O The HU ampliou os limites do Hunnu Rock em HUN, terceiro álbum de estúdio da carreira. Sem abandonar o canto gutural, a língua mongol e instrumentos tradicionais como morin khuur, tovshuur e tumur khuur, o grupo aposta em refrões maiores, melodias mais acessíveis e estruturas pensadas para grandes palcos. O trabalho aparece como algo experimental, processo de transformação da banda em uma atração preparada para arenas, especialmente pela força rítmica de faixas como “Horsemen” e “Grey Hun”.
A recepção internacional também destacou a capacidade do quarteto de absorver referências do hard rock ocidental sem perder sua identidade. A Metal Hammer apontou aproximações com Iron Maiden em “The Real You” e com a fase do Black Album, do Metallica, na extensa “Universe”, enquanto a Distorted Sound elogiou a combinação entre peso, melodias mais diretas e elementos tradicionais da Mongólia. A colaboração com Jonny Hawkins, do Nothing More, em “Lost Soul”, dividiu opiniões, mas reforçou o caráter experimental de um álbum que busca novos caminhos dentro da linguagem criada pelo próprio The HU.
Formado em 2016, em Ulaanbaatar, o The HU ganhou projeção mundial ao unir rock e metal com canto gutural mongol e instrumentos tradicionais, batizando essa combinação de Hunnu Rock. O álbum de estreia, The Gereg (2019), colocou o grupo no topo da parada de World Albums da Billboard e abriu caminho para turnês internacionais, grandes festivais e colaborações com nomes como Metallica, Jacoby Shaddix e Lzzy Hale. Posteriormente, a banda recebeu a Ordem de Genghis Khan, maior honraria estatal da Mongólia, e tornou-se o primeiro grupo de rock e metal reconhecido pela Unesco como Artista pela Paz.
Em entrevista ao Blog N’ Roll, Nyamjantsan Galsanjamts falou sobre a expansão do Hunnu Rock em HUN, a colaboração com Jonny Hawkins, a relação do grupo com o público latino-americano, a admiração pelo Sepultura e os desafios de levar a cultura mongol aos grandes palcos e responsabilidade de representar seu país ao redor do mundo.
O novo álbum, HUN, é apresentado como um novo capítulo para o The HU. Em que momento vocês perceberam que era hora de levar a banda para uma nova direção?
Quando começamos toda essa jornada com o The HU, o álbum The Gereg funcionou como uma apresentação do Hunnu Rock para o mundo. Muitos jornalistas e outras pessoas perguntavam para onde aquilo iria, qual seria o futuro do conceito, se continuaríamos cantando daquela maneira e exatamente o que estávamos fazendo. É normal que as pessoas façam esse tipo de pergunta.
No segundo álbum, tentamos mostrar uma espécie de comprovação. Era como dizer: “Continuaremos cantando em mongol, seguiremos fazendo aquilo que apresentamos ao mundo e provaremos que essas músicas podem permanecer durante décadas”. Também queríamos mostrar que éramos pioneiros vindos da Mongólia.
No terceiro álbum, expandimos tudo aquilo que já havíamos construído. Continuamos cantando em mongol, utilizando instrumentos tradicionais, criando riffs e fazendo músicas que são, de maneira inconfundível, do The HU. Ao mesmo tempo, acrescentamos novos elementos ao Hunnu Rock e convidamos as pessoas a escutarem essas novidades.
Este álbum também funciona como uma experiência construída sobre aquilo que já havíamos feito. De maneira geral, a resposta e os comentários que estamos recebendo são extremamente positivos. As pessoas estão gostando desse novo som e da profundidade que as 11 músicas do álbum carregam.
Realmente, o álbum apresenta momentos mais melódicos, mas sem perder a identidade da banda. Houve uma intenção de alcançar um público novo? Desde o lançamento, o que mais surpreendeu vocês na reação dos fãs?
Ainda não completou uma semana desde o lançamento do álbum, então ainda não há uma reação específica que nos surpreendeu.
Os jornalistas e profissionais da imprensa, assim como você, já haviam escutado o disco antecipadamente. Acredito que essas conversas, nas quais explicamos o álbum e seu conceito, ajudam os fãs e os ouvintes a compreenderem o significado das músicas. Isso permite que as pessoas se identifiquem com elas de maneira mais profunda.
Essas conversas são muito importantes. Mas, agora, ainda é cedo para dizer se alguma reação específica nos surpreendeu.
“Lost Soul” conta com a participação de Jonny Hawkins, do Nothing More. Como surgiu essa parceria?
Sinceramente, é uma música com características de rádio. A colaboração surgiu por meio da relação que temos com a nossa gravadora, porque Jonny também faz parte do mesmo selo.
Existem muitos artistas na gravadora, mas começamos a ficar curiosos sobre ele por causa das características de sua voz. Quando pensamos em combinar os vocais dele com os nossos, “Lost Soul” pareceu a escolha ideal para trabalharmos juntos.
