O Dead Poet Society lança no dia 2 de outubro Monarch, terceiro álbum de estúdio da banda norte-americana pela Spinefarm e sucessor de FISSION (2024). Produzido por Paul Meany, que trabalhou com Twenty One Pilots e Pierce The Veil, e mixado por Adam Hawkins, o novo trabalho aprofunda a combinação de peso, melodias e experimentações que se tornou característica do quarteto. Antes da chegada do disco, a banda apresentou “Sinner Systems”, “Roach”, “Cold” e “Miami For The Weekend”, singles que antecipam diferentes caminhos de um álbum que, segundo o vocalista e guitarrista Jack Underkofler, pode ser resumido em duas palavras: “imprevisível e sombrio”.
Formado em 2013 por músicos que se conheceram na Berklee College of Music, em Boston, o Dead Poet Society encontrou, curiosamente, no México um de seus primeiros públicos realmente fortes antes de ampliar sua presença nos Estados Unidos e no circuito internacional. O primeiro álbum, -!-, conhecido como The Exclamation Album, chegou em 2021 e estabeleceu a identidade do grupo, enquanto FISSION ampliou seu alcance três anos depois com faixas como “Running In Circles” e “HURT”. Esta última ainda ganhou uma nova versão com as mexicanas do The Warning. Ao longo da trajetória, a banda também desenvolveu uma assinatura particular com o uso de guitarras fretless, instrumentos que permitem explorar slides, entonações e sonoridades que fogem do comportamento tradicional da guitarra.
Às vésperas de Monarch, Jack Underkofler conversou com o Blog n’ Roll sobre o processo de criação do novo álbum, a experiência de trabalhar com Paul Meany, a liberdade de fazer um terceiro disco sem perseguir uma fórmula e a vontade de finalmente tocar no Brasil. O músico também falou sobre a formação na Berklee, defendeu a vulnerabilidade nas letras e analisou o momento atual do rock.
Você já disse em uma entrevista que o Dead Poet Society poderia ser descrito como um cruzamento entre Queens of the Stone Age e Muse. Mas cada álbum tem sua própria identidade. Como você definiria o som de Monarch para alguém que ainda não ouviu o disco?
Eu descreveria como imprevisível e sombrio.
Houve alguma mudança importante no processo de composição ou gravação de Monarch em comparação com FISSION?
Sim, foi muito diferente. Acho que, com as demos, o processo foi mais ou menos o mesmo: você simplesmente vai fazendo coisas até alguma delas fazer você pensar: “Oh, isso aqui tem algo”. Mas o processo de gravação foi definitivamente muito diferente.
É sempre bastante diferente de produtor para produtor. Todo mundo tem seu próprio estilo. O Paul foi muito diferente do Anton, que foi muito diferente do Ben, que, por sua vez, foi muito diferente do Alex Newport.
Diferente em que sentido?
Eu diria que o processo com o Paul foi mais prolongado de certa forma. Você tem uma ideia, ele interpreta aquela ideia, você coloca aquilo no caminho dele e ele passa uma ou duas horas trabalhando em cima. Depois volta com alguma coisa. Quer dizer, ele nem “volta”, porque você está sentado logo atrás dele [risos]. A partir daí, analisamos o que apareceu.
Foi menos sobre cada performance individual e mais sobre o que poderíamos fazer com aquela performance específica. O Anton tinha uma abordagem muito mais focada na performance.
Conforme a banda cresce, também aumenta a pressão para fazer um novo álbum? Você sente que a banda saiu desse processo de gravação mais forte?
Na verdade, pessoalmente, acho que este foi o álbum em que senti menos pressão entre todos eles. Todo o processo simplesmente pareceu muito natural. Foi meio: “Foda-se, esse é o nosso terceiro álbum. Vamos tentar fazer alguma coisa diferente”.
Não digo necessariamente diferente do que fizemos no passado, mas diferente dentro de um contexto mais amplo. Se vamos fazer uma arte que queremos definir como Dead Poet Society, precisamos ir o mais longe possível nisso. Precisamos realmente atravessar as paredes, nos pressionar e descobrir até onde isso pode chegar.
Quando você está tão concentrado nisso, acaba não sentindo a pressão. E essa foi basicamente a única coisa com a qual concordamos desde o início. Não chegamos e definimos um som ou uma direção específica. A questão era simplesmente: “Até onde conseguimos levar isso?”.
“Sinner Systems”, “Roach”, “Cold” e “Miami For The Weekend” mostram diferentes lados de Monarch. Como tem sido a reação aos primeiros singles?
A reação tem sido boa. Acho que as pessoas estão animadas. Quem amou nosso primeiro álbum está empolgado porque existe algo parecido com a linha de músicas como “.SALT.” e outras coisas que fizemos naquela época.
