Ivan Busic lançou nesta quinta-feira (31) Into the Blues, seu segundo álbum solo e o trabalho mais pessoal da carreira. Antecedido pelo single “She’s Got the Devil in her Step”, o disco marca uma nova fase do músico ao mergulhar no blues sem abrir mão da pegada roqueira que o consagrou. Segundo Busic, a faixa reúne riffs inspirados em Cream e Jimi Hendrix, ritmo intenso e uma abordagem mais descontraída nas letras, funcionando como uma prévia da energia presente em todo o álbum.
Além de explorar um estilo que sempre esteve presente em sua formação musical, Into the Blues também tem um significado afetivo. O álbum presta homenagem ao pai de Ivan, figura fundamental em sua trajetória como músico, e representa um momento de renovação artística. Para celebrar o lançamento, o artista sobe ao palco do Blue Note São Paulo neste sábado (1º), onde apresentará as novas composições ao lado de releituras de clássicos de nomes como Freddie King, Howlin’ Wolf e Muddy Waters.
Conhecido como fundador, baterista e um dos vocalistas do Dr. Sin, Ivan Busic construiu uma das carreiras mais sólidas do hard rock brasileiro. Ao lado do irmão Andria Busic, ajudou a transformar o trio em uma das principais referências do gênero no país, dividindo palco com grandes nomes internacionais e lançando discos que se tornaram clássicos do rock nacional. Além da bateria, Ivan se destaca como multi-instrumentista, compositor e cantor, características que agora ganham ainda mais espaço em sua carreira solo, reafirmando sua versatilidade e disposição para explorar novos caminhos musicais.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, Ivan Busic falou sobre o processo de gravação totalmente analógico de Into the Blues, relembrou a influência do pai em sua formação musical, comentou a força do blues como base do rock, analisou o espaço do gênero na mídia brasileira, recordou os shows mais marcantes da carreira e antecipou detalhes da apresentação de lançamento do álbum no Blue Note São Paulo.
O álbum ficou com uma sonoridade muito característica, remetendo a bandas como Cream e The Doors. Como foi a pré-produção e a busca por esse som?
Esse disco foi inspirado por toda a minha vivência com meu pai e com meu irmão, tocando jazz e blues. Mas houve um momento decisivo: minha esposa colocou um disco da fase Peter Green, do Fleetwood Mac, enquanto eu ia tomar banho. O volume estava bem alto e, durante aquele banho, aconteceu um estalo. Pensei: “Preciso sair daqui gravando um disco nessa onda”. Enquanto tomava banho, já estava compondo. Saí do banheiro, montei a bateria, a guitarra, o amplificador e comecei a gravar.
Como já passei por todo tipo de superprodução em estúdio, resolvi fazer exatamente o contrário. Minha ideia inicial era gravar tudo com apenas um microfone. Coloquei um microfone na frente da bateria, o amplificador de guitarra ao lado e gravei a primeira música, “Lemon Pie”, dessa forma.
Como bom baterista, começou pela bateria?
Passei um bom tempo montando o kit de bateria ideal para esse estilo. Usei uma Gretsch antiga, experimentei peles diferentes, abafei tambores com flanelas e panos, troquei pratos até encontrar a sonoridade perfeita. Sempre digo que um grande disco começa pela bateria. Se ela não soar bem, a chance de o restante também não funcionar é muito maior.
Quando encontrei aquele timbre, percebi que era exatamente o som das bandas de jazz e blues que sempre admirei. Fiz então um compromisso comigo mesmo: usaria o mínimo possível de efeitos, compressores e processamento.
Da segunda música em diante utilizei apenas dois microfones. Um captava a bateria inteira e outro ficou dentro do banheiro ao lado para registrar apenas o reverb natural. Esse foi o grande segredo do disco.
Você teve essa ideia ou se baseou em algum trabalho parecido?
Lembrei de histórias dos Rolling Stones gravando em escadarias justamente por causa da acústica. Quando bati palma naquele ambiente e ouvi o retorno, pensei: “Esse é o som que sempre sonhei”. Depois gravei guitarra, bateria, baixo, violão e voz praticamente em sequência, como se fossem vários Ivans tocando juntos.
Também quis preservar pequenas imperfeições. Queria que o disco tivesse a sensação de uma banda tocando ao vivo, encarando um ao outro. Na mixagem, fiz uma pré-mix e chamei o Thiago Melo, do Dr. Sin, para ouvir. Ele deu sugestões importantes, principalmente em pequenos ajustes de guitarra.
Depois tomei outra decisão: não masterizar o álbum. Queria que ele soasse exatamente como os discos dos anos 50, 60 e 70 que eu amo. Pedi apenas ao Adriano Daga para nivelar o volume entre as músicas, sem alterar frequências, graves ou agudos. Queria que quem colocasse o disco para tocar escutasse exatamente o que eu ouvia na minha sala.
Você também destaca muito a relação com seu pai. Como foi esse primeiro contato com a música e quais influências dele aparecem neste álbum?
