Entrevista | Laure Briard – “Eu amo Santos! Já fui umas quatro vezes aí”

Entrevista | Laure Briard – “Eu amo Santos! Já fui umas quatro vezes aí”

O público brasileiro tem um lugar cativo no coração de Laure Briard, e a recíproca é absolutamente verdadeira. Conhecida por sua capacidade de flutuar entre o pop sessentista e o indie contemporâneo, a cantora e compositora francesa já cruzou o Atlântico diversas vezes, deixando como rastro parcerias memoráveis com os goianos dos Boogarins e raridades cantadas em um português carregado de charme e sotaque. Para os lados de cá, ela já não é apenas uma visitante, mas parte da nossa própria cena alternativa.

Agora, Laure apresenta ao mundo Voyage Mental, seu mais novo álbum de estúdio, que chegou hoje às plataformas digitais pelo selo Midnight Special Records. O trabalho marca uma virada estética sensível na carreira da artista. Se o elogiado antecedente Nevers To Blue buscava oxigênio e imensidão nas paisagens áridas e geográficas do deserto da Califórnia, o novo registro propõe uma expedição de coordenadas muito mais íntimas: um mergulho direto para dentro de si mesma.

Essa nova fase, despida de excessos e focada em arranjos mais puros guiados pelo violão folk, reflete um momento de profunda transformação pessoal, Laure recentemente deu à luz gêmeos. O primeiro vislumbre dessa calmaria reflexiva veio com o single Rocking Chair, uma faixa que evoca o movimento de vai e vem dos pensamentos e que resgata anotações feitas por ela há mais de uma década, provando que certas inquietações artísticas são atemporais.

Para dar forma visual e sonora a esse universo, Laure manteve por perto o que chama de “experiência familiar”, cercando-se de amigos de longa data e parceiros de total confiança, como os músicos Gaetan Nonchalant e Clementine (Norma). Essa rede de afeto serve de porto seguro para uma artista que se assume abertamente nostálgica, mas que sabe equilibrar o peso do passado com o frescor do presente de maneira totalmente orgânica.

Em uma conversa descontraída via Zoom direto de Paris, Laure Briard revelou detalhes sobre o processo de composição em francês e inglês, relembrou com carinho suas andanças por Santos, cidade que visitou várias vezes e cuja arquitetura peculiar dos prédios tortos ficou guardada na memória, e confessou o misto de ansiedade e empolgação que antecede o lançamento de um disco gerado com tanto cuidado.

Laure, vamos começar? Falo do Brasil.

De qual cidade?

Santos

Santos! Sabia que eu já fui para Santos muitas, muitas vezes?

Sério?

Sim! Eu tenho um amigo, um amigo brasileiro, e a mãe dele mora em Santos, então fui acho que umas quatro vezes. Eu amo Santos!

Onde você esteve por aqui? Você se lembra? Nós temos aqueles prédios tortos.

Sim, sim, sim, sim! Vocês têm uma vibe muito boa, é completamente diferente. São Paulo também é legal, mas é completamente diferente de Santos, né? É completamente diferente, mas é legal.

Laure, o título do seu novo álbum é Voyage Mental. Após um álbum geograficamente inspirado pelo deserto da Califórnia, Nevers To Blue, esse novo trabalho é uma jornada para dentro de si mesma? Como surgiu esse conceito?

O conceito veio do fato de que, para este álbum, eu queria algo mais… não mais introspectivo, mas mais, como posso dizer, mais puro, sem muitos arranjos. Algo mais folk, com violão acústico e sem todos os instrumentos que eu costumava ter nas minhas músicas. Eu queria algo mais… não calmo, mas talvez com um andamento mais lento (low tempo).

Não sei se há uma ligação com a minha situação pessoal na época, porque estava grávida, tive gêmeos, e talvez estivesse mais focada em mim mesma, e talvez haja uma ligação com tudo isso, mas queria algo novo.

O single Rocking Chair nasceu de um momento de introspecção, talvez como você disse, em uma busca por equilíbrio. A cadeira de balanço (rocking chair) funciona quase como uma metáfora para esse movimento de vai e vem dos seus pensamentos? Conte-nos um pouco sobre o processo de composição dessa faixa.

Escrevi essa música com um amigo meu, um músico, o nome dele é Gaetan Nonchalant, ele é um músico francês, então ele me ajudou com a letra e fez a música. Então vim com uma ideia, algo como… eu estava dizendo algo pacífico, alguém que estava se perguntando, introspecção, ele me acompanhou nessa ideia.

E é engraçado porque, neste texto, nessa letra, usei versos que escrevi há uns dez anos, talvez mais, e quando olhei no meu diário, nas minhas notas, achei que combinava e disse: “Ah, sim, é o sentimento que sinto hoje em dia”. E sim, algo sobre imaginação, alguém que está… eu estava “imaginando”, “imaginando”? Eu estava “imaginando”? Não. Eu imaginei uma pessoa em um deserto, como um caubói solitário caminhando com o cavalo, que se senta à beira da fogueira, olha para as estrelas e… sim, há a imagem de um universo nisso.

Você mencionou o Gaetan, mas também tem a Norma, certo?

Sim.

Como é para você trazer pessoas do seu círculo íntimo e afetivo para moldar a identidade visual deste lançamento?

Gosto muito, muito de trabalhar com amigos, com certeza. Na minha música, todos os meus músicos, desde que comecei a gravar, há uns dez anos, são sempre amigos, porque para mim é uma experiência… uma espécie de experiência familiar, sabe? Estar em todo o processo, a escrita, a composição e depois a gravação, e depois, quando tocamos ao vivo. Realmente gosto de estar com pessoas em quem confio, que sei que posso confiar, e é sempre divertido, e faz sentido para mim fazer isso com meus amigos.