Acho que todos nós na banda queríamos enfatizar essa sensação, porque sinto que é ali que está uma parte da definição do Dead Poet Society: naquele som, naquela sensação, naquela escuridão imprevisível.
A reação tem sido incrível. As pessoas gostaram desse aspecto. Acho também que, vindo de FISSION, tivemos uma oportunidade de dizer: “Esse álbum foi um pouco mais aberto, um pouco mais cantor-compositor, mas agora vamos pegar algumas dessas coisas e misturá-las novamente com o Dead Poet Society”. Então acho que todo mundo está bastante animado com isso.
Qual música de Monarch você está mais curioso para descobrir como vai funcionar ao vivo?
“Hollywood On Fire”. Acho que vai ser insana ao vivo. Estou muito interessado em descobrir como vai funcionar. E vai ser difícil. Vai ser muito difícil conseguir reproduzir aqueles sons, mas estamos trabalhando nisso.
A palavra “cinematográfico” aparece bastante quando vocês falam sobre Monarch. Se pudesse escolher um filme, uma série ou qualquer produção para ter esse álbum como trilha sonora, qual seria?
Deus, essa é difícil, porque eu não assisti a tantos filmes assim [risos].
Pode ser uma série ou um desenho se quiser…
Estou tentando pensar… Tem um que uma mulher dá um soco em um cara…
Kill Bill?
Não, mas Kill Bill é uma excelente escolha.
Acho que qualquer filme do Tarantino combina com vocês (risos)
Sim, acho que poderia funcionar com esse álbum.
Tenho certeza de que vocês já receberam muitos comentários de “Come to Brazil” no Instagram. Já houve alguma oferta ou conversa para finalmente trazer o Dead Poet Society para cá?
Cara, eu quero muito. Ainda não recebemos nenhuma oferta. Então espalhem a palavra por aí! No instante em que pudermos fazer alguma coisa aí, estamos 100% dentro.
Acho que o Lollapalooza Brasil poderia ser uma ótima escolha para o primeiro show. Temos recebido várias bandas de alternative rock e indie rock. Este ano, por exemplo, tivemos Viagra Boys e The Warning.
Eu tocaria no Lollapalooza Brasil qualquer dia! Seria muito legal.
Os fãs brasileiros de rock têm fama de serem realmente intensos nos shows. Você acompanha alguma coisa da cena daqui ou já conversou com outras bandas sobre como é tocar no Brasil?
Ainda não conversei com nenhuma outra banda especificamente sobre isso, mas definitivamente assisti a muitas imagens de shows no Brasil enquanto crescia.
Tínhamos um canal de televisão chamado Palladia, que era basicamente um canal dedicado a música ao vivo. Lembro de assistir a um show, talvez tenha sido o Lollapalooza, não me lembro exatamente, e sempre fiquei animado com a possibilidade de chegar aí algum dia.
E recebemos muitos comentários no Instagram: “Come to Brazil, come to Brazil”.
Depois digite no Instagram por System of a Down Interlagos. Você vai ver uma cena que parece o filme do “Senhor dos Anéis” (risos). Falando dos primórdios, vocês se conheceram na Berklee, que é um ambiente extremamente técnico. Em algum momento vocês precisaram esquecer um pouco dessa técnica para encontrar a própria identidade?
Sim. Acho que uma rejeição completa disso é necessária. Depois de frequentar uma escola de música, você percebe que “escola de música” é quase um paradoxo quando estamos falando de artistas, porque você não consegue realmente ensinar criatividade. É algo que você precisa descobrir sozinho. Você só consegue ensinar isso a si mesmo.
Como você ensina alguém a sentir alguma coisa? Você não ensina. Pode dizer: “Acho que você consegue fazer isso melhor”, mas é basicamente isso que um professor pode fazer.
Existem aspectos técnicos e definitivamente existem carreiras e trabalhos para pessoas que frequentaram escolas de música. Mas ser um artista? Não acho que isso seja uma das coisas que uma escola consiga ensinar.
E me conta sobre a guitarra fretless? Ela se tornou uma parte muito particular do som do Dead Poet Society. Como essa ideia evoluiu e mudou a maneira como vocês escrevem e tocam?
Ela muda tudo porque é semelhante a uma guitarra, mas, na verdade, é uma coisa própria. Você não consegue tocá-la como uma guitarra normal. Ela tem sua própria voz.
Por funcionar mais como uma voz, principalmente pela questão da entonação, ela abre possibilidades para fazer coisas que soam quase como uma voz humana.