Eu e meu irmão tivemos a bênção de nascer em um ambiente completamente musical. Meu irmão nasceu justamente no ano em que meu pai fundou a Traditional Jazz Band, grupo que representou o Brasil em festivais importantes pelo mundo, inclusive em New Orleans.
Tenho lembranças de criança acompanhando meu pai em programas como Os Trapalhões e Fantástico, além de levá-lo ao aeroporto quando saía para turnês internacionais.
Nós crescemos observando tudo aquilo e nos apaixonando naturalmente pela música. Ainda adolescentes, começamos a tocar com ele. Era uma enorme responsabilidade, porque dividíamos o palco com músicos veteranos de jazz e blues.
Foi também através do meu pai e dos músicos da banda dele que conhecemos Beatles, Deep Purple e Led Zeppelin. Meu pai tinha uma cabeça muito aberta. Ele mostrava Queen, Deep Purple e dizia: “Esses caras são bandas de blues, só que tocam pesado”.
E teve alguma música, em específico, que mais te marcou?
Lembro perfeitamente do dia em que ouvimos Machine Head, do Deep Purple. Aquilo mudou nossa vida.
Mesmo depois de entrar para o rock, nunca deixamos de tocar jazz e blues com meu pai. As duas coisas sempre caminharam juntas. Por isso, até nos discos do Dr. Sin ou de bandas de metal das quais participei, sempre existe alguma influência do blues.
Neste álbum, como estou tocando guitarra, acho curioso perceber que meus fraseados lembram muito mais o trompete do meu pai do que propriamente Eric Clapton, B.B. King ou Johnny Winter. Talvez isso torne a maneira como toco um pouco diferente.
Você sempre foi associado ao hard rock e ao metal. Como enxerga essa aproximação com o blues e também o público desse estilo hoje?
Acho que a conexão precisa acontecer naturalmente. A pessoa precisa apenas apertar o play. Seja no vinil, no CD ou nas plataformas digitais. Depois disso, o disco fala por si.
O que senti durante os 14 dias de composição e gravação foi algo muito forte. Ainda hoje escuto esse álbum com bastante emoção. Nos ensaios para o show acontece a mesma coisa.
Além disso, blues e rock and roll sempre caminharam juntos. O blues é a base de tudo. AC/DC, Deep Purple, Led Zeppelin, Black Sabbath, Jimi Hendrix… são bandas profundamente ligadas ao blues. O metal abriu novos caminhos, mas a raiz continua sendo a mesma.
Hoje o rock desapareceu das listas das músicas mais ouvidas no Brasil, conforme a lista de 50 músicas mais ouvidas por aqui no primeiro semestre. Mas, por outro lado, Rock Nacional e Internacional continua lotando estádios. O que falta para o gênero voltar ao grande público na mídia de massa?
Acho que falta mais conhecimento por parte de quem está no comando da mídia. Há muito tempo tentam matar o rock, mas nunca conseguiram.
Os shows continuam lotados, principalmente aqui na América do Sul. O problema é que não dão oportunidade para o público conhecer coisas diferentes. Parece existir um bloqueio que insiste sempre nos mesmos estilos.
Eu procuro não pensar muito nisso porque é triste. Existem bandas maravilhosas surgindo no Brasil. Você entra no Instagram ou no TikTok e encontra jovens tocando e cantando muito bem. Mesmo assim, continuam empurrando sempre as mesmas coisas.
Não gosto de atacar outros estilos, porque toda música tem seu público. O que acho triste é tentar apagar um gênero que considero imortal. Por isso sempre incentivo pais, irmãos e amigos a apresentarem blues, jazz, rock clássico ou qualquer música feita com qualidade para as novas gerações. Essa transmissão é muito importante.
Você tá sempre no palco, mas quero um desafio: Quais foram os três shows mais marcantes da sua carreira?
O primeiro foi o Hollywood Rock, quando o Dr. Sin ainda era uma banda muito nova e dividiu o festival com o Nirvana. Aquilo colocou nosso nome diante do mundo.
Outro momento inesquecível foi abrir para o AC/DC. Estar no mesmo palco daqueles ídolos e perceber a simplicidade deles foi emocionante. Lembro do Malcolm Young agradecendo pela nossa presença e dizendo que qualquer coisa que precisássemos era só pedir. Aquilo marcou muito.
O terceiro foi abrir para Ian Gillan, tanto com a banda Taffo quanto com o Dr. Sin no Olympia. Ver um ídolo daqueles assistindo ao nosso show e incentivando a banda foi algo inesquecível.
E o que o público pode esperar do show de lançamento no Blue Note?
Vamos tocar boa parte das músicas do Into the Blues, mas também queremos que o público viaje pela história do blues. Teremos músicas de Muddy Waters, Howlin’ Wolf, Eric Clapton, Bluesbreakers, Robert Johnson e outros grandes nomes.
A banda é fantástica: Roy Carlini na guitarra, Henrique Cesarino, dos Hurricanes, no baixo, Jimmy Pappon nos teclados, Juliano Amílio na bateria e eu completando essa formação. Tenho certeza de que será uma noite muito especial.