E com a Norma, Clementine, o nome dela é Clementine, é muito… eu tenho sorte de ter amigos tão talentosos, porque é sempre divertido fazer vídeos assim. Éramos apenas nós duas no set, e às vezes três pessoas, mas é tão legal porque compartilhamos as mesmas ideias visuais, temos uma imaginação cinematográfica, compartilhamos tantos gostos no cinema… e é mais fácil para mim porque, como eu disse, me sinto bem perto de pessoas que conheço, em quem confio, e sim, é super legal.

Laure, sua voz e estilo são frequentemente descritos como algo que pertence a outra época, misturando o retrô com o contemporâneo. Como você vê esse equilíbrio? Você se considera uma alma nostálgica ou o aspecto retrô é apenas uma ferramenta estética?

É algo que é muito bom, faz sentido quando ouço, porque não é algo que faça de propósito. Acho que é algo que sai de mim, porque sou uma grande fã de filmes e músicas dos anos 60 e 70. Sou meio nostálgica com as artes e, até na minha mente, sou uma pessoa nostálgica, às vezes até demais. Mas sim, é natural. Gosto do som, das vibes daquela época, e quando estou no estúdio com meus amigos músicos, compartilhamos o mesmo gosto, e eu sei que eles sabem o que quero dizer, então rola essa vibe.

Todo mundo na banda e na equipe gosta, então seguimos por esse caminho de forma natural. Mas sim, temos que usar esse tipo de “máquina”, sabemos o que estamos fazendo, mas são as coisas que ouvimos o dia todo, todos os dias, então é assim.

Os leitores de blogs no Brasil têm um carinho enorme por você, especialmente por causa das suas colaborações com os Boogarins e os EPs gravados em português. Como essa imersão na música brasileira e na cena indie local daquela época ainda ressoa na forma como você compõe hoje, mesmo em um álbum com propostas diferentes, como o Voyage Mental?

Sobre o Voyage Mental, não vejo uma ligação direta, mas devo dizer que, quando gravei esses dois EPs em português… escrevi as letras em português e, sim, isso é algo muito especial para mim, porque não falo português. Escuto muita música brasileira há muito tempo, então sei algumas palavras, algumas frases, mas quando sei que escrevi em português para fazer algo especial, sim, fico em um estado de espírito especial.

Não sei se… com certeza teve um efeito em mim as experiências com as gravações, com os Boogarins e todos os shows que fiz no Brasil, porque foi uma das melhores coisas que aconteceram na minha vida, foi tão legal. E me influenciou de uma forma que me adapto aos outros, a pessoas que não conheço, porque os Boogarins, agora eu os conheço, mas naquela época eu não os conhecia muito bem, então era um pouco tímida.

Mas acho que isso abriu uma porta dentro de mim e talvez tenha aprendido a confiar ainda mais nas pessoas. E, claro, é uma experiência de mente aberta, e talvez não tenha tanta consciência disso.

Laure, cantar em francês, inglês e português traz nuances diferentes para a sua interpretação. Para as composições de Voyage Mental, você sentiu que a língua francesa era o caminho natural para expressar essa “poesia do cotidiano” mencionada no material de divulgação?

Não sei, é o jeito que as coisas são agora, mas não foi algo planejado. É assim que é, não sei explicar.

Talvez tenha sido algo natural, você estava compondo…

Compondo em francês, exato. Às vezes consigo dizer as coisas em francês, mas às vezes quero dizer coisas que preciso recorrer ao inglês, porque não gosto de como soa em francês. Mas não sei, às vezes sinto que fica melhor em inglês, talvez porque… sou tímida demais para usar certas palavras, certas expressões, não sei. Mas sei que às vezes digo: “Não, quero isso em inglês”. Ou “vamos escrever uma música em inglês”, escrevo a música e pronto, mas não é o tempo todo. Às vezes não consigo pronunciar algumas palavras em francês. Às vezes soa melhor em inglês, às vezes soa melhor em português… que é a língua mais bonita do mundo, mas com o meu sotaque fica uma porcaria.

Não, eu ouvi sua música, é linda. O álbum será lançado no início de junho, pela Midnight Special Records. Como está a ansiedade ou a empolgação de entregar esse trabalho completo ao público, e por qual faixa do álbum você está mais curiosa para ver a reação das pessoas?

Estou curiosa sobre a música que esse cantor americano me deu, o F.G. McMahon. Estou muito curiosa sobre ela, sobre o público quando for lançada… e sobre os meus sentimentos, é uma mistura de empolgação e ansiedade. Não é fácil, porque sou alguém que pensa muito e nunca estou satisfeita o suficiente. É muito complicado o mercado da música na França, então não estou totalmente em paz. Mal posso esperar, mas também estou um pouco estressada. Mas vai ficar tudo bem.

Você fez isso com muito carinho, como um filho que você compartilhou com todo mundo.

Sim, isso é importante. Por isso que dediquei tanto de mim, não sei.

Sim, claro. Você é uma artista, você entrega tudo, né? Laure, com as músicas novas saídas do forno, como você imagina o conceito visual e a energia dos novos shows? Você pretende trazer uma estética mais intimista para o palco?

Tenho algo em mente, algo com a iluminação, bem aconchegante, com flores, mas não consigo fazer. Não consigo fazer porque é muito complicado. É muito complicado. Eu não sou famosa o suficiente, mas a economia no mercado da música não permite fazer esse tipo de coisa. Mas talvez possa tentar fazer algumas coisas, veremos.