No dia em que ela parar de falar conosco enquanto estivermos compondo, simplesmente não vamos mais usá-la. Não é como se nos forçássemos a colocar uma guitarra fretless nas músicas.
Mas, enquanto continuarmos escrevendo coisas nela que façam a gente pensar: “Isso é insano”, vamos continuar usando.
Falando sobre voz, você alcança notas muito altas. Vemos vocalistas como Jon Bon Jovi ou M. Shadows enfrentando dificuldades depois de tantos anos cantando repertórios tão exigentes. Você precisou mudar alguma coisa na técnica vocal ou na maneira como cuida da voz?
Não. Na verdade, aprendi a cuidar melhor de mim mesmo. A voz sempre foi uma parte muito importante da banda e, por causa disso, eu não me comporto como aquele estereótipo do rockstar “foda-se tudo”. Embora eu ache que muitos rockstars também não se comportem exatamente da maneira como as pessoas imaginam.
A voz é importante para mim. Eu não quero cancelar shows. Odeio cancelar shows e odeio não conseguir cantar nossas próprias músicas.
Na verdade, minha voz ficou mais forte conforme fui ficando mais velho, porque tento cuidar muito bem dela. Não falo muito durante o dia. Não como durante o dia quando temos show, caso tenha algum problema com refluxo ácido. Só saio para festejar quando sei que teremos um dia de folga no dia seguinte. Tento beber muita água e fazer todas essas coisas.
Porque é uma merda não conseguir cantar. Dói. E você fica pensando: “O que eu estou fazendo?”. Eu gosto de conseguir alcançar as notas e gosto de conseguir cantar.
Suas letras frequentemente tratam de assuntos muito pessoais. Existe alguma linha que você não atravessaria? Algum momento em que pensa: “Isso é pessoal demais para virar música”?
Acho que, se você estabelece essa linha, está impedindo a si mesmo de falar sobre coisas que realmente importam. Claro, eu não vou expor a intimidade de outra pessoa. Se eu tiver uma conversa profunda e pessoal com alguém e, sei lá, essa pessoa me contar que teve uma puta diarreia, não vou escrever uma música dizendo: “Meu amigo teve diarreia” [risos]. Talvez essa seja uma linha que eu não atravesse, porque aquilo pertence à outra pessoa.
Também não acho que diarreia seria atrativo em uma música (risos)…
Mas, quando se trata de mim, acho que você encontrou alguma coisa interessante justamente quando é constrangedor escrever sobre aquilo. Ser vulnerável e falar sobre coisas que realmente importam para você é constrangedor. Mas, como artista, o que você vai fazer? Vai escrever alguma coisa genérica? Vai fingir que está falando sobre alguma coisa com a qual na verdade nem se importa? Ou vai ser honesto?
Você precisa sentir aquilo da maneira mais profunda possível. Você presta um desserviço a si mesmo quando se segura.
Mesmo que todo mundo odeie a música, no fim do dia você prefere olhar para trás e pensar: “Bem, eu gosto. Foda-se todo mundo, porque isso foi honesto”. Ou você quer concordar com todo mundo e pensar: “É, realmente ficou uma merda”?
Existe uma conexão interessante do Dead Poet Society com o México. E a colaboração com o The Warning hoje está entre as músicas mais populares de vocês no Spotify. Como surgiu essa parceria?
Descobrimos que a Pau [Paulina Villarreal] realmente gostava de “HURT”. O pessoal da gravadora viu isso e falou: “Vocês deveriam entrar em contato com elas e ver se querem aparecer para cantar essa música com vocês algum dia”.
E pensamos: “Essa é uma ideia fantástica”.
Estávamos em turnê e ele perguntou: “Vocês já mandaram mensagem para o The Warning? Porque vocês vão estar no Aftershock com elas”. E eu falei: “Merda, não. Preciso fazer isso”.
Só que eu estava dirigindo. Então pensei: “Vou fazer isso no próximo posto”. Chegamos ao posto e eu esqueci. Continuamos dirigindo e pensei novamente: “Merda, preciso mandar mensagem para elas”. Chegamos ao próximo posto e eu esqueci de novo.
Isso aconteceu durante umas três semanas [risos]. Até que chegou o dia anterior ao Aftershock e pensei: “Merda, preciso fazer isso agora”.
Então mandei mensagem para a Dany e ela respondeu: “Deixa eu ver se alguém quer cantar”. A Pau falou: “Eu faço”. Perguntamos: “Você conhece a música?”. Ela disse que sim. Então, beleza.
No dia seguinte ela cantou conosco e funcionou muito bem. Depois perguntamos se elas gostariam de participar oficialmente da música e lançá-la conosco. Elas disseram: “Sim, com certeza”. E acabou acontecendo dessa maneira.
