Em julho de 1971, o Black Sabbath revolucionou a indústria da música pesada mais uma vez. Seu terceiro disco (e meu favorito), Master of Reality é considerado por alguns o pai dos gêneros chapados (Doom, Stoner, Sludge…) e trouxe para a cena riffs arrastados, em afinações mais baixas que conduzem o ouvinte por toda uma viagem – não somente sonora.
Apesar de não agradar ao vocalista Ozzy Osbourne, o álbum virou um clássico instantâneo e inspiração para diversas outras bandas. De acordo com o cantor, a bolacha de 1971 foi decepcionante. Master of Reality foi um pouco decepcionante para mim. Foi um trabalho feito às pressas. Tínhamos que compor o mais rápido possível e gravar ainda mais rápido. Felizmente, não ficou tão ruim quanto poderia ter ficado. Mas, comparado ao padrão do novo álbum [Vol. 4], não é tão bom. Ficou bem bagunçado. Gravamos em uma semana e o lançamos em cerca de três semanas. É engraçado também que esse tenha sido nosso disco mais vendido. Eu realmente não sei por quê. Não tinha nem metade da força de Paranoid”, declarou ele ainda em 1972, para o jornal San Diego Door, logo depois do lançamento do Vol.4.
Porém, ao buscar a opinião dos outros membros da banda é possível perceber que, talvez, Ozzy tenha tido mais dificuldades que o comum para gravar. Bill Ward, por exemplo, enxerga que o álbum representa uma evolução do grupo. “No primeiro álbum, tivemos dois dias para fazer tudo, e com Paranoid não foi muito diferente. Mas desta vez pudemos trabalhar com calma e testar coisas diferentes. Todos nós aproveitamos a oportunidade: Tony [Iommi, guitarrista] incluiu partes de guitarra clássica, o baixo de Geezer [Butler, baixista] praticamente dobrou de potência, eu optei por um bumbo maior e também experimentei overdubs. E Ozzy estava muito melhor”, disse à Metal Hammer em 2021.
Tony Iommi, descreve em sua biografia Iron Man as dificuldades para gravar a faixa Into the Void. “Tentamos gravar em diversos estúdios porque Bill não conseguia tocar da maneira correta, ele chegou a pensar que não poderia tocar aquele som. Para Ozzy, no entanto, a dificuldade foi em cantar. O riff inicial é mais lento e a hora que ele entra é quando a velocidade sobe. Geezer teve que escrever palavra a palavra para ele. Ele repetiu Rocket engines burning fuel so fast, up into the night sky they blast diversas vezes, até conseguir… Foi engraçado vê-lo tentando”.
Com isso em mente, fica ainda mais interessante observar o resultado obtido em uma gravação regada à drogas e experimentalismo. A confiança dos músicos era tão grande que Iommi tocou flauta e piano na ‘primeira faixa de amor’ da banda, Solitude.
É um disco que começa com a tosse mais famosa do mundo, em Sweet Leaf, originada por um pega em um baseado muito forte, segundo Tony (autor da tosse), trazido por Ozzy para o estúdio. Passa por um quase White-metal com After Forever e aí vem uma calmaria em Embryo que prepara o ouvinte para uma pedrada histórica em Children of the Grave. Em seguida um experimento de 1min31 com Orchid e mais uma porrada: Lord of this World.
Solitude, a sequência, tem mais curiosidades além da flauta e piano de Tony. Por incrível que pareça, a voz calma é de Ozzy. Recheada de efeito? Sim. Mas mostra um registro diferente do usual do vocalista em uma canção que é quase um jazz romântico.
O encerramento não poderia ser mais pesado. Into the Void é um dos sons mais potentes de toda a história do grupo. Com uma letra crítica e uma parede sonora impecável, a faixa coloca um ponto final no terceiro álbum da banda.
Considerações
É um disco afinado em um tom e meio abaixo do padrão em todos os instrumentos, ideia que surge de Tony enquanto ainda tenta se adaptar ao acidente que teve na juventude, buscando fugir da dor nos dedos. Geezer segue o guitarrista e Bill Ward aproveita para testar coisas novas e foi exatamente isso que consolidou o conceito de parede sonora da banda.
Quando se escuta um disco como Master of Reality em um bom fone de ouvido, é possível perceber que os instrumentos ocupam uma parte anterior do som enquanto Ozzy vem a frente com toda sua potência vocal. Não é mais uma coisa em cada lugar, não são ambientes ‘separados’ nos sons.
A qualidade rendeu ao grupo uma platina dupla e uma influência inegável, plantando a semente para uma árvore que daria frutos como Pentagram, Kyuss, Eletric Wizard e muitas outras… E dentro de toda essa atmosfera chapada, as músicas tratam de temas que ainda são atuais, como a fé, guerras, moralidade, futuro do planeta e a vulnerabilidade sentimental, com letras que vão do cru a metáforas introspectivas.
Recomendo escutar o álbum com atenção, usando um bom aparelho – seja fone ou caixa, em seu momento de relaxamento favorito. É um disco que vale a atenção total do ouvinte para aproveitar cada detalhe.