Ele também trouxe uma interpretação muito particular para a música. A versão original era um pouco diferente daquilo que ele acrescentou. De maneira geral, trabalhar com Jonny foi ótimo.
Ao mesmo tempo, é uma música ligada ao active rock e possui uma abordagem mais radiofônica. Foi algo novo para todos nós, porque Jonny canta sua parte dentro desse estilo, enquanto trabalhava com artistas mongóis cantando na própria língua. Foi uma experiência nova e um processo muito agradável.
Apesar do sucesso mundial, vocês tocaram apenas uma vez na América Latina, no México. Existem planos para shows no Brasil e em outros países da América do Sul? Vocês recebem muitas mensagens dos fãs latino-americanos pedindo a vinda da banda, como o famoso “Come To Brazil”?
Recebemos muitos pedidos dos fãs. Eu mesmo recebo mensagens diretas no Instagram dizendo: “Venham para cá”, “toquem nesta cidade” ou avisando que determinado festival acontecerá e pedindo para participarmos. Nossos fãs são muito ativos dessa maneira, e eu realmente amo e valorizo isso.
Queremos voltar à América Latina. Nós tivemos uma apresentação programada na região há alguns anos, mas ela foi cancelada por causa da pandemia.
Queremos retornar em grande escala e fazer uma apresentação adequada, especialmente depois de todo esse tempo de espera. Essa é a única razão pela qual estamos levando um pouco mais de tempo: queremos construir algo realmente completo.
Estamos igualmente animados para voltar à América Latina e queremos garantir que os fãs sejam valorizados e recebam toda a atenção que merecem. Enquanto vocês esperam, pedimos que escutem o novo álbum. Voltaremos muito em breve, com músicas novas e um novo repertório.
O Brasil possui bandas que circulam por grandes festivais, como Sepultura e Crypta. Vocês já tocaram com alguma banda brasileira ou acompanham algum nome do país?
Ainda não tivemos a oportunidade de encontrar essas bandas pessoalmente. Quando isso acontecer, certamente vamos cumprimentá-las, tirar uma foto e conversar um pouco.
Vemos os nomes das bandas brasileiras nos cartazes de festivais, mas muitas vezes os dias das apresentações não coincidem. Em 2019, antes de começarmos uma turnê europeia, o Sepultura realizou um show em Ulaanbaatar, na Mongólia.
Os integrantes da banda estavam na cidade, e Enkush, nosso músico de morin khuur, é um grande fã do Sepultura e acompanha muito o trabalho deles. Ele chegou a beber com os integrantes, tirou uma foto e mandou para nós dizendo: “Olhem só, estamos juntos”.
Quando nos encontrarmos pessoalmente, acredito que eles saberão quem somos porque somos mongóis, assim como sabemos quem eles são. Certamente iremos cumprimentá-los na próxima oportunidade.
Falando em festivais, qual foi o maior desafio de cantar em mongol e levar instrumentos tradicionais da Mongólia para grandes palcos ao redor do mundo? E qual festival foi o mais marcante para vocês?
Foi assustador no começo. Estávamos levando instrumentos tradicionais para os palcos e cantando em mongol. Existia um pouco de medo, o que é algo normal.
Mas decidimos não pensar demais nisso. Colocamos o medo de lado e seguimos em frente. Hoje não existe mais esse receio. Em cada lugar, há uma energia muito forte e a consciência de que somos representantes da nossa cultura e dos elementos mongóis. Isso nos inspira a fazer cada vez mais.
O Rock im Park foi uma das lembranças mais importantes. Tocamos por volta das 11 horas e havia muitas pessoas cantando o nome do The HU. Foi um dos primeiros grandes festivais dos quais participamos.
A energia positiva daquela apresentação continua conosco até hoje e ainda nos inspira. Sentimos que aquele festival marcou o início de muitas coisas boas que aconteceram depois.
Vocês receberam reconhecimentos do governo da Mongólia e da Unesco, mostrando que a cultura mongol está no coração da música da banda. Vocês imaginavam se tornar representantes culturais do país diante do mundo?
É uma responsabilidade muito grande. É uma responsabilidade incrível e estamos felizes por fazer parte disso. Na Unesco, nos tornamos os primeiros artistas de rock a promover a paz e a receber o título de Embaixadores da Boa Vontade. O simples fato de as pessoas da Unesco compreenderem o conceito, a importância dos instrumentos tradicionais, aquilo que promovemos, nossos objetivos e nosso papel como representantes culturais já é algo extraordinário.
Ter tudo isso reconhecido pela Unesco e pelas organizações associadas é maravilhoso. Sentimos muito orgulho e continuaremos promovendo a paz ao longo de nossa carreira.
Do ponto de vista de nossa atuação como embaixadores culturais da Mongólia, ser o primeiro grupo a se transformar em um fenômeno cultural desse tamanho no cenário mundial é uma sensação incrível.
É claro que existe uma responsabilidade muito grande, mas sentimos enorme orgulho. Continuaremos compartilhando a cultura mongol pelo mundo.