registraram tudo na França e mandaram as tracks para nós trabalharmos na produção aqui. Acho que esse resultado final é fruto de tudo o que construímos ao longo desses anos e também dessas pessoas incríveis que aceitaram fazer parte do projeto.
Qual foi a música mais difícil de gravar?
“Paradoxo Progresso”, sem dúvida. Foi a última música a ficar pronta e ela ainda não tinha uma estrutura completa quando entramos no estúdio. A faixa passou por muitas versões até chegar ao resultado final. Fomos produzindo tudo ao longo do processo e acabou se transformando em uma música da qual gostamos muito.
Qual foi a música que quase não entrou no álbum?
Também foi “Paradoxo Progresso”. Justamente porque queríamos que todas as músicas tivessem uma pré-produção muito bem definida antes de entrar no estúdio e ela foi a última a ser trabalhada. Em alguns momentos, até ficamos sem esperança em relação à faixa, mas resolvemos gravar a bateria e continuar mexendo nela para ver o que acontecia. No fim das contas, virou uma das músicas que mais gostamos no disco.
Teve alguma música muito boa que ficou de fora?
Tinham algumas músicas com partes muito boas que acabaram ficando de fora, sim. Mas fizemos uma seleção pensando no que fazia mais sentido para nós cinco. O mais importante era que todo mundo estivesse feliz com todas as músicas escolhidas para o álbum.
Se vocês pudessem encaixar o álbum em um único estilo musical, qual escolheriam?
Acho difícil definir um estilo específico porque a gente sempre acaba trazendo influências de muitas coisas que ouvimos no dia a dia. Talvez rock alternativo seja o termo que mais se aproxime, mas ainda assim é complicado limitar o álbum a uma única definição.
Muita gente fala que a banda é hardcore, e isso realmente faz parte da nossa essência, mas acho que rotular o som com apenas um gênero acaba sendo insuficiente para representar o que fazemos. Nosso objetivo sempre foi misturar referências diferentes e não ficar preso a um único estilo musical.