Qual é o maior desafio de ser uma banda relativamente nova de rock em uma época em que o gênero perdeu espaço no mainstream, na MTV e nas grandes premiações? Talvez o rock não esteja necessariamente menor, mas tenha criado seu próprio ecossistema fora do mainstream. Como você enxerga isso?
É um gênero que está de lado há bastante tempo porque, em determinado momento, mereceu ser empurrado para fora.
Acho que o rock se tornou uma música hipercomercializada e perdeu qualquer senso real de propósito. Virou uma espécie de música de comercial da Ford, uma vibe de churrasco em família. E todo mundo pensou: “Essa merda é uma porcaria. Vamos voltar para o rap porque eles estão dizendo alguma coisa. Eles são perigosos. Estão falando coisas reais”. E ficamos nisso por algum tempo.
Com a evolução do Spotify, começou a existir um movimento subterrâneo. Algo precisava mudar nesse gênero. Alguma coisa precisava empurrá-lo para frente, e as bandas começaram a fazer isso.
Só que o gênero tinha adquirido uma reputação tão ruim que ninguém estava prestando atenção. Você começou a ver algumas bandas se destacando e fazendo coisas muito legais, como Royal Blood, Highly Suspect e Nothing But Thieves. Mas ainda eram poucas bandas fazendo coisas realmente interessantes dentro de um gênero muito maior.
É, sinto que as novas bandas criaram uma nova cena fora do mainstream…
É, o mainstream não vai perceber isso imediatamente porque está olhando para o gênero como um todo, e o gênero ainda carregava aquela imagem de música de comercial de ketchup.
Mas acho que, com o tempo, começaram a aparecer cada vez mais bandas dizendo coisas novamente, sendo verdadeiras, em vez de simplesmente pensar: “Como isso vai funcionar? Como isso vai tocar no rádio? Precisamos escrever um refrão assim…”.
Acho que existe uma oportunidade incrível hoje justamente porque o rock chegou tão ao fundo do poço que isso quase se tornou benéfico. Eu não quero que o rock volte a ser completamente mainstream. Aquilo é uma merda.
Você lembra do começo dos anos 2010? Foi um período muito sombrio para a música. Parecia que toda música pop precisava ter uma puta ponte com rap porque aquilo era considerado legal. Acho que todo artista passa por uma “fase CVS” e todo gênero também passa por sua “fase CVS”. E o rock entrou muito forte nessa fase.
Agora acho que estamos saindo disso. Uma geração passou, existem coisas novas para conhecer e existem coisas novas para dizer.
Mas, sobreviver nesse meio continua sendo um desafio?
Então não vejo tanto como um desafio. Vejo mais como uma oportunidade. É como dizer: “Ei, ninguém estava fazendo essa merda”. Existe uma nova geração de músicos fazendo coisas muito legais agora e as pessoas vão começar a prestar atenção.
Existem tantas bandas boas hoje. Quando começamos como banda, não existiam tantas. Eram, sei lá, três bandas. E isso é muito foda.
Para terminar: Me diga três álbuns que marcaram sua vida. Não precisam ser os três melhores discos de todos os tempos ou necessariamente seus favoritos. Apenas os três primeiros que vêm à sua cabeça quando pensa em discos que tiveram um impacto enorme em você.
Eu diria Parachutes, do Coldplay. Esse disco teve um grande impacto em mim.
Também Blackbird, do Alter Bridge. Acho que teve um impacto enorme quando eu era criança. Eu devia estar na época da escola. Foi uma das primeiras vezes que ouvi alguém cantar daquele jeito, alcançando notas muito altas, e pensei: “Isso é insano. Eu posso fazer isso?”. E parecia que eu realmente conseguia fazer.
E o primeiro álbum do Royal Blood. Quando eles lançaram aquele primeiro disco, nós já estávamos fazendo rock. Foi em 2014. Lembro de ouvir aquilo e pensar: “Cara, esse cara canta… ele não está tentando cantar como algum cara machão. Ele simplesmente canta como um cara normal”.
Aquilo parecia tão cru para mim. E me fez refletir sobre a maneira como eu mesmo cantava. Percebi: “Estou imitando o Myles Kennedy. Por que estou fazendo isso?”.
Sem aquele álbum do Royal Blood, provavelmente eu não teria tido aquele momento de introspecção de pensar: “Por que estou cantando dessa maneira? Preciso encontrar a minha maneira de cantar. Preciso descobrir o que sai naturalmente de mim quando retiro todas essas outras coisas”.
Foi justamente quando estávamos escrevendo nosso EP Dempsey. Então aquele disco realmente teve um impacto enorme